sábado, 29 de março de 2014

A Nação que se salvou a si mesma - IV

Um Aviso de Kennedy

EM NENHUM momento, a não ser bem no fim, qualquer das forças anticomunistas — grupos masculino, feminino ou militar — pensou em obter a deposição de Jango antes do fim de seu mandato, em janeiro de 1966. Diz Haroldo Cecil Poland, membro da Junta Diretora do IPES: “Afinal de contas, Goulart tinha sido legalmente eleito, de acôrdo com a Constituição, e nós brasileiros temos uma longa tradição de legalidade. Só estávamos procurando fazê-lo livrar o Govêrno de métodos e pessoas que estavam levando - o país ladeira abaixo rumo ao caos e à guerra civil. Nossas comissões procuraram-no enquanto êle se mostrou disposto a nos receber. Mas êle não nos dava atenção, voltando-se cada vez mais para os extremistas, e afinal recusou-se a receber-nos.”

Um dos primeiros indícios do desdém de Goulart por conselhos amistosos ocorreu em dezembro de 1962, quando o Procurador-Geral dos Estados Unidos, Robert Kennedy, visitou o Brasil. O objetivo dêle era aconselhar, em nome de seu irmão, o Presidente, que os Estados Unidos não poderiam continuar eternamente despejando fundos da AID dentro do Brasil, a menos que se fizesse alguma coisa para deter a espiral inflacionária que anulava o valor desses fundos. Goulart agiu da seguinte maneira: apenas algumas horas depois da partida de Kennedy, êle formou uma comissão para coordenar a expansão do comércio com a União Soviética!

A Sorte Está Lançada

NO COMÊÇO de março dêste ano, o país inteiro era um rastilho pronto a irromper em chamas de revolta. Em 13 de março, o próprio Goulart, com os vermelhos a incitá-lo, temeràriamente riscou o fósforo. Perante uma audiência de uns 100.000 trabalhadores — arrebanhados por líderes vermelhos e trazidos para o Rio de Janeiro em ônibus e trens ao custo de mais de 400 milhões de cruzeiros para o Govêrno — Goulart e Brizola irrevogàvelmente comprometeram o Govêrno a fazer mudanças radicais.

Jango no comício da Central do Brasil, no Rio.

Realizado na praça em frente à estação da Central do Brasil, no Rio, na hora da volta para casa das grandes massas residentes nos subúrbios, o comício apresentou uma floresta de cartazes enfeitados com a foice e o martelo e exigências como “Legalidade Para o Partido Comunista!” e “Armas Para o Povo!”. Agentes democratas, procurando misturar- se com a multidão, constataram estar esta dividida em blocos, cada um com sua própria senha para deixar de fora quaisquer intrusos inamistosos.

A estupefata classe média brasileira, assistindo pela TV, ouviu Goulart denunciar como “superadas” a estrutura do Govêrno e a ordem social existentes, exigindo mudanças básicas na Constituição. Entre as mudanças sugeridas: legalização do Partido Comunista. A seguir, Goulart anunciou dois decretos. Um confiscava e entregava à Petrobrás as seis refinarias ainda em mãos de particulares. O outro, mais assustador, autorizava o Govêrno a confiscar, sem indenização em dinheiro, quaisquer áreas agrárias por êle julgadas inadequadamente utilizadas e entregá-las a camponeses sem terras — uma clara repetição do programa inicial de Fidel Castro de “reforma agrária”.

Os decretos constituíram um movimento audacioso para contornar o Congresso. Combinado com os ataques à Constituição, isso era um audaz lanço para estabelecer o govêrno por decreto, essência da ditadura.

O cunhado do Presidente, assomando à tribuna, foi mais longe ainda. Em voz estridente, Brizola exigiu a extinção do Congresso e a instituição, em seu lugar, de “assembléias” de operários, camponeses e sargentos do Exército — um evidente eco dos sovietes de operários, camponeses e soldados de Lenine, em 1917. As implicações eram bastante claras.

O comício de 13 de março bem pode ser considerado como o detonador da revolução preventiva. A classe média brasileira percebeu então que a sorte estava lançada: Goulart tinha ido além do ponto em que poderia arrepender-se. O Govêmo tinha entrado num caminho que só podia levar a uma sangrenta guerra civil, seguida da tomada do poder pelos comunistas.

A Marcha das Mulheres

Marcha da Família com Deus
pela Liberdade
OS PRIMEIROS a agir foram as mulheres de São Paulo. Ouvindo pelo rádio e TV o comício de 13 de março, centenas de donas de casa correram para os telefones para convocar um comício capaz de fazer a demonstração engendrada por Goulart parecer insignificante. Seis dias depois, a 19 de março, as largas avenidas do centro da cidade de São Paulo ficaram entupidas pelo que as mulheres denominaram “Marcha da Família com Deus Pela Liberdade”. Apertando livros de oração e rosários contra o peito, mais de 600.000 pessoas marcharam solene e ritmicamente sob pendões anticomunistas. E enquanto elas marchavam, os jornaleiros nas calçadas venderam centenas de milhares de exemplares de jornais contendo na íntegra uma proclamação de mais de 1.000 palavras, prèviamente preparada pelas mulheres. É dessa proclamação o seguinte trecho:

Esta nação que Deus nos deu, imensa e maravilhosa como é, está em extremo perigo. Permitimos que homens de ambição ilimitada, sem fé cristã nem escrúpulos, trouxessem para nosso povo a miséria, destruindo nossa economia, perturbando a nossa paz social, criando ódio e desespêro. Êles infiltraram o nosso país, o nosso Govêmo, as nossas Fôrças Armadas e até as nossas igrejas com servidores do totalitarismo exótico para nós e que tudo destrói... Mãe de Deus, defendei-nos contra a sorte e o sofrimento das mulheres martirizadas de Cuba, da Polônia, da Hungria e de outras nações escravizadas!

Um espectador classificou a marcha das mulheres em São Paulo “como a demonstração mais comovente da história brasileira”. Dias depois, foram organizadas marchas semelhantes para várias das principais cidades do país. Nem todos os esforços do Govêrno para desencorajá-las nem as ameaças da polícia de dissolvê-las conseguiram deter as entusiásticas cruzadas.

Guardiães da Legalidade

MAS, PARA impedir o golpe vermelho, tinha de ser empregada ação mais forte do que demonstrações públicas. Líderes da classe média começaram a conferenciar secretamente com generais anticomunistas do Exército Brasileiro, de longa data desconfiados de Goulart e silenciosamente empenhados em sua própria resistência aos métodos dêle.

Para compreender o papel desempenhado pelos militares na revolução é mister entender o caráter e as tradições do Exército Brasileiro — uma estirpe ímpar na América Latina. O Brasil, ao contrário de outros países, nunca estêve sob uma ditadura exclusivamente militar.

Tradicionalmente, o Exército tem-se considerado o defensor da Constituição, o guardião da legalidade. Seus generais, ainda ao contrário dos de alguns países latinoamericanos, não são oriundos da aristocracia rica, mas das classes média e média inferior. Vários começaram sua carreira- como soldados. Assim, não formam uma casta militar, representando antes, talvez melhor do que qualquer outro segmento da população, uma seção transversal da opinião e dos ideais democráticos brasileiros.

Historicamente submetido à autoridade civil, o Exército só interferiu em situações políticas cinco vêzes desde a queda da Monarquia, em 1889 — e tão-sòmente em crises em que o poder civil se desmoronou ou decaiu. Nessas ocasiões o Exército só assumiu a direção o tempo suficiente para restabelecer os processos constitucionais, afastando-se em seguida. Nunca revelou nenhuma tendência para pegar o poder para si próprio — mesmo quando teria sido mais fácil, e quiçá aconselhável, fazê-lo. Da implantação da República até hoje, só cinco dos 25 presidentes do Brasil foram militares, e êsses devidamente eleitos ou nomeados.

Em sua maioria anticomunistas, a desconfiança que os generais tinham de Goulart e seus enredamentos com os extremistas era igualada pela desconfiança que Goulart tinha dêles. Confiando em que o respeito à Constituição os impediria de agir, não obstante, Goulart, por medida de cautela, transferia os comandos militares e manobrava as promoções de modo a reduzir o poder dos oficiais mais conservadores.

General Castelo Branco
Um dêsses oficiais, o General Humberto de Alencar Castelo Branco, comandava o Exército sediado em Pernambuco, há muito um perigoso foco de agitação social. Quando alguns fazendeiros foram assassinados, e muitas famílias fugiram do terrorismo vermelho para as cidades, Castelo Branco entrou em ação. Aí, o Governador de Pernambuco, Miguel Arraes, notoriamente radical, queixou-se de que o General Castelo Branco estava “neutralizando” as influências esquerdistas em seu Estado. Goulart imediatamente tirou de lá o criador de casos — “promovendo- o” a Chefe do Estado-Maior do Exército. Outros oficiais que se manifestaram contra o comunismo foram analogamente transferidos, para cargos burocráticos, enquanto esquerdistas eram levados a posições de comando estratégicas.

Motim nas Fileiras

PARA ANULAR ainda mais qualquer possibilidade de uma revolta de generais anticomunistas, os vermelhos — aparentemente com a conivência de Goulart — trataram de destruir a disciplina nas Forças Armadas, quando não estimular o motim declarado. Foi desencadeado entre sargentos e praças um programa de vigorosa agitação, incitando-os a formarem seus sindicatos para reclamar uma alteração na lei que permitisse candidatarem-se a cargos eletivos — direito franqueado a oficiais, mas não a praças. Para minar mais ainda a ação dos chefes e enfraquecer a disciplina, formou-se uma Associação de Marinheiros e Fuzileiros-Navais — levando a “guerra de classes” marxista às classes armadas.

Em 23 de março, com os acontecimentos se avolumando vertiginosamente, Goulart demonstrou abertamente sua simpatia pelo movimento destinado a pôr a pique a disciplina das Fôrças Armadas. Nesse dia, uns 1.400 sócios da Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil amotinaram-se no Rio de Janeiro, abrigando-se na sede do Sindicato dos Metalúrgicos, controlado por comunistas. Desafiando as ordens de regressarem aos quartéis, os amotinados gritavam alegremente das janelas “Viva Goulart” e apregoavam sua fidelidade a seu comandante, Cândido da Costa Aragão, nomeado por Goulart e conhecido nos meios esquerdistas como “Almirante do Povo”.

Tropas do Exército cercaram e prenderam os rebeldes — que no entanto foram postos em liberdade algumas horas depois por ordem do próprio Presidente. Para grande desapontamento dos militares, Goulart “pediu” aos amotinados que fôssem para os seus quartéis, com a garantia de que não seriam punidos e receberiam dispensa no fim-de-semana.

O Ministro da Marinha, Almirante Sílvio Borges de Souza Mota, abruptamente exonerou o “Almirante do Povo”, depois demitiu-se em protesto contra o encorajamento do motim pelo Govêrno. Goulart imediatamente reconduziu o “Almirante do Povo” ao seu pôsto e a seguir anunciou que o nôvo Ministro da Marinha seria Paulo Mário da Cunha Rodrigues, um esquerdista conhecido como “Almirante Vermelho”, convocado da reserva nessa emergência. Os amotinados comemoraram ruidosamente a vitória nessa tarde no centro da cidade do Rio, conduzindo aos ombros seu bem-amado “Almirante do Povo”.

Comêço de Uma Avalancha

ENTREMENTES, observando sombriamente os acontecimentos de seu gabinete de trabalho no Rio, Castelo Branco, o general que fôra “promovido” , havia sondado sua consciência legalista e resolvido agir. Entre seus colegas oficiais, o Chefe do Estado-Maior do Exército gozava do tipo de respeito profundo desfrutado nos Estados Unidos pelos Generais George Marshall e Douglas MacArthur. Êle se formou brilhantemente na Escola Militar do Brasil, tendo mais tarde feito um curso no Colégio de Comando e Estado-Maior dos Estados Unidos, em Fort Leavenworth, no Kansas. Durante a Segunda Guerra Mundial foi Chefe de Operações da Fôrça Expedicionária Brasileira, na Itália, como parte do Quinto Exército comandado pelo General Mark Clark.

Após o comício de 13 de março, Castelo Branco redigiu uma veemente nota. Quando um Presidente se propunha a anular o Congresso e a derrubar a Constituição, argumentava êle, a ação militar em defesa da legalidade não só se justificava, mas era obrigatória. Êsse memorando sigiloso foi distribuído a generais de confiança. Como toda correspondência dos oficiais sabidamente anticomunistas era controlada e seus telefones censurados, a circulação do manifesto de Castelo Branco foi um problema. Foi resolvido por homens de negócio anticomunistas: êstes transportaram exemplares no bôlso do paletó, entregando-os pessoalmente aos oficiais certos, e também forneceram homens de confiança para transmitir mensagens entre generais na sua acelerada troca de opiniões.

Ao manifesto de Castelo Branco, que circulava secretamente, mais de 1 500 oficiais de Marinha acrescentaram então um dêles. Endereçado a todo o povo brasileiro, êle declarava que chegara a hora de o Brasil “se defender” . O Exército prontamente proclamou “solidariedade à Marinha”, o grosso da imprensa aderiu, e na distante Brasília alguns membros do Congresso abraçaram a causa.

Estaria a nação inteira se sublevando? O próprio Goulart pareceu atônito pela extensão da reação pública. Conferenciando às pressas com seu nôvo Ministro da Marinha, o “Almirante Vermelho”, Jango procurou recuar. Haveria um inquérito sôbre aquêle motim, anunciou, e, entrementes, o “Almirante do Povo”, Aragão, foi dispensado de seu comando.

O recuo veio tarde demais — a avalancha havia começado.

Fazendo um último e desesperado esfôrço para obter algum apoio nas Fôrças Armadas, Goulart, na noite de 30 de março, foi à sede do Automóvel Clube do Brasil, no Rio, onde uma grande multidão de sargentos do Exército se reunira para homenageá-lo. Mas era demasiado tarde. No momento mesmo em que Goulart sorvia os aplausos dos sargentos e verberava os “gorilas”, a revolução preventiva já estava em marcha.

Marcham as Colunas Rebeldes

General Olympio Mourão Filho
A PRIMEIRA conclamação para depor Goulart viera do Governador dos mineiros, Magalhães Pinto. Demonstrações em apoio dêsse apelo prontamente ocorreram nas ruas, e em 31 de março uma divisão do Exército sediada em Minas e comandada pelo General Olympio Mourão Filho pôs-se a caminho do Rio. Poucas horas depois chegou a notícia de que o General Amaury Kruel, comandante do Segundo Exército, sediado em São Paulo, estava lançando suas forças na luta pela liberdade e enviando um forte contingente para o norte, rumo ao Rio. Nessa altura, soube-se que o Quarto Exército, sediado em Pernambuco e comandado pelo General Justino Alves Bastos, também aderira à rebelião.

A beira do pânico, o Presidente Goulart tomou um avião para Brasília, onde disse aos repórteres: “Vim para aqui a fim de governar o país, e confio em que o povo esteja comigo.” Rapidamente descobriu que o Congresso não estava, e que tropas da guarnição de Brasília estavam-se movimentando para atacar o palácio presidencial. Após três horas apenas em Brasília, estava outra vez de volta em seu avião, rumo ao seu Estado natal, o Rio Grande do Sul. O Terceiro Exército, sediado em Pôrto Alegre, ainda não se definira; seu general-comandante, Ladário Pereira Telles, embora não esquerdista, era leal a Jango. A sua chegada, entretanto, Goulart soube que o Governador Ildo Meneghetti aderira ao levante.

Uma incógnita era o Primeiro Exército, sediado no Rio de Janeiro. Virtualmente preso em seu palácio no Rio, do qual fêz sua última barricada, o Governador da Guanabara, Carlos Lacerda, de longa data acirrado inimigo de Goulart, queria proclamar sua fidelidade à revolução e não podia fazê-lo. O Govêrno Federal ainda controlava as estações de rádio do Rio e uma greve geral em apoio de Goulart fechara tudo na cidade. As únicas fôrças de Lacerda eram a Polícia Militar, suas únicas armas blindadas os caminhões de limpeza pública estacionados de modo a obstruírem as ruas que conduziam ao palácio. Ao que êle sabia, o Primeiro Exército ainda estava recebendo ordens de Goulart. Desanimado, o Governador soube que Goulart mandara uma coluna em direção a São Paulo, a fim de interceptar a coluna rebelde que avançava. (O que êle e a população carioca só puderam saber mais tarde foi que, quando as duas fôrças se encontraram, a coluna presumivelmente pró-Goulart logo aderiu aos rebeldes.)

Afinal, em sua única linha telefônica ainda funcionando, o Governador Lacerda conseguiu falar com uma emissora rebelde na distante Belo Horizonte, cujo som podia ser ouvido no Rio. Foi então que sua própria cidade finalmente o ouviu proclamar sua solidariedade à revolução. Mas quando ainda falava, chegou-lhe um comunicado de que carros de combate do Primeiro Exército rodavam pelas belas e sombreadas avenidas do Rio, a caminho do palácio do Govêrno. Só quando os carros chegaram ao palácio, foi que Lacerda soube que êles tinham vindo para salvá-lo e não para massacrá-lo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Antes de comentar, leia a política de comentários do blog. E lembre-se: o anonimato é, muitas vezes, o refúgio dos canalhas.