quinta-feira, 27 de março de 2014

A Nação que se salvou a si mesma - III

Propaganda por Panfleto

OS LÍDERES DA classe média brasileira, armados com as montanhas de provas reunidas por seus investigadores, puseram-se então a agir. Sua missão: despertar seus tolerantes e cordiais patrícios, cujas condescendentes atitudes políticas eram resumidas muito freqüentemente na frase: “Está certo, êle é comunista, mas é uma boa praça!”

Os anticomunistas organizaram dossiês sôbre os chefes comunistas e seus colaboradores, dentro e fora do Govêrno, e distribuíram-nos largamente entre os líderes da resistência e os jornais. Êles visavam principalmente à crescente classe assalariada do país, a grande sofredora com a galopante inflação.

Diretores de organizações comerciais e de fábricas convocavam reuniões regulares dos empregados, discutiam o significado oculto dos acontecimentos correntes, davam-lhes panfletos. Um livrinho barato, escrito por André Gama, dono de uma pequena fábrica de Petrópolis, e intitulado “Nossos Males e Seus Remédios”, teve uma circulação superior a um milhão de exemplares. Outro documento, escrito em linguagem simples, explicava como o sistema democrático funciona melhor do que outro qualquer, detalhava as tragédias da Hungria e de Cuba, e avisava: “Está acontecendo aqui!”

A distribuição dêsse e de outros materiais anticomunistas a princípio foi clandestina, depois tornou-se ostensiva. Os lojistas punham os folhetos denunciadores dentro de embrulhos e sacos de compras. Os ascensoristas davam-nos a passageiros que se queixavam da situação. Os barbeiros punham-nos dentro das revistas que eram lidas pelos fregueses que esperavam a vez. Um tipógrafo do Rio imprimiu secretamente 50.000 cartazes com caricaturas de Fidel Castro fustigando seu povo e a legenda: “Você quer viver sob a chibata dos comunistas?” A noite mandou vários ajudantes colocá-los em lugares públicos.

João Calmon
Os contra-revolucionários da classe média do Brasil pagavam pelo tempo no rádio e na televisão para divulgarem suas revelações. Quando a pressão do Govêrno fechou muitas estações de rádio e TV a todos menos aos mais radicais propagandistas, êles formaram sua própria “Rêde da Democracia” de mais de 100 estações em todo o Brasil. De outubro de 1963 até à revolução, as estações dessa rêde, organizada por João Calmon, diretor dos Diários Associados, iam para o ar na mesma hora em que o esquerdista Leonel Brizola arengava ao público. (Detido após a revolução e perguntado por que falhara o golpe vermelho, o General Assis Brasil, o esquerdista Chefe do Gabinete Militar do Presidente Goulart, deixou escapar: “Aquela desgraçada rêde de rádio e TV, assustando a opinião pública e provocando todas aquelas marchas de mulheres!”)

Os investigadores não descobriram apenas o que tinha acontecido, mas também o que estava para acontecer. Adotando as táticas dos próprios vermelhos, trabalhadores infiltravam-se nos altos conselhos dos sindicatos trabalhistas, fingindo-se comunistas, mas denunciando regularmente as maquinações vermelhas. Repetidas vêzes os planos dos vermelhos foram desmantelados, quando oradores e escritores da oposição iam para a imprensa e para o rádio revelar o que se preparava. Certa feita, os vermelhos estavam discretamente reunindo 5.000 pessoas para uma viagem a Brasília, numa “peregrinação espontânea” para influenciar a ação do Congresso. Quando os anticomunistas denunciaram a manobra dias antes, a “peregrinação” foi cancelada.

Uma Imprensa Destemida

OS PRINCIPAIS jornais brasileiros cedo entraram na luta. Comunicando regularmente as descobertas dos grupos de resistência e mantendo por conta própria cerrada fuzilaria editorial, destacavam-se os dois mais influentes jornais do Rio, O Globo e o Jornal do Brasil, bem como O Estado d e S. Paulo, da capital paulista, e o Correio do Povo, o mais antigo e mais respeitado jornal independente do Rio Grande do Sul.

Por seu destemor, os jornais brasileiros pagaram pesado preço em matéria de perseguição pelo Govêrno. Quando João Calmon publicou uma revelação comprometedora de quanta inverdade havia no pretenso interêsse de Leonel Brizola pela reforma agrária — sendo o próprio Brizola interessado em terras — êste tentou silenciá-lo mandando executar a hipoteca de empréstimos feitos aos Diários Associados pelo Banco do Brasil. Para manter a cadeia funcionando, anunciantes brasileiros prontamente pagaram adiantadamente seus contratos de 12 meses, adiando assim o fechamento.

Por publicar uma narração corajosa e reveladora do que viu durante uma visita que fez à Russia em 1963, o dono do Jornal do Brasil, M. F. do Nascimento Brito, viu seu jornal incorrer nas iras do Govêrno, que mais tarde, no dia 31 de março, ordenou a sua invasão por elementos do Corpo de Fuzileiros Navais.

Feminina e Formidável

MAS É ÀS mulheres do Brasil que cabe uma enorme parcela de crédito pela aniquilação da planejada conquista vermelha. Em escala sem paralelo, na história da América Latina, donas de casa lançaram-se à luta aos milhares, fazendo mais para alertar o país para o perigo do que outra força qualquer. “Sem as mulheres”, diz um líder de classe média da contra-revolução, “nunca teríamos podido sustar a tempo o mergulho do Brasil em direção à ditadura. Muitos dos nossos grupos de homens tinham de trabalhar disfarçadamente, mas as mulheres trabalharam às claras... e como trabalharam!”

A vela de ignição e a fôrça propulsora do levante das mulheres foi uma minúscula amostra de 45 quilos de energia feminina: Dona Amélia Molina Bastos, do Rio, ex-professôra primária, de 59 anos de idade, espôsa de um general reformado do corpo médico do Exército.

Ela ouviu uma noite, em meados de 1962, seu marido e alguns líderes anticomunistas discutirem desanimados a ameaça que se agigantava. “Sùbitamente concluí que a política se havia tornado demasiado importante para ser deixada inteiramente nas mãos dos homens.”

No dia seguinte — 12 de junho —, Dona Amélia convidou a sua casa várias amigas e vizinhas. Com fogo nos olhos, ela perguntou:

— Quem tem mais a perder com o que está acontecendo no nosso país do que nós mulheres? Quem está pagando as contas do armazém cada vez mais altas por causa da inflação? Quem está vendo, sem nada poder fazer, as nossas economias, cuidadosamente acumuladas, destinadas à educação de um filho ou filha, minguarem ao ponto de não darem sequer para comprar uma roupinha de verão para criança? E de quem será o futuro que desaparecerá senão o de nossos filhos e netos, se a política radical do Govêrno levar a nossa pátria ao domínio comunista?

Naquela mesma noite foi formado o primeiro centro da CAMDE (Campanha da Mulher Pela Democracia). E no dia seguinte, com 30 donas de casa mobilizadas, Dona Amélia foi aos jornais do Rio pedir atenção para seu protesto contra a nomeação por Goulart de seu avermelhado primeiro-ministro. Em O Globo, disseram-lhe: “O protesto de 30 mulheres não quer dizer muita coisa. Mas se a senhora puder marchar até aqui com 500 mulheres...”

Pegando no telefone, Dona Amélia e seu nascente grupo reuniram as 500 mulheres, e dois dias depois se apresentaram a Roberto Marinho, diretor do jornal — e o fato mereceu manchetes de primeira página. O protesto não sustou a nomeação, mas estabeleceu o poder das mulheres para influenciar a opinião pública.

Um dos protestos da CAMDE.

A “Corrente de Simpatia”

QUANDO a sala de estar de Dona Amélia não mais pôde acomodar tôdas as donas de casa ansiosas por tomar parte na CAMDE, ela mudou suas reuniões para salões paroquiais de igrejas, formou dezenas de outras pequenas “células” em casas de família. Cada mulher que comparecia era encarregada de organizar outra reunião, com 10 de suas amigas; por sua vez estas tinham de recrutar outras. Para financiar suas atividades, elas economizavam nos orçamentos domésticos e pediam ajuda às amigas com posses. As mulheres da CAMDE insistiam em ação. Formavam comícios de protesto público; ficavam horas diàriamente ao telefone; escreviam cartas (certa vez, mais de 30.000) a congressistas para “assumirem posição firme em prol da democracia”. Pressionavam firmas comerciais para que tirassem sua publicidade do jornal Última Hora, punham anúncios em jornais avisando sobre suas reuniões, apareciam em comícios públicos para discutir com esquerdistas e desafiar os agitadores, distribuíam milhões de circulares e livretos preparados pelas organizações democráticas denunciando o namoro do Governo com os vermelhos.

Além disso, produziam literatura própria, especialmente orientada no sentido das preocupações femininas; mais de 200.000 exemplares só de um trabalho, descrevendo o que as mulheres podiam fazer, foram distribuídos pela CAMDE às suas sócias, cada uma devendo tirar cinco cópias e mandá-las a possíveis candidatas a sócias.

Quando o diretor esquerdista dos Correios e Telégrafos vedou a distribuição de mensagens e publicações da CAMDE, Dona Amelinha organizou uma fôrça de “senhoras estafetas” para entregar o material de automóvel, convencendo pilotos de companhias de aviação brasileiras a transportá-lo para lugares distantes.

As donas de casa da classe média não se limitaram a seu próprio ambiente. Elas se concentraram, por exemplo, nas mulheres do sindicato dos estivadores, fortemente influenciado pelos vermelhos. “Vocês devem convencer seus maridos!”, diziam àquelas mulheres. Muitas o conseguiram, e não poucos foram os estivadores assim convertidos à democracia, comunicando depois às suas espôsas: “Não somos mais comunistas!”

O Murmúrio das Orações

MESMO NAS favelas, ponto especial de ataque da propaganda vermelha, formavam-se unidades da CAMDE. Uma delas, numa favela na Zona Sul do Rio, denominada Rocinha, nasceu do pedido de socorro de uma lavadeira a Dona Amelinha.

— Este lugar aqui — disse a mulher — está cheio de comunistas. Eles dizem que querem ensinar a gente a ler e escrever, e trazem divertimentos para nós. Mas os únicos livros que usam são cartilhas cubanas, as I únicas fitas que passam são de guerrilheiros cubanos.

Imediatamente formou-se uma célula na Rocinha, centralizada na casa dessa lavadeira; organizaram-se classes de alfabetização, forneceram-se livros. E dali a pouco as mulheres da Rocinha estavam em condições de discutir com os vermelhos em seu próprio nível, dizendo aos candidatos comunistas ao Congresso e a propagandistas da União Nacional dos Estudantes: “Vão embora. Sabemos o que é que vocês estão querendo!”

Os vermelhos partiram em busca de prêsas mais fáceis.

A difusão das organizações femininas foi espetacular. Algumas tornaram-se filiais da CAMDE; outras, como a LIMDE (Liga das Mulheres Democráticas) em Belo Horizonte, possuíam identidade própria.

As mulheres de Belo Horizonte, no Estado brasileiro talvez mais ferrenhamente anticomunista, eram a coragem personificada. Quando o Congresso das Uniões dos Trabalhadores da América Latina (CUTAL), dirigido pelos vermelhos, anunciou um comício a ser efetuado em Belo Horizonte, tendo como oradores principais dois organizadores comunistas vindos da Rússia, as líderes da LIMDE mandaram um recado curto ao CUTAL: “Favor ficar cientes que, quando chegar o avião trazendo êsses homens, centenas de mulheres estarão deitadas na pista!” Elas cumpriram a palavra, e o avião nunca pousou na capital mineira; em vez disso, prosseguiu para Brasília.

As mesmas mulheres realizaram demonstração igualmente eficaz em fevereiro último. Um “Congresso de Reforma Agrária” devia reunir-se em Belo Horizonte, tendo como orador principal o cunhado de Goulart. Quando o Deputado Brizola chegou ao saguão, encontrou-o tão apinhado com 3.000 mulheres que não conseguiu fazer-se ouvir acima do ruído dos rosários e do murmúrio das preces pela libertação da pátria. Saindo, Brizola viu as ruas igualmente cheias de mulheres rezando até aonde a vista podia alcançar. O Deputado Brizola foi impelido para fora de Belo Horizonte, levando no bôlso, sem o pronunciar, um dos mais violentos discursos da sua carreira.

Em 12 meses, grupos assim atuaram em tôdas as cidades grandes, de Belém a Pôrto Alegre.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Antes de comentar, leia a política de comentários do blog. E lembre-se: o anonimato é, muitas vezes, o refúgio dos canalhas.