quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Esses liberais maravilhosos e seus raciocínios voadores

Não é coisa muito difícil de acontecer nos depararmos com textos de pessoas muito preparadas que sejam alicerçados em conceitos imprecisos. Quando um pedreiro bem capacitado constrói uma casa ruim, não significa que todas as casas que construiu e venha a construir sejam ruins, nem que sua habilidade de erguer edifícios seja deficiente: significa apenas que construiu uma casa ruim. E é preciso reformar – ou demolir – casas ruins, por melhor que seja o pedreiro que as construiu.

O texto “Não se engane: o conservadorismo é antagônico ao liberalismo” é exatamente como uma casa ruim construída por um pedreiro habilidoso – nesse caso, Carlos Góes, libertário, mestre pela Johns Hopkins e articulista do “Mercado Popular”. Os conceitos e as idéias sobre as quais seus argumentos se fundam são tortos e frágeis, e isso compromete toda a estrutura do texto. Esta análise não tem por objetivo reformar o prédio oscilante, mas antes demoli-lo de modo que os alicerces possam ser consertados.

O primeiro problema do texto é a uniformização artificial de indivíduos sob um mesmo rótulo: “Enquanto conservas vão falar contra as drogas e o casamento gay, liberais vão ter propostas radicais como a legalização de todas as drogas e a desestatização do casamento.” Essa uniformização considera que todos os indivíduos que se identificam de tal maneira irão, necessariamente, defender exatamente as mesmas bandeiras – um pensamento que, ironicamente, desconsidera qualquer possibilidade de posicionamento individual sobre os temas. Um exemplo patente disso é o libertário Ron Paul, que, contrariando o que pensa uma grande parte (ou, ouso dizer, a imensa maioria) dos libertários, é veementemente contra o aborto.

Ainda nessa seara, Góes define que o conservador é um amante e defensor empedernido do status quo; que valoriza a tradição apenas por ser tradição, e o costume por ser costume, sem que haja qualquer tipo de exercício racional de reflexão ou ponderação; que a mudança é um mal, ainda que inevitável e, às vezes, necessário. No entanto, o maior absurdo de todos é ler que o conservador ignora “o valor intrínseco do indivíduo, relegando-o a mera engrenagem na máquina da tradição”. Diante de tais afirmações, é muito difícil cogitar a possibilidade de o autor ter lido alguma obra conservadora – ainda que, em seu artigo, tenha citado o texto “Dez Princípios Conservadores”, de Russell Kirk (que, aliás, parece ter lido apenas superficialmente) – ou estudado mais detidamente as ricas tradições conservadoras da Europa continental, da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos. O sentido em que o termo “conservador” é utilizado por Góes é meramente adjetivo – conservador é aquele que deseja conservar o que quer que seja – e, ao confundi-lo com o espírito conservador (como explicitou Michael Oakeshott), comete algumas impropriedades bastante graves.

Em “Dez Princípios Conservadores”, ao tratar do equilíbrio entre estabilidade e mudança, Russell Kirk afirma:
O conservador raciocina que a mudança é essencial para um corpo social da mesma forma que o é para o corpo humano. Um corpo que deixou de se renovar, começou a morrer. Mas se este corpo deve ser vigoroso, a mudança deve acontecer de uma forma harmoniosa, adequando-se à forma e à natureza do corpo; do contrário a mudança produz um crescimento monstruoso, um câncer que devora o seu hospedeiro. O conservador cuida para que numa sociedade nada nunca seja completamente velho e que nada nunca seja completamente novo. Esta é a forma de conservar uma nação, da mesma forma que é o meio de conservar um organismo vivo. Quanta mudança seja necessária em uma sociedade, e que tipo de mudança, depende das circunstâncias de uma época e de uma nação.
Ao contrário de ver a mudança como um “mal inevitável”, o conservador enxerga a mudança como um bem necessário na medida em que acontece de maneira harmoniosa e progressiva. Nisso recai essencialmente a firme crítica de Edmund Burke à Revolução Francesa feita em “Reflexões sobre a Revolução na França”.

Outra coisa que escapa completamente ao texto de Góes é o fato de que o conservador sempre leva em consideração a imperfectibilidade do homem. O conservador tem consciência de que a vida humana é, fundamentalmente, uma luta interior para combater os vícios e fomentar as virtudes, e que não pode haver moral pública desvinculada da moral particular. Ao fim e ao cabo, a manutenção da ordem está estreitamente relacionada ao autogoverno que todo o indivíduo deve ter sobre si mesmo – a natureza humana é uma natureza decaída –, não com base em concepções morais subjetivas, mas na ordem moral objetiva e transcendente a que chamamos de Lei Natural. A esse respeito, C. S. Lewis expôs excepcionalmente bem a natureza da Lei Natural:
Cada homem está sujeito, a todo o momento, a diversos conjuntos de leis, mas há apenas um ao qual pode desobedecer livremente. Por ser um corpo material, está sujeito à lei da gravidade e não pode desobedecer-lhe: se o deixarmos solto no meio do ar, sem nada que o sustente, não terá mais escolha do que uma pedra quanto a cair ou não cair. Por ser um organismo, está sujeito a diversas leis biológicas às quais não pode desobedecer. Ou seja, o homem não pode desobedecer às leis que compartilha com as outras coisas; mas à lei que é peculiar à sua natureza humana, à lei que não compartilha nem com os animais, nem com os vegetais, nem com os seres inorgânicos, a essa lei pode desobedecer, se assim o quiser. [...]
É verdade que os homens divergiram ao longo do tempo quanto às pessoas com quem se devia ser altruísta: se apenas com a própria família, ou com todos os compatriotas, ou ainda com qualquer ser humano; mas sempre estiveram de acordo em que se deve pensar primeiro nos outros, e o egoísmo nunca foi considerado digno de louvor. Também houve divergências quanto ao número de mulheres que um homem poderia ter, se uma só ou quatro; mas sempre se esteve de acordo em que não se podia simplesmente ter qualquer mulher que se desejasse. [1]
Curiosamente, Adam Smith parece assumir esse mesmo direcionamento, como se pode ler abaixo:
Em toda sociedade civilizada, em toda sociedade em que se tenha estabelecido plenamente a distinção de classes, sempre houve simultaneamente dois esquemas ou sistemas diferentes de moralidade; um deles pode ser denominado rigoroso ou austero e o outro, liberal ou, se preferirmos, frouxo. O primeiro costuma ser admirado e reverenciado pelas pessoas comuns e o segundo geralmente é mais estimado e adotado pelas chamadas pessoas de destaque. O grau de desaprovação que se deve atribuir às depravações da leviandade — males que facilmente se originam da grande prosperidade e do excesso de satisfação e bom humor — parece constituir a principal diferença entre esses dois esquemas ou sistemas opostos. No sistema liberal ou frouxo, o luxo, a devassidão e até mesmo a alegria desordenada, a busca de prazer até certo grau de intemperança, a violação da castidade, ao menos em um dos dois sexos etc., desde que não venham acompanhados de indecência grosseira e não levem à falsidade ou à injustiça, são geralmente tratados com bastante indulgência, sendo facilmente desculpados, ou até totalmente perdoados. Ao contrário, no sistema austero, esses excessos são vistos com o máximo de repugnância e ódio. As depravações da leviandade são sempre maléficas para as pessoas comuns, bastando muitas vezes um descuido e a dissipação de uma semana para arruinar para sempre um trabalhador pobre e levá-lo, pelo desespero, a cometer os maiores crimes. Por isso, a parcela mais sensata e melhor do povo sempre aborrece e detesta ao máximo tais excessos, e com a experiência que têm tais pessoas, sabem de imediato que eles são fatais a todas as pessoas de sua condição. Ao contrário, o desregramento e a extravagância de vários anos nem sempre levarão à ruína um homem de posição, e as pessoas dessa classe são fortemente propensas a considerar o poder de entregar-se até certo ponto a tais excessos como uma das vantagens de sua fortuna, e a liberdade de fazer isso sem censura ou repreensão como um dos privilégios condizentes com sua posição. Por isso, em se tratando de pessoas de sua posição, é muito pequena a desaprovação que dão a tais excessos, e mínima ou até nula a censura que lhes imputam. [2]
Nem Adam Smith, nem Frédéric Bastiat, para citar dois gigantes do pensamento liberal clássico, admitiam a possibilidade de que a ordem moral fosse sujeita a modificações impostas com base na “utilidade social” – a filosofia moral de Smith era avessa ao utilitarismo. A moral não era, para eles, subjetiva e maleável, mas objetiva, palpável e perfeitamente discernível. Eles, como os conservadores, não enxergavam a liberdade como um fim em si mesma, nem que ela fosse necessariamente antagônica à ordem. A idéia de que é preciso haver um equilíbrio entre ordem e liberdade é presente tanto nos pensadores conservadores quanto nos primeiros liberais clássicos.

Aliás, acerca da liberdade, é verdadeiramente ultrajante a acusação de que os conservadores ignoram o valor intrínseco do indivíduo. É justamente por se pautarem por critérios ontológicos, e não utilitários, que o espírito conservador é capaz de valorizar as coisas por si mesmas, inclusive o homem. O que o conservador não pode fazer é acreditar que a liberdade seja um fim em si mesma, pois, por sua natureza, apresenta um caráter relacional, e não absoluto. Burke pode nos fornecer uma idéia do motivo:
Gabo-me de amar uma liberdade resoluta, moral e regulada, tão bem quanto qualquer cavalheiro dessa sociedade, seja ele quem for; e talvez eu tenha dado provas de minha afeição por essa causa no decorrer de minha carreira pública. Acho que invejo tão pouco quanto eles a liberdade em qualquer outra nação. Mas não me posso apresentar e oferecer louvor ou censura a alguma coisa relacionada a ações humanas, e interesses humanos, pela simples visão do objeto uma vez que se apresenta despido de qualquer relação, em toda a nudez e solidão da abstração metafísica. As circunstâncias (que junto a alguns senhores passam por nada) dão na realidade a todo princípio político seu colorido distintivo e seu efeito característico. São as circunstâncias que tornam todo plano civil e político benéfico ou nocivo à humanidade. Abstratamente falando, governo, bem como liberdade, é bom; e, no entanto, poderia eu, dez anos atrás, em pleno bom senso, ter felicitado a França por desfrutar de um governo (pois ela então tinha um governo) sem querer saber qual era a natureza desse governo, ou como ele era administrado? Posso, então, agora congratular a mesma nação por conta de sua liberdade? É porque liberdade em abstrato pode classificar-se entre as dádivas da humanidade que vou seriamente felicitar um louco, que escapou da restrição protetora e da saudável escuridão de sua cela, por sua volta ao gozo da luz e da liberdade? Devo congratular um assassino e assaltante de estrada, que fugiu da cadeia, pela recuperação de seus direitos naturais? [3]
Dever-se-ia citar uma enormidade de autores aqui – Edmund Burke, John Adams, Bertrand de Jouvenel, T. S. Eliot, Russell Kirk, Irving Babbitt, Richard Pipes, G. K. Chesterton, Alexis de Tocqueville, John Henry Newman, Gertrude Himmelfarb, dentre outros – para, a contento, desfazer todos os equivocados lugares-comuns dos quais o autor se valeu para escrever seu texto. Esse não é, entretanto, o pior dos problemas. O que realmente torna apodrecido o alicerce do edifício verbal que se busca demolir é seu caráter panfletário: os conservadores representariam o retrocesso, o preconceito, a vilania, a barbárie dos primeiros tempos, ao passo que os liberais são os paladinos da evolução constante e utilitária das relações humanas rumo a um progresso inexorável. A bem da verdade, essa idéia é muito mais afeita a um jacobino do que a um liberal. Isso é ainda mais decepcionante em se tratando de um autor que tem considerável bagagem cultural e intelectual, e que, em virtude de seu próprio ofício, deveria prezar pela acuidade de raciocínio e linguagem, bem como honestidade intelectual.

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[1] LEWIS, C. S. Mero cristianismo. São Paulo: Quadrante, 1997, p. 20-21; 22.
[2] SMITH, Adam. A Riqueza das Nações: Investigação Sobre sua Natureza e suas Causas. São Paulo: Nova Cultural, 1996, vol. 2, p. 254-255.
[3] BURKE, Edmund. Reflexões sobre a Revolução na França. Rio de Janeiro: Topbooks, 2012, p. 151-152.

10 comentários:

  1. Sem palavras, continue cultivando a sabedoria Felipe.

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  2. Belíssimo texto! Congratulações!

    Luiz Oliveira

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  3. Seu texto é ótimo, Felipe Melo. Concordo com sua reprovação da “uniformização artificial de indivíduos sob um mesmo rótulo”. No entanto, não pude deixar de notar, até mesmo nas fontes que citou, que sua reação ao texto de Carlos Góes, na maioria dos aspectos, é um tanto exagerada.

    Primeiro, a teorização deste conservadorismo que você defende parece muito distante do que é os ditos conservadores vivem e praticam.

    Segundo, o ideal de “equilíbrio entre estabilidade e mudança” dos dez princípios conservadores sugere, aqui sim, certa desonestidade, quando isso é praticamente inobservável na realidade. Seria mais sensato acreditar que apenas defendem sua moral pessoal, a da maioria. Eu realmente não consigo vislumbrar um conservador ver na mudança um bem necessário, desde que aconteça de maneira harmoniosa e progressiva – isso soa bastante mentiroso para consigo mesmo. Além do mais, Góes comenta precisamente isto que você pretende criticar, ainda que brevemente (enfim, o texto é, de fato, breve), ao falar da “prudência” dos conservadores.

    Terceiro, o que você afirma com C.S. Lewis e sua Lei Natural não passa de pura defesa de uma moral. A argumentação deste autor é um tanto falaciosa (o sentido de “poder“ quebrar leis empregado é bastante criticável) e me leva a sugerir que os conservadores seriam, na verdade, bastante passivos quanto às mudanças. Não deixo de perceber uma preguiça estranha, já que se empenham tanto em sua defesa da continuidade, ou como você prefere, ao equilíbrio entre estabilidade e mudança” – uma posição, em vista não só do próprio altruísmo e do número de mulheres comentados pelo autor, mas também de temas como dominação masculina, escravidão etc., comentados por Góes, completamente hipócrita. Essa ideia de moral pública e de lei natural não tem nada a ver com autogoverno ou moral particular, mas, como disse Góes, tirania.

    Quarto, sua defesa do pensamento de Adam Smith transparece sua própria dificuldade, ou melhor, sua própria posição ideológica, em inadmitir mudanças. É claro que você dirá que eu deveria ter dito “mudanças repentinas”, mas o fato é que um pensamento deve evoluir. E há quantos anos estamos de Adam Smith!

    Quinto, a posição que você apresenta, por intermédio de Burke, quanto a liberdade, faz a sua ideia de conservadorismo bastante congruente, já que remonta àquele equilíbrio entre estabilidade e mudança. No entanto, o texto de Burke é bastante exagerado, cínico e, novamente, hipócrita, quando critica a liberdade em si mesma. Para minha surpresa, esse papo sobre liberdade me faz lembrar a própria frase de Lenin, citada em “Quem são eles?”: ”A liberdade é um bem tão precioso que deveria ser racionado”. Será que Lenin lia Burke?

    Novamente, concordo contigo quanto aos fracos estereótipos de Góes (embora acredite que eles sirvam à didática, embora perigosos). Concordo também que aquele texto carece de clareza em suas constatações. No entanto, não deixo de observar que ele faz sentido sim, mesmo quando comparado com as fontes e ideias que você apresenta.

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  4. Felipe, Se puder analise esse caso e reflita se é o caso de racismo.
    Estamos vivendo dias tristes na Bahia, desde a fundaçao da UFRB, os "intelequituais" estao se encastelando na universidade e promovendo um discurso radical, nao sei se vc soube que o Demetrio Magnolli quase foi linchado por ser contrario as cotas.
    (escrevo com pressa, por isso desconsidere os erros)

    O Professor Kabengele Munanga foi preterido na seleção dos 59 estudiosos que foram beneficiados pela bolsa do programa "Professor Visitante Nacional Sênior " da Capes.

    Kabengele havia aceito a sondagem da Professora Georgina Gonçalves dos Santos, para atuar na jovem Universidade do Recôncavo Bahiano -UFRB-, através de uma posssível bolsa de pesquisador visitante nacional sênior da CAPES. Kabengele foi preterido, foi desmeritado na alta esfera de decisão, na cúpula do poder que decide no Brasil, quem foi, é e será beneficiado por bolsas para aprender ou distribuir seus conhecimentos.

    Segundo palavras do Professor José Jorge de Carvalho, Coordenador do INCTI, em seu documento em apoio à Kabengele para reivindicar a bolsa:

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  5. "Com toda sua clareza do intelectual militante e engajado e sua posição político-ideológica a respeito da inclusão dos negros e indígenas no ensino superior, docência e pesquisa, talvez Kabengele fosse o único estudioso negro ou um dos pouquíssimos pesquisadores negros a concorrer a essa bolsa. Por coincidência, esse único negro foi o menos qualificado, por comparação. Estranha e triste coincidência!"

    Kabengele quebra o silêncio em uma área extremamente delicada que é área de financiamento da produção intelectual do conhecimento no Brasil. Poucos ou nenhum negro ou negra brasileira, pode se arriscar ou se arriscou na área acadêmica, à questionar o possível racismo que nós da Mamapress, consideramos estar entranhado no meio acadêmico brasileiro, racismo que se tornaria visível, diante de qualquer pesquisa séria feita por qualquer aprendiz de Ciências Sociais. O endocolonialismo ou sub-colonialismo interno consegue no Brasil ser mais branco e europeu do que os europeus desejaram na década de 30, e hoje, graças as deuses africanos, esqueceram e mudaram.

    Ao contrário da falácia que o negro precisa estudar para ter o seu lugar na sociedade, nós da Mamapress afirmamos, quanto mais o negro souber, em qualquer área, mais ele será uma ameaça e mais ele será discriminado.

    Tomamos a liberdade de publicar a Carta Aberta do Professor Kabengele Munanga:

    CARTA ABERTA DO PROFESSOR KABENGELE MUNANGA

    Permitam-me, primeiramente, quebrar meu silêncio, começando por desejar-lhes um feliz 2014, repleto de sucessos e realizações.
    Agradeço a solidariedade e o pronto recurso feito por vocês junto à CAPES através da Reitoria da UFRB diante da omissão do meu nome entre os 59 estudiosos beneficiados pela bolsa do programa "Professor Visitante Nacional Sênior (cfr. Edital 28 de 2013)".

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  6. Geralmente, levo tempo para me manifestar em situações aparentemente urgentes como essa que acabamos de viver. Isto é uma das minhas características que, acredito, se não for uma qualidade, é um defeito incorrigível, pois faz parte da minha pequena natureza humana. Creio, agora, que já tive bastante tempo para refletir sobre o acontecido.

    Relembrando como todo começou, estava eu na véspera da minha aposentadoria compulsória na USP que aconteceu em novembro de 2012, quando a colega e amiga Professora Georgina Gonçalves dos Santos, me sondou sobre a possibilidade de ser convidado da UFRB através da bolsa de pesquisador visitante nacional sênior da CAPES. Sem hesitação, aceitei imediatamente e desde então comecei a recusar outros convites que me foram dirigidos depois. Tinha e tenho a convicção de que poderia ser mais útil para uma nova universidade como UFRB do que para as universidades mais velhas que possuem um quadro de pesquisadores e docentes mais estruturado.

    Elaborei então uma proposta do programa de atividades a serem desenvolvidas, de acordo com as instruções contidas no Edital 28 do PVNS, proposta esta que foi enriquecida e consolidada pelas sugestões dos colegas Osmundo Pinho e Georgina Gonçalves dos Santos e em última instância pela própria Pró-Reitora de Pesquisa e Pós-Graduação da UFRB, a Professora Ana Cristina Firmino Soares.

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  7. Acreditávamos que essa proposta era exequível, de acordo com a demanda do CAHL da UFRB e da minha experiência acumulada durante 43 anos como pesquisador e docente. Uma experiência começada em 1969, na então Universidade Nacional do Zaire, onde fui o primeiro antropólogo formado, passando pela Universidade Católica de Louvain (Bélgica) e pelo Museu real da África Central em Tervuren (Bruxelas), Universidade Cândido Mendes, Rio de Janeiro (visitante), Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Universidade de São Paulo (1980-2012), Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, Moçambique (visitante) e Universidade de Montreal, Canadá, como Professor associado convidado para orientação de teses (2005-2010). Sem deixar de lado os cargos de direção na USP, como Diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia (1983-1989), Vice-Diretor do Museu de Arte Contemporânea (2000-2004), Diretor do Centro de Estudos Africanos (2006-2010) e participação em diversos conselhos, como o Conselho Universitário da USP etc. Orientei dezenas de teses e dissertações, entre as quais algumas premiadas como a tese de José Luís Cabaço, que ganhou Prêmio da ANPOCS, e recentemente a tese de Pedro Jaime Coelho Jr., que ganhou prêmio de melhor tese em Ciências Humanas, destaque USP 2013.

    Modéstia à parte, sem "me achar" e sem exibição, pensava que com toda essa experiência poderia servir para uma nova universidade em construção como a UFRB. Lamento que o sonho não deu certo!

    Pelo parecer da Comissão Julgadora (Edital 28- 2013), nosso programa foi deferido e recomendado à bolsa com certo elogio, classificando-me na Categoria I dos pesquisadores do CNPQ. Foi, se entendi bem, na última instância que fomos preteridos, em comparação com os demais deferidos. Em outros termos, tenhamos a coragem de aceitá-lo, nosso programa e meu CV foram considerados inferiores para sermos incluídos entre os 59 bolsistas aprovados.

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  8. Por que então tantas lamentações, pois não somos os primeiros, nem os últimos a serem preteridos? Os recursos perpetrados junto à CAPES por outras universidades mostram que outros e outras colegas não contemplado/as pela bolsa não são menos qualificado/as que Kabengele. No entanto, vale a pena, apesar da consciência, divagar um pouco sobre os critérios de comparação, pois foi por ela que fomos eliminados. Pois bem, é possível comparar propostas diferentes sem antes estabelecer entre elas um denominador comum? Qual foi esse denominador? As regras do jogo de comparação não parecem claramente definidas; a subjetividade e a objetividade dos julgadores parecem se misturar. Claro, não há nenhum demérito aos colegas cujos projetos foram beneficiados pelas 59 bolsas atribuídas. Os especialistas da Física Quântica não têm dúvida sobre a subjetividade do observador pesquisador no momento em que ele começa a interpretar cientificamente os fenômenos da natureza por ele obsevados.

    Na esteira do raciocínio do Professor José Jorge de Carvalho, Coordenador do INCTI, em seu documento em apoio a mim para reivindicar a bolsa, com toda sua clareza do intelectual militante e engajado e sua posição políico-ideológica a respeito da inclusão dos negros e indígenas no ensino superior, docência e pesquisa, talvez eu fosse o único estudioso negro ou um dos pouquíssimos pesquisadores negros a concorrer a essa bolsa. Por coincidência, esse único negro foi o menos qualificado, por comparação. Estranha e triste coincidência!

    Minha consideração especulativa poderia ser enquadrada no chamado discurso da vitimização, o que pouco me importa, pois já estamos acostumados. No entanto, os que detêm o poder de nomear os outros, ou seja, de nos nomear, são os mesmos que nos julgam, pois fazem parte do binômio saber/poder muito bem caracterizada na visão foucaultiana (Ver Michel Foucault). Neste sentido, os argumentos aparentemente científicos escondem uma relação de poder e autoridade difícil de transformar. Por isso, eu nutri certo sentimento de pessimismo que me faz acreditar que o recurso da UFRB e o apoio dos colegas não surtirão efeito de reversão da decisão da CAPES, no sentido de dar outra bolsa além das 59 concedidas. Ou seja, o recurso da UFRB e o documento de apoio do Professor José Jorge de Carvalho, coordenador do INCTI, assinado por demais colegas têm menos probabilidade de ser atendida positivamente.

    Por isso, sem esperar o fechamento esperado, sinto-me no momento na simples obrigação moral de agradecer o recurso da UFRB e o apoio de vários colegas encabeçado pelo amigo e companheiro de luta, o Professor José Jorge de Carvalho. Estarei sempre disposto a colaborar com a UFRB, através de convite para participar dos seminários, proferir conferência e palestras, participar de comissões julgadoras de mestrado etc., como já o venho fazendo.

    Meu muito obrigado,

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  9. Kabengele Munanga

    Histórico da situação explicada em carta de solidariedade do historiador Jacques Depelchin:

    O Professor Kabengele Munanga FOI EXCLUÍDO de uma seleção para professor visitante da UFRB( Universidade Federal do Recôncavo da Bahia).

    Por que tanto medo do Professor Kabengele Munanga? Por que tanta raiva contra alguém que contribuiu tanto na partilha dos seus saberes? Para as pessoas pouco informadas, o Professor Kabengele Munanga se destacou na sua carreira acadêmica na USP.

    Em fins de 2013 se aposentou e aceitou o convite para lecionar como Prof. Visitante Sênior na jovem universidade federal do Recôncavo da Bahia(UFRB) Baiano -UFRB. Para isso, se candidatou para uma bolsa da CAPES, Edital 28 de 2013, na Categoria de PVNS Apesar de um parecer favorável e elogioso recomendando a outorga da Bolsa pleiteada, a sua candidatura foi rejeitada, levando a um protesto de vários acadêmicos, incluindo professores da UFRB. Numa carta aberta, agradecendo este ato de solidariedade, o Professor Kabengele Munanga explica historiando o processo em que se deu o que lhe aconteceu .

    Aqui, gostaria de levantar uma pergunta: alguém teria medo do Professor Kabengele Munanga e de onde viria? A necessidade de refletir sobre isso é urgente, não só para os Afro-Brasileiros, mas também para todos os Brasileiros que entendem e agem como membros duma só humanidade, pois o contexto global em que vivemos hoje, exige, com urgência, essa afirmação.

    No seu livro Pele Negra, mascaras brancas, Frantz Fanon discute esta questão do medo (pp. 125-6, Edufba, Salvador 2008), focando sobre aspetos bem conhecidos pelos sobreviventes dos legados acumulados da escravidão atlântica e da colonização. Infelizmente, o próprio Fanon não entra na discussão sobre como ele superou o medo.

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  10. O medo dos adversários do Prof Kabengele Munanga é o produto, indireto, da serenidade e da franqueza com que ele tem abordado assuntos incomodantes da sociedade Brasileira, em volta das raízes do racismo, das sugestões sobre como solucionar as injustiças cumulativas herdadas dessas violências contra as partes discriminadas da humanidade.
    Esse medo, quer da vitima, quer de quem tem medo da resistência das vitimas, nunca é de bom conselho. O medo dos gerentes dum sistema prisional tem uma explicação, mas, como é sobretudo visceral, a explicação a partir da razão não se aplica. Porque, como sempre aconteceu em outros casos históricos, os administradores do sistema não são preparados para enfrentar quem deveria se submeter à suas ordens, mas que, em vez, se levanta e argumenta a partir da sua consciência e com eloqüência e sabedoria uma saída honrosa para todos. Para os gerentes dum sistema injusto, as vitimas tem que se calar. Ir na contra mão dessa ordem informal é geralmente caracterizado de "impertinência" e, por isso, tem que ser punido.

    Os administradores/gerentes dum legado histórico profundamente injusto tem dificuldades em parabenizar o Professor Kabengele Munanga decidir, no fim da sua careira, na pratica, dar uma lição de como corrigir as conseqüências, no nível do ensino superior, duma injustiça sistêmica contra as descendentes e os descendentes da escravidão.

    Não é difícil imaginar o que se passa na mente dos adversários do Professor Kabengele Munanga. Na peça de teatro Et les chiens se taisaient, Aimé Césaire ilustrou como o rebelde escravo enfrentou o dono, no próprio quarto dele. O que aconteceu ao Professor Kabengele Munanga pode ser lido como a continuação do comportamento típico dos dominantes quando enfrentam um caso de rebeldia contra injustiça: o rebelde tem que ser punido, na medida do possível, duma maneira exemplar (leia severamente) para que outros rebeldes potenciais não sejam encorajados em imitá-lo. Historicamente, os exemplos individuais e coletivos abundam: Kimpa Vita, Zumbi, Geronimo, Abdias Nascimento, Toussaint-l'Ouverture, Cuba, Haiti, Patrice Lumumba, Amilcar Cabral, Salvador Allende, Cheikh Anta Diop, Nelson Mandela, Samora Machel, Thomas Sankara, Steve Biko, Chris Hani, Aristide, para não mencionar mais.

    O Professor Kabengele Munanga, de origem Congolesa, nação de Kimpa Vita, Patrice Lumumba e outras e outros, na mente dos seus adversários, por definição, não tem direito à palavra, muito menos quando a sua fala/escrita acaba dando uma lição contundente de como superar legados históricos seculares, no Nordeste Brasileiro, para que qualquer Brasileir@ possa pensar, sonhar, e conseguir ser uma estrela, um craque intelectual.

    Desde já, agradecemos a coragem do Professor Kabengele Munanga por ter continuado trilhando os caminhos das benzedeiras e dos benzedeiros sobre os quais o grande autor Ghaneense, Ayi Kwei Armah escreveu com tanta eloquencia no seu livro de ficção The Healers.

    Em solidariedade,
    Jacques Depelchin
    Historiador
    Salvador-Bahia

    Fonte: Mamapres

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