quinta-feira, 21 de março de 2013

Matar, um gesto humanista

Busto de Hipócrates, o pai da Medicina.

“Juro por Apolo Médico, por Esculápio, por Higéia, por Panacéia e por todos os deuses e deusas, tomando-os como testemunhas, obedecer, de acordo com meus conhecimentos e meu critério, este juramento: Considerar meu mestre nesta arte igual aos meus pais, fazê-lo participar dos meios de subsistência que dispuser, e, quando necessitado com ele dividir os meus recursos; considerar seus descendentes iguais aos meus irmãos; ensinar-lhes esta arte se desejarem aprender, sem honorários nem contratos; transmitir preceitos, instruções orais e todos outros ensinamentos aos meus filhos, aos filhos do meu mestre e aos discípulos que se comprometerem e jurarem obedecer a Lei dos Médicos, porém, a mais ninguém. Aplicar os tratamentos para ajudar os doentes conforme minha habilidade e minha capacidade, e jamais usá-los para causar dano ou malefício. Não dar veneno a ninguém, embora solicitado a assim fazer, nem aconselhar tal procedimento. Da mesma maneira não aplicar pessário em mulher para provocar aborto. Em pureza e santidade guardar minha vida e minha arte. Não usar da faca nos doentes com cálculos, mas ceder o lugar aos nisso habilitados. Nas casas em que ingressar apenas socorrer o doente, resguardando-me de fazer qualquer mal intencional, especialmente ato sexual com mulher ou homem, escravo ou livre. Não relatar o que no exercício do meu mister ou fora dele no convívio social eu veja ou ouça e que não deva ser divulgado, mas considerar tais coisas como segredos sagrados. Então, se eu mantiver este juramento e não o quebrar, possa desfrutar honrarias na minha vida e na minha arte, entre todos os homens e por todo o tempo; porém, se transigir e cair em perjúrio, aconteça-me o contrário.”

As palavras acima transcritas se encontram no cerne de uma das atividades mais antigas e importantes da história humana: a medicina. Elas formam o Juramento de Hipócrates (conforme tradução de Bernardes de Oliveira no livro “A evolução da medicina até o século XIX”), que ainda hoje é feito pelos médicos do mundo inteiro. A versão mais conhecida é a da Declaração de Genebra da Associação Médica Mundial, datada de 1948, que diz:
Eu, solenemente, juro consagrar minha vida a serviço da Humanidade. Darei como reconhecimento a meus mestres, meu respeito e minha gratidão. Praticarei a minha profissão com consciência e dignidade. A saúde dos meus pacientes será a minha primeira preocupação. Respeitarei os segredos a mim confiados. Manterei, a todo custo, no máximo possível, a honra e a tradição da profissão médica. Meus colegas serão meus irmãos. Não permitirei que concepções religiosas, nacionais, raciais, partidárias ou sociais intervenham entre meu dever e meus pacientes. Manterei o mais alto respeito pela vida humana, desde sua concepção. Mesmo sob ameaça, não usarei meu conhecimento médico em princípios contrários às leis da natureza. Faço estas promessas, solene e livremente, pela minha própria honra.
Apesar dos muitos séculos que separam as duas declarações – a versão original e sua atualização mais clássica –, há algo que se postula com muita firmeza, salta aos olhos e é impossível não notar: a sacralidade da vida, da concepção à morte natural. A medicina, mais do que um mero ofício ou saber, é uma vocação de vida direcionada à proteção e à manutenção da própria vida, um bem sagrado que deve ser resguardado cuidadosamente.

Essa semana, veio à tona algo que solapa os próprios fundamentos da medicina: o Ofício Circular nº 46/2013, do Conselho Federal de Medicina, de 12 de março. O documento em questão afirma que “representantes do Conselho Federal de Medicina (CFM) e dos 27 Conselhos Regionais de Medicina (CRMs), após intenso e proveitoso debate, deliberam por maioria, o posicionamento dos Conselhos de Medicina com respeito à ampliação dos excludentes de ilicitudes penais em caso de aborto”. A “ampliação dos excludentes de ilicitudes penais” – um malabarismo eufemístico para “liberação” – é defendido pelo CFM em todos os casos previstos no anteprojeto do novo Código Penal, inclusive “por vontade da gestante até a 12ª semana da gestação”.

O que esperar quando a cultura da morte é assumida com tal presteza pelo órgão superior de representação daqueles profissionais que juraram proteger a vida desde a concepção? O sentimento de ultraje diante disso é inafastável a qualquer pessoa sensata. Esse sentimento é aprofundado sobremaneira quando se vê que, dentre as justificativas para a assunção desse posicionamento, o Conselho Federal de Medicina afirma que os atuais limites jurídicos ao aborto no Brasil “são incoerentes com compromissos humanísticos e humanitários”. Defender o direito à morte de um ser humano em gestação, na visão do CFM, passou a representar um “compromisso humanístico e humanitário”. Destruir a vida humana no ventre materno agora é um gesto humanitário!

Além disso, os limites jurídicos ao aborto hoje são, para o CFM, “paradoxais à responsabilidade social e aos tratados internacionais subscritos pelo governo brasileiro”. Ao que tudo indica, a Convenção Americana sobre Direitos Humanos, mais conhecida como Pacto de San José, do qual o Brasil é signatário, deve ser sumamente ignorada. Afinal, ela estabelece: “Toda pessoa tem o direito de que se respeite sua vida. Esse direito deve ser protegido pela lei e, em geral, desde o momento da concepção. Ninguém pode ser privado da vida arbitrariamente.” Ao que tudo indica, ou o aborto não se trata de uma privação arbitrária de vida, ou essa privação de vida não é arbitrária, mas “humanística e humanitária”.

Ah, mas talvez tudo isso seja apenas muito barulho por nada! Afinal, o Conselho Federal de Medicina também afirma no ofício circular “que não se decidiu serem os Conselhos de Medicina favoráveis ao aborto, mas, sim, à autonomia da mulher e do médico”. Somente isso. Ainda que o ser humano no ventre feminino seja uma vida desde a concepção – como já atestaram milhares de cientistas e médicos, anônimos ou famosos, como o falecido geneticista Jérôme Lejeune (que descobriu a causa da Síndrome de Down) –, a mulher tem todo o direito de dar cabo dessa vida, mesmo que sua decisão se baseie tão-somente na vontade de fazê-lo. Nada demais.

A bem da verdade, Hipócrates não passa de uma figura distante demais no tempo e no espaço para merecer qualquer consideração. Aliás, existem muitas coisas, pelo visto, que são velhas demais para merecerem qualquer reverência: honra, dedicação, vocação, proteção. Ah, sim, e vida. Coisas velhas e sem sentido, certo?

6 comentários:

  1. Semana passada o Correio Brazilliense publicou uma matéria em que o Ministério da Saúde Chines informa que cerca de 330 milhões de abortos foram realizados desde a década de 1970.
    É muito mais que os 100 milhões que a pior praga do século vinte, o comunismo, cometeu.

    http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/mundo/2013/03/16/interna_mundo,355110/quase-330-milhoes-de-abortos-sao-realizados-durante-40-anos-na-china.shtml

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  2. Parabéns pelo texto! Os idiotas úteis estão trabalhando fervorosamente pela "causa"! Pra essa gente, o nascituro é um NADA! Ou como diz o Safatle:"O feto é uma ervilha".

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    1. Apenas uma curiosidade, o Safatle que você cita é o Vladimir "Lenin" Safatle que participa do Jornal da Cultura?

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  3. OS VERSOS MAIS QUE EXPRIMEM A DURA REALIDADE...
    Os comunistas como o PT prosperam apenas via subversão, aqui cantado em verso e prosa, preferindo as regiões carentes nas periferias para iniciarem seus planos de tomada de poder por serem locais onde o povo é mais carente e menos informado, com engodos tipo bolsas-familias garantidores de votos, iludindo-o com falsas melhorias e ainda não se esquece das drogas para auxiliar no dopping e alienação, pois "sem apoio das drogas não há comunismo" já antecipava o velho comunista italiano Beria, e pessoas "lúcidas, inteligentes e instruídas" não os aceitam.

    Que heróis são esses que ergueram massas
    Pregando o fim de alheias propriedades?
    Tramando golpes com base em mentiras,
    Ideologias de falsa igualdade?
    Que heróis fajutos, que com mil falácias
    Organizaram hordas de iludidos?
    Disseminando ódio entre as classes
    Com seus conceitos falsos e falidos?
    Que heróis de araque que até hoje guiam
    Servos que travam inúteis contendas;
    E assim militam por ruas e becos,
    E cortam cercas pra invadir fazendas?
    Que heróis bandidos que pregaram roubo
    E caridade com dinheiro alheio?
    Mas cujo bolsos de seus seguidores
    Não se abstém de os manterem cheios!
    Legado tosco o destes heróis,
    que greves tolas vão influenciando!
    Pelas escolas, poluindo livros;
    Nas faculdades, mitos se tornando!
    E os seguidores dos heróis de barro,
    Que alcançando pleno poder,
    Confiscam armas do povo que, assim,
    Nem mais a vida pode defender!
    Sagaz macabras as destes heróis,
    Cujos ideais, pátrias degeneram!
    Destroem jovens, corrompendo mentes
    Com utopias que nunca prosperam!
    São cultuados em todas as partes;
    Cidades, campus e universidades!
    E assim, aos poucos, seus servis soldados
    Calam as vozes que falam verdades!
    Triste destino o dos que lutaram
    Nas intentonas dos heróis falsários!
    Fortalecendo o perigo vermelho,
    Feito de ódio e rancor proletário!
    Pobre cabeça que acata as ideias
    De um falso herói mal-intencionado!
    Pobre do homem, que iludido entrega
    Sua devoção aos heróis errados!Que heróis são esses que ergueram massas
    Pregando o fim de alheias propriedades!
    Tramando golpes com base em mentiras,
    Ideologias de falsa igualdade!
    Que heróis fajutos, que com mil falácias
    Organizaram hordas de iludidos!
    Disseminando ódio entre as classes
    Com seus conceitos falsos e falidos!
    Que heróis de araque que até hoje guiam
    Servos que travam inúteis contendas;
    E assim militam por ruas e becos,
    E cortam cercas pra invadir fazendas!
    Que heróis bandidos que pregaram roubo
    E caridade com dinheiro alheio!
    Mas cujo bolsos de seus seguidores
    Não se abstém de os manterem cheios!
    Legado tosco o destes heróis,
    que greves tolas vão influenciando!
    Pelas escolas, poluindo livros;
    Nas faculdades, mitos se tornando!
    E os seguidores dos heróis de barro,
    Que alcançando pleno poder,
    Confiscam armas do povo que, assim,
    Nem mais a vida pode defender!
    Sagaz macabras as destes heróis,
    Cujos ideais, pátrias degeneram!
    Destroem jovens, corrompendo mentes
    Com utopias que nunca prosperam!
    São cultuados em todas as partes;
    Cidades, campus e universidades!
    E assim, aos poucos, seus servis soldados
    Calam as vozes que falam verdades!
    Triste destino o dos que lutaram
    Nas intentonas dos heróis falsários!
    Fortalecendo o perigo vermelho,
    Feito de ódio e rancor proletário!
    Pobre cabeça que acata as ideias
    De um falso herói mal-intencionado!
    Pobre do homem, que iludido entrega
    Sua devoção aos heróis errados!
    Acompanhem os versos acima cantados pelo autor no endereço abaixo:
    http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=aj5KIg61Wjk

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  4. Sou Médico e graduando do curso de Direito, essa conduta do CFM não me surpreende. Já há muitos anos venho percebendo o aparelhamento dos CRMs, com consequente servilismo a uma certa ideologia dominante. O mais chocante é que o órgão fica divulgando esse horror como se fosse uma posição de vanguarda. Tais condutas do CRM, reproduzem com muita fidelidade, o que vem acontecedendo em outros conselhos profissionais: conselho de psicologia, oab. At. César Humberto Barbieri

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