quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

A barbárie e o exílio de Deus

Há quase duas semanas, o mundo inteiro ficou chocado com o banho de sangue promovido na escola primária Sandy Hook, na pequena cidade de Newtown, Connecticut. O saldo total de mortos foi de 28 pessoas: vinte crianças com idades entre 6 e 7 anos, seis funcionários da escola, o atirador – Adam Lanza, 20, que cometeu suicídio quando a polícia chegou ao local – e sua mãe, a primeira das vítimas. Desportistas homenagearam as vítimas, diversos memoriais foram erigidos ao redor do país, um sem-número de faixas de solidariedade enfeitou as varandas e fachadas das residências da pequena cidade e o presidente dos Estados Unidos em pessoa, Barack Obama, esteve em Newtown para prestar suas condolências a todos que foram diretamente atingidos por esse horror.

Um dos memoriais feitos em memória das vítimas de Sandy Hook.

Como sói acontecer nesses momentos de tristeza e choque, diversas vozes oportunistas levantaram-se em meio ao generalizado sentimento de luto para apontar os culpados por essa tragédia e exigir que fossem punidos. E que culpados seriam esses? A pretensa cultura belicista norte-americana e a suposta facilidade em adquirir armas de fogo foram as campeãs dentre os elencados. É algo surpreendente como pululam “especialistas” em noticiários televisivos, jornais impressos, portais de notícias e outros veículos de comunicação, e é igualmente surpreendente a quase unanimidade entre eles. Isso quando não aderem a isso aqueles velhos e gastos chavões da “turma do bem” – apensar os termos “conservador”, “provinciano”, “supremacista” e “retrógado” ao americano médio que representa, no fim das contas, a tal cultura belicista vigente nos Estados Unidos. A solução para tudo isso, de acordo com os “especialistas”, é simples: desarmar a população civil, controlar vigorosamente a concessão do porte e a venda de armas, adotar políticas que se pautem pelo multiculturalismo – tudo, claro, a expensas da população via Estado.

Todavia, não é a facilidade em se adquirir armas de fogo em território norte-americano, muito menos a fantasiosa cultura belicista daquela nação, que são responsáveis por atrocidades como a de Newtown. Adam Lanza não é produto de uma tal cultura. Adam Lanza é um fenômeno global cujos fundamentos são bastante distintos dos escolhidos pelos “especialistas” de última hora: o divórcio entre direitos e deveres; a supressão da responsabilidade em nome de uma liberdade sem amarras; a idéia de que o homem é um ser histórica e socialmente construído, fruto das vicissitudes do momento, uma tabula rasa que pode ser moldada ao discricionário bel-prazer dos “iluminados”; a desumanização do homem, cujo valor é mensurado não pelo que é e faz, mas de acordo com o grupo, real ou fictício, que integra. Tudo isso, e outras coisas mais, concorrem para a formação de um homem egoísta, corroído por um hedonismo niilista e autodestrutivo, um homem mutilado e patologicamente vulnerável a todo tipo de insanidades e loucuras; um homem, ao fim e ao cabo, que se esqueceu de Deus.

Quem afirma isso não sou eu, mas alguém que sofreu na própria carne os horrores da erosão humana provocada pelo ateísmo mais fanático e raivoso: Aleksandr Solzhenitsyn. Laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1970, Solzhenitsyn mergulhou profundamente nos alicerces do totalitarismo socialista – do qual foi prisioneiro entre 1945 e 1956 – e, após décadas, afirmou:
Mais de meio século atrás, quando eu ainda era uma criança, lembro-me de ter escutado um grupo de pessoas mais velhas darem a seguinte explicação para os grandes desastres que se abateram sobre a Rússia: “Os homens se esqueceram de Deus; eis porque tudo isso aconteceu.”

Desde então, passei cerca de cinqüenta anos trabalhando na história de nossa Revolução; nesse processo, li centenas de livros, coletei centenas de testemunhos pessoais, e contribui com oito tomos de minha própria autoria para com o esforço de limpar os destroços deixados por aquela revolta. Mas se me pedissem hoje para formular concisamente qual foi a principal causa da ruinosa Revolução que engoliu quase sessenta milhões de russos, eu não poderia fazê-lo de modo mais preciso do que repetir: “Os homens se esqueceram de Deus; eis porque tudo isso aconteceu.”

E mais: os eventos da Revolução Russa só podem ser compreendidos agora, no fim do século, contra o pano de fundo do que tem ocorrido desde então no resto do mundo. O que ocorre aqui é um processo de importância universal. E se fosse requisitado a identificar brevemente a principal característica de todo o século XX, eu seria incapaz de encontrar algo mais preciso e essencial do que repetir: “Os homens se esqueceram de Deus.”
O mundo jamais viu um esforço tão colossal em expulsar Deus de todas as esferas da vida humana do que o presenciado no século XX. A perseguição religiosa – não de qualquer religião, mas especialmente do Cristianismo – alcançou níveis inimagináveis. As maiores e mais mortíferas doutrinas políticas e sociais da nossa era – socialismo, nazismo, fascismo, comunismo – foram erguidas sobre sólidos alicerces anti-religiosos. Só que, hoje, a perseguição anticristã não é um privilégio exclusivo de regimes totalitários como os de outrora: ela é um dogma difuso que, como um vírus, tem se espalhado lentamente pelo Ocidente, conquistando mentes e corações incautos com discursos aparentemente libertários e progressistas. Adam Lanza é um filho legítimo desse cancro sócio-cultural.

Dois dias depois do massacre de Sandy Hook, Mike Huckabee, ex-governador do Arkansas pelo Partido Republicano e apresentador do canal Fox News, fez uma reflexão absolutamente fantástica sobre como o afastamento sistemático e deliberado de Deus da vida das pessoas, algo transformado inclusive em política de governo nos Estados Unidos, foi responsável pelo derramamento de sangue em Newtown:


Há decerto aquelas pessoas que advogam que Deus deve se manter somente na esfera privada da vida humana e que qualquer manifestação pública, sobretudo em assuntos políticos, deve ser veementemente rechaçada. Esse é o caminho mais curto para a barbárie. Não precisamos apontar casos específicos e pontuais para corroborar esse argumento: basta vermos que, em um país como o Brasil – que não se encontra oficialmente em guerra contra nenhuma nação, nem passa oficialmente por qualquer guerra civil –, mais de 1 milhão de pessoas foram assassinadas em 30 anos; isso equivale a mais de cem pessoas por dia, um número que é muito superior à maior parte dos conflitos armados do mesmo período. E, aqui mesmo, à margem do mundo civilizado, vemos esforços coordenados e diuturnos para empurrar Deus e os cristãos de volta para o tempo das catacumbas. A única forma de não cairmos no abismo do terror mais abjeto e puro é mantermos posição e mostrarmos que uma sociedade minimamente digna é aquela em que a adoração a Deus é um dos fundamentos do homem. E a própria história o mostra.

Em 1914, eclodiu um dos conflitos armados mais sangrentos e desumanos da história: a Primeira Guerra Mundial. Solzhenitsyn, quando falou a respeito dela, disse que “a única explicação possível para essa guerra é um eclipse mental dos líderes da Europa causado por terem ignorado a existência de um Poder Supremo sobre eles”. Nunca, até então, o esplendor tecnológico humano foi posto a serviço da carnificina. Entretanto, mesmo em meio a trincheiras cheias de homens sujos e cansados, embotados de dor e medo, Deus se fez presente naquele ano de uma maneira surpreendente. Ao longo do front ocidental, em que lutavam forças alemãs e inglesas, mais de cem mil soldados depuseram suas armas durante o Natal, saíram de suas trincheiras, cruzaram campos devastados e sem vida, e uniram-se a seus inimigos para comemorar o nascimento de Cristo Jesus. Inimigos que tentaram obstinadamente se matar em dias anteriores passaram a dividir mais do que o esforço para eliminar o outro lado: dividiram refeições, funerais, canções natalinas, e, em alguns casos, até mesmo presentes.

Soldados alemães do 134º Regimento Saxão e soldados ingleses
do Regimento Real Warwickshire durante o Natal de 1914.

Ontem, nós cristãos comemoramos o Natal. Temos presenciado que, hoje em dia, nem mesmo a festa mais importante de toda a civilização ocidental passa incólume ao aviltante materialismo que tem destruído as bases da vida humana. No entanto, o verdadeiro espírito do Natal – o nascimento de Jesus Cristo, o Verbo Divino que se fez carne e habitou entre nós (João 1, 14) – nunca poderá ser arrancado dos corações daqueles que se mantêm fiéis. Mas não basta manter a chama divina acesa em nossos corações. Nós, cristãos, devemos lutar e perseverar até o fim para que Deus não seja expurgado da vida social e pública de nossa nação; devemos, com nossas palavras e ações, levar Cristo a todos, injetando-o na corrente sangüínea da sociedade, e jamais esmorecer diante da intolerância, da perseguição, nem mesmo da morte. Afinal, o discípulo não é maior do que o Mestre (Mateus 10, 24).

domingo, 16 de dezembro de 2012

O infantilismo de um progressista

Um leitor nosso, bastante cioso, informou-nos que o Dr. Banho Bagno escreveu, olhem só, uma cartinha para Papai Noel a nosso respeito. Isso mesmo! Parece que o estimado professor, diante de sua incapacidade de encetar qualquer debate sério – na verdade, ele ignora qualquer crítica e argumento contrário, talvez por causa de sua impossibilidade de dizer qualquer coisa relevante, e, quando rebate, adora esfregar sua pseudo-autoridade intelectual na fuça alheia –, prefere recorrer ao “humor” e à “comédia” para sair “por cima da carne seca”. Não é à toa que William Hazlitt, o crítico literário, dizia que os sarcásticos ganham o aplauso alheio pelo medo, não pelo amor.

Eis a cartinha do Marquinhos Banho Bagno:


Uma coisa que é interessante de se notar é que o Dr. Banho Bagno tem um costume bastante inusitado para um homenzarrão daquela idade. Talvez Freud explique. Agora, uma coisa que descobrimos é que, após tantas cartinhas malcriadas ao Papai Noel, o Bom Velhinho resolveu respondê-las! Tivemos acesso exclusivo à cartinha do Papai Noel ao Marquinhos Banho Bagno:



Não fica chateado não, viu Marquinhos? A gente sabe que isso tudo está sendo muito difícil pra você. Sempre é complicado quando o nosso pedestalzinho de cristal começa a rachar. Dá medo. Insegurança. Desconforto. Ansiedade. Mas faça como disse o Bom Velhinho e não chora não, tá? A gente promete que te deixa em paz!

sábado, 15 de dezembro de 2012

Um ato de fé na ignorância

O recente showzinho virtual capitaneado pelo Dr. Bagno a uma platéia das mais privilegiadas levantou uma questão interessante: a facilidade com que as pessoas no geral aderem a rótulos e alheiam-se da realidade para melhor poderem atacar esses rótulos. O Dr. Bagno e suas bagnettes não utilizaram qualquer espaço virtual para contestarem nossas ideias, apontarem falhas em nossos raciocínios, contra-argumentarem de modo estruturado e honesto. O que houve, ao invés disso, foi uma avalanche de ilações e achismos baseados unicamente numa frágil superioridade moral que eles, definitivamente, não possuem. De modo a não seguir o mesmo caminho detestável, resolvemos ler alguma peça produzida pelo Dr. Bagno e, assim, familiarizarmo-nos com seu “pensamento”. O texto que escolhemos chama-se “Norma lingüística & preconceito social: questões de terminologia”, publicado Revista de Estudos Lingüísticos Veredas, editada pela Universidade Federal de Juiz de Fora.

Dr. Bagno: o Exterminador da Gramática

No início de seu texto, o Dr. Bagno aponta que o termo norma culta
trata-se muito mais de um preconceito do que de um conceito propriamente dito. E que preconceito é esse? É o preconceito de que existe uma única maneira “certa” de falar a língua, e que seria aquele conjunto de regras e preceitos que aparece estampado nos livros chamados gramáticas. Por sua vez, essas gramáticas se baseariam, supostamente, no uso feito por um grupo muito especial e seleto de pessoas, os grandes escritores da língua, que também costumam ser chamados de “os clássicos”. Inspirados nos usos que aparecem nas grandes obras literárias, sobretudo do passado, os gramáticos tentam preservar esses usos compondo com eles um modelo de língua, um padrão a ser observado por todo e qualquer falante que deseje usar a língua de maneira “correta”, “civilizada”, “elegante” etc. É esse modelo que recebe, tradicionalmente, o nome de norma culta. (Grifos do original)
Já evocamos mais de uma vez aqui no blog que o próprio conceito de luta de classes foi extravasado do âmbito meramente social e, aplicado a todas as relações pessoais existentes, consegue subverter-lhes a essência e tornar a vida um verdadeiro inferno. Paulo Freire se valeu da aplicação desse conceito no campo educacional para advogar que os professores “Caxias” eram opressores sanguinários que seguiam uma lógica estupidificante de educação e que, portanto, era necessário libertar os oprimidos. Aqui, vemos um fruto da nefanda lógica freireana: a chamada “norma culta” é, na verdade, um instrumento de repressão sócio-lingüístico utilizado por uma pretensa elite intelectual opressora. Mais adiante, escreve o Dr. Bagno:
Ao longo dos séculos, os defensores dessa concepção tradicional de isolaram a língua, a retiraram da vida social, a colocaram numa redoma, onde deveria ser mantida intacta, “pura” e preservada da “contaminação” dos “ignorantes”. Por isso, até hoje, o professor de português ou, mais especialmente o gramático, é visto como uma espécie de criatura incomum, um misto de sábio e mágico, que detém o conhecimento dos mistérios dessa “língua”, que existe fora do tempo e do espaço – e é esse “saber misterioso” que costumo chamar de “norma oculta”...
Uma coisa bastante curiosa nessas primeiras linhas, e que já é possível notar, é a ideia de que todos os defensores do uso da norma culta na comunicação crêem firmemente que qualquer pessoa deve se expressar de maneira corrente como se fosse um avatar de Machado de Assis, Luís de Camões, Eça de Queiroz ou Alphonsus de Guimaraens, e que qualquer pessoa que ouse não fazê-lo é uma espécie de criminoso lingüístico dos mais atrozes. Eu jamais vi qualquer gramático defender uma sandice dessas. O único crime cometido pelos gramáticos, na opinião do Dr. Bagno, parece ser o fato de defenderem que a compreensão de uma mensagem não é o único elemento que caracteriza uma comunicação correta.

Podemos exemplificar isso com um exemplo muito, muito simples. Tomemos a seguinte frase: “Jesus disse que nos amássemos uns aos outros”. Como podemos ver, o verbo “amar” está na primeira pessoa do plural do pretérito imperfeito do subjuntivo e, portanto, a palavra gerada – “amássemos” – é uma proparoxítona. Agora, suponhamos que a pessoa que escreve a frase ignore que a palavra em questão é acentuada e escreva: “Jesus disse que nos amassemos uns aos outros”. Uma mensagem foi compreendida? Sim. Que mensagem? Esta: amassar-nos uns aos outros foi uma orientação de Jesus. A comunicação foi efetiva? Nesse caso, não, pois a mensagem que o emissor quis passar – de que Jesus pediu que as pessoas se amassem – foi subvertida por um sentido completamente alheio. E isso é uma questão de utilização da norma culta.

Ao contrário que dito pelo Dr. Bagno, a norma culta da língua não se refere à transformação da linguagem corrente em uma verborréia literária cheia de floreios decorativos anacrônicos e absolutamente desnecessários. O bom uso da língua não reside apenas num vasto conhecimento lexical ou no domínio pleno das figuras de linguagem, mas é, antes de tudo, uma questão de lógica. Se eu quero dizer que a maçã é vermelha, eu devo saber que “maçã” é um substantivo feminino, que “vermelha” é uma qualificação e que o verbo “ser”, flexionado na terceira pessoa do singular do presente do indicativo, estabelece uma relação entre essas duas palavras. Se eu digo “o maçã é vermelho” ou “a maçã ser vermelha”, é bem provável que a mensagem que eu quero comunicar seja recebida pelo meu interlocutor; todavia, isso se dá em virtude da simplicidade do que se quer comunicar: mensagens cada vez mais complexas não conseguirão ser formuladas sem que um mínimo de coerência lógica seja mantida.

É claro que a boa lógica na comunicação não é algo sacrossanto e intocável. Diversos grandes escritores – como, por exemplo, Guimarães Rosa – sacrificaram a lógica lingüística em prol de peças estupendas do ponto de vista poético. No entanto, há que se esclarecer uma coisa: não é possível brincar com algo que se desconhece. Figuras de linguagem usadas de modo corrente por todas as pessoas – como a paranomásia (comumente chamada de trocadilho), a ironia, a hipérbole e a metáfora – só surtirão o efeito almejado se o emissor e o receptor dominarem as mínimas regras lógicas subjacentes a essas figuras. E é justamente isso que amplia as possibilidades de comunicação, que enriquece o pensamento e faz cócegas no intelecto. Sem isso, a língua se torna pobre e limitada.

No entanto, não é bem isso que o Dr. Bagno acha. Eis mais um ponto de seu parecer (grifos do original):
Para começar, quando alguém diz que uma determinada norma, que uma determinada maneira de falar e de escrever é culta, automaticamente está deixando entender que todas as demais maneiras de falar e de escrever não são cultas – são, portanto, incultas, com todos os sentidos possíveis capazes de se abrigar por trás da palavra inculto: “rude”, “tosco”, “grosseiro”, “bronco”, “selvagem”, “incivilizado”, “cru”, “ignaro”, “ignorante” e por aí vai, e vai longe...

Ora, do ponto de vista sociológico e antropológico, simplesmente não existe nenhum ser humano que não seja culto, isto é, que não participe de uma cultura, que não tenha nascido dentro de um grupo social com seus valores, suas crenças, seus hábitos, seus preconceitos, seus costumes, sua arte, suas técnicas, sua língua... (Faraco, 2002). A questão, como bem sabemos, é que no senso comum só se considera culto aquilo que vem de determinadas classes sociais, as classes sociais privilegiadas. Quando dizemos que uma pessoa é muito “culta”, que tem muita “cultura”, estamos dizendo que ela acumulou conhecimentos de uma determinada forma de cultura, uma entre muitas: no caso, a cultura baseada numa escrita canonizada, a cultura livresca, a cultura que é fruto da produção intelectual e artística valorizada pelas classes sociais favorecidas, detentoras do poder político e econômico.
Decerto o Dr. Bagno deve viver em uma determinada realidade em que Mr. Catra ou Erika Leonard James, autora de “Cinquenta tons de cinza”, representam cultura. Todavia, T. S. Eliot, que dedicou um livro inteiro ao assunto – “Notas para uma definição de cultura” – lança algumas luzes sobre o assunto que podem deixar o Dr. Bagno ligeiramente desconfortável (grifos nossos):
Existem vários tipos de realizações que podemos ter em mente em contextos diferentes. Podemos pensar em refinamento das maneiras – ou urbanidade e civilidade: nesse caso, pensaremos primeiramente numa classe social, e no indivíduo superior como representante do melhor dessa classe. Podemos pensar em erudição e muita intimidade com a sabedoria acumulada do passado: nesse caso, nosso homem de cultura é o erudito, o scholar. Podemos estar pensando em filosofia no sentido mais amplo – um interesse por, e alguma capacidade em manipular, idéias abstratas: nesse caso, podemos referir-nos ao intelectual (reconhecendo o fato de que esse termo é usado agora muito frouxamente para abarcar muitas pessoas não muito notáveis pela força do intelecto). Ou podemos estar pensando nas artes: nesse caso, queremos indicar o artista e o amador ou diletante. Mas raramente temos em mente todas essas coisas ao mesmo tempo. [...]

Se examinarmos as diversas atividades culturais arroladas no parágrafo anterior, devemos concluir que a perfeição em qualquer uma delas, com exclusão das outras, não pode conferir cultura a ninguém. Sabemos que boas maneiras sem educação, inteligência ou sensibilidade para as artes, tendem a ser mero automatismo; que erudição sem boas maneiras ou sensibilidade é pedantismo; que a capacidade intelectual sem os atributos mais humanos é tão admirável quanto o brilho de uma criança-prodígio em xadrez; e que as artes sem o contexto intelectual é vaidade. E se não encontramos cultura em qualquer dessas perfeições isoladamente, não devemos esperar que alguma pessoa seja perfeita em todas elas; podemos até inferir que o indivíduo totalmente culto é uma ilusão; e iremos buscar cultura, não em algum indivíduo ou em algum grupo de indivíduos, mas num espaço cada vez mais amplo; e somos levados, afinal, a achá-la no padrão de toda sociedade. Isso me parece uma reflexão bastante óbvia, porém é negligenciada com muita freqüência. Sempre somos propensos a considerar-nos pessoas de cultura, com base numa competência, quando somos não só faltos de outras, mas cegos às que nos faltam. Um artista de qualquer tipo, mesmo um artista renomado, não é por essa única razão um homem de cultura; os artistas não somente são insensitivos às outras artes que não aquelas que praticam, mas também, às vezes, têm péssimas maneiras e dons intelectuais escassos. A pessoa que contribui para a cultura, por mais importante que possa ser sua contribuição, nem sempre é uma “pessoa culta”.
T. S. Eliot

Do apuradíssimo raciocínio de Eliot, podemos inferir que o fato de alguém dominar unicamente a norma culta de um idioma não a transforma automaticamente em uma pessoa culta, mas que não dominar a norma culta de um idioma automaticamente a transforma em uma pessoa inculta. Explicando melhor: dominar apenas um aspecto do que é, de fato, cultura não torna ninguém culto, pois é preciso dominar uma gama de características para tanto.

É necessário dizer que, em momento algum, levantou-se a opinião (perniciosa, realmente) de que pessoas incultas são, de alguma forma, subumanas. Não é necessário ser um indivíduo altamente letrado, elegante, distinto, educado, enfim, um dândi burguês, para ser uma pessoa mais livre e menos limitada. James V. Schall, professor de Filosofia Política da Universidade de Georgetown, escreve em “A Student’s Guide to Liberal Learning” que onde há uma mente e a realidade, é possível descobrir a verdade das coisas. Mas parece evidente que, quanto menor for a capacidade de utilizar conhecimentos diversificados nesse intento, tanto mais difícil e ingrata será essa tarefa.

E este deveria ser um dos objetivos primordiais do ensino: auxiliar as pessoas na aquisição de um ferramental intelectual que ampliasse sua capacidade de compreensão do mundo e apreensão das coisas como elas são. Não é o que defende o Dr. Bagno. Para ele, a norma culta, integrante desse ferramental ao qual nos referimos, “paira acima de nós como uma espada pronta para decepar nossas cabeças [e] há muito tempo já deixou de ser um instrumento de regulação lingüística: é, sim, um instrumento de opressão ideológica, de perseguição, de patrulha social, de discriminação e preconceito.” Não conseguimos enxergar como a limitação intelectual advinda da ignorância possa ser libertadora, mas parece que essa lógica deturpada tem bastante eco na universidade de nossos tempos.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A nova-velha reductio ad fascistum

Aristóteles, na seminal obra “Retórica”, aponta três aspectos que se pode explorar na retórica para atrair a simpatia das pessoas e convencê-las acerca da retidão de sua argumentação: o logos, que se relaciona com a lógica dos argumentos apresentados; o ethos, que consiste em transmitir, durante a argumentação, a impressão de se ser uma pessoa boa, inteligente e arguta – o que se chamava antigamente de “homem virtuoso”; e, por fim, o pathos, que é a exploração dos sentimentos através do discurso. Claro que para Aristóteles esses três aspectos não deviam ser utilizados para enganar as pessoas de modo a convencê-las de coisas mentirosas, pois isso seria um papel indigno feito por sofistas e charlatães. Schopenhauer tratou de diversas técnicas de engabelação pseudo-intelectual em seu livro sobre dialética erística.


No entanto, nem Aristóteles nem Schopenhaer viveram o suficiente para ver surgir um dos mais freqüentes e nauseabundos expedientes utilizados exaustivamente pela mais vasta classe de apedeutas e empulhadores ideológicos: a reductio ad fascistum – uma versão bastante particular da reductio ad Hitlerum (expressão cunhada por Leo Strauss) e da Lei de Godwin. A Lei de Godwin diz: “À medida que uma discussão se torna mais longa, a probabilidade de uma comparação envolvendo Hitler e os nazistas se aproxima de 1”. No entanto, a reductio ad fascistum possui uma peculiaridade incrível: ela prescinde de qualquer discussão. O único pré-requisito necessário é que o alvo da reductio ad fascistum adote qualquer comportamento ou defenda qualquer ideia que não esteja devidamente salvaguardada pela cartilha do politicamente correto, do credo progressista ou dos dogmas marxistas.

Um exemplo clássico do uso exaustivo da reductio ad fascistum é o Dr. Bagno, citado no nosso artigo anterior. O Dr. Bagno, como já foi dito, não conhece o que defendemos, os valores pelos quais lutamos, os autores que lemos, as ideias que divulgamos... Ele é absolutamente ignorante quanto a essas coisas. No entanto, o Dr. Bagno pôs na cabeça que somos fascistas! O motivo disso? Somos declaradamente conservadores. Na cabeça de pessoas como o Dr. Bagno, pessoas conservadoras – aquelas que acreditam na imperfectibilidade humana, em uma ordem moral superior, na impossibilidade de instaurar um Paraíso Terreno (libertino, coletivista ou ambos), na existência de uma natureza humana – são automaticamente fascistas – acreditam num Homem Novo, na derrocada dos valores tradicionais e sua substituição por valores adversos, no coletivismo, no Estado-Deus.


É possível conjeturar se o Dr. Bagno sequer ouviu falar de autores como Leo Strauss, Peter Kreeft, Paul Johnson, Russell Kirk, T. S. Eliot, Roger Scruton, Josef Pieper, Étienne Gilson, Mortimer Adler, Erik von Kuehnelt-Leddihn, Alasdair MacIntyre e outros tantos – citando apenas pensadores dos últimos 100 anos. Se isso se dá com esses grandes nomes do pensamento humano recente, é quase impossível pedir que conheça Edmund Burke, Alexander Hamilton, Alexis de Tocqueville, Frédéric Bastiat, Lorde Acton, Adam Smith, Samuel Johnson, toda uma tradição de ideias que remontam à própria Grécia antiga e que, em maior ou menos grau, influencia o pensamento conservador. Não, não, não! Se eu tenho Noam Chomsky e Michel Foucault à mão, para que olhar para toda essa velharia reacionária, não é mesmo?

Preconiza um antigo ditado semita o seguinte: “Um tolo joga uma pedra em um poço e mil sábios não conseguem removê-la.” Esse ditado guarda uma verdade inconteste: é muito mais trabalhoso explicar uma falácia que já é tomada como realidade do que transformar em realidade uma falácia. De pouco adiantaria explicar que essa conexão entre conservadorismo e fascismo foi urdida por Stalin – um dos maiores genocidas da história humana – como tática de agitação e propaganda, que essa mentira tem sido repisada há décadas, que ela se entranhou no imaginário popular graças à sua utilização ad nauseam pelas abundantes tropas de choque marxistas. A única coisa possível de se fazer é rir da tolice e da ignorância dessas pessoas, pois a reductio ad fascistum é apenas uma forma de se tentar encerrar qualquer debate por medo de ser desmascarado.

Em tempo: o incansável Conde Loppeux de la Villanueva publicou um texto excepcional a respeito do Dr. Bagno. Recomendamos fortemente a leitura de “Marcos Bagno, o Lyssenko da linguística brasileira”!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

A esquizofrenia progressista do Dr. Bagno

Não é novidade alguma que o ideal mesmo de universidade foi incinerado pelo “pensamento” progressista. A universidade, que foi legada ao mundo – e todos deveriam sabê-lo – pela Igreja Católica, era um lugar que visava à formação completa do homem, um recanto em que todos estavam plenamente comprometidos com a busca de algo elevado e excelso: a Verdade. Sim, Verdade com “v” maiúsculo, que só pode ser alcançada quando se está disposto a enxergar a realidade e esforçar-se por compreendê-la de modo honesto, humilde e abnegado. Experimente falar em Verdade dentro de uma universidade brasileira e você logo será achincalhado sem dó nem piedade.

Já escrevemos muito sobre como os universitários de hoje são, com raríssimas exceções, um exemplo emblemático da degenerescência que desvirtuou completamente o sentido da universitas magistrorum. No entanto, os universitários são, bem ou mal, mero produto de um processo que é levado a cabo de maneira obstinada por pessoas profundamente desonestas, que encontram no ensino – a quem confundem puerilmente com educação – um instrumento de manipulação barata e eficaz. Infelizmente, não são poucos os exemplos de pessoas que adotam posturas completamente opostas ao que se esperaria de um docente, tanto dentro quanto fora de sala de aula.

Uma dessas pessoas é o Dr. Marcos Araújo Bagno, professor do Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução da Universidade de Brasília. O Dr. Bagno, fazendo uso de sua grande platéia no Facebook, resolveu pronunciar-se a respeito do ingresso do Papa Bento XVI no universo do Twitter. Eis o que o ilustre professor disse:


Ninguém é obrigado a ser católico. Ninguém é obrigado a concordar com o que o Papa Bento XVI diz sobre a vida, o universo e tudo o mais. O Dr. Bagno tem a liberdade para discordar de quem quiser, sobre qualquer assunto que lhe convier. No entanto, ele tem a responsabilidade de fazê-lo da maneira mais cordata e respeitosa possível – afinal, esse é um dos fundamentos da convivência humana, certo? –, e essa responsabilidade é tanto maior em se tratando de uma, digamos, “figura pública”, alguém que trabalha na formação de futuros profissionais e que, portanto, deveria ser um modelo a ser seguido. Não é isso, no entanto, o que ocorre.

Aliás, o que foi dito acima expõe de modo cru o que se poderia classificar caridosamente de comportamento abjeto. O que o Dr. Bagno fez não foi apenas externar uma opinião pessoal sobre um assunto em questão, mas um ato público de fé na desumanização de um dos maiores teólogos do século XX. E tudo isso com base em quê? Na posição que essa pessoa ocupa: o trono papal. O Dr. Bagno decerto não leu um único livro do Papa Bento XVI, não leu nenhuma de suas entrevistas, não assistiu a nenhum de seus discursos... O que importa para o Dr. Bagno é que o Papa Bento XVI é... Papa! Isso é motivo e razão suficiente para execrá-lo em público, fazer pouco de sua figura e achar maravilhosa a possibilidade de “mandá-lo à merda” publicamente. É esse o comportamento que se espera de um professor de uma das maiores universidades federais do Brasil?

E o mais impressionante é que o Dr. Bagno já trabalhou como tradutor de obras católicas para editoras católicas, como a Edições Loyola. Ver alguém tão profundamente anticatólico fazendo isso é tão absurdo quanto ver Olavo de Carvalho traduzindo obras da Escola de Frankfurt para a Boitempo Editorial!

Curioso que é o Dr. Bagno, que arroga a si mesmo uma superioridade moral mais falsa do que uma nota de três reais, deve ter se esquecido de ler, ainda que rapidamente, o Código de Ética Profissional do Servidor Público Civil do Poder Executivo Federal. Não precisaria nem ler muito, bastaria o primeiro ponto:
A dignidade, o decoro, o zelo, a eficácia e a consciência dos princípios morais são primados maiores que devem nortear o servidor público, seja no exercício do cargo ou função, ou fora dele, já que refletirá o exercício da vocação do próprio poder estatal. Seus atos, comportamentos e atitudes serão direcionados para a preservação da honra e da tradição dos serviços públicos.
A atitude vexatória do Dr. Bagno não se resumiu a isso, como sói acontecer nesses tempos insanos em que vivemos. Ele ainda elegeu uma outra “vítima” – muito menos digna do que o Papa, diga-se de passagem: este blog. Vejam:


O Dr. Bagno nos conhece? Não. Ele já leu alguma coisa que escrevemos? Não. Ele está a par dos autores que nos influenciam, dos textos que traduzimos, do tipo de pensamento que divulgamos a tão duras penas? Não. E isso importa para o Dr. Bagno? Evidente que não! O que importa é o preconceito, a insídia, o ataque raso, rasteiro, reptiliano a algo que possui a mera possibilidade de adotar posturas contrárias ao que ele defende. O que importa é a ofensa gratuita com quê de populismo, coisa bastante promovida nas redes sociais pela massa ignara de amebas humanas ansiosas por bajularem alguém.

O Dr. Bagno pode ofender à vontade – e ignorar solenemente as vozes discordantes, talvez por puro medo do debate honesto. Quanto a nós, certamente preferimos desmascarar suas imposturas – e com classe!

Em tempo: olhem só que coisa mais M-I-M-O-S-A a cartinha que o Marquinhos (!) Bagno escreveu para Papai Noel sobre a Cibele Baginski, que quer ressuscitar no cenário político a Aliança Renovadora Nacional (ARENA):

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Ah, quão amargo é o ressentimento!

A ex-chefe do Decanato de Ensino de Graduação da Universidade de Brasília, Márcia Abrahão, deve estar bastante chateada com o fato de não ter sido empossada como reitora, e decerto essa chateação toda deve ter afetado as sinapses da insigne geóloga. Olhem só o que a professora doutora em Geologia anda divulgando por aí nas redes sociais:


É bem certo que a ex-reitorável não deve ser muito afeita a pesquisas para atestar a veracidade das informações. Se a professora se desse o hercúleo trabalho de acessar o site do Diretório Central dos Estudantes da UnB, ou o próprio portal da universidade na internet, poderia facilmente encontrar a informação de que a criação do Batalhão Universitário visa a “capacitar um batalhão de policiais militares para lidar com a diversidade e as características próprias dos estudantes de universidades públicas e privadas do Distrito Federal.”

Sim, sim, é bem verdade que ver uma professora de tão boa cepa defendendo que o Batalhão Universitário significa que “os estudantes da UnB agora vão andar na universidade de farda”, ainda mais com seu currículo, pode nos levar a pensar que Márcia Abrahão está destilando veneno puro de maneira desonesta e leviana, mentindo descaradamente acerca de um grupo de estudantes que certamente não representa o projeto político abraçado por ela e tão fartamente promovido por seu mentor, o eterno Grande Timoneiro da UnB, José Geraldo de Sousa Júnior.

Mas pensar isso da referida professora seria pura maldade. Não, certamente há um grande mal-entendido nessa história toda. A professora Márcia deve estar agindo com a mais absoluta boa fé – o histórico de seu comportamento prova-o cabalmente – e acreditamos piamente que isso tudo será esclarecido muito em breve.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Aniversário de D. Pedro II

Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga, filho mais novo de D. Pedro I, Imperador do Brasil, e D. Maria Leopoldina de Áustria, nasceu aos 2 de dezembro de 1825 na cidade do Rio de Janeiro. Governou o Império de 1841 a 1889, quando foi deposto pelo golpe militar que proclamou a República, em 15 de novembro daquele ano.

Era um entusiasta das artes e da ciência, um exímio linguista (dominava 15 idiomas) e um intelectual de vulto, amigo pessoal de grandes mentes da época - Louis Pasteur, Richard Wagner, Victor Hugo, Alexander Graham Bell, dentre outros. Conhecido pela modéstia no vestir o portar-se, trabalhava mais da metade do dia. Seus 48 anos de reinado foram o período de maior estabilidade econômica, política e social que o Brasil já viveu. Vivendo dias em que se faz pensar que o Brasil foi inventado pelo PT em 2003, é de suma importância honrar os verdadeiros grandes homens que já governaram o País.