domingo, 4 de novembro de 2012

A mística do bom selvagem - 2

A ideia aparentemente inabalável de que o índio é uma criatura toda pura, naturalmente cheia de boas intenções, inocente, meio bobinha, muito mansa e dotada de uma sabedoria excelsa que provém de seu íntimo contato com a “Mãe Terra” tornou-se um verdadeiro arquétipo jungiano nos tempos hodiernos. Se antes, no contexto brasileiro, essa imagem servia muito mais à literatura do que à política – vide a Trilogia Indianista do escritor José de Alencar, composta pelas obras “O Guarani” (1857), “Iracema” (1865) e “Ubirajara” (1874) –, hoje ela serve para justificar todo tipo de infâmia.

Reunião dos ministérios da Justiça e Direitos Humanos
com representantes dos guarani-kaiowás.

Uma das falácias mais evidentes que compõem esse arquétipo está presente num texto recente de Luiz Martins da Silva, jornalista e professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, publicado no portal da universidade. Em “O céu dos índios”, o prof. Luiz Martins escreve:
Contam cronistas que ao tempo dos primeiros exploradores os nativos até colaboravam na sobrecarga das naus, com madeiras e tudo o que queriam em grande quantidade, mas indagavam candidamente sobre os motivos de tanto acúmulo, se a madeira não ia acabar, se a floresta não ia desaparecer. Por que razão precisavam tanto de tudo e de uma só vez?
É possível que, “candidamente” encantado pelas historietas dos ditos cronistas, o autor do texto tenha se esquecido da altíssima carga de fantasia que embebiam a esmagadora maioria dos relatos de exploradores europeus em terras americanas. A tão alardeada consciência ecológica dos povos indígenas é, no mais das vezes, um delírio urdido por intelectuais que, incapazes de penetrar no mais essencial das culturas indígenas – ou, pior, ignorando-o de caso pensado, solenemente –, limitam suas análises ao assombro inicial causado pelo contato com o desconhecido.

A ausência das noções de propriedade e de escassez torna desenfreada a utilização de determinado recurso limitado. E, ao contrário do que a nossa elite acadêmica pisa e repisa, a tragédia dos comuns não é algo cuja observância é limitada por diferenças culturais: ela faz parte da própria natureza humana. Aquilo que facilmente se obtém, que pode ser desfrutado sem limites e que não pertence a um indivíduo concreto, mas a uma abstrata coletividade, é explorado até a exaustão sem que haja ponderação acerca da durabilidade do bem e de seu melhor uso.

Camiseta da Holanda e câmera digital: manufaturas tradicionais?

Notem que não é necessário nem mesmo conhecer a história dos povos indígenas para intuir a falsidade dessa sacrossanta consciência ecológica nativa. Em “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”, Leandro Narloch coloca as coisas de maneira bastante clara quanto a esse assunto:
As tribos que habitavam a região da mata atlântica botavam o mato abaixo com facilidade, usando uma ferramenta muito eficaz: o fogo. No fim da estação seca, praticavam a coivara, o ato de queimar o mato seco para abrir espaço para a plantação, empregado até hoje. No início, a coivara é eficiente, já que toda a biomassa da floresta vira cinzas que fertilizam o solo. Depois de alguns anos, o solo se empobrece. Pragas e ervas daninhas tomam conta. Como não havia enxadas e pesticidas e ninguém sabia adubar o solo, procuravam-se outras matas virgens para queimar e transformar em roças. O historiador americano Warren Dean estimou que a alimentação de cada habitante exigia a devastação de 2 mil metros quadrados de mata por ano. [...]

A grande vantagem ao fogo era facilitar a caça. Criando fogueiras coordenadas, um pequeno grupo de pessoas consegue controlar uma área enorme da mata sem precisar de machados, serrotes ou alguma outra ferramenta de ferro. As chamas desentocam animais escondidos na terra, no meio de arbustos e nos galhos. Aves, macacos, veados, capivaras, onças, lagartos e muitos outros animais corriam em direção ao mesmo ponto, onde os índios os esperavam para capturá-los. Não e à toa que, assim como em todo o resto do mundo, nas florestas brasileiras só havia animais de grande porte, rápidos e agressivos os mais lentos foram logo extintos pelas populações nativas. Para caçar alguns poucos animais, eles destruíam uma área enorme da floresta.
A ideia de que os índios também são criaturas ingênuas, inocentes, crédulas, bondosas por natureza, possuidoras de uma dignidade quase beatífica reservada somente aos animistas e panteístas – de alguma forma, esses credos equivalem a um inquestionável atestado de superioridade moral, lavrado com toda pompa e circunstância nos cartórios ideológicos (vulgo universidades) do Brasil –, é igualmente absurda.

Dois casos são bastante ilustrativos. O primeiro ocorreu em 2004 nas imediações de Espigão d’Oeste, município do estado de Rondônia. A reserva Roosevelt, que abriga uma das maiores jazidas de diamantes do mundo, é habitada por índios cintas-largas. No dia 7 de abril daquele ano, cerca de 60 índios capturaram um grupo de 29 garimpeiros. Os garimpeiros – que, apesar de exercerem atividade ilegalmente, não estavam armados – foram amarrados com cipós e mortos a tiros e golpes de borduna, tendo os corpos carbonizados em seguida (algumas fotos das vítimas podem ser encontradas na rede). Poder-se-ia argumentar que os índios estavam apenas protegendo sua propriedade de invasores que estavam depredando sua terra sagrada e, a partir daí, forçar alguma ideia de legitimidade para essa barbaridade. Mas quando se sabe que muitos dos próprios índios da reserva traficam pedras preciosas, isso tudo soa mais como eliminação de concorrência.

O segundo caso ocorreu em maio de 2008 na cidade de Altamira/PA. Por iniciativa da Arquidiocese de Altamira e diversas ONGS, foi realizada uma grande reunião pública para discutir o afamado projeto da usina de Belo Monte. Paulo Fernando Rezende, engenheiro da Eletrobrás, participou do evento para falar a respeito do projeto de construção da usina e defender a necessidade do empreendimento. A reação dos índios foi esta:


Comparemos, por um instante, o vídeo acima com as palavras finais do texto do prof. Luiz Martins:
Em meados dos anos 70, levantei um dado estatístico, na Funai: havia entre os índios brasileiros missões de 50 diferentes linhagens religiosas, todas, evidentemente, tentando salvar as almas dos índios e encaminhá-los para um Céu de beatitudes. Eu fico me perguntando se não teria de ser o inverso, os brancos indo aprender com os índios, como se pode viver no Paraíso, já, aqui e agora.
A depender dos caiapós que deram esse show de horrores na reunião, é de se esperar que esse Paraíso terrestre seja construído com gritos de guerra, golpes de facão e bordoadas. Pensando bem, não é muito diferente do que os jacobinos, ébrios do ópio rousseauniano, fizeram na França quando o século XVIII estava em seus estertores. Bom, no fim das contas, talvez Rousseau estivesse certo, não é?

Em tempo:
Índios são pessoas. Índios são seres humanos exatamente como nós, os “homens brancos”. Eles possuem fraquezas, qualidades, virtudes, defeitos, interesses, enfim, eles compartilham a mesma natureza humana que nós, “homens civilizados”, possuímos. E, assim como nós, eles também são capazes de atrocidades vergonhosas, como, por exemplo, a prática do infanticídio que algumas tribos mantêm. No entanto, eles também são capazes de atos verdadeiramente heróicos e virtuosos: é só serem tratados como pessoas, nem mais, nem menos. Se quisermos de fato que situações como essas não ocorram mais, está na hora de pararmos de agir como se fossem criaturas angélicas de outra dimensão ou como seres subumanos que necessitam da tutela estatal para absolutamente tudo.

3 comentários:

  1. Ótimo conteúdo.
    Estou estudando Rousseau e a Crise da Filosofia Moderna através do Livro "Direito Natural e História" de Leo Strauss, e este demonstra a deformação do direito natural clássico à partir do séc. XVII.
    Nesse livro o autor expressa que Rousseau fez uma quebra, uma revolução quanto o pensamento político clássico; destruiu toda a tradição e impôs que a virtude é conseguida através dos sentimentos, não mais pela razão (filosofia e ciência). Ou seja, a sociedade civil, a civilização não pode ser produto de conhecimento racional/filosófico, mas sim advir do próprio "selvagem", da lei natural.
    Sua sintetização me ajudou bastante! Obrigado.

    André Ecker Costa


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    1. André,

      Disponha! E, se aceita uma recomendação de leitura, indico o excepcional livro "Os Intelectuais", de Paul Johnson. Há um capítulo sobre Rousseau que é bastante elucidativo.

      Abraços!

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    2. Blz Felipe. Vou procurar!
      Abração.

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