quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A canonização estatal de Marighella


“Todos nós somos guerrilheiros, terroristas e assaltantes e não homens que dependem de votos de outros revolucionários ou de quem quer que seja para se desempenharem do dever de fazer a revolução.”

Essa frase é bastante conhecida e mostra um pouco do caráter de quem a escreve: Carlos Marighella. Membro da Executiva do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que abandonou em 1966 por achar que o partido estava traindo o sacrossanto dever que todo comunista tem de fazer a revolução, Marighella fundou a Aliança Libertadora Nacional (ALN), um dos grupos mais cruéis da guerrilha marxista brasileira que atuou durante o Regime Militar (1964 – 1985). A ALN foi responsável por assaltos, sequestros, atentados a bomba e diversos assassinatos. Seu objetivo era claro: instaurar uma ditadura marxista-leninista em território brasileiro.


Carlos Marighella

Ainda que ele mesmo se assumisse guerrilheiro, terrorista e assaltante, não é essa a visão que o governo federal tem. O Diário Oficial da União do dia 9 de novembro deste ano traz a seguinte portaria:

PORTARIA Nº 2.780, DE 8 DE NOVEMBRO DE 2012

O MINISTRO DE ESTADO DA JUSTIÇA, no uso de suas atribuições legais, com fulcro no artigo 10 da Lei nº 10.559, de 13 de novembro de 2002, publicada no Diário Oficial de 14 de novembro de 2002 e considerando o resultado do julgamento proferido pela Comissão de Anistia na 6ª Sessão de Julgamento da Caravana de Anistia, na cidade de Salvador/BA, realizada no dia 05 de dezembro de 2011, no Requerimento de Anistia nº 2011.01.70225, resolve:

Declarar CARLOS MARIGHELLA filho de MARIA RITA DO NASCIMENTO MARIGHELLA, anistiado político “
post mortem”, nos termos do artigo 1º, inciso I, da Lei nº 10.559, de 13 de novembro de 2002.

JOSÉ EDUARDO CARDOZO

Somente isso já seria suficiente para causar uma profunda indignação em qualquer pessoa com mínimo conhecimento da nossa história. No entanto, o blog do Ministério da Justiça – um veículo oficial de comunicação desse órgão do Executivo – fez questão de colocar uma cereja nesse bolo: chamou Marighella de “herói da resistência à ditadura militar”.

A organização fundada e dirigida por esse “herói” foi responsável por bárbaros crimes. Em 22 de junho de 1969, por exemplo, guerrilheiros da ALN atacaram os policiais militares Guido Boné e Natalino Amaro Teixeira: a viatura em que estavam foi incendiada, e os ambos morreram carbonizados. Em outra ocorrência, datada de 3 de setembro do mesmo ano, o comerciário José Getúlio Borba, que trabalhava em uma loja de aparelhos eletrodomésticos, foi morto por guerrilheiros que reagiram a voz de prisão. E, ao contrário de serem casos isolados, essas ocorrências fazem parte da própria essência da bandeira que Carlos Marighella empunhou durante toda sua vida: a da ditadura do proletariado.

A alegação de que aqueles que pegaram em armas contra o governo militar objetivavam a “redemocratização” do Brasil é empulhação pura e simples, e todos estão cansados de saber disso. No entanto, o óbvio ululante se tornou hoje em dia do fruto de uma hermenêutica deturpada, o que gera uma visão distorcida das coisas. Essa lógica produz inferências interessantes: 1) o governo militar foi algo ontologicamente pérfido e vil; 2) o contrário do governo militar é a democracia; 3) se alguém lutou de alguma forma contra o governo militar, era porque só tinha em mente a “restauração” do regime democrático; 4) a luta armada só surgiu em face da violência do regime, e foi, portanto, tão-somente uma característica acidental (e uma reação legítima) da luta contra o governo militar.

Se não é suficiente interpretar os atos criminosos de Marighella e seus camaradas como o que realmente foram – ações cruentas e desprezíveis que visavam à transformação do Brasil em uma ditadura comunista –, então recorramos às próprias palavras de Marighella.

Quando o fundador da ALN rompeu oficialmente com o PCB, em 1966, alegou que o partido estava traindo os ideais revolucionários que herdara ao supostamente defender uma via pacífica de ação:

Em vez de uma tática e estratégia revolucionárias, tudo é reduzido – aberta ou veladamente – a uma impossível e inaceitável saída pacífica, a uma ilusória redemocratização (imprópria até no termo).

Parece não se ter compreendido Lênin quando em “Duas Táticas” afirma que “os grandes problemas da vida dos povos se resolvem somente pela força”.
Em outra parte, falando sobre a vitória, acrescenta Lênin que esta “deverá apoiar-se inevitavelmente na força armada das massas, na insurreição”, e não em tais ou quais instituições criadas “por via legal” e “pacífica”. [1]

Carteira do PCB de Marighella

A violência não era uma deturpação da oposição ao regime militar oriunda do medo e do desespero gerados pela repressão: a violência era a manifestação mais honesta e clara do espírito revolucionário. Marighella não apenas o admitiu claramente, mas invocou-o como um dos motivos pelos quais estava abandonando o PCB e seguindo um caminho próprio.

Ao fundar o Agrupamento Comunista de São Paulo, que depois se tornaria a ALN, Marighella deixa ainda mais evidente que a violência guerrilheira é a própria essência de seu afã revolucionário:

Pensamos sobre a guerrilha o mesmo que a Conferência da OLAS [Organização Latino-Americana de Solidariedade] quando, no ponto 10 de sua “Declaração Geral”, apresenta a guerrilha como embrião dos Exércitos de Libertação e como método mais eficaz para iniciar e desenvolver a luta revolucionária na maioria dos países latino-americanos.

Não se trata, portanto, de desencadear a guerrilha como um foco, como querem insinuar nossos inimigos, acusando-nos daquilo que não pretendemos fazer.

O foco seria lançar um grupo de homens armados em qualquer parte do Brasil, e esperar que, em consequência disso, surgissem outros focos em pontos diferentes do país. Se assim fizéssemos, estaríamos adotando uma posição tipicamente espontaneísta e o erro seria fatal.

Para nós, a guerrilha brasileira não terá condições de vitória senão como parte de um plano estratégico e tático global.
Isto quer dizer que a guerrilha exige preparação e que o seu desencadeamento depende dessa preparação. A preparação da guerrilha, coisa muito complexa e muito séria, não pode ser vista com leviandade. Tal preparação exige o adestramento do combatente, a coleta de armas, a escolha do terreno, a fixação da estratégia e da tática a seguir, e, por fim, o estabelecimento do plano de apoio logístico. [2]
A guerrilha não é, portanto, apenas um recurso extremo utilizado em casos excepcionais: para Marighella, “a guerrilha é a vanguarda revolucionária, o seu núcleo fundamental, e constitui o centro do trabalho dos comunistas e demais patriotas”. Não é possível revolução sem ação revolucionária, e esta se apóia essencialmente na violência. Mais adiante, escreve Marighella:
Precisamos agora de uma organização clandestina, pequena, bem estruturada, flexível, móvel. Uma organização de vanguarda para agir, para praticar a ação revolucionária constante e diária, e não para permanecer em discussões e reuniões intermináveis.

Uma organização vigilante, severa contra os delatores, aplicando os métodos de segurança eficientes para evitar que venha a ser destroçada pela polícia e para impedir a infiltração do inimigo.

Os membros desta organização são homens e mulheres decididos a fazer a revolução. Os comunistas de tal organização são companheiros e companheiras de espírito de iniciativa, livres de qualquer espírito burocrático e rotineiro, que não esperam pelos chamados assistentes, nem ficam de braços cruzados aguardando ordens.

Ninguém é obrigado a pertencer a esta organização. Os que a aceitam, tal como ela é e dela vêm fazer parte, só o fazem voluntariamente, só querem ter compromissos com a revolução.
[3]

Cap. Charles Rodney Chandler, uma das vítimas dos “heróis” incensados pelo governo.

Não havia santos. Não havia inocentes. As coisas sempre, desde o começo, foram colocadas de maneira clara, claríssima: acreditamos na violência, abraçamo-la como um modus vivendi, deixamo-la penetrar em cada um de nossos poros e a ela nos entregamos de corpo e alma sem pressões, voluntária e deliberadamente. Em outro documento, Marighella repisa a defesa da violência:
As organizações revolucionárias que se dedicaram ao proselitismo no transcurso de 1968 não conseguiram avançar. A outra maneira do crescimento das organizações revolucionárias rejeita o proselitismo e dá ênfase ao desencadeamento das ações revolucionárias, apelando para a violência extrema e o radicalismo.

Foi esta a maneira que preferimos, por ser a mais convincente, quando se trata de derrubar a ditadura com a força das massas e através da luta armada, repudiando o jogo político das personalidades e grupos burgueses.

Quando utilizamos o método da ação revolucionária, os elementos que vêm às nossas fileiras só o fazem porque desejam lutar e sabem que não encontrarão outra alternativa entre nós senão a luta prática e concreta.

Sendo o nosso caminho o da violência, do radicalismo e do terrorismo (as únicas armas que podem ser antepostas com eficiência à violência inominável da ditadura) os que afluem à nossa organização não virão enganados, e sim, atraídos pela violência que nos caracteriza.
[4]
Não havia perspectiva de nada parecido com democracia nas táticas, nas ações e nos planos estratégicos de Marighella. Ele não foi um lutador da liberdade, alguém que dedicou sua vida a uma causa nobre, elevada: Marighella foi um facínora, um homem que aspirava “à tomada do poder pela violência da guerra revolucionária”.

Anistiar Carlos Marighella e chamá-lo de “herói” é, no mínimo, uma ofensa terrível a todos aqueles que perderam seus bens, sua saúde e, em última instância, suas vidas em virtude da sanguinária sede de poder das hostes marxistas. Com esse gesto, o governo brasileiro indica perfeitamente quem deve compor o panteão de heróis da nação: “guerrilheiros, terroristas e assaltantes”, homens devotados ao coletivismo ditatorial, à supressão da liberdade, à perseguição, à barbárie, à morte, homens que pavimentaram com os crânios de inocentes seu caminho revolucionário.

_____________________________
Notas

[1] “Carta à Executiva”, 1º de dezembro de 1966. In: Escritos de Carlos Marighella. São Paulo: Editorial Livramento, 1979, p. 93.

[2] “Pronunciamento do Agrupamento Comunista de São Paulo”, 1968. In: Escritos de Carlos Marighella. São Paulo: Editorial Livramento, 1979, p. 132.

[3] “Pronunciamento do Agrupamento Comunista de São Paulo”, 1968.
In: Escritos de Carlos Marighella. São Paulo: Editorial Livramento, 1979, p. 133-134.

[4] “O Papel da Ação Revolucionária na Organização”, maio de 1968. In: REIS FILHO, Daniel Aarão; FERREIRA DE SÁ, Jair (Org.). Imagens da Revolução: Documentos políticos das organizações clandestinas de esquerda dos anos 1961 – 1971. Rio de Janeiro: Editora Marco Zero, 1985, p. 212.

15 comentários:

  1. Artigo fenomenal Felipe, sempre bem fundamentado.

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  2. É o tal do "mutatis mutantis" do venal esquerdismo de Antonio Gramsci. A continuar assim, em duas ou mais gerações o país perderá sua identidade em prol da mentira.

    Blogueiros,

    Denuncie. Repasse.
    Brasil vai sediar maior encontro pro-palestina do mundo com apoio de cristãos esquerdistas de várias denominações.
    http://juliosevero.blogspot.com.br/2012/11/brasil-vai-sediar-maior-evento-pro.html

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  3. O autor do blog não acerta nem um milímetro nas críticas realizadas. A tentativa de fixar ou associar ao governo brasileiro, em especial ao PT, uma imagem esquerdista ou revolucionária, deixando transparecer que, em última instância, este estaria de acordo com a estratégia de ação de Carlos Mariguella, é desconhecer o viés do governo, entregue aos serviços da burguesia. A via eleitoreira do PT já bastaria para demostrar, na prática, o quão não-revolucionário é o PT.

    Mas tal crítica não caberá àos juvenis conservadores, calro. Eles não entendem que o sentido de "honraria" governista à Mariguella (ou outros revolucionários) estaria mais próximo, em última instância, ao espírito dos conservadores que dos socialistas. Tal honra, ao contrário de trazer a tona as verdadeiras posições revolucionárias de Mariguella, como sua estratégia da luta armada, as distorcem completamente fazendo-as ser o que não o eram, perdendo sua essência post mortem: iluminar a imagem para ofuscá-la. Ou é isso ou o completo abafamento o que todo reformista e a burguesia faz para acabar com os referenciais revolucionários após sua morte.

    Portanto ao criticarem aqueles que santificam figuras como Mariguella estão apenas se batendo com os que desejam o mesmo que vocês, ainda que de forma distinta: manutenção da ordem capitalista. Mariguella nunca foi "santo". Nenhum revolucionário é ou pretende ser. Esta imagem "pura" é um descalabro à causa da justiça social revolucionária: toda revolução é uma ato de violência contra as condiçoes sociais dos opressores e exploradores do povo.

    Por isso que nos sentimos honrados ao repúdio puro e simples à ação revolucionária (de qualquer ordem socialista) dos Jvenis Conservadores, pois é feita com o antagonismo de quem pretende a manutenção do estado de direito, da propriedade privada e da moral "transcendente", da forma como esperado.

    "Os muros e toda espécie de carcereiro não se mantém de pé quando as masas se levantam."

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    1. "Todo socialista é um ditador disfarçado", já dizia Ludwig von Mises. Curiosamente, todos os gloriosos revolucionários socialistas foram os piores e mais sanguinários ditadores da História. Coincidência? Longe disso: uma ditadura sangrenta é consequência lógica de qualquer processo revolucionário.

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    2. "Uma ditadura sangrenta é consequência lógica de qualquer processo revolucionário". Se esta frase está correta, na idade moderna quem inaugura tal constatação é exatamente a burguesia. Ou alguém chegou a acreditar que as revoluções francesa e industriais não foram ao custo do sangue de milhares de vidas? E sobretudo a manutenção da vitória da revolução burguesa, hoje, é a ditadura do capital e do regime de violência estatal, independente se o Estado possuir caráter ditatorial ou democrático.

      Assuma, Sr. Felipe Melo, seu problema não é com ditaduras sangrentas. Novamente, a propriedade privada e o Estado de direito, que o Sr. defende tão enfaticamente, não se sustentam com consentimento ou liberdade da maioria, mas pela apropriação e violência da minoria através dos aparatos jurídicos e militares do Estado burguês.

      Sua "taxologia anti-esquerdista", sobretudo idealista, é muito engraçada. Pensar correto não é escrever bonito, coitado daqueles quem cairam nessa...

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    3. Anônimo,

      Você abordou um ponto importantíssimo: "na idade moderna quem inaugura tal constatação é exatamente a burguesia". E é mesmo. A Revolução Francesa de 1789 foi quem inaugurou a ideia de revolução - e foram de seus artífices, os jacobinos, que Marx et caterva beberam com afã insaciável. Todas as bases revolucionárias utilizadas por Marx estão presentes no pensamento jacobino e foram por ele aprimorados: a luta de classes, a necessidade de se destruir a civilização velha para construir de seus escombros uma nova ordem, a perseguição religiosa, e outras coisas. Gramsci mesmo defendia o retorno do modus operandi jacobino.

      Eu recomendo que você leia um pouco mais de literatura socialista e história para entender essas coisas. Sei que é difícil, mas você consegue. ;)

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    4. Ainda que eu não seja marxista, é um descalabro afirmar que "todas as bases revolucionárias utilizadas por Marx estão presentes no pensamento jacobino", ainda que complete com "e foram por ele aprimorados". Ao afirmar isso, atesta seu desconhecimento dos debates da economia-política marxista e suas descobertas próprias de alguém que não poderia fazê-las na transição do feudalismo para o capitalismo (sobretudo sua fase industrial), bastando citar a constatação, na tese da teoria do valor trabalho, da intrínseca categoria de exploração para obtenção do lucro, ou simplesmente a mais-valia. Isto coloca desdobramentos distintos às ações de jacobinos e marxistas, cuja taxação mecânica dos segundos pelos primeiros não passa, na melhor das hipoteses, de vaga generalização, e na pior, de anacronismo.

      E, sobretudo, como se algum liberal ou conservador pudesse, nos dias de hoje, fazer uma crítica histórica ao que foi o modus operandi jacobino, quando é justamente sua ação histórica que geraria as condições para a consolidação do Estado moderno e da propriedade privada, exatamente os elementos que vocês defendem. A natureza do pensamento conservador (ou liberal), longe do simulacro de "liberdade" que falam da boca para fora, está presente na ação historicamente sanguinária, não somente com possíveis opositores da aristocracia nobiliária, mas contra o próprio povo destituido de poder e propriedade - permanente até hoje.

      Um conservador querer criticar um marxista pela semelhança ao modus operandi jacobino é no mínimo risível.

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    5. Segue uma outra contribuição de superação jacobina e marxista:

      (...)
      "Todo indivíduo humano é o produto involuntário de um meio natural e social que nasceu, desenvolveu-se e do qual segue recebendo influência. As três grandes causas de toda imoralidade humana são: a desigualdade tanto em âmbito político como econômico e social; a ignorância que é o resultado natural, e sua conseqüência necessária: a escravidão[2].

      Sendo sempre e por qualquer organização da sociedade a única causa dos crimes cometidos pelos homens, é uma hipocrisia e um absurdo evidente por parte da sociedade castigar os criminosos, posto que cada castigo sugerido à culpa e ao criminoso nunca são culpáveis. A teoria da culpabilidade e do castigo provém da teologia, é do casamento do absurdo com a hipocrisia religiosa.

      O único direito que se pode reconhecer à sociedade em seu estado natural de transição, é o direito natural de assassinar os criminosos produzidos por ela mesma em sua própria defesa; e não é para julgar e nem condenar. Esse direito nem se quer é uma aceitação da sua palavra; será antes um eixo natural, entristecedor, porém inevitável, firmado e produzido pela impotência e estupidez da sociedade atual; e quanto mais tentar evitar que a sociedade use tal direito, mais próximo estará da sua emancipação real. Todos os revolucionários, os oprimidos, as sofridas vítimas da organização atual da sociedade, cujos corações estão supostamente cheios de vingança e ódio, devem ter em mente que os reis, os opressores, os exploradores de todo tipo são tão culpados como os criminosos procedentes da massa popular: são delinqüentes, porém não culpados, dado que são também como os criminosos ordinários, produtos involuntários da organização atual da sociedade. Não haverá do que estranhar-se se desde o primeiro momento o povo rebelado mate muitos deles. Será uma desgraça inevitável e quem sabe, tão fútil como os estragos causados por uma tempestade.

      Porém, esse eixo natural não será nem moral, nem se quer útil. A este respeito, a história esta cheia de lições: a terrível guilhotina de 1793 que não se pode acusar nem de que foi perigosa nem lenta, não logrou destruir a classe nobiliária na França. A aristocracia não foi completamente destruída, porém profundamente sacudida, não pela guilhotina, senão pela confiscação e pela venda de seus bens. E em geral, pode-se dizer que as matanças políticas nunca mataram os partidos; resultaram sem efeito contra as classes privilegiadas, por erradicar o poder muito menos nos homens que nas posições dadas aos homens privilegiados pela organização das coisas, ou seja, a instituição do Estado, e sua conseqüência tanto como sua base natural, a propriedade individual.

      Para fazer uma revolução radical, é necessário atacar as posições e as coisas, destruir a propriedade e o Estado. E então, não se necessitará destruir os homens, e condensar a reação infalível e inevitável que nunca deixou e nunca deixará de produzir em cada sociedade: o massacre dos homens.

      Porém, para ter o direito de ser humano para com os homens, sem perigo para revolução, haverá que ser cruel com as posições e as coisas; haverá que destruir tudo, sobretudo e ante toda a propriedade e sua inevitável conseqüência, o Estado. Este é todo o segredo da revolução.

      Não há que se assustar se os jacobinos e os blanquistas que se converteram em socialistas antes por necessidade que por convicção, e para quem o socialismo é um meio e não o objetivo da Revolução, posto que querem a ditadura, ou seja a centralização do Estado e que o Estado os levará por uma necessidade lógica e inevitável à reconstituição de um Estado revolucionário poderosamente centralizado tenderá como resultado inevitável, como o provaremos mais tarde, à ditadura militar para um novo amo. Por conseqüência, o triunfo dos jacobinos e dos blanquistas será a morte da Revolução."

      (Bakunin, 1868.)

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    6. Bakunin utiliza o mesmo modus pensandi de Rousseau, Robespierre e outros: o homem não passa de uma tábula rasa, alguém que pode ser moldado ao bel-prazer de quem quer que seja. Marx se vale da mesma premissa em toda sua obra.

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    7. Mais uma vez o expert nas teorias clásicas não sabe o que fala. Felipe Melo, é preferível abdicar do uso da fala quando sobre o que se quer dizer nada se conhece.

      Bakunin é ferrenho opositor de Rousseau! Para Bakunin, o homem nunca foi "tábula rasa". Existe uma mescla de determinismos biológicos e sociais sobre o homem que, apropriados através da capacidade evolutiva humana no emprego do que se chama de "liberdade-vontade", pode reorientar mais ou menos sua subjetividade, sobretudo através da ação objetiva. Não existe nem inatismo nem hereditariedade global. Toda constituição do homem é adquirida através da concorrência da causas objetivas (exteriores) e subjetivas (interiores), através da relativa autonomia que lhe confere com as possibilidades de pensamento-liberdade-vontade-ação. Isso rompe toda tese contratualista e do bom selvagem de Rousseau.

      Para que você evite falar novas asneiras sobre o que não se sabe, estude um pouco mais dos clássicos: http://arquivobakunin.blogspot.com.br/2012/09/federalismo-socialismo-e-antiteologismo.html

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    8. Na verdade, pelo pouco que você me explicou, Bakunin e Rousseau acreditam sim que o homem é uma tabula rasa no sentido de que ele é necessariamente moldado por elementos extrínsecos, ainda que alguns deles sejam internalizados – como a «mescla de determinismos biológicos e sociais sobre o homem que, apropriados através da capacidade evolutiva humana no emprego do que se chama de “liberdade-vontade”, pode reorientar mais ou menos sua subjetividade, sobretudo através da ação objetiva».

      Tanto em Bakunin quanto em Rousseau (induzo pelo que você escreveu), não existe nada que se assemelhe a natureza humana. O homem é um ser construído histórica e socialmente, e nada mais. Mesmo os subjetivismos em Bakunin são fruto de elementos extrínsecos que foram, ao longo do tempo, interiorizados e individuados. Pode-se inferir, portanto, que os atuais subjetivismos de hoje podem ser transformados no continuum espaço-tempo uma vez que se introduzam agora os elementos extrínsecos capazes de operar essa alteração paulatina.

      Mas são apenas conjecturas. Nunca dei importância a Bakunin, apesar de ter lido algumas coisas há muitos anos, de modo que desconheço boa parte de suas teses. E confesso que desconhecê-las não foi algo necessariamente ruim, dada sua insignificância face a outras doutrinas coletivistas, como o Marxismo. Mas agora que você me deu uma fonte bibliográfica, lerei um pouco mais a respeito.

      P.S.: para alguém demonstrou uma excelente capacidade de concatenação de ideias e um bom léxico, vocês poderiam deixar de depredar o patrimônio público com pichações. Seria muito bacana de sua parte. :)

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  4. O Anônimo Marighella de tal é um sabichão. Julga-se o verdadeiro socialista. Acredita na Terra do Nunca.
    Excelente artigo, Felipe. Falou apenas um detalhe: mostrar, por trechos do Manual do Guerrilheiro Urbano, como costumam agir os tais libertadores do povo.
    Tal manual ainda frutifica, basta ver o que ocorre em São Paulo e Santa Catarina.
    Abraço
    Gutenberg

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  5. A História nos ensina que ela age em ciclos e esses ciclos se rompe em determinado tempo através de um fato que envolve o mundo e tudo começa novamente, dando viés a ciclos históricos anteriores mas de forma, tempo e lugares diferentes.O ciclo atual começou com o 11 de setembro.Estamos em plena crise de recessão mundial, algo parecido com 1929, só não estamos percebendo.A revolução tecnológica nos mostram fatos na hora que acontecem e são tantas as informações, que nos perdemos e esquecemos o que acabamos de ver e assim, não temos a capacidade raciocinarmos sobre eles.Um exemplo é que na América do Sul:O Paraguai tem uma base Americana, A Colômbia tem uma base americana, Bolívia tem uma Base Chinesa,Venezuela uma Base Russa, Equador uma Base Russa, A China, e não empresários chineses, o Estado chinês, comprou extensas terras na Bahia.A Quarta Frota americana esta próxima.A guiana tem base da Inglaterra.No Atlantico a Frota da grã-bretanha nos cerca até as Ilhas Malvinas.De um lado temos os comunistas querendo a Volta da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) na forma da nova URSS (União das Repúblicas Socialistas Sulamericanas) de outro os saxões EUA e Inglaterra querendo proteger seu quintal e modo de vida.Eu fico com os Americanos e Ingleses.

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  6. O filme Marighella vai cair no vestibular para o qual eu vou prestar esse ano. Incrível como a esquerda dominou todo o Brasil. O Enem teve de tudo; aquecimento global, contra-religião, contra livre iniciativa, feminismo, gayzismo, controle da midia (internet), indianismo, e muitos outros. As universidades estadual estão no mesmo nível. Querem nos empurrar o marxismo de qualquer maneira.

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