terça-feira, 23 de outubro de 2012

Obama no país das pesquisas

Pierre-Yves Dugua


Um pouco de perspectiva histórica é sempre bom. Eu acabo de analisar alguns estudos comparativos sobre a popularidade dos presidentes americanos desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Concluo que Barack Obama não é um unificador. Ele tem sido agora um presidente partidário e polarizador. Ele também é visto de um modo menos “racialmente neutro” que se poderia pensar, o que eu lamento e que me surpreende.

De todas as promessas feitas por Barack Obama, há uma que ele teria conseguido manter: ele queria ser um presidente “pós-partidário”.

O jovem senador havia dito, uma vez eleito, que governaria com os dois partidos. Ele queria fazer suas as propostas dos republicanos se essas últimas fossem construtivas.

Esta promessa desempenhou um papel importante em sua campanha de 2008. Muitos “independentes” acreditaram nessa promessa. Três anos e meio depois, o veredicto se impõe: Barack Obama tem sido muito partidário.

Ele nunca foi capaz de conquistar para as leis que defendeu – muitas vezes à distância – nada além do apoio de uns poucos republicanos, principalmente para as reformas da saúde e das finanças. Em questões fiscais, de imigração e de educação, por exemplo, os republicanos têm se mantido largamente unidos e contrários ao presidente. Uma parte dos democratas eleitos também forçou o presidente a moderar suas propostas. Obama não tem na maior parte das vezes, especialmente no Senado, conseguido mobilizar o seu próprio partido. Ele nunca foi capaz de conseguir o orçamento que queria, por exemplo.

O que é verdade no Capitólio se confirma junto à opinião pública. Alguns números interessantes mostram a que ponto Barack Obama falhou em seus esforços “pós-partidários”. De acordo com o Gallup, 8% dos republicanos aprovam sua maneira de governar. Ora, 23% dos republicanos gostavam da de governar de Bill Clinton, o democrata. E 25% dos democratas aprovavam a Ronald Reagan, o republicano...

Outro sinal interessante de decepção com o primeiro mandato de Barack Obama: em nenhum momento, exceto brevemente na primavera de 2009, sua popularidade excedeu a média dos índices de popularidade dos 11 presidentes anteriores! Barack Obama esteve quase sempre abaixo de seus antecessores. Tanto pior para a credibilidade da imagem de supremo personagem carismático e adorado que lhe é atribuída na Europa.

Obama, presidente negro?

Citarei alheatoriamente alguns dados da pesquisa Gallup feita com base nas médias flutuantes das últimas três semanas. Trata-se de uma sondagem entre os eleitores registrados. Este ponto é importante porque ele favorece o presidente Obama: todas as pesquisas mostram que os eleitores já decididos a votar estão menos bem dispostos em relação a ele que o total dos inscritos.

Decididos a votar em Obama:

- 44% dos homens
- 35% dos homens brancos
- 43% das mulheres brancas

Acho muito interessante o último percentual. Ele revela que a popularidade do presidente entre as mulheres, que a imprensa não cessa de alardear, é na verdade muito influenciada pela raça da eleitora. Entre todas as raças, as mulheres pró-Obama chegam a 53%...

A América de 2012 já não é dominada por brancos como logo depois da guerra. Mas 64% do país é ainda de “raça branca não hispânica.” O racismo não mais se impõe como na maioria dos anos antes do movimento dos direitos civis. É uma felicidade. É um sinal de maior maturidade e de maior humanidade.

De tudo o que na direita se diz contra o presidente Obama, inclusive nas fileiras mais histéricas, não se vê nunca alguém falar publicamente em questões raciais.

Em privado, eu nunca ouvi comentários racistas de pessoas que poderiam se sentir a vontade para isso e que também detestam Barack Obama. E no entanto eu já ouvi falar, acreditem, em “Obama socialista”, “Obama terceiro-mundista” etc... Eu nunca ouvi alguém falar “Obama, o crioulo”... Nem mesmo “Obama, o negro”. E tanto melhor. Claro, devem haver ainda americanos racistas que falam assim entre eles. De qualquer maneira, eles se escondem. Já é alguma coisa.

Ingênuo, eu pensava que, de repente, o Presidente tinha conseguido ser “pós-racial”. Em minha mente de Obama não é mais negro do que branco. Ora, a leitura dessas pesquisas mostrou-me que o sucesso do presidente de transcender as raças é limitado.

Na verdade, é apenas porque 90% dos negros dizem que votarão em Barack Obama que ele tem condições de rivalizar com Mitt Romney hoje. Sem esse apoio maciço (e o menos maciço dos hispânicos, que é de 69%) Barack Obama estaria muito atrás. Registremos que os negros representam 12,6% da população dos Estados Unidos e os hispânicos 16,4%.

Eu não acredito que os americanos brancos sejam racistas. Eu simplesmente noto que a raça tem um papel em suas opiniões. É claro, de qualquer maneira, que tem um papel enorme nos pontos de vista políticos dos negros.

Se Barack Obama for reeleito em 6 de novembro, ele decididamente terá muito trabalho para superar as profundas divisões que estão dilacerando a América. Mas sem os republicanos, que podem manter uma maioria na Câmara, ele não poderia governar...

Pierre-Yves Dugua é correspondente de economia nos Estados Unidos para o jornal diário Le Figaro.
Tradução: Jorge Nobre, estudante de Letras - Tradução Francês da UnB

terça-feira, 9 de outubro de 2012

A Trilogia Batman e o Movimento Revolucionário

Por Rodrigo Sias

O motivo pelo qual escrevo é o artigo “Batman, o contra-revolucionário”, publicado há algumas semanas. Ao ler este texto, experimentei aquela alegria (e confesso, aquela “invejinha”) de encontrar em algum lugar o que eu mesmo adoraria ter escrito. De fato, depois de assistir o filme no cinema, identifiquei, como no artigo, a “mentalidade revolucionária” e o papel “contra-revolucionário” do Batman. Em textos posteriores, como “A Confusão da Revolução” (continuação explicativa do primeiro texto) isso fica ainda mais claro. Mais recentemente, no terceiro texto do blog sobre o assunto, “Amor e crueldade: uma união possível?”, rebate-se o artigo “Ditadura do proletariado em Gotham City”, do comunista e pseudo-intelectual Slavoj Žižek.

Só mesmo essa intelectualidade de esquerda para transformar Bane e Talia em representantes organizados dos oprimidos. Também, o que esperar de gente que nivela Che Guevara a Jesus Cristo? Que a ideia de revolução está presente no terceiro filme do Batman está muito claro. Porém, eu seria mais amplo: diria que toda a trilogia do Batman foi construída sobre o pano de fundo da mentalidade revolucionária e a necessidade de combatê-la.


O filme “Batman Begins” nos mostra pela primeira vez a Liga das Sombras, que representa a elite revolucionária. Seus membros julgam-se superiores intelectualmente e moralmente, face à corrupção reinante. O vilão, Ra’s Al Ghul, tem como principal característica a retórica moralizante para transformar a sociedade e varrer a corrupção através do morticínio e do terror. Bruce Wayne é treinado para se tornar uma “máquina de matar”, mas resiste no último momento, mostrando-se contrário à mensagem da “purificação via destruição”, tornando-se ele próprio o inimigo da Liga a ser batido.

Nos quadrinhos da DC Comics, Ra’s Al Ghul é claramente inspirado nas idéias de Jean Jacques Rousseau, como a figura do “bom selvagem” e a sociedade como corruptora dos homens. Nos quadrinhos existe um “Poço de Lázaro” que permite que Ra’s esteja vivo desde o século XVI. Há uma história, inclusive, na qual Ra’s chega ao Novo Mundo a tempo de ver in loco o “bom selvagem” e testemunhar a civilização europeia “espalhando a corrupção” no continente recém-descoberto. Nesta ocasião, ele se convence da necessidade da destruição da “sociedade corrupta”, exatamente como o “filósofo” iluminista Rousseau.

Por isso, tendo a observar que o pensamento e os métodos da Liga no primeiro filme são análogos aos da Revolução Francesa e se assemelham, em especial, ao espírito revolucionário do século XVIII. Ra’s desempenha o papel de Robespierre, o “incorruptível”. Existe ainda a simbologia do “Poço de Lázaro” (clara alusão ao personagem bíblico Lázaro de Betânia, descrito no Evangelho de João como um amigo íntimo de Jesus que foi por Ele ressuscitado). Este permite que o espírito revolucionário (representado por Ra’s Al Ghul, homem de 500 anos) nunca morra. O poço é usado para rejuvenescer a ideia revolucionária do “Paraíso na Terra”. Ele a revive, de geração em geração. Entretanto, o poço também faz com que seu usuário (ou seja, Ra’s) fique temporariamente insano. O detalhe é que cada vez que mergulha, fica mais insano! Ou seja, o processo é cumulativo. Voltando à simbologia, é como se cada onda revolucionária viesse mais louca (e mortífera) que sua antecessora.

Ra's Al Ghul no Poço de Lázaro.

Já o filme “The Dark Knight” apresenta o Coringa, aparentemente um anarquista sem propósitos. Na minha visão, entretanto, ele é um revolucionário do tipo “desconstrucionista”, típico da “guerra cultural” recente. Isso fica claro no diálogo entre o mordomo Alfred e Bruce Wayne. Em algum momento do filme “The Dark Knight”, os dois conversam sobre as motivações do Coringa e sua associação com a máfia. O diálogo (em tradução livre) revela algo interessante:
Bruce Wayne: Transformar-me em alvo não trará o dinheiro deles de volta. Eu sabia que a máfia não iria se render sem lutar, mas isso é diferente. Eles [mafiosos] passaram do limite.
Alfred Pennyworth: Você o passou primeiro, senhor. Você os pressionou, espremeu-os até o ponto do desespero. E agora, em seu desespero, eles se voltaram a um homem que não entendem completamente.
Bruce: Criminosos não são complicados, Alfred. Nós temos apenas que descobrir o que ele [Coringa] quer.
Alfred: Com todo respeito, Mestre Wayne, talvez este seja um homem que nem mesmo o senhor entenda completamente. Eu estava em Burma. Há muito tempo. Meus amigos e eu estávamos trabalhando para o governo local. Eles estavam tentando comprar a lealdade dos líderes tribais, subornando-os com pedras preciosas. Mas suas caravanas estavam sendo atacadas em uma floresta a norte de Rangoon por um bandido. Pediram-nos que cuidássemos do problema, então começamos a procurar pelas pedras. Mas, depois de seis meses, não encontramos ninguém que tivesse negociado com ele.
Bruce: Qual foi o problema?
Alfred: Um dia, encontrei uma criança brincando com um rubi do tamanho de uma tangerina. Ele estava jogando as pedras fora.
Bruce: Então, por que ele as estava roubando?
Alfred: Porque ele achou que era um bom esporte. Porque alguns homens não estão à procura de nada lógico, como dinheiro... Eles não podem ser comprados, ameaçados, convencidos ou dissuadidos. Alguns homens só querem ver o mundo queimar.
Basicamente o que Alfred menciona é o desejo de destruição por parte de algumas pessoas. Tal desejo nada tem de racional. É um impulso fanático. Mais do que a desordem e a anarquia, o que o Coringa persegue é a “desconstrução” como valor. O Coringa é uma espécie de filosofo da Escola de Frankfurt pondo a teoria em pratica, desenvolvendo o “trabalho do negativo” da dialética de Hegel. Para o “Palhaço do Crime”, não há sentido na vida e é esse o fator interessante a ser estudado e analisado. No filme, já na sua parte final, o Coringa queria fazer um experimento sociológico como esses engenheiros sociais modernos, os quais implementando diversas medidas monstruosas, querem moldar a sociedade à sua imagem e semelhança. Mas o Coringa é mais direto. Não usa a técnica do “sapo na água quente”, não camufla suas intenções destrutivas. Tampouco usa os rodeios intelectuais típicos e a retórica de um “mundo melhor”. Fala apenas que gostaria do mundo “menos hipócrita”, mostrando que todos são ruins como ele. O Coringa “filosofa” sobre sua própria decadência, e dessa forma, ele também tem um quê de Nietzsche.

Por fim, o filme “The Dark Knight Rises” apresenta as revoluções propriamente comunistas (ou o estágio avançado de qualquer revolução). O principal elemento aí é a “luta de classes” e a luta de “opressores e oprimidos”. Os revolucionários apresentam-se como libertadores quando são na verdade os maiores opressores, inversão que o texto “Batman, o contra-revolucionário” muito bem aponta. A trilogia sob o ponto de vista histórico-sociológico, inclusive, deveria inverter o segundo filme com o terceiro, pois aí mostraria perfeitamente a “evolução” do movimento revolucionário: primeiro o Iluminismo e a ideia do “bom selvagem” de Rousseau, encarnada por Ra’s Al Ghul. Depois, o comunismo explícito de Bane e Tália (a empresária bilionária que fomenta a revolução, fazendo o papel de, digamos, uma “Rockefeller”), com tribunais revolucionários, destruição e mortes em massa. E agora a atual fase de “guerra cultural” e o culto da irracionalidade com o Coringa.

Por todas essas observações, considero a trilogia Batman de Christopher Nolan uma espécie de manual didático, um alerta contra as revoluções.

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Comentário do editor:

Muitas pessoas julgam que histórias em quadrinhos são um divertimento infantil, que em nada acrescenta à reflexão filosófica e que, ao invés de promover a compreensão do zeitgeist, servirá apenas para nos afastar de qualquer análise crítica da realidade. No entanto, esse pensamento é errôneo. Existem muitas graphic novels e histórias em quadrinhos que expressam de modo inequívoco o espírito desses nossos tempos “pós-modernos”.

A título de exemplo, podemos citar duas obras que, subrepticiamente, defendem as ideias revolucionárias que, partejadas pelos jacobinos, foram meticulosamente nutridas e desenvolvidas até os dias de hoje: “V de Vingança” e “Watchmen”, ambas de autoria do (excêntrico) britânico Alan Moore. Em ambas as obras, a sociedade é mostrada como imersa num estado de decadência além de qualquer conserto, e os personagens buscam maneiras (auto)destrutivas em seu afã de combater essa sociedade decrépita: o anarcoterrorismo de V, o niilismo cínico do Comediante e a neurose obsessiva de Rorschach são emblemáticos. Vale lembrar que “Watchmen” está na lista “All-TIME 100 Novels” da revista americana Time.

Alan Moore

Alan Moore é um grande entusiasta da mentalidade revolucionária - e de um visual bastante bizarro, para dizer o mínimo. Pagão assumido, é adepto de todas as ideologias da moda, como a hipótese Gaia, de James Lovelock (que recentemente abjurou sua pseudo-ciência neopagã), e defendeu ardorosamente o movimento Occupy Wall Street (OWS). Em contrapartida, o escritor e quadrinista Frank Miller, responsável pela clássica graphic novel “O Cavaleiro das Trevas”, é o que se poderia chamar de hardcore conservative: além de a temática anti-revolucionária estar presente, de algum modo, em sua obra, ele pronunciou-se veementemente contra o OWS. Dessa forma, está longe de ser uma simplória forçação de barra a análise publicada acima. Muito pelo contrário: ela faz perfeito sentido e concordo com ela plenamente.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

A revista Placar e a desfaçatez anti-cristã

A repercussão da execrável capa da edição de outubro da Revista Placar – que, para sair em defesa do jogador santista Neymar, o compara a Jesus Cristo –, já gerou bastantes frutos. Corre a internet, desde a semana, um abaixo-assinado em repúdio à capa escolhida pela editora Abril e pela revista Placar que já conta com quase dez mil assinaturas.

Prevendo que esse gesto de imenso mau gosto fosse gerar reações, o diretor da revista, Maurício Barros, deu declarações na semana passada que visavam a tirar qualquer traço culpa ou deliberação do ato da revista: “Acho que pode haver a comparação porque Jesus Cristo foi o crucificado mais famoso, mas a nossa analogia é com a execução, como a crucificação como elemento histórico de execução pública.”

Duas coisas curiosas que devemos levar em consideração nessa história são:

1) A cruz não é, nem de longe, o único “elemento histórico de execução pública” passível de ser utilizado como analogia visual. Há dois outros que, por exemplo, poderiam ser muito bem utilizados pela revista: a guilhotina, método de execução pública preferido pelos revolucionários jacobinos durante a Revolução Francesa; e o enforcamento, certamente o método de execução pública mais utilizado na história humana, desde a Antiguidade até os dias de hoje. Ambos passariam exatamente a suposta mensagem que a revista quis passar, qual seja, a de condenação pública. No entanto, essa não é a intenção da revista, o que se demonstra abaixo.

2) Se o objetivo não era comparar Neymar a Jesus Cristo, por que então a revista realizou uma montagem com base numa famosíssima pintura de Cristo crucificado? A obra que serviu de base para a montagem é o quadro “Cristo Crucificado” (1632), do grande retratista barroco Diego Velázquez. Vejam abaixo (cliquem na imagem para ampliar):


Reparem bem a comparação entre as duas imagens. Os detalhes são exatamente os mesmos: a forma do tecido que cobre o quadril de Jesus Cristo, sangue de seus pés, a posição dos dedos das mãos, até mesmo o lado aberto de Cristo, trespassado pela lança de um soldado romano. Diante dessa evidência claríssima, qualquer justificativa improvisada de dizer que não se queria comparar Neymar a Cristo só pode ser tomada como uma grande e deslavada mentira. O objetivo foi, sim, o de utilizar um símbolo religioso querido a milhões de brasileiros, sinal de Redenção e Salvação para todos aqueles que abraçam a fé cristã, e, assim, promover a revista através da mais baixa e rasteira polêmica.

Temos que continuar a expor esse desrespeito à cultura brasileira e à fé cristã assinando e divulgando a quem conhecemos o abaixo-assinado em repúdio a essa ofensa. Fazer isso não é apenas nosso direito de cidadãos, mas, para aqueles que são cristãos (como eu), é um dever imperioso: como nos apresentaremos diante de Deus e diremos que, até mesmo nas mínimas coisas, nos eximimos defender as verdades de fé legadas por Nosso Senhor?

Mas não basta apenas assinar o abaixo-assinado: precisamos esclarecer as pessoas que conhecemos sobre essa baixeza vil e promover um grande boicote à revista Placar por essa ofensa despropositada a milhões de brasileiros.