quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Amor e crueldade: uma união possível?

O que é amar? Hoje, essa ideia se tornou tão banalizada que seu conceito perdeu-se numa mixórdia de significados – às vezes, mutuamente contraditórios. Se pudéssemos, com brevidade e propriedade, conferir um conceito a “amor”, poderíamos fazê-lo dizendo que amar significa a capacidade de doar-se a si mesmo de maneira incondicional e desinteressada. Em sua belíssima obra “A Fé Explicada”, Leo J. Trese, O. S. B., exemplifica muito bem o que é o amor no que concerne a relação entre o homem e Deus: “Não é pelo que sentimos sobre Deus, mas pelo que estamos dispostos a fazer por Ele, que provamos o nosso amor a Deus.” No entanto, esse amor – essa submissão da vontade e entrega do ser em que nos colocamos inteiramente à disposição de algo ou alguém – não é livre de limitações que lhe conferem um sentido legítimo e pleno. Na verdade, só é possível se falar em amor de fato, amor verdadeiro, quando esse amor submete não apenas o ser àquilo (ou àquele) que se ama, mas quando submetemos a vontade aos modos corretos de se manifestar esse amor.

Tomemos por exemplo o amor a uma mulher. Se a amamos, é certo que nos doamos a ela por inteiro, que nenhuma de nossas ações são tomadas sem que a levemos em consideração, que nenhum de nossos gestos e provas de amor sequer espera a mesma contrapartida (uma vez que a essência do amor é a doação). Suponhamos agora que essa mulher esteja sofrendo uma injusta campanha de difamação por parte de uma terceira pessoa, e que, em nome do amor que sentimos, decidimos matar a pessoa responsável pela injusta perseguição à mulher amada. De fato, dispusemo-nos a matar alguém em nome do amor. Entretanto, seria correto chamar de amor um sentimento que, uma vez exercido ao extremo, resulta em um ato de brutalidade como o assassínio? Se admitirmos que sim, então, de alguma forma, o caráter sublime do amor é tão intenso que chega a purificar o mais baixo dos crimes – e, assim, tudo pode ser feito em nome do amor, pois o amor tudo purifica.

Slavoj Žižek

Slavoj Žižek, um dos mais célebres intelectuais de esquerda da atualidade, publicou recentemente uma análise interessante do filme “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge”. E o que é justamente interessante é que, para Žižek, qualquer ato de crueldade cometido em nome do amor não é só plenamente justificável, mas além: é imprescindível. Em artigo publicado recentemente pelo blog da Editora Boitempo, defende Žižek (grifos nossos):
No entanto, ainda que Bane não tenha o fascínio do Coringa de Heath Ledger, há uma característica que o distingue desse último: o amor incondicional, a mesma fonte da sua dureza. Em uma cena curta mas comovente, vemos como, em um ato de amor no meio do sofrimento terrível, Bane salvou a garota Talia sem se importar com as consequências e pagando um preço terrível por isso (foi espancado quase até a morte por defendê-la). Karthick tem toda razão ao situar esse acontecimento dentro da longa tradição, de Cristo a Che Guevara, que exalta a violência como uma “obra do amor”, como nas famosas palavras do diário de Che Guevara: “Devo dizer, correndo o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é guiado pelo forte sentimento do amor. É impossível pensar em um revolucionário autêntico sem essa qualidade”. O que encontramos aqui nem é tanto a “cristificação de Che”, mas sim uma “cheização do próprio Cristo” – o Cristo cujas palavras “escandalosas” de Lucas (“se alguém vem a mim e não odeia seu próprio pai e mãe, mulher, filhos, irmãos, irmãs e até a própria vida, não pode ser meu discípulo” [Lc 14:26]) apontam exatamente na mesma direção que a famosa citação de Che: “É preciso ser duro, mas sem perder a ternura”. A afirmação de que “o verdadeiro revolucionário é guiado pelo forte sentimento do amor” deveria ser interpretada juntamente com a declaração muito mais “problemática” de Guevara sobre os revolucionários como “máquinas de matar”:

O ódio é um elemento da luta; o ódio impiedoso do inimigo que nos ergue acima e além das limitações naturais do homem e nos transforma em eficazes, violentas, seletivas e frias máquinas de matar. Assim devem ser nossos soldados; um povo sem ódio não derrota um inimigo brutal.

Ou, parafraseando Kant e Robespierre mais uma vez: o amor sem crueldade é impotente; a crueldade sem amor é cega, paixão efêmera que perde todo seu vigor. Guevara está parafraseando as declarações de Cristo sobre a unidade do amor e da espada – em ambos os casos, o paradoxo subjacente consiste nisto: o que torna o amor angelical, o que o eleva acima da mera sentimentalidade instável e patética, é essa mesma crueldade, o seu elo com a violência – é esse elo que eleva o amor acima e além das limitações naturais do homem e o transforma em pulsão incondicional. É por isso que, voltando a O Cavaleiro das Trevas Ressurge, o único amor autêntico no filme é o de Bane, o “amor do terrorista”, em nítido contraste a Batman.
O raciocínio acima exposto demonstra não apenas a completa ignorância de Žižek acerca das Sagradas Escrituras, mas a sua aberrante defesa de que os fins, de fato, justificam os meios. Traçar um paralelo entre Jesus Cristo a Ernesto “Che” Guevara é um dos expedientes mais recorrentes da canalha revolucionária nas últimas décadas – sobretudo no âmbito da América Latina, em que se tenta a todo custo instrumentalizar a tradicional religiosidade cristã de nosso subcontinente em prol da revolução socialista. Ademais, é uma das mais torpes, ultrajantes e ignóbeis comparações que se pode fazer. Cristo propugnou a violência contra si mesmo – as paixões, as más inclinações, a concupiscência –, contra o homem velho, de modo a fazer prevalecer o homem novo, o homem sob a égide da Lei Divina, através de uma submissão voluntária e individual a Deus e Seus mandamentos. Este é o mesmo Jesus Cristo que, ante a turba revoltosa que queria apedrejar a adúltera, desafiou que lançasse a primeira pedra aquele que era livre do pecado; este é o Cristo que jamais endossaria a ideia de que “o ódio impiedoso do inimigo que nos ergue acima e além das limitações naturais do homem e nos transforma em eficazes, violentas, seletivas e frias máquinas de matar”.

Jesus mostrado como um revolucionário em cartaz da Organização de Solidariedade aos Povos da África, Ásia e América Latina (OSPAAAL) nos anos 1970.

Só há amor real, pungente, cristalino, belo e verdadeiro quando esse amor nos conduz a um estado unitivo não apenas com o objeto de nosso amor, mas com a própria ordem transcendente da qual esse amor emana. Quando se quer exercer esse amor fora dos limites traçados por essa ordem transcendente, o que ocorre é a degeneração do amor em excrecências do espírito – luxúria, obsessão, psicose, dentre outras. Não havia amor em Che Guevara: o que havia era a obsessão por um igualitarismo autoritário cuja superioridade moral não se encontrava na força das ideias ou na veracidade dos valores, mas nas pontas das baionetas e nos cartuchos dos fuzis. Não existe amor real em uma verdadeira revolução: o que existe é a demolição dos alicerces sobre os quais a própria natureza se sustenta.

2 comentários:

  1. "o que torna o amor angelical, o que o eleva acima da mera sentimentalidade instável e patética, é essa mesma crueldade, o seu elo com a violência – é esse elo que eleva o amor acima e além das limitações naturais do homem e o transforma em pulsão incondicional."

    Tá vendo, velho, esses esquerdistas ficam batendo punheta e não sabem o que é amar...

    Francamente.

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  2. Concordo com a crítica que fez ao Zizek.

    Não vou nem perder o tempo discutindo definições de amor, porque, como você mesmo levantou, isso não é possível dentro da construção de um conceito lógico, e, a título de opinião (acredito) levantou um conceito que se "poderia" atribuir à idéia de amor. Conceito que discordo, mas como somente poderei discutir numa base de "opinião", certamente não é válido para nenhuma argumentação.

    Também acho que não é viável, por enquanto, no ponto que eu quero levantar, discutir o problema na relação que é estabelecida entre Jesus e Ché Guevera. Podemos argumentar que tem relação por um lado, e por outro não. Afinal, são personagens diferentes da mesma história da civilização humana.

    E também não me importo com a crítica que fez a ele. Sei lá se ele foi o que fizeram dele, o que ele verdadeiramente pensava, até mesmo se foi verdadeiramente o que conhecemos.

    E concordo também que definitivamente o amor não é e nunca poderá ser um absoluto moral, colocado aqui como aquilo que seria a referência para guiar nossos atos na nebulosa e complexa construção do certo e do errado.

    Como poderíamos nos valer de algo que nem sabemos o que é para decidir sobre uma coisa tão intrínseca e importante na vida como a certeza moral de nossas atitudes?

    Mas discordo do absoluto moral apresentado como o amor que nos guiaria nessa busca.

    Já adianto que não tendo ao relativismo pós-moderno nessas questões.

    Você diz que "Só há amor real, pungente, cristalino, belo e verdadeiro quando esse amor nos conduz a um estado unitivo não apenas com o objeto de nosso amor, mas com a própria ordem transcendente da qual esse amor emana."
    Bem, ao que parece, aquela "opinião" estabelecida para o amor deixou de ser apenas uma opinião e se tornou um conceito real "Só há amor real, pungente, cristalino, belo e verdadeiro…" Qual o amor real? Qual a definição absoluta de amor que vamos nos basear para prosseguirmos com o raciocínio? Qual o amor "VERDADEIRO"?

    Porque é sobre esse entendimento que você desenvolve "quando esse amor nos conduz a um estado unitivo não apenas com o objeto de nosso amor, mas com a própria ordem transcendente da qual esse amor emana."

    Qual o objeto do amor? o ser? a idéia que temos dele? De onde ele emana? qual a sua fonte? Deus? Qual Deus? Yahweh? Javé? Allah? Jah? Ordem transcendente? o que vem a ser isso? Um complexo composto de muitas coisas ordenadas ou algo único e imutável?

    De onde você tira a sua noção de certo e errado?

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