quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Neymar, o Messias

Recentemente, uma série de distúrbios seriíssimos estourou no Oriente Médio e cercanias em virtude de um filme caseiro que fazia troça de Maomé e dos muçulmanos. Aproximadamente uma centena de pessoas foram mortas nos protestos que rasgaram o mundo islâmico – inclusive o então embaixador dos Estados Unidos na Líbia, Chris Stevens –, centenas de milhares de pessoas foram mobilizadas por clérigos islâmicos para mostrar a sua revolta de modo sangrento, e os velhos discursos contra o “Grande Satã” do Ocidente ecoaram novamente com força total. Curiosamente, a tradução e divulgação do filme no mundo islâmico foi promovida justamente por grupos radicais.

A celeuma estava pronta. Diversas lideranças mundiais condenaram tanto o filme (bobo e de muito mau gosto) quanto sua instrumentalização pelos líderes islâmicos, o diretor do filmeco teve o nome e o endereço divulgado pelas autoridades americanas, diversas ações judiciais correram o mundo, inclusive no Brasil, para proibir seu acesso, e, como sói acontecer, a turma de plantão do pluralismo e tolerância rosnou junto com os radicais.

Agora, vejam a imagem abaixo:


Essa, senhoras e senhores, é a capa da edição de outubro da revista Placar. Para qualquer pessoa com um mínimo de senso das coisas, essa capa parece desnecessariamente apelativa. Por quê? Ela nivela duas figuras essencial e completamente diferentes: endeusa alguém à custa da secularização de Alguém que, para 1/3 do gênero humano, é Deus feito homem. Comparar Neymar a Jesus Cristo, sobretudo da forma como isso foi feito, é, no mínimo, uma maneira bastante discutível de aumentar as vendas de uma revista – o que parece ser o único desejo da editora em questão. Para muitas pessoas, e eu me incluo nessa conta, essa capa não é apenas inadequada, mas despropositadamente ofensiva.

Decerto não veremos o Papa Bento XVI ou qualquer outro líder cristão de importância mundial conclamando uma guerra santa contra a revista, nem haverá aglomerações de pessoas em passeata atirando para o alto e atacando a polícia, muito menos matando qualquer pessoa, por conta dessa capa lamentável. Mas engana-se quem pensa que devemos ficar simplesmente passivos diante de algo aparentemente sem importância: é nosso direito – e, sobretudo àqueles que abraçam a fé cristã, um dever – manifestar nosso repúdio.

Acessem a página da revista Placar em que se encontra a notícia da capa e deixem seu comentário. Divulguem para outras pessoas e peçam que façam o mesmo. Não deixem isso passar em branco. E vamos esperar para ver se nossos amigos politicamente corretos dedicarão suas excelsas atenções a esse fato.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

UnB, a Nova Jerusalém marxista


“Completou-se o tempo e o Reino do Proletariado está próximo; arrependei-vos e crede no Manifesto.” Essa infame paródia do Evangelho (Marcos 1, 15) é algo que certamente traduz bastante o espírito de certas mentes revolucionárias que há décadas se valem da universidade para a doutrinação ideológica e para a legitimação acadêmica de seus dogmas, que nasceram deslocados da realidade mais profunda do ser humano. Isso não é novidade. A novidade é que, pouco a pouco, parece que alguns se esquecem dos cânones gramscianos e, digamos assim, perdem a vergonha na cara.

Entre os dias 22 e 26 de outubro, acontecerá na UnB a Semana Universitária. O evento costuma ter por objetivo abrir as portas da universidade à comunidade geral através de meios específicos – palestras, seminários, exposições, dentre outros – e promover atividades diversas de extensão. É um acontecimento central na vida da Universidade de Brasília. E, neste ano, teremos uma grande novidade.

Como todos devem (ou deveriam) saber, há na UnB o Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (CEAM), que agrega diversos núcleos de estudos temáticos. Os objetivos do CEAM são: “renovar conhecimentos;  unir ciência e humanismo para cumprir sua função social; integrar e dinamizar a universidade; conciliar o avanço científico especializado, de ponta, e o compromisso com a transformação social; recuperar a universalidade da ciência e do saber; socializar o conhecimento; e deselitizar o saber.” Alguns dos núcleos do CEAM oscilam entre delírios de pseudo-ciência – como o Núcleo de Estudos de Fenômenos Paranormais (NEFP), que “realiza pesquisas em conscienciologia, terapias integrativas, ufologia e astrologia” – e o mais rasteiro proselitismo político-ideológico – como o Núcleo de Estudos Cubanos (NESCUBA), que, nas palavras de sua própria coordenadora, tem por objetivo fazer propaganda da Revolução Cubana e do governo castrista.

Esse ano, mais um núcleo será criado pelo CEAM: o Núcleo de Estudos e Pesquisa Marxistas – NEMARX. De acordo com o site da Semana Universitária:
O “Núcleo de Estudos e Pesquisa Marxistas – NEMARX/UnB” pretende promover vínculos entre os grupos de pesquisa e extensão dos departamentos da UnB que tem por objeto a temática marxista e seus desdobramentos na organização da classe trabalhadora. Da mesma forma, busca estabelecer relações interinstitucionais com outros núcleos de pesquisa e extensão de outras universidades brasileiras.
Nossa sugestão de logo para o NEMARX/UnB. Lindo, não é?

Não basta termos cursos inteiramente orientados pela cantilena marxista – como Serviço Social, em cujo departamento pode-se encontrar uma foto imensa de um garboso Karl Marx ainda jovem –, ou a abundância de grupos de inspiração marxista que promovem, oficial e oficiosamente, o patrulhamento ideológico: é preciso também, pelo visto, um núcleo duro que coordene todo o trabalho de manutenção do status quo ideológico dentro da Universidade de Brasília. E tudo isso, claro, custeado com dinheiro público.

Georges Sorel, o pai do Sindicalismo, defendia que, para organizar as massas, era necessário que Marx fosse visto como um profeta, e seus escritos, como dogmas esotéricos. Na Universidade de Brasília, isso é pouco: Karl Marx é o verdadeiro Messias, e a UnB é sua Nova Jerusalém, de onde começará o Reino do Proletariado. 

Arrependei-vos, pois, fariseus burgueses e hereges capitalistas, e crede no Manifesto!

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Chapa 86 vence eleições da UnB




É oficial: a Chapa 86 – UnB Somos Nós, dos professores Ivan Camargo e Sônia Báo, venceu as eleições para a reitoria da UnB. De acordo com a apuração dos votos, a Chapa 86 recebeu 6.323 votos (1.051 docentes, 4.457 estudantes e 815 técnicos) contra 6.070 votos (732 docentes, 4.382 estudantes e 956 técnicos) da Chapa 80, dos professores Márcia Abrahão e Marcelo Bizerril. Hoje, o Conselho Universitário (CONSUNI) irá se reunir para montar a lista tríplice a ser enviada para a presidente Dilma Rousseff, que deverá homologar a escolha da comunidade.

Por mais que essa notícia seja boa, faz-se necessário lembrar algo muito importante: somos todos nós – docentes, estudantes, técnicos e comunidade geral – que fazemos a universidade. Assim sendo, é imprescindível a participação ativa de todos para o resgate da Universidade de Brasília. Como podemos fazer isso? Fiscalizando a atuação da administração, cobrando soluções pertinentes, auxiliando a gestão como for possível e, quando for o caso, protestando civilizadamente. A aposta em um projeto de universidade não deve se resumir a participar da escolha do reitor: ela deve desdobrar-se num compromisso cotidiano de todos.

Parabéns aos professores Ivan Camargo e Sônia Báo pela vitória. Parabéns à comunidade da UnB pela escolha.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Amnésia coletiva em Charlotte

Pierre-Yves Dugua
Le Figaro


Brilhante, espirituoso e sedutor, Bill Clinton defendeu em Charlotte (Carolina do Norte) Barack Obama diante de uma multidão de militantes democratas em delírio. A notícia foi devidamente divulgada pela imprensa, muito feliz em finalmente encontrar argumentos para justificar as políticas fracassadas de Barack Obama.

Há apenas um pequeno problema: Bill Clinton é em grande parte responsável pela crise que mergulhou o mundo em recessão a partir de 2008. Quando ele era presidente, Bill Clinton sancionou leis que provocaram um encadeamento catastrófico.

Quem removeu as barreiras entre os bancos de investimento e bancos de varejo? Bill Clinton.

Quem obrigou os bancos a emprestar às famílias insolventes? Bill Clinton.

Quem instaurou uma taxação dos ganhos de capital a uma taxa menor do que a renda normal? Bill Clinton.

Que reformou o sistema de ajuda aos desfavorecidos para elevar a ajuda ao nível de renda fixa? Bill Clinton.

Quem assinou acordos de livre comércio e encorajou a transferência de capitais e empregos na indústria para outros países? Bill Clinton.

É incrível que esses fatos básicos não sejam lembrados pelos democratas de hoje.

Eu li em todos os lugares que “Bill Clinton é um centrista que equilibrou o orçamento que George W. Bush, em seguida, detonou.”

Na verdade Bill Clinton iniciou seu mandato em 1993 exatamente como Barack Obama: com uma enorme inclinação para a esquerda. Ele tentou uma reforma da saúde e foi massacrado por um Congresso democrata. Ele também lutou, com o mesmo resultado, para que os homossexuais pudessem servir abertamente nas forças armadas.

Resultado: Do mesmo modo que Barack Obama, dois anos depois da posse, ele arrumou uma enorme derrota eleitoral para os democratas.

Em 1994, pela primeira vez desde os anos 50, os republicanos recuperaram o controle da Câmara dos Deputados.

Para sobreviver diante da crescente reação que se tornaria mais tarde o “Tea Party”, Bill Clinton fez compromissos e salvou a segunda metade de seu mandato. Os republicanos de Newt Gingrich bloquearam todas as iniciativas perdulárias. Em consequência, o orçamento foi equilibrado, graças também a um forte crescimento gerado por um enorme endividamento privado que começara a inchar o que mais tarde seria chamado de “bolha imobiliária” e “bolha da internet”. E Bill Clinton tinha a ajudá-lo neste período de euforia que deveria ser considerada danosa um certo Alan Greenspan, presidente do Fed.

Isso não quer dizer que a política fiscal de George W. Bush não iria piorar a situação no futuro. É óbvio que sim.

Mas apresentar Bill Clinton hoje como um santo, injustamente perseguidos pelos perversos republicanos, é muito chocante.

E eu nem mesmo falo do seu comportamento em relação às mulheres. Estas, a acreditarmos nos democratas, o perdoaram.

Pierre-Yves Dugua é correspondente de economia nos Estados Unidos para o jornal diário Le Figaro.
Tradução: Jorge Nobre, estudante de Letras - Tradução Francês da UnB

Teste seu esquerdismo

Rodrigo Sias
Mídia Sem Máscara


A esquerda brasileira alcançou o auge de seu poder com a vitória eleitoral de Dilma Rousseff para presidência da nação em 2010. Depois de 8 anos de FHC e mais 8 anos de Lula, a esquerda já garantiu, no mínimo, 20 anos ininterruptos de comando do país.

E assim seria mesmo caso Dilma não tivesse vencido. Em todas as últimas três eleições presidenciais, não havia um único representante de algo que pudéssemos caracterizar vagamente de “expressão política de direita”.

Quando muito, observaram-se algumas vozes isoladas ou forças descaracterizadas e fazendo mil e uma concessões ao discurso esquerdista reinante.

Na última eleição, a única boa novidade para a “direita”, foi o movimento anti-abortista, o qual levou as eleições para o 2º turno, quando já não havia mais dúvida de que Dilma seria vitoriosa ainda no 1º turno.

Como isto aconteceu?

Uma das explicações é de que as forças conservadoras do país, convencidas por seus próprios adversários de que a queda do Muro de Berlim em 1989 e o fim da URSS dois anos depois punham fim ao marxismo e a ideia de revolução, foram todas subjugadas e dominadas com seu próprio consentimento, caindo na estratégia gramsciana de FHC e do Partido dos Trabalhadores.

Uma direita descaracterizada e usando a linguagem da esquerda é justamente o resultado da “guerra cultural” preconizada por Antônio Gramsci, cujo objetivo era a transformação do Partido Comunista em um “ente invisível”, um “imperativo categórico”, o qual dominaria todos os aspectos da vida terrena, antes mesmo da tomada do poder propriamente dito.

Invariavelmente, percebo que várias pessoas que se consideram conservadoras ou liberais – ou basicamente de “direita” – acreditam e, muitas vezes defendem, a agenda política da esquerda em temas como liberação das drogas, aborto, eutanásia e casamento entre pessoas do mesmo sexo. Muitas ainda possuem uma percepção totalmente equivocada da história e mesmo dos processos políticos.

Essa constatação empírica mostra como a esquerda no Brasil alcançou o ideal do lendário estrategista militar chinês Sun Tzu em seu clássico livro “A Arte da Guerra”:
Lutar e vencer todas as batalhas não é a glória suprema. A glória suprema consiste em quebrar a resistência do inimigo sem lutar. É preferível capturar o exército inimigo a destruí-lo. (…) Dominar o inimigo sem combater, isso sim é o cúmulo da habilidade.
Para reverter esse estado de coisas, as forças contrárias ao chamado “marxismo cultural” devem estar cientes da estratégia dos adversários e conhecer profundamente as teses nas quais devem contrapor-se.

Tendo esse panorama em mente, bolei uma série de três testes com perguntas sobre história mundial, história do Brasil, cultura, política, direito, economia, dentre outros assuntos, para diagnosticar o quanto a mente de liberais e conservadores – “direitistas” por assim dizer – foi abalada pela guerra cultural.

Recorrendo novamente a Sun Tzu, para vencer uma batalha é necessário conhecer seu adversário e ter um profundo autoconhecimento.

“Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas. (...) É de suprema importância atacar a estratégia do inimigo.”

Serão 21 perguntas divididas em três testes. Cada pergunta possui quatro alternativas com uma pontuação distinta. Ao final do teste, soma-se a pontuação e tem-se um pequeno diagnóstico da situação. As respostas serão apresentadas no fim de cada teste.

TESTE 1

1) Qual foi o serviço secreto estrangeiro que mais operou durante o início da década de 60 no Brasil, em especial, no período antes da deposição de João Goulart?
a) CIA, o serviço secreto dos EUA.
b) MI6, o serviço secreto da Inglaterra.
c) Mossad, o serviço secreto de Israel.
d) O serviço secreto de Cuba, DGI, contado com apoio do serviço secreto soviético, a KGB.

2) O “Regime de 64” (1964-1985) foi responsável por quantas mortes e desaparecimentos políticos?
a) Cerca de 400 mortes e desaparecimentos.
b) Cerca de 30 mil mortes e desaparecimentos.
c) Cerca de 1 milhão de mortes e desaparecimentos.
d) Cerca de 3 mil mortes e desaparecimentos.

3) O Nacional Socialismo ou Nazismo de Adolf Hitler era um movimento:
a) Capitalista e reacionário.
b) Revolucionário e totalitário.
c) Nacionalista de direita.
d) Conservador de direita.

4) O Partido da Social Democracia Brasileira, o PSDB, pertence a qual posição ideológica?
a) Direita.
b) Centro-direita.
c) Extrema-direita.
d) Centro-esquerda.

5) A Inquisição da Igreja Católica, em 12 séculos de funcionamento, condenou à morte por heresias e outros crimes:
a) Estatísticas variam, mas é seguro afirmar que a Inquisição matou menos de 10 mil pessoas em mais de 1.200 anos de funcionamento, mostrando inclusive maior clemência que tribunais civis da época.
b) De 4 a 5 milhões de pessoas, perseguindo judeus, gays e minorias em geral.
c) De 10 a 20 milhões de pessoas, destruindo grande parte da população europeia.
d) De 700 a 900 mil pessoas, em sua maioria acusadas de bruxaria ou sodomia.

6) A grande mídia brasileira – jornais de circulação nacional e TV de alcance nacional –, em relação ao fenômeno da “guerra cultural”, são ideologicamente:
a) Comprometidos, ou seja, colaboram com a “guerra cultural”.
b) De direita, ou seja, atacam os valores progressistas e oprimem a livre expressão artística, só a aceitando, quando são lucrativas.
c) De extrema direita, ou seja, tentam impor seus valores reacionários à população.
d) Neutros, ou seja, apenas transmitem com preocupações na audiência e na lucratividade.

7) A “Teologia da Libertação” é:
a) Um sintoma e o resultado da infiltração comunista na Igreja Católica.
b) Um movimento de renovação da Igreja Católica.
c) Uma ala da Igreja com maiores preocupações com os pobres e excluídos.
d) Um movimento teológico que se desvirtuou e se transformou em um movimento meramente político.

TESTE 2

1) As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – FARC são um grupo de guerrilheiros militantes que:

a) Se desvirtuaram dos ideais comunistas para seguir práticas capitalistas como o tráfico de drogas.
b) É ligado aos indígenas e à população excluída da Colômbia.
c) Seguem a tradição comunista de se financiar com atividades ilegais, estando integradas na ação do Foro de São Paulo.
d) Não abandonou os ideais políticos e usa o tráfico de drogas para se manter ativamente na vida política colombiana.

2) Ernesto “Che” Guevara foi:
a) Um assassino guerrilheiro, tipicamente comunista.
b) Um homem de belos ideais e preocupações humanitárias, mal compreendido.
c) Um combatente contra o Imperialismo dos EUA.
d) Um bandido assassino sem nenhuma ideologia que só criou problemas por onde andou.

3) O Foro de São Paulo, criado em 1990, é:
a) Um ambiente de debates com viés de esquerda, sobre os problemas latino-americanos.
b) Um órgão conspirador e articulador das esquerdas latino-americanas para orquestrar e articular a tomada de poder na região.
c) Um fórum de debates entre fósseis comunistas, cheios de ideais retrógrados, mas sem implicações práticas para a política na América Latina.
d) Uma invenção da extrema-direita com o objetivo de denegrir a imagem das esquerdas latino-americanas.

4) A recém-inaugurada “Comissão da Verdade” tem como principal objetivo:
a) Satisfazer o desejo de dinheiro por parte de ex-militantes de esquerda.
b) Reparar e promover conforto às vitimas da perseguição do Estado durante a Ditadura Militar.
c) Permitir investigações sobre o período da Ditadura Militar Brasileira.
d) Desmoralizar as Forças Armadas e reescrever a história com mentiras oficiais,além de extorquir recursos financeiros do Estado.

5) Escolha a sentença que melhor representa o significado da chamada “luta pela legalização do aborto”.
a) É um direito de a mulher decidir sobre seu próprio corpo sem as limitações impostas pela sociedade machista.
b) Trata-se do nome propagandístico dado ao subsídio direto e indireto de grandes fundações bilionárias para viabilizar um necessário controle de natalidade, em especial, no 3º Mundo.
c) É parte de um programa fanático cujo objetivo é o controle de natalidade, a destruição da família tradicional e a maior intervenção do Estado na vida dos cidadãos.
d) Baseia-se no princípio do Estado Laico e é necessário para um aprimoramento do planejamento familiar, impedindo mulheres pobres de abortarem em clínicas clandestinas.

6) O poderoso comércio internacional de drogas desenvolveu-se:
a) Por conta da proibição arbitrária do consumo de drogas.
b) Como parte de uma estratégia soviética para atacar as bases da civilização ocidental.
c) Como consequência da dinâmica perversa do Capitalismo, que possibilita o conluio entre bancos, traficantes e vendedores de armas.
d) Como caminho natural da ação de gângsteres e bandidos, no rastro de Estados falidos e polícias corruptas.

7) A visão da esquerda sobre os fatos e realidades do mundo:
a) É decorrente de um senso moral invertido e de uma ideia psicótica da realidade baseada, entre outras premissas, na “luta de classes”.
b) Expõe maiores preocupações sobre a situação dos pobres e excluídos.
c) É moldada por ideias estereotipadas e simplistas acerca das grandes questões.
d) Baseia-se em interpretações equivocadas, porém, utópicas sobre os problemas das pessoas.

TESTE 3

Terminando a série “Teste seu esquerdismo”, apresento mais uma rodada de 7 perguntas para testar a dimensão do estrago feito pela Guerra Cultural gramsciana. Vamos a elas:

1) O casamento entre pessoas do mesmo sexo é:
a) Um direito negado aos homossexuais por conta de preconceitos religiosos.
b) Uma anomalia jurídica inventada com o objetivo de demolir as bases do Direito de família e reinventar a própria noção de família.
c) Uma modernização no arcabouço legal para abarcar novas modalidades de relacionamento.
d) Uma reinvindicação desnecessária do ponto de vista legal, uma vez que os parceiros homossexuais podem recorrer a outros mecanismos em casos de herança e partilha de bens.

2) O projeto de desarmamento com fins de diminuição da violência no Brasil é uma campanha:
a)  Patética do ponto de vista prático e repressora do ponto de vista moral e político, pois quer retirar do cidadão comum o direito a autodefesa.
b) Uma medida populista, sempre aventada em grandes emergências, mas sem grandes efeitos.
c) Muito necessária, pois somente o Estado possui o monopólio do uso da força.
d) Essencial, pois precisamos de uma sociedade sem armas e sem violência.

3) Quando assumiu o governo, Lula passou a aplicar o programa econômico constante na “Carta ao Povo Brasileiro”, que, em resumo, se comprometia com o respeito aos contratos e com uma gestão ortodoxa da economia brasileira. Deste fato podemos tirar as seguintes conclusões:a) Lula abandonou os ideais da esquerda e passou para o lado conservador.
b) Tratava-se apenas de uma concessão temporária para ganhar a confiança do empresariado – tal como fez Lenin com a NEP de 1921 – enquanto o ideal esquerdista ia sendo implementado em todas as outras áreas.
c) Lula manteve-se fiel às ideias de esquerda, mas como é pragmático, preferiu uma gestão mais conservadora na economia.
d) Na área econômica, com a queda do Muro de Berlim, todas as esquerdas que tomaram o poder, passaram a utilizar uma politica econômica ortodoxa, e Lula não foi uma exceção.

4) A Segunda Guerra Mundial foi causada fundamentalmente por:
a) Por uma disputa imperialista por mercados e recursos naturais
b)  Stalin, que foi quem a planejou, armando a Alemanha nazista para usá-la como “navio quebra gelo da revolução”.
c) Por regimes militaristas e suas ambições de conquista mundial.
d) Por interesse das potências europeias em destruir a URSS.

5) O século XX foi o mais violento da história. Isso se deveu, entre outras coisas:
a) Devido ao grande avanço do capitalismo imperialista, que tentou destruir o bloco socialista através de inúmeras guerras, em especial, durante a 2ª Guerra Mundial.
b) O desenvolvimento da indústria armamentista, que passou a produzir armas cada vez mais mortíferas, visando lucros.
c) A inauguração da era do genocídio em massa, baseada em ideologias totalitárias e revolucionárias, dentre elas, o nazismo e o comunismo.
d) O advento das armas nucleares que passaram a assombrar o mundo desde então.

6) A ascensão das esquerdas em toda a América Latina deve-se principalmente:
a) À insatisfação com os governos neoliberais anteriores, que falharam em atender as necessidades básicas da população.
b) À articulação estratégica e tática feita por diversas forças políticas latino-americanas no âmbito do Foro de São Paulo.
c) Uma “onda política” típica em uma região marcada pela desigualdade e a exclusão social.
d) À conscientização política da população de baixa renda e à articulação de movimentos sociais.

7) A suspensão do Paraguai do bloco econômico MERCOSUL é mais bem explicada pela seguinte sentença abaixo:
a) Os governos de Argentina, Brasil e Uruguai estão comprometidos com a democracia e não poderiam tolerar o “golpe de Estado branco” contra o ex-presidente Fernando Lugo.
b) A deposição de Lugo foi uma desculpa oportunista para incorporar a Venezuela no Mercosul, ignorando a vontade do Parlamento paraguaio e cumprindo a estratégia moldada no Foro de São Paulo.
c) Foi uma jogada audaciosa da diplomacia brasileira para ganhar mercados para nossa indústria na Venezuela.
d) Revela mais uma vez a incompetência e o despreparo da diplomacia presidencial petista para lidar com os conflitos no âmbito regional.

Gabarito do Teste 1

Pergunta 1
a) 2 pontos
b) 1 ponto
c) 3 pontos
d) 0 pontos

Pergunta 2
a) 0 pontos
b) 2 pontos
c) 3 pontos
d) 1 ponto

Pergunta 3
a) 2 pontos
b) 0 pontos
c) 1 ponto
d) 3 pontos

Pergunta 4
a) 2 pontos
b) 1 ponto
c) 3 pontos
d) 0 pontos

Pergunta 5
a) 0 pontos
b) 2 pontos
c) 3 pontos
d) 1 ponto

Pergunta 6
a) 0 pontos
b) 2 pontos
c) 3 pontos
d) 1 ponto

Pergunta 7
a) 0 pontos
b) 3 pontos
c) 2 pontos
d) 1 ponto

Resultado

0 pontos – Parabéns, você não foi contaminado pela guerra cultural marxista, tem ideias coerentes com seu pensamento conservador e percepções acertadas sobre a realidade.
1 a 6 pontos – Você está bem preparado para resistir à guerra cultural. Mais um pouco de estudo e a cantilena revolucionária nunca mais irá lhe afetar.
7 a 16 pontos – O estágio de contaminação gramsciana em sua cabeça atingiu níveis alarmantes. Um pouco de estudo faria bem.
17 a 21 pontos – Você tem certeza que não é comunista? Está na hora de rever todos os seus conceitos.

Gabarito do Teste 2

Pergunta 1
a) 3 pontos
b) 2 pontos
c) 0 pontos
d) 1 ponto

Pergunta 2
a) 0 pontos
b) 3 pontos
c) 2 pontos
d) 1 ponto

Pergunta 3
a) 2 pontos
b) 0 pontos
c) 1 pontos
d) 3 pontos

Pergunta 4
a) 1 ponto
b) 3 pontos
c) 2 pontos
d) 0 pontos

Pergunta 5
a) 3 pontos
b) 1 ponto
c) 0 pontos
d) 2 pontos

Pergunta 6
a) 2 pontos
b) 0 pontos
c) 3 pontos
d) 1 ponto

Pergunta 7
a) 0 pontos
b) 3 pontos
c) 1 ponto
d) 2 pontos

Resultado

0 pontos – Parabéns! Seu pensamento conservador está intacto e você não foi contaminado pela guerra cultural marxista.

1 a 6 pontos – Alguns deslizes pouco sérios. Nada que um pouco mais de leitura e amadurecimento não resolva.

7 a 16 pontos – Sinal de alerta. A contaminação esquerdista em sua cabeça atingiu níveis perigosos. Evite contato prolongado com professores de história do ensino médio e busque outras fontes de conhecimento que não jornais e livros didáticos.

17 a 21 pontos – Você tem certeza que não é filiado ao Partido Comunista?

Gabarito do teste 3

Pergunta 1
a) 3 pontos
b) 0 pontos
c) 2 pontos
d) 1 ponto

Pergunta 2
a) 0 pontos
b) 1 ponto
c) 2 pontos
d) 3 pontos

Pergunta 3
a) 3 pontos
b) 0 pontos
c) 1 ponto
d) 2 pontos

Pergunta 4
a) 3 pontos
b) 0 pontos
c) 1 ponto
d) 2 pontos

Pergunta 5
a) 3 pontos
b) 2 pontos
c) 0 pontos
d) 1 ponto

Pergunta 6
a) 3 pontos
b) 0 pontos
c) 2 pontos
d) 1 ponto

Pergunta 7
a) 3 pontos
b) 0 pontos
c) 2 pontos
d) 1 ponto

Resultado

0 pontos – Parabéns, você não foi contaminado pelo bombardeio esquerdista, e mantém ideias coerentes com seu pensamento conservador.

1 a 6 pontos – Você está bem preparado para resistir à guerra cultural. Basta corrigir alguns conceitos e a cantilena revolucionária nunca mais irá lhe afetar.

7 a 16 pontos – A contaminação gramsciana em sua cabeça já praticamente destruiu todos os seus resquícios conservadores. É necessária muita reflexão para reparar os danos.

17 a 21 pontos – Você tem certeza de que não é um petista?

terça-feira, 11 de setembro de 2012

UnB cai em ranking internacional de universidades


Foi divulgada essa semana a nova lista do QS World University Rankings®, um dos melhores e mais prestigiosos rankings universitários internacionais. Além de listar as melhores universidades a nível mundial, a listagem também é dividida por regiões.

A edição de 2011 do QS World University Rankings® foi a primeira a analisar de modo mais pormenorizado as universidades da América Latina. Nessa edição, o pódio ficou com a Universidade de São Paulo (1º lugar), a Pontifícia Universidade Católica do Chile (2º lugar) e a Universidade de Campinas (3º lugar). A Universidade de Brasília apareceu na 11ª colocação regional, ficando entre as posições 551ª e 600ª a nível mundial. Apesar do fraco desempenho global, a posição regional da UnB não foi das piores.

No entanto, o desempenho da Universidade de Brasília sofreu uma queda assustadora neste ano: passamos para a 25ª posição geral regional – uma queda de 14 posições em comparação com o ano passado. Alguns índices específicos da UnB apresentam desempenho ainda pior: estamos na 134ª posição latino-americana em reputação empregatícia e 112ª posição latino-americana em citações por paper. Para saber mais, acesse aqui o ranking da América Latina.

Essa regressão da posição da Universidade de Brasília dentro de um contexto internacional mostra claramente que, ao contrário do que os serviços oficiais de propaganda têm tentado alardear, a situação da instituição está cada dia pior. O Grande Timoneiro José Geraldo afirmou recentemente: “Qualquer que seja o ranking considerado, confirmamos a linha ascendente e contínua da percepção de qualidade da UnB pela sociedade.” É um tanto estranho pensar em uma queda de 14 posições num dos mais respeitados rankings internacionais de instituições de ensino superior como sendo uma “linha ascendente e contínua”... Mas, afinal de contas, nunca se sabe, não é?

Por que Robespierre escolheu o Terror

As lições da primeira revolução totalitária. [1]

John Kekes
FrontPage Magazine


A atitude americana em relação à Revolução Francesa foi em geral favorável – muito natural para uma nação nascida ela própria de uma revolução. Mas há revoluções e revoluções, e a Revolução Francesa está entre os piores. Sim, em nome da liberdade, igualdade e fraternidade, ela derrubou um regime corrupto. Mas o resultado desses belos ideais foram, primeiro, o Terror e o genocídio na França e, depois, Napoleão e suas guerras, que custaram centenas de milhares de vidas na Europa e na Rússia. Depois deste massacre inútil veio a restauração do mesmo regime corrupto que a Revolução derrubara. Além de um imenso sofrimento, a revolta nada conseguiu.

Liderando a traição aos ideais iniciais da Revolução e sua transformação em uma tirania de ideologia homicida estava Maximilien Robespierre, um monstro que criou um sistema explicitamente feito para matar milhares de inocentes. Ele sabia exatamente o que estava fazendo, ele fez o que pretendia fazer, e ele acreditava estar certo em fazer o que fez. Ele é o protótipo de um particularmente odioso tipo de malfeitor: o ideólogo que acredita que a razão e a moralidade estão do lado de seus açougueiros. Lenin, Stalin, Hitler, Mao e Pol Pot foram feito do mesmo molde. Eles são os típicos inimigos da humanidade em tempos modernos, mas Robespierre tem boas razões para alegar ter sido o primeiro. Compreender suas motivações e raciocínio aprofunda nossa compreensão dos piores horrores do passado recente e aqueles que podem nos espreitar no futuro.

Historiadores distinguem três fases da Revolução Francesa. A última, o Terror, aconteceu aproximadamente em 1793-94. Começou com a queda dos girondinos moderados e adesão dos jacobinos radicais de poder. Como os jacobinos ganharam o controle do Comitê de Salvação Pública, o qual por sua vez controlava o legislativo (a Convenção), as disputas entre as facções se aguçaram. Depois de um interregno de poder compartilhado, Robespierre tornou-se ditador e o Terror se agravou. Ele tomou a forma de prisões, julgamentos farsescos e a execução de milhares de pessoas, incluindo os líderes dos girondinos e os jacobinos de facções opostas que eram suspeitos de oposição – ativa ou passivamente, real ou potencialmente – às políticas ditadas por Robespierre.

Maximilien Robespierre

Os partidários de Robespierre fora da Convenção era uma multidão a vagar pelas ruas de Paris, o centro da Revolução. Grandes partes de França foram escassamente envolvidas, para a maioria das pessoas, a vida continuou como antes da Revolução. A multidão em Paris era composta principalmente de marginais sans-culottes (“sem calções”), que se mantinham por uma mistura de crime, prostituição, mendicância e biscates. Robespierre e seus seguidores os incitavam a ação sempre que a conveniência política exigia isso. Mas mesmo sem incitações, e sem nada melhor para fazer, eles formavam a multidão que assistia as execuções públicas, escarnecendo e abusando daqueles prestes a morrer, alegrando-se com as cabeças decepadas, adulando os líderes temporariamente no poder, e os amaldiçoando quando eles caiam. Como moscas, eles estavam em todo lugar que a Revolução seguia em seu caminho sangrento. Seu enfurecido, ansioso zumbido formava o fundo medonho da matança dos inocentes.

Nós não devemos permitir que distância histórica e retórica revolucionária torne obscura a selvageria do Terror. As descrições que se seguem são apenas umas poucas entre muitas que poderiam ser dadas. Stanley Loomis escreve em “Paris in the Terror” que, nos Massacres de Setembro de 1792, “o trabalho sangrento durou cinco (...) dias e noites. Na manhã do terceiro dia, a prisão de La Force foi invadida e aqui ocorreu o assassinato da Princesa de Lamballe (...). O frenesi dos assassinos loucos e bêbados parece ter atingido seu ponto máximo em La Force. Canibalismo, estripação e atos de ferocidade indescritível aconteceram aqui. A princesa (...) se recusou a jurar que odiava o Rei e a Rainha e foi devidamente entregue à multidão. Ela foi executada com um golpe de lança, seu coração ainda batendo foi arrancado do corpo e devorado, suas pernas e braços foram cortados de seu corpo e disparados por um canhão. Os horrores que foram cometidos em seu torso estripado são indescritíveis (...). Tem se suposto levianamente (...) que a maioria das outras vítimas eram, como ela, aristocratas – uma suposição que, por algum motivo curioso, é freqüentemente considerada um atenuante para esses crimes. Muito poucas vítimas foram, na verdade, da antiga nobreza, menos de trinta das mil e quinhentas que foram mortas.”

O que Robespierre tinha liberado foram os mais depravados impulsos de escória da sociedade. A anarquia resultante temporariamente serviu a seu propósito, assim como a Kristallnacht serviu ao de Hitler, os expurgos ao de Stalin, e a revolução cultural ao de Mao. Cada um perpetrou o terror para reduzir os oponentes a uma submissão abjeta e estabelecer-se mais firmemente no poder.

Tendo assegurado Paris, em 1793, Robespierre nomeou comissários para impor sua interpretação da Revolução fora da capital. Na cidade de Lyon, escreve Simon Schama em “Cidadãos”, a guilhotina começou seu trabalho, mas verificou-se ser “uma maneira confusa e inconveniente de eliminação do lixo político (...). Alguns condenados, então, foram executados em fuzilamentos em massa.... Cerca de 60 prisioneiros foram amarrados em uma linha por cordas e fuzilados com canhão. Aqueles que não morreram imediatamente pelo fogo foram mortos com sabres, baionetas e rifles (...). Quando os assassinatos (...) terminaram, mil novecentas e cinco pessoas haviam encontrado o seu fim.” O comissário de Nantes “complementaria a guilhotina com (...) deportações verticais (...). Buracos foram perfurados nos lados das (...) barcaças (...). Os prisioneiros eram postos dentro com as mãos e pés amarrados e os barcos empurrados para o centro do rio (...). As vítimas impotentes assistiam a ascensão de água sobre eles (...). Os presos foram despojados de suas roupas e pertences (...). Moços e moças foram amarrados juntos nus nos barcos. As estimativas das pessoas que morreram desta forma variam muito, mas certamente não foram menos que dois mil.”

No massacre da Vendeia, segundo Schama, “toda atrocidade que se poderia imaginar naquele tempo foi infligida a população indefesa. Mulheres foram rotineiramente estrupadas, crianças assassinadas, ambas mutiladas (...). Em Gonnord (...) duzentos velhos e velhas, juntamente com mães e crianças, foram forçadas a se ajoelhar diante de um grande poço que eles tinham cavado. Eles foram então fuzilados de modo a cair em seu próprio túmulo. Trinta crianças e duas mulheres foram enterradas vivas quando a terra foi jogada no buraco. Em Paris, Loomis escreve, Robespierre ordenou à corte de farsantes [2], também conhecida como Tribunal Revolucionário, ser “tão ativa quando o próprio crime e concluir todos os casos dentro de vinte e quatro horas”. “As vítimas eram conduzidas para a sala de audiência pela manhã e, não importando quantas poderiam ser, seu destino estava decidido no máximo até as duas horas da tarde do mesmo dia. Por volta das três horas seus cabelos eram cortados, suas mãos amarradas e elas eram postas nos carros dos condenados em seu caminho para o cadafalso”. “Entre 10 de junho e 27 de julho de 1793 (...) 1.366 vítimas pereceram”. A maioria dessas pessoas eram inocentes de qualquer crime e não podiam se defender contra acusações das quais elas sequer eram informadas.

O massacre de Vendeia, por Jean Sorieul (1853).

Essas atrocidades não foram infelizes excessos indesejáveis de Robespierre e seus partidários, mas as previsíveis conseqüências de uma ideologia que dividia o mundo entre os “amigos” e os subumanos “inimigos”. A ideologia era o repositório da verdade e do bem, a chave para a felicidade da humanidade. Seus inimigos tinham que ser exterminados sem piedade porque eles estavam no caminho. Como os ideólogos viam, o futuro da humanidade era uma aposta alta o bastante para justificar qualquer ato que servisse a seu propósito. Como Loomis escreveu, “Todos os que desempenharam um papel nesse drama (…) acreditavam que estavam motivados por patrióticos e altruístas impulsos. Foram capazes de valorizar mais as suas boas intenções que a vida humana. Não há crime, nem assassinato, nem massacre que não possa ser justificado, se provado que foi cometido em nome de um ideal”.

O ideal, no entanto, era simplesmente o que Robespierre dizia que era. E a lei era o que Robespierre e seus seguidores desejavam que fosse. Eles mudavam isso a seu bel-prazer e determinavam se sua aplicação num caso particular era justa. A justificação de monstruosas ações apelando a um ideal passionalmente conduzido, elevado a protótipo de razão e moralidade, é uma marcante característica de ideologias políticas no poder. Para os comunistas, era uma sociedade sem classes. Para os nazistas, pureza racial. Para os terroristas islâmicos, sua interpretação do Corão. A característica comum é que o ideal, de acordo com seus verdadeiros crentes, é imune à crítica racional ou moral, porque ele é o que determina o que é razoável e moral.

Norman Hampson nota em sua biografia de Robespierre que “o tribunal revolucionário (...) tinha-se tornado uma máquina de assassinato indiscriminado. (...) Imaginárias (...) conspirações e acusações absurdas eram acontecimentos cotidianos”. Como Robespierre deixou claro: “Deixe-nos reconhecer que há uma conspiração contra a liberdade pública (...). Qual é o remédio? Punir os traidores.” Hampson escreve: “Robespierre tomou a atitude que a clemência (...) era uma forma de auto-indulgência sentimental que teria de ser paga em sangue”. Ele declarou: “Existem apenas dois partidos na França: o povo e seus inimigos. Temos que exterminar esses vilões miseráveis que estão eternamente conspirando contra os direitos do homem (...), temos que exterminar todos os nossos inimigos.”

Robespierre, conta Schama, “se rejubilou que ‘um rio de sangue agora separa a França de seus inimigos’.”

O resultado desse clima de histeria foi o Decreto de Robespierre do dia 22 de Prairial. Ele “expressava, em princípio, a opinião de todo o Comitê [de Salvação Pública]”, escreve J. M. Thompson em sua biografia de Robespierre. “O Comitê era fanático o suficiente para aprovar, e a Convenção poderosa o suficiente para impor, como um Novo Modelo da justiça republicana (...) uma lei que negava aos presos com a ajuda de um advogado, tornava possível ao juiz dispensar testemunhas, e não permitia qualquer sentença além da absolvição ou a execução. Uma lei que, ao mesmo tempo, definia crimes contra o Estado em termos tão amplos que a menor indiscrição alguém poderia incorrer no artigo de morte. Para qualquer homem sensato ou misericordioso tal procedimento deve parecer uma paródia de justiça.”

Fortalecido por este modelo republicano de justiça, o Tribunal Revolucionário enviou à morte 1.258 pessoas em nove semanas, tantos como durante os 14 meses precedentes. “O fato inescapável” sobre Robespierre, nota Hampson, é que “no âmbito de um sistema judicial que ele iniciou e ajudou a dirigir (...) um governo do qual ele era, talvez, o membro mais influente, perpetrou as piores barbaridades do Terror (...). Nenhuma defesa é possível para os indiscriminados massacres (...) em que (...) uma taxa média de trinta e seis pessoas por dia foram enviados para a guilhotina.”

Robespierre “tornou-se tão incapaz de distinguir o certo do errado – para não mencionar crueldade de humanidade – como um cego de distinguir a noite do dia.” Vamos agora tentar entender o seu estado de espírito.

Robespierre nasceu em 1758 na cidade de Arras. Seu pai era um advogado sem sucesso. Sua mãe, filha de um fabricante de cerveja, morreu de parto quando Robespierre tinha seis anos. Poucos meses depois da morte dela, o pai abandonou seus quatro filhos pequenos. Robespierre e seu irmão foram viver com os avós maternos. Aos 11 anos, o que não era uma idade incomum naqueles dias, Robespierre ganhou uma bolsa para a Universidade de Paris. Depois de dez anos lá, ele obteve uma licenciatura em Direito, voltou a Arras e começou a praticar a lei. No começo de 1789 ele ganhou uma eleição para representar o Terceiro Estado de Arras na Convenção. Começando como um democrata radical, tornou-se, com o desenvolvimento da revolução, mais e mais radical.

A Convenção

Robespierre nunca se casou. Não são conhecidos seus casos amorosos. Ele também não tinha qualquer interesse em sexo, dinheiro, culinária, artes, natureza, ou realmente qualquer coisa além de política. Ele tinha cerca de cinco pés e três polegadas de altura, com uma constituição leve, uma pequena cabeça sobre os ombros largos e cabelos castanhos claro. Ele tinha “espasmos nervosos que, ocasionalmente, torcia seu pescoço e ombros e exibia, ao apertar suas mãos, movimentos característicos e piscadelas de suas pálpebras”, diz Thompson. Vestia-se elegantemente e usava óculos “que ele tinha o hábito de empurrar para cima na testa (…) quando queria olhar alguém no rosto”. “Sua expressão habitual parecia melancolia a seus amigos e arrogância a seus inimigos. Às vezes ele ria com a imoderação de um homem com pouco senso de humor, às vezes o olhar frio se abrandava em um sorriso de doçura irônico e bastante alarmante.” Com sua voz estridente e áspero “seu poder como um orador (...) residia menos em como ele se apresentava e mais na seriedade do que ele tinha a dizer, e na profunda convicção com que ele dizia.”

Robespierre não fez segredo de suas convicções. Ele as expressou em vários discursos cruciais, cujas cópias, escritas por ele mesmo, sobreviveram. Em seu discurso de agosto 1792, Robespierre disse que a França estava vivendo um dos grandes acontecimentos da história humana. Depois de um período inicial de hesitações, a Revolução de 1789 transformou-se em agosto de 1792 “a melhor revolução que já honrou a humanidade, realmente a única com um objetivo digno do homem: basear as sociedades políticas no mínimo sobre os princípios imortais de igualdade, justiça e razão.” A Revolução era a melhor de todas porque, pela primeira vez na história, “a arte de governar” não visava “enganar e corromper o homem”, mas sim “iluminá-los e aperfeiçoá-los”. A tarefa da Revolução era “estabelecer a felicidade de, talvez, toda a raça humana”. “O povo francês parece ter-se distanciado do resto da raça humana por dois mil anos.”

Mas um sério obstáculo barrava o caminho. “Dois espíritos opostos (...) [estão] em contenda pelo domínio (...) [e] o disputam nesta grande época da história humana, para determinar para sempre os destinos do mundo. A França é o teatro deste combate terrível”. Os conflitos entre os amigos e os inimigos da Revolução “são meramente a luta entre interesses privados e o interesse geral, entre egoísmo e ambição de um lado e justiça e humanidade do outro”. Todas as escolhas políticas de então, conseqüentemente, eram escolhas entre o bem e o mal, permitindo a Robespierre demonizar seus oponentes.

Note que ao declarar como objetivo de criar uma sociedade onde “os princípios imortais de igualdade, justiça e razão” prevaleceriam, Robespierre simplesmente descartou a liberdade e a fraternidade, substituindo o que ele considerava como a justiça e a razão. A justificação dos massacres foi que os mortos eram inimigos da república, contra-revolucionários que tinham conspirado contra a igualdade, a justiça e a razão cuja realização “estabeleceriam a felicidade de, talvez, toda a raça humana.” O eixo sobre o qual tudo girava eram aqueles princípios de igualdade, justiça e razão, que Robespierre enunciou em uma declaração que formou a base da Constituição de 1793. Alguns trechos: “Artigo 1. O objeto de toda associação política é a salvaguarda dos direitos naturais e imprescritíveis do homem.” “Artigo 3. (...) direitos pertencem igualmente a todos os homens, independentemente das suas diferenças físicas e morais.” “Artigo 4. Liberdade é o direito de cada homem exercer todas as suas faculdades à vontade. Sua regra é a justiça, seus limites são os direitos dos outros, a sua origem é a natureza, sua garantia é a lei.” “Artigo 6. Qualquer lei que viola os direitos imprescritíveis do homem é essencialmente injusta e tirânica.”

Como Robespierre realmente interpretou esses princípios? Ele dizia: “[Nós] devemos exterminar todos os nossos inimigos com a lei em nossas mãos”, “a Declaração dos Direitos não oferece salvaguarda para conspiradores”, “as suspeitas do patriotismo esclarecido pode oferecer um guia melhor do que as regras formais de prova”. Comentando sobre uma execução, ele disse: “Mesmo se ele era inocente, ele tinha que ser condenado se sua morte pudesse ser útil”. Em uma carta orientando o Tribunal Revolucionário, ele escreveu: “As pessoas estão sempre dizendo a juízes para tomar cuidado e salvar os inocentes, eu digo a eles (...) para evitar salvar o culpado.”

Collot, o comissário oficial que ele nomeou pessoalmente para supervisionar os massacres, expressou sucintamente uma interpretação similar dos princípios consagrados na Declaração: “Os direitos do homem não são feitos para contra-revolucionários, mas apenas para sans-culottes”.

Saint-Just, o mais próximo aliado de Robespierre, disse: “A república consiste no extermínio de tudo que se opõe a ela”.

Louis Antoine de Saint-Just

A discrepância entre a Declaração, que fornecia a base de uma garantia constitucional de direitos iguais para todos os cidadãos, e a política ditada de fato por Robespierre e imposta por seus seguidores era tão flagrante que exigia uma explicação. Robespierre providenciou uma num discurso e, dezembro de 1793.

“O objetivo de um regime revolucionário é fundar uma república, o de um regime constitucional sustentá-la. O primeiro convém a um tempo de guerra entre a liberdade e seus inimigos. O segundo é mais apropriado a quando a liberdade for vitoriosa e em paz com o mundo” O regime vigente na França era revolucionário, argumentou, em lutar para se tornar constitucional. Mas inimigos internos ameaçavam o êxito desta luta. “Sob um regime constitucional”, ele continuou, “pouco é necessário, exceto para proteger o cidadão contra o abuso de poder por parte do governo. Mas sob um regime revolucionário o governo tem de se defender contra todas as facções que o atacassem e, nessa luta pela vida, somente bons cidadãos merecem proteção pública e a punição dos inimigos do povo é a morte”. O regime revolucionário “deve ser tão terrível para o mal como é favorável ao bem.”

Não havia, portanto, nenhuma inconsistência entre a Declaração e o Terror. “A Declaração dos Direitos não oferece nenhuma salvaguarda para conspiradores que há tempos tentam destruí-la.” A Declaração guiava o regime constitucional, cujo estabelecimento era o objetivo final. O Terror era apenas o meio para ele, uma necessidade imposta ao regime revolucionário por inimigos que impediam a realização do regime constitucional.

Esta obra prima de sofisma era, então, uma novidade, mas para aqueles que contemplam o século XX é tristemente familiar pelo uso que muitos regimes assassinos fizeram dela. Todos eles afirmaram que seu objetivo era a felicidade humana, mas que inimigos incorrigivelmente iníquos, disfarçando sua verdadeira natureza e conspirando contra o mais nobre dos objetivos, ameaçavam a sua realização. A suposta ameaça era muito grave, e o objetivo muito importante, a ponto de justificar extremas, ainda que temporárias, medidas – para identificar os inimigos, desmascarar suas conspirações e exterminá-los. Para um punhado de heróis clarividentes e corajosos da revolução – como a KGB, a SS, e a Guarda Vermelha – cabe o dever de executar estas tarefas necessárias. Eles devem endurecer o coração e fazer o que precisa ser feito no interesse do bem maior. Uma vez evitada a grave ameaça, as medidas extremas não serão mais necessárias, e a felicidade humana estará ao alcance de todos.

Uma característica notável dessa atitude mental é que aqueles sob sua influência acreditam de fato nestas justificativas para arrancar entranhas, linchar, mutilar, enterrar vivas, afogar e dilacerar suas vítimas infelizes. Na verdade, as atrocidades apenas reforçam a segurança absoluta com as quais os ideólogos abraçam suas convicções e impõem seus objetivos.

Uma ideologia é uma visão de mundo que explica as condições políticas predominantes e sugere formas de melhorá-las. Ideologias típicas incluem entre seus elementos uma visão metafísica que fornece uma visão transcendental do mundo, uma teoria sobre a natureza humana, um sistema de valores cuja realização supostamente garantirá a felicidade humana, uma explicação de por que a atual conjuntura está longe da perfeição, e um conjunto de políticas destinadas a diminuir a diferença entre o real e o ideal. Este último componente – compromisso com um programa político e sua implementação – é o que distingue ideologias de sistemas religiosos, pessoais, estéticos, ou filosóficos de crença. As ideologias visam transformar a sociedade. Outros sistemas de crenças não envolvem tal compromisso. Se envolverem, se tornam ideológicos.

Ao longo da história, muitas ideologias diferentes e incompatíveis têm prevalecido, e todas foram e são essencialmente interpretações especulativas que vão além de fatos inegáveis e verdades simples. Se baseando em hipóteses duvidosas sobre questões que transcendem o estágio atual do conhecimento, elas são particularmente propensas a um processo mental auto-ilusório, impaciente, muito esperançoso ou egocêntrico – a vôos descontrolados de fantasia e imaginação. As pessoas razoáveis, portanto, consideram as ideologias, incluindo a própria, com ceticismo saudável e exige delas conformidade com as normas elementares de razão: consistência lógica, uma explicação para fatos indiscutíveis e relevantes, a capacidade de resposta a novas provas e crítica séria, e o reconhecimento de que o sucesso ou fracasso de políticas derivadas delas serve como confirmação ou não das provas.

A fonte das convicções mais profundas de Robespierre e de sua certeza sobre elas era seu compromisso inquestionável com uma ideologia que ele tinha aprendido principalmente com Rousseau, a quem considerava “o tutor da raça humana.” Essa ideologia levou-o a acreditar que a política é uma aplicação da moralidade e que um bom governo é baseado em princípios morais que inevitavelmente levam os interesses dos indivíduos a se tornarem indistinguíveis do interesse geral. Dito de outra forma, os seres humanos não corrompidos intuitivamente reconhecem e agem no interesse geral. Qualquer divergência entre o interesse individual e o interesse geral indica a imoralidade e irracionalidade do indivíduo. Se qualquer indivíduo fracassa em ver que seus verdadeiros interesses são iguais ao interesse geral, ele deve ser forçado a agir como se tivesse visto, para seu próprio bem.

Jean-Jacques Rousseau

Mas quem são esses seres humanos não corrompidos que sabem o que é do interesse geral? Robespierre responde: “Existem almas puras e sensíveis. Existe uma suave, mas imperiosa e irresistível, paixão... um profundo horror da tirania, um zelo compassivo pelo oprimido, um amor sagrado por sua pátria, e um amor ainda mais sagrado e sublime pela humanidade, sem a qual uma grande revolução não é mais do que a destruição de um crime menor por um maior. Existe uma ambição generosa para fundar na terra a primeira república do mundo... Vocês podem sentir isso, neste momento, queimando em seus corações, eu posso sentir isso no meu próprio”. A mensagem clara quando a retórica bombástica é esvaziada é que, desde que as pessoas têm sido corrompidas, elas não podem ser confiáveis para saber o que é bom para elas, mas ele, Robespierre, sabe, porque ele é incorruptível.

Se ele ficado apenas nisso, sua crença em sua própria pureza não seria mais do que uma loucura atrevida de um megalomaníaco. Mas ele não ficou apenas nisso. Ele se considerou no dever de coagir a população corrompida a viver de acordo com o que ele em sua pureza considerava como virtude. Ele dizia: “Os inimigos da República são covardemente egoístas, ambiciosos e corruptos. Vocês têm expulsado os reis, mas vocês têm expulsado os vícios que a dominação fatal deles criou dentro de vocês?” Robespierre se convenceu – e coagiu os outros a acreditar ou a fingir acreditar – que sua vontade era a vontade geral, a vontade que todos agissem como se todos fossem tão puros como ele. Quando ele encontrou oposição, ele sabia com certeza absoluta que seus adversários eram ou corrompidos e tinham que ser exterminados pelo bem comum, ou ignorantes e tinham que ser coagidos para seu próprio bem a agir como se fossem tão puros e virtuosos quanto ele. A base da ideologia de Robespierre não era a razão e sim a paixão, que se tornou sua pedra de toque da razão e da moralidade. Ele não perguntou se ele deveria alimentar essa paixão, se a paixão era uma reação adequada aos fatos, se a paixão era muito forte, ou se ele deveria ser guiado por ela. O objetivo de sua política era adaptar o mundo a sua paixão, e não vice-versa. O resultado foi que se tornou cego às necessidades reais da razão e da moralidade e decretou o assassinato de milhares simplesmente por suspeitar que eles pudessem discordar de suas opiniões passionais. Enquanto tudo isso acontecia, ele hipocritamente proclamava que suas ações cruéis eram virtuosas e que ele era o campeão da razão e da moralidade.

Talvez possa ser dito, numa tentativa desajeitada de defender Robespierre, que ele sinceramente acreditava em sua ideologia e agia de boa fé. As pessoas não podem fazer mais que isso. É claro que, se essa desculpa fosse válida, serviria também para guardas da SS em campos de concentração, se eles fossem nazistas sinceros. Ou torturadores da KGB, desde que fossem comunistas dedicados. Ou terroristas islâmicos, se eles forem verdadeiros fanáticos. Mas as crenças reprováveis dos ideólogos aumentam ao invés de enfraquecer a responsabilidade por suas ações. As pessoas não devem manter crenças que levam a ações monstruosas. É o mínimo que se deve dizer em resposta a qualquer esforço para desculpar Robespierre. Se a sua ideologia o levou ao genocídio, ele não deveria tê-la seguido.

Muitas pessoas, é claro, não escolhem a ideologia que sustentam, mas a adquirem através de doutrinação. Pode ser demais exigir dessas pessoas que resistam à doutrinação, se esta for persistente e sofisticada, e se as pessoas não conhecem alternativas razoáveis. Não ser capaz de resistir à doutrinação ideológica, no entanto, é uma coisa, e cometer atrocidades em seu nome é outra completamente diferente. As pessoas têm uma escolha quando vão torturar ou assassinar. As pessoas decentes vão questionar sua ideologia se perceberem que ela as leva a cometer horrores. E se as pessoas não a questionam e cometem atrocidades, então elas devem ser com justiça consideradas responsáveis não pelo que acreditam, mas pelo que elas fazem.

Robespierre, no entanto, não foi doutrinado. Ele construiu sua ideologia por si mesmo, de suas leituras, educação, e experiências iniciais na política. Como um advogado treinado para garimpar provas e analisar as interpretações dos fatos, ele tinha habilidade para pensar criticamente sobre sua ideologia. Contudo, ele não o fez. Ele é, portanto, responsável pelos assassinatos em massa que causou. E o mesmo vale para os inúmeros comunistas, nazistas, maoístas, ou os terroristas que escolheram suas ideologias em detrimento de alternativas perfeitamente disponíveis, as quais eles não poderiam ignorar.

Mas e todos aqueles que seguiam Robespierre e que não partilhavam nem sua ideologia e nem sua paixão monstruosa? Muitos seguiram porque ele os deixava agir segundo seus piores instintos, os quais eles tinham tido que reprimir quando a lei e a ordem prevaleciam.

Outros – assustados com as mudanças políticas, com o caos generalizado e a insegurança, com o sangue que já tinha sido derramado – imploravam para entender o que estava acontecendo, o que o justificava, e qual era o seu objetivo. Muitas pessoas aceitaram a explicação de Robespierre, mesmo sendo bombástica e implausível, porque qualquer explicação para o que eles viviam era melhor do que nenhuma.

Mas a principal razão por que as pessoas o seguiram foi o medo. Ninguém estava seguro, e as pessoas ficavam ansiosas para provar com palavras e atos que eram leais e entusiasmados partidários. Robespierre exercia seu poder sobre a vida e a morte tão arbitrariamente como Hitler, Stalin e Mao. Arbitrariedade é a chave para o terror: se não há regras, justificativas, ou razões, então todo mundo está em risco. O único jeito de tentar minimizar o risco é superar os outros na adesão à norma. Ditadores entendem isso, o que explica muito das “manifestações espontâneas” e da adulação pública que extraem do povo enganado e apavorado a sua mercê.

Robespierre, que se via como um herói romântico numa luta quase desesperada, tinha sede de poder e era indiferente ao seu custo. Quando ele conseguiu inventar uma ideologia dos destroços de idéias de Rousseau e outros elementos, se agarrou a ela com dedicação fanática, pois essa ideologia o proporcionou não apenas um programa político, mas também com uma justificação da sua busca pelo poder. Quando os membros de seu círculo fechado e anormal cometeram os atos monstruosos do Terror, ele tomou a monstruosidade como prova da pureza de suas motivações e convicções. Robespierre e seus companheiros ideólogos eram os eleitos guiados por paixões para conhecer o bem e o mal, a verdade e a mentira, mesmo que suas ações possam parecer obscenas ou inadmissíveis para os não eleitos.

Embora o nazismo, o comunismo, vários tipos de terrorismo, e os racismos branco, negro ou amarelo demonstrem quão facilmente as ideologias levam a desumanidade, é claro que nem mesmo as ideologias mais irracionais e imorais conduzem necessariamente a genocídios. Ideólogos devem ter a oportunidade de agir de acordo com suas crenças – oportunidades que surgem a partir da combinação de ressentimento profundo e generalizado sobre o fardo que as pessoas devem carregar, um governo fraco ou enfraquecido, e a falta de perspectivas de melhora rápida e substancial. Foi a presença destas condições que permitiu a Robespierre se tornar o monstro que foi.

Condenar Robespierre mais de 200 anos depois de sua morte teria pouco sentido se ele não fosse uma amostra do sistema psíquico ideológico que hoje em dia nos é muito familiar. Se nós o entendermos, entenderemos também que é totalmente inútil apelar à razão e à moralidade quando tivermos que tratar com ideólogos. Pois eles estão convencidos de que a razão e a moralidade estão com eles e que seus inimigos são irracionais e imorais, apenas por serem inimigos. Negociações com essas pessoas só podem ter êxito se tivermos uma força esmagadora do nosso lado e nos mostrarmos determinados a usá-la. Uma justificativa do uso da força para o eleitorado de um país democrático – acostumado a pensar a política como um processo de negociação e de compromisso razoável – deve incluir a exposição com detalhes doentios das monstruosidades cometidas em nome da ideologia. E é por isso que faz sentido nos lembrarmos dos crimes do há muito tempo morto Robespierre.

John Kekes é PhD em Filosofia pela Australian National University e professor emérito de Filosofia da Universidade de Albany.
Tradução: Jorge Nobre, estudante de Letras - Tradução Francês da UnB
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Notas do tradutor

[1] O tradutor sugere como leitura complementar desse artigo dois outros, de Olavo de Carvalho: A Mentalidade Revolucionária e Ainda a Mentalidade Revolucionária.

[2] No original a expressão é “Kangaroo court”.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A síndrome de Leão da Montanha


Alguém aí se lembra do simpático Leão da Montanha, o personagem da Hanna-Barbera que sempre dava um jeitinho de fazer uma “saída estratégica” quando a coisa ficava feia? Pois bem, parece que há uma certa síndrome de Leão da Montanha identificável na escolha para reitor da Universidade de Brasília. Diante de determinadas evidências bastante eloquentes e fortes de que possui apoio formal do Partido dos Trabalhadores no Distrito Federal, a Chapa 80 emitiu nota pública tentando desconversar. Analisemos juntos a nota – nossos comentários estão em azul.
NOTA PÚBLICA

Considerando a reincidência de grave atentado contra a transparência e as práticas democráticas no processo eleitoral em curso para a reitoria da UnB, mediante verdadeira “central de boatos”, imputando-nos atos ilícitos e falsos com o objetivo de atingir nossa honra pessoal e profissional, nós, professores Márcia Abrahão e Marcelo Bizerril, candidatos à reitoria da UnB pela Chapa 80, vimos a público, mais uma vez, prestar alguns esclarecimentos à comunidade acadêmica e à sociedade:

Curioso como o exercício da liberdade de expressão e imprensa é firmemente tachado de “grave atentado contra a transparência e as práticas democráticas”. Na verdade, a divulgação do comunicado da cúpula local do PT não seria, ao contrário, um exemplo de transparência?

1) não temos e nunca tivemos qualquer filiação partidária;

Isso jamais foi colocado em consideração por este blog. Filiação partidária é um direito individual que deve ser respeitado.

2) sempre nos pautamos pela defesa dos direitos humanos;

Quer pintar-se como um anjo de candura? Diga que defenda os “direitos humanos”. No entanto, essa questão jamais esteve em pauta.

3) não estivemos na sede do PT local e jamais houve, de nossa parte, solicitação para que partidos políticos declarassem apoio à nossa candidatura;

Uma vez mais, isso não veio à baila. O que se evidenciou é que, institucionalmente, o PT está sim envolvido na campanha. Jamais se cogitou se isso foi uma iniciativa do partido ou um pedido da Chapa 80.

4) durante toda a campanha temos deixado claro que sempre aceitamos e aceitaremos a livre adesão de apoiadores e colaboradores de todos os matizes políticos, sociais e culturais que concordem com nossos princípios e com nossas propostas de gestão;

Livre adesão individual é algo bastante distinto de apoio institucional. E, quando essa adesão é feita sob ordens de um presidente de partido, pode-se ainda falar em livre adesão?

5) respeitamos estudantes, servidores técnicos-administrativos e professores que optam por filiação partidária, um direito do cidadão brasileiro;

Novamente, repito: filiação partidária é um direito individual que deve ser respeitado.

6) por outro lado, sem que desejemos estabelecer juízo de valor sobre o fato, lembramos que nosso adversário eleitoral neste 2o. turno declarou publicamente que recebe apoio de pessoas ligadas a partidos políticos, conforme se pode verificar na transcrição de parte do debate realizado pela TV Brasília e Correio Braziliense na última quinta-feira (6/9): “Temos apoio, inclusive, de colegas do PT, PCdoB e de vários outros partidos” (Ivan Carmargo; Correio Braziliense, 7/9);

De fato, o professor Ivan Camargo possui apoio “de colegas do PT, PCdoB e de vários outros partidos”. No entanto, o professor Ivan Camargo não possui apoio institucional de nenhum partido, muito menos teve a seu favor a militância de um partido mobilizada pelo próprio presidente local do partido.

7) no momento adequado tomaremos as medidas cabíveis para a proteção de nossa honra e imagem.

Se a honra e a imagem da professora Márcia Abrahão e do professor Marcelo Bizerril forem danificadas por calúnia e difamação, os responsáveis devem ser processados dentro dos ditames legais.

Continuarems [sic] realizando uma campanha honesta, com a participação ativa e espontânea de estudantes, professores e servidores técnicos-administrativos que,  como nós, veem nestas eleições uma oportunidade histórica de renovação da cultura política da UnB e de construção do melhor futuro para essa instituição. Estamos certos de que atitudes de desrespeito ao presente processo eleitoral, bem como à honra e à imagem dos indivíduos envolvidos, somente demonstram que ainda existem na UnB, infelizmente, aqueles que não acreditam na democracia e no respeito às  leis.

Junte-se a nós! O amanhã fazemos juntos. Vote 80 nos dias 11 e 12 de setembro.

Abraços fraternos,

Márcia Abrahão e Marcelo Bizerril
Como se pode ver, não há uma só linha em que se contesta diretamente a existência de apoio institucional do Partido dos Trabalhadores à Chapa 80, muito menos se menciona que o presidente regional do partido literalmente ordenou que a militância se organizasse para trabalhar na campanha dessa chapa. Independente de como esse apoio foi fomentado, a interferência de um partido que foi responsável pelo maior e mais audaz escândalo de corrupção da história do País é algo sim para ser visto com grande preocupação. A instrumentalização partidária do ambiente universitário, seja por que partido for, será sempre uma ameaça à verdadeira autonomia universitária – algo muito defendido na retórica e constantemente vilipendiado na prática.

É por isso que reiteramos, uma vez mais, nosso apoio à Chapa 86 – UnB Somos Nós no segundo turno das eleições para reitor. Nos dias 10 e 11 de setembro, hoje e amanhã, digam não à ingerência partidária no ambiente universitário e à instrumentalização política rasteira da academia: vote Chapa 86!

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Fora PT da UnB! Diga não à Chapa 80!

Desde o começo deste blog, temos denunciado diuturnamente o grande mal que provoca a ingerência de partidos políticos dentro do ambiente universitário. A instrumentalização do ensino, de movimentos discentes, de associação de professores, das instâncias de deliberação institucional, da própria administração superior, tudo isso deturpa a própria essência da universidade e a desvia de sua função primordial.

Se antes já tínhamos bastantes motivos para apoiar a Chapa 86 no segundo turno da eleição para reitor, agora temos motivos mais que suficientes para reforçar veementemente esse apelo. Por quê? Porque a Chapa 80 conta com apoio ideológico, logístico e de campanha do Partido dos Trambiqueiros Trabalhadores. Antes que digam que isso é delírio, vejam o fac-símile abaixo:


E já que as hostes “progressitas” adoram fazer rimazinhas pueris, lançamos as nossas também:

PELO BEM DA EDUCAÇÃO, DIGA NÃO À ABRAHÃO!
NÃO QUEREMOS UM COVIL, FORA BIZERRIL!

Amor e crueldade: uma união possível?

O que é amar? Hoje, essa ideia se tornou tão banalizada que seu conceito perdeu-se numa mixórdia de significados – às vezes, mutuamente contraditórios. Se pudéssemos, com brevidade e propriedade, conferir um conceito a “amor”, poderíamos fazê-lo dizendo que amar significa a capacidade de doar-se a si mesmo de maneira incondicional e desinteressada. Em sua belíssima obra “A Fé Explicada”, Leo J. Trese, O. S. B., exemplifica muito bem o que é o amor no que concerne a relação entre o homem e Deus: “Não é pelo que sentimos sobre Deus, mas pelo que estamos dispostos a fazer por Ele, que provamos o nosso amor a Deus.” No entanto, esse amor – essa submissão da vontade e entrega do ser em que nos colocamos inteiramente à disposição de algo ou alguém – não é livre de limitações que lhe conferem um sentido legítimo e pleno. Na verdade, só é possível se falar em amor de fato, amor verdadeiro, quando esse amor submete não apenas o ser àquilo (ou àquele) que se ama, mas quando submetemos a vontade aos modos corretos de se manifestar esse amor.

Tomemos por exemplo o amor a uma mulher. Se a amamos, é certo que nos doamos a ela por inteiro, que nenhuma de nossas ações são tomadas sem que a levemos em consideração, que nenhum de nossos gestos e provas de amor sequer espera a mesma contrapartida (uma vez que a essência do amor é a doação). Suponhamos agora que essa mulher esteja sofrendo uma injusta campanha de difamação por parte de uma terceira pessoa, e que, em nome do amor que sentimos, decidimos matar a pessoa responsável pela injusta perseguição à mulher amada. De fato, dispusemo-nos a matar alguém em nome do amor. Entretanto, seria correto chamar de amor um sentimento que, uma vez exercido ao extremo, resulta em um ato de brutalidade como o assassínio? Se admitirmos que sim, então, de alguma forma, o caráter sublime do amor é tão intenso que chega a purificar o mais baixo dos crimes – e, assim, tudo pode ser feito em nome do amor, pois o amor tudo purifica.

Slavoj Žižek

Slavoj Žižek, um dos mais célebres intelectuais de esquerda da atualidade, publicou recentemente uma análise interessante do filme “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge”. E o que é justamente interessante é que, para Žižek, qualquer ato de crueldade cometido em nome do amor não é só plenamente justificável, mas além: é imprescindível. Em artigo publicado recentemente pelo blog da Editora Boitempo, defende Žižek (grifos nossos):
No entanto, ainda que Bane não tenha o fascínio do Coringa de Heath Ledger, há uma característica que o distingue desse último: o amor incondicional, a mesma fonte da sua dureza. Em uma cena curta mas comovente, vemos como, em um ato de amor no meio do sofrimento terrível, Bane salvou a garota Talia sem se importar com as consequências e pagando um preço terrível por isso (foi espancado quase até a morte por defendê-la). Karthick tem toda razão ao situar esse acontecimento dentro da longa tradição, de Cristo a Che Guevara, que exalta a violência como uma “obra do amor”, como nas famosas palavras do diário de Che Guevara: “Devo dizer, correndo o risco de parecer ridículo, que o verdadeiro revolucionário é guiado pelo forte sentimento do amor. É impossível pensar em um revolucionário autêntico sem essa qualidade”. O que encontramos aqui nem é tanto a “cristificação de Che”, mas sim uma “cheização do próprio Cristo” – o Cristo cujas palavras “escandalosas” de Lucas (“se alguém vem a mim e não odeia seu próprio pai e mãe, mulher, filhos, irmãos, irmãs e até a própria vida, não pode ser meu discípulo” [Lc 14:26]) apontam exatamente na mesma direção que a famosa citação de Che: “É preciso ser duro, mas sem perder a ternura”. A afirmação de que “o verdadeiro revolucionário é guiado pelo forte sentimento do amor” deveria ser interpretada juntamente com a declaração muito mais “problemática” de Guevara sobre os revolucionários como “máquinas de matar”:

O ódio é um elemento da luta; o ódio impiedoso do inimigo que nos ergue acima e além das limitações naturais do homem e nos transforma em eficazes, violentas, seletivas e frias máquinas de matar. Assim devem ser nossos soldados; um povo sem ódio não derrota um inimigo brutal.

Ou, parafraseando Kant e Robespierre mais uma vez: o amor sem crueldade é impotente; a crueldade sem amor é cega, paixão efêmera que perde todo seu vigor. Guevara está parafraseando as declarações de Cristo sobre a unidade do amor e da espada – em ambos os casos, o paradoxo subjacente consiste nisto: o que torna o amor angelical, o que o eleva acima da mera sentimentalidade instável e patética, é essa mesma crueldade, o seu elo com a violência – é esse elo que eleva o amor acima e além das limitações naturais do homem e o transforma em pulsão incondicional. É por isso que, voltando a O Cavaleiro das Trevas Ressurge, o único amor autêntico no filme é o de Bane, o “amor do terrorista”, em nítido contraste a Batman.
O raciocínio acima exposto demonstra não apenas a completa ignorância de Žižek acerca das Sagradas Escrituras, mas a sua aberrante defesa de que os fins, de fato, justificam os meios. Traçar um paralelo entre Jesus Cristo a Ernesto “Che” Guevara é um dos expedientes mais recorrentes da canalha revolucionária nas últimas décadas – sobretudo no âmbito da América Latina, em que se tenta a todo custo instrumentalizar a tradicional religiosidade cristã de nosso subcontinente em prol da revolução socialista. Ademais, é uma das mais torpes, ultrajantes e ignóbeis comparações que se pode fazer. Cristo propugnou a violência contra si mesmo – as paixões, as más inclinações, a concupiscência –, contra o homem velho, de modo a fazer prevalecer o homem novo, o homem sob a égide da Lei Divina, através de uma submissão voluntária e individual a Deus e Seus mandamentos. Este é o mesmo Jesus Cristo que, ante a turba revoltosa que queria apedrejar a adúltera, desafiou que lançasse a primeira pedra aquele que era livre do pecado; este é o Cristo que jamais endossaria a ideia de que “o ódio impiedoso do inimigo que nos ergue acima e além das limitações naturais do homem e nos transforma em eficazes, violentas, seletivas e frias máquinas de matar”.

Jesus mostrado como um revolucionário em cartaz da Organização de Solidariedade aos Povos da África, Ásia e América Latina (OSPAAAL) nos anos 1970.

Só há amor real, pungente, cristalino, belo e verdadeiro quando esse amor nos conduz a um estado unitivo não apenas com o objeto de nosso amor, mas com a própria ordem transcendente da qual esse amor emana. Quando se quer exercer esse amor fora dos limites traçados por essa ordem transcendente, o que ocorre é a degeneração do amor em excrecências do espírito – luxúria, obsessão, psicose, dentre outras. Não havia amor em Che Guevara: o que havia era a obsessão por um igualitarismo autoritário cuja superioridade moral não se encontrava na força das ideias ou na veracidade dos valores, mas nas pontas das baionetas e nos cartuchos dos fuzis. Não existe amor real em uma verdadeira revolução: o que existe é a demolição dos alicerces sobre os quais a própria natureza se sustenta.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Inversões de um intelectual orgânico

Se alguém experimentar falar hoje, em alto e bom tom, que a adoção de crianças por casais homossexuais não visa, prioritariamente, mais à deturpação do conceito essencial de família do que a propiciar lares para crianças enjeitadas, é bem provável que irá ouvir umas boas imprecações – isto é, se não for linchado no meio da rua. Se esse mesmo alguém abrir qualquer caderno econômico de qualquer jornal de grande circulação, é certo que encontrará pouquíssimas análises que apontem os malefícios da draconiana intervenção estatal no campo econômico, mas, em contrapartida, toneladas de propagandas (oficiais e oficiosas) às medidas econômicas do governo que “blindam” o País contra as crises capitalistas. E, por último, não encontrará uma única propaganda de cigarros, mas decerto topará com um ou outro artigo de alguma figurinha importante e badalada falando sobre a “caretice” de se proibir o uso de maconha e que tais.


Por que digo tudo isso? Para ilustrar como o trabalho de conquista de hegemonia cultural da esquerda foi bem-sucedido. E não é necessário ter um profundo conhecimento de história, filosofia, política ou vida prática para notar que isso é algo claríssimo: basta ter uns rudimentos de raciocínio e perspicácia. Esse trabalho tem sido tão bem-sucedido que, de fato, quase todas as teses propaladas pela Esquerda nos últimos 150 anos são, hoje, axiomas praticamente irretorquíveis. Há exemplos muito atuais e abundantes disso: o bárbaro ataque cometido contra S.A.I.R. Dom Bertrand de Orleans e Bragança, a multitude de criaturas raivosamente espumantes exigindo a cabeça do professor Carlos Ramalhete, a invasão de uma paróquia carioca durante a tal Marcha das Vadias, as dantescas propostas de alteração do Código Penal feita por um grupo de “juristas”, a recente decisão do Conselho Federal de Medicina em prol de uma “morte digna” para pacientes em estado terminal, et cœtera.

No entanto, há quem defenda que, ao contrário, a Esquerda não mais detém a hegemonia cultural. Vladimir Lenin Safatle, um exemplo de intelectual orgânico uspiano, publicou recentemente um artigo na revista (sic) Carta Capital intitulado “A perda de hegemonia”. De acordo com nosso Lenin dos trópicos: “Pela primeira vez em décadas a esquerda é minoritária no campo cultural.” A tese central do texto pode ser encontrada no seguinte trecho:
Poderíamos acreditar que a perda de tal hegemonia seria resultado direto da queda do Muro de Berlim. Sem desmerecer o fenômeno, não é certo, no entanto, que ele tenha papel tão determinante. Pois vale lembrar como a esquerda cultural brasileira estava longe de ser a emulação do centralismo do Partido Comunista, com sua orientação soviética. Na verdade, as causas devem ser procuradas em outro lugar.

Primeiro, há de se lembrar como, desde o fim dos anos 80, as universidades brasileiras não conseguiam mais formar professores dispostos a desempenhar o papel de intelectuais públicos. Os intelectuais que tínhamos vieram da geração que entrou na universidade nos anos 70. Geração que viveu de maneira brutal a necessidade de mobilização política. As gerações que vieram compreenderam-se com uma certa timidez. Elas, em larga medida, foram marcadas pelo desejo de agir no âmbito mais restrito da universidade.

Segundo, há de se colocar a perda da hegemonia cultural como um dos sintomas da era Lula. Do ponto de vista político, o esforço da classe intelectual brasileira parece ter se esgotado com a eleição do ex-metalúrgico. Boa parte dos descaminhos do governo foi colocada na conta da legitimidade dos intelectuais que um dia o apoiaram ou que continuaram apoiando. O simples abandono do apoio não foi uma operação bem-sucedida. Como os intelectuais não tiveram discernimento suficiente para imaginar o que poderia ocorrer? Por outro lado, a repetição reiterada do lado bem sucedido do governo soava, para muitos, como estratégia para diminuir a força crítica diante dos erros, que não eram mais comentados no espaço público, devido ao medo de instrumentalização pela mídia conservadora.

A descrição do estado de coisas oferecida pelo Sr. Safatle decerto se refere a um lugar que nada tem a ver com o Brasil. A defesa de que “a esquerda cultural brasileira estava longe de ser a emulação do centralismo do Partido Comunista” ignora completamente o grande apoio logístico, propagandístico e financeiro fornecido pelos serviços secretos de diversos países comunistas, inclusive a própria KGB, para a nossa “esquerda cultural”. Além disso, ignora completamente a relação íntima com intelectuais estrangeiros cujos trabalho eram completamente delineados pelo Politburo soviético.

Além disso, o fato apontado de que “as universidades brasileiras não conseguiam mais formar professores dispostos a desempenhar o papel de intelectuais públicos” abarca um equívoco bastante perigoso: o de ignorar a atuação desses pretensos “intelectuais públicos”. Ao invés de se tornarem intelectuais públicos, esses indivíduos se encontram em lugares em que sua atuação é muito mais eficiente (e, por isso mesmo, perniciosa): nas escolas de nível fundamental e médio, públicas e privadas. O altíssimo grau de ideologização e instrumentalização doutrinária do ensino brasileiro é aterrador, e é justamente o que tem garantido a hegemonia cultural da Esquerda no último meio século, pelo menos. São os estudantes transformados por essa “linha de montagem” marxista que, ao chegarem aos bancos das universidades, passarão de vítimas a predadores ideológicos. Dessa forma, beira a desonestidade dizer que a universidade – e, lato sensu, o ensino no geral – é um “âmbito mais restrito” de atuação. Um dos grandes artífices dessa façanha foi Louis Althusser, que faz parte do cânon vermelho que o Sr. Safatle e outros tantos rezam fervorosamente.

O artigo, em suma, é um grande desfile de mentiras deslavadas. Não sei em que medida o Sr. Safatle dá credibilidade a elas: em caso positivo, isso faria dele um ingênuo professor universitário que não possui habilidade para analisar fatos históricos e sociais; em caso negativo, todos os argumentos utilizados não passam de ideias meticulosamente arquitetadas com o objetivo de ludibriar leitores incautos. Em ambos os casos, trata-se de uma falsificação dos fatos. E, como sempre gostamos de lembrar, contra factum non argumentum est.