sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Defendendo a tolerância sendo intolerante

Uma das coisas mais interessantes de se notar nos dias de hoje é como os conceitos não significam mais absolutamente nada. As palavras perderam seu sentido original, adquirindo significado e essência com base unicamente no subjetivismo de quem as emprega.

Existem alguns exemplos bastante claros disso. O termo “utopia” foi originalmente cunhado para designar uma realidade ideal impraticável por sua absurdidade, mas hoje se refere a uma espécie de mundo idílico que poderíamos construir se nos libertássemos das nossas amarras, destruíssemos o que foi construído até hoje e, dos escombros do passado, reconstruíssemos o presente ao nosso bel-prazer. O mesmo ocorre com o termo “revolução”: o que era antes visto como um movimento abrupto de inversão, uma revolta que traz a reboque caos e desordem, hoje é comumente referido como algo necessário, até mesmo inelutável, para a construção de um mundo melhor.

Um grande exemplo de como as coisas se misturam numa mixórdia objetivamente ininteligível é um texto que descobri hoje: “Brasil é ouro em intolerância”, de André Barcinski. A tese central do texto é a de que integrantes de seleções esportivas nacionais não podem exprimir sua religiosidade livremente em público pois isso feriria a laicidade do Estado e a pluralidade religiosa de suas nações de origem. Diz o autor:
Já virou hábito: toda vez que um time ou uma seleção do Brasil ganha um título, os atletas interrompem a comemoração para abrir um círculo e rezar. Sempre diante das câmeras, claro.

O mesmo aconteceu sábado passado, quando a seleção feminina de vôlei conquistou espetacularmente o bicampeonato olímpico em cima da seleção norte-americana, que era favorita.

O Brasil é oficialmente laico desde 1891 e a Constituição prevê a liberdade de religião.

Será mesmo?

O que aconteceria se alguma jogadora da seleção de vôlei fosse budista? Ou mórmon? Ou umbandista? Ou agnóstica? Ou islâmica?

Alguém perguntou a todas as atletas e aos membros da comissão técnica se gostariam de rezar o “Pai Nosso”?

Ou será que alguns se sentiram compelidos a participar para não destoar da festa?

Será que essas manifestações públicas e encenadas, em vez de propagar o caráter multirreligioso do país, não o estão atrapalhando?
Orar diante das câmeras: demonstração detestável de intolerância
ou exercício legítimo de liberdade religiosa?

Uma coisa curiosíssima presente no texto é a defesa sub-reptícia da desumanização dos atletas. Explico: a partir do momento em que um atleta da seleção brasileira veste o uniforme, ele se torna um objeto a serviço do Estado, uma representação puramente material do poder público que deve ser instrumentalizada com base em todo o cânone do politicamente correto. Sob essa ótica, uma afirmação essencialmente positiva de religiosidade converte-se em uma manifestação impositiva de credo: é como se o mero fato de atletas se reunirem e, embalados pelo espírito de comemoração, unirem-se diante das câmeras para uma ação de graças a Deus fosse, necessariamente, um ato público de repúdio a todas as outras manifestações de religiosidade existentes no país que se representa.

Ricardo Yepes, na obra “Fundamentos de Antropologia”, explica como essa lógica funciona:
A ideologia tolerante, com efeito, é o desenvolvimento lógico do ideal da “escolha” e da visão liberal do homem e da sociedade, arraigada principalmente no mundo anglo-saxão e germânico. Segundo essa visão, a liberdade consiste sobretudo em emancipação, ou seja, independência, autonomia com relação a qualquer autoridade: cada um é a única autoridade legisladora sobre si mesmo; a autoridade civil não passa de um simples arbítrio que organiza os interesses de indivíduos que elegem livremente o que querem. [...]

O específico e típico da tolerância compreendida dessa forma é que pretende excluir qualquer forma de reprovação a condutas que desaprovamos pelo fato de serem distintas das que praticamos. Isso se chama political correctness, politicamente correto. Consiste em não reprovar a conduta de ninguém e evitar qualquer sinal ou palavra que possa ser interpretado como discriminatório. O feminismo tem algumas reivindicações típicas a esse respeito: a palavra “woman” (mulher) seria machista por conter o sufixo “man” (homem). Seria discriminatória qualquer relutância frente aos “gays”, e desde já a Igreja Católica é “super-discriminatória” por excluir as mulheres do sacerdócio.

Para esse modo de pensar, o mais perigoso para a sociedade livre e aberta em que vivemos seria o extremo oposto, conhecido hoje com o nome pejorativo de “fundamentalismo”. É evidente que se deve ser tolerante com o pluralismo e a diversidade que existem em nossa sociedade, entre outras coisas, porque devemos respeito a sua autenticidade. Mas não se pode impor uma tolerância entendida dessa maneira, porque isso seria adotar uma atitude intolerante, por exemplo, contra o legítimo direito de uma igreja organizar-se como queira. Se se leva o politicamente correto ao extremo (algo completamente inútil), eu poderia interpretar como discriminatória qualquer ação que outros cometessem contra meus desejos, ainda que seu agente esteja em seu legítimo direito de realizá-la – como, por exemplo, o direito de não me aceitar em uma instituição, como uma universidade privada ou uma empresa: não se pode ignorar o direito de admissão, que existe até mesmo em restaurantes.

Os limites da ideologia tolerante aparecem quando se quer excluir do jogo aquele que não é tolerante dessa forma, sobretudo quando os “intolerantes” formam um grupo que não pratica o politicamente correto, mas a propagação ativa de suas convicções, o que vai contra os pressupostos liberais da sociedade individualista.
O direito inalienável que toda pessoa possui de exercer livremente sua religiosidade está intimamente vinculado ao próprio conceito de Estado laico. A proposta central presente no texto do Sr. Barcinski não é a defesa do Estado laico em eventos esportivos, mas a supressão de quaisquer condutas religiosas que emanem legitimamente dos indivíduos. Nisso subjaz a tese bastante difundida que, em nome de uma defesa uniforme da sacrossanta tolerância, podemos adotar posturas intolerantes e coercitivas – como é o caso dos trogloditas da UNESP que atacaram S.A.I.R. Dom Bertrand de Orleans e Bragança no começo dessa semana. O mais irônico é que manifestações como essa têm se tornado tão corriqueiras e abundantes que o título do texto do Sr. Barcinski é, no fim das contas, bastante acertado: de fato, o Brasil tem sido medalha de ouro em intolerância.

Um comentário:

  1. Felipe, acrescente ao histórico dos "tolerantes" a estúpida reação a um artigo do Prof. Carlos Ramalhete na Gazeta do Povo:

    http://www.deuslovult.org/2012/08/31/turba-de-barbaros-exige-a-cabeca-de-colunista-da-gazeta-do-povo-defendamo-lo/

    http://contosdoatrio.com.br/2012/08/31/pense-ao-inves-de-atirar-um-tempo-de-liberdade-exige-ideias/

    http://www.midiasemmascara.org/artigos/direito/13361-em-favor-da-liberdade-de-expressao-do-prof-carlos-ramalhete.html

    ResponderExcluir

Antes de comentar, leia a política de comentários do blog. E lembre-se: o anonimato é, muitas vezes, o refúgio dos canalhas.