segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A conveniência do “politicamente ilegítimo”


Como todos devem saber, uma assembleia dos professores da Universidade de Brasília realizada na última sexta-feira, dia 17 de agosto, decidiu, por 130 votos a 115, pelo encerramento da greve na universidade e retomada imediata das aulas no dia 20 de agosto (hoje). O resultado pegou de surpresa muitas pessoas, especialmente do movimento grevista e da administração da universidade. O Comando Local de Greve (CLG) e seus aliados começaram unanimemente a acusar a direção da Associação dos Docentes da UnB (ADUnB) de golpe.

Hoje, as novas críticas feitas contra a diretoria da ADUnB não são mais de golpe: os integrantes e os simpatizantes do CLG admitem que não houve golpe, uma vez que a decisão não foi tomada num contexto de quebra de legalidade, mas defendem que a assembleia de sexta-feira foi “politicamente ilegítima”. Por isso, o CLG convocou uma grande reunião, que aconteceu no Auditório Dois Candangos, da Faculdade de Educação, para não apenas anular a assembleia de sexta-feira, mas para também destituir a diretoria da ADUnB.

O principal argumento que sustenta a crítica de ilegitimidade política da assembleia – o que, na visão do CLG, é uma atitude passível de destituição da diretoria da ADUnB – é o de que não havia quórum suficiente para dar legitimidade política, e não legal, à assembleia. Assim sendo, a formação do quórum pode ser questionada, pois não estariam representados na assembleia todos os segmentos políticos dos docentes.

Fonte: Correio Braziliense

O que mais chama atenção nesse argumento raso é que absolutamente todos os métodos utilizados pela turma que compõe e apoia o CLG foram “politicamente ilegítimos”. Não é de hoje que se conhece muito bem a técnica para se manipular assembleias, tanto de professores quanto de alunos: tratar de assuntos mais chamativos no começo da reunião, de modo a atrair um grande quórum inicial (e produzir uma documentação que prove a existência de quórum suficiente), e, em seguida, protelar a decisão principal para o fim da reunião, quando a assembleia já está esvaziada da grande maioria dos membros e contam-se praticamente apenas a mesma patota de sempre. Legalmente, as deliberações da assembleia podem ser declaradas válidas, mas não podemos chamar de legítimas assembleias em que 50 pessoas decidem o destino de quase 2 mil docentes.

Se essa foi a tática utilizada pela diretoria da ADUnB para dar fim à greve, as críticas raivosas da patotinha paredista não passam de hipocrisia descarada; se essa não foi a tática utilizada pela diretoria da ADUnB, então a ilegitimidade reside na própria falta de respeito do CLG a uma decisão legítima e soberana da assembleia dos professores, o que pode ser corretamente configurado de puro revanchismo. Em ambos os casos, chamar a assembleia de “politicamente ilegítima” significa dizer que só haveria “legitimidade política” se a decisão secundasse os anseios do CLG, quod erat demonstrandum.

O mais impressionante (e preocupante) nisso tudo é o afã com que alguns universitários se prestam a fazer papel de vaca-de-presépio na mão de alguns docentes, manietando a própria capacidade de raciocínio crítico para servir de bucha-de-canhão no meio de toda essa mixórdia. Eles são um retrato do que, com raras exceções, a nossa universidade se tornou: um imenso curral de jumentinhos ideologicamente dóceis e laboriosos.

Em tempo: para quem não lembra, a assembleia que instaurou a greve docente na UnB contava com 176 professores. Curiosamente, ela não foi considerada “politicamente ilegítima” como a assembleia de sexta-feira, que tinha 250 docentes. Lógica curiosa, não acham?

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