segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A confusão da revolução


O último texto que escrevi, uma análise do excelente filme “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, acabou suscitando alguns comentários e ideias bastante interessantes, sobretudo no tocante à definição do termo “revolução”. É certo que o tema não é nada fácil: inúmeras obras foram escritas a respeito das mais diversas revoluções, e frequentemente deparamo-nos com definições que chegam a ser mutuamente excludentes sobre o mesmo fenômeno.

A confusão não é injustificada. Quando costuma se chamar alguém de “revolucionário”, normalmente o que se busca é afirmar que essa pessoa é responsável por uma nova maneira de pensar ou agir que necessariamente gerou um benefício incalculável para a Humanidade. Nesse sentido, Albert Einstein teria “revolucionado” a Física com sua teoria da relatividade, assim como Steve Jobs “revolucionou” o mundo da informática com os produtos Apple. A rigor, entretanto, a utilização do termo nos exemplos dados é equivocada.

O termo “revolução” advém do latim “revolutio”, que significa mudança ou inversão abrupta – não foi à toa que, por exemplo, Nicolau Copérnico utilizou o termo no título de seu tratado “De revolutionibus orbium coelestium” (“Das Revoluções das Esferas Celestes”), de 1543. O uso político do termo começou no século XVII, quando começou a se referir à deposição do rei inglês James II, da casa de Stuart, como Revolução Gloriosa. A aplicação análoga ocorreu em virtude do caráter da sublevação que depôs o monarca católico: foi uma ruptura imediata com o poder vigente. Note-se que, a priori, não havia nenhum tipo de acepção moral positiva ou negativa, mas apenas uma aplicação técnica do termo para se explicar certos fenômenos marcados por uma transformação intensa e quase instantânea – tanto que “revolução” e “revolta” possuem o mesmo radical em virtude de possuírem, no começo, a mesma significação.

Se o termo “revolução” foi compreendido desde sua origem como uma mudança repentina, normalmente uma inversão, advinda de um ato abrupto de ruptura da ordem então vigente e conhecida, referir-se a Albert Einstein ou Steve Jobs como “revolucionários” é um equívoco na medida em que suas contribuições para o progresso humano representaram uma inovação calcada num continuum formado pelos desenvolvimentos promovidos por seus antecessores. Trocando em miúdos: uma vez que nenhum dos dois buscou repensar suas áreas de atuação desde o começo, o trabalho de Einstein e Jobs não pode ser visto fora da tradição específica às quais pertenciam. As inovações desenvolvidas por ambos são fruto do amadurecimento natural de suas ciências ao longo do tempo, não de esforços deliberados de ruptura visando ao surgimento de uma nova ordem de coisas. Assim sendo, Einstein e Jobs podem ter sido revolucionários acidentalmente, mas jamais essencialmente.

Quando indiquei que Bane, vilão do filme “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, é essencialmente revolucionário, indiquei que se encontravam nele todas os pré-requisitos de um verdadeiro e legítimo revolucionário: uma crença cega na indefectibilidade de sua pretensa superioridade moral, uma vontade inabalável de solapar toda a ordem constituída para erigir outra sobre seus escombros, e uma firme convicção de que um fim considerado justo e necessário à causa justifica plenamente a utilização de quaisquer meios – sobretudo a manipulação, a perseguição e o terror. Todos os grandes revolucionários da história humana possuíam essas características, dos philosophes comandados por Robespierre aos guerrilheiros de Sierra Maestra.

Curiosamente, um dos meios mais empregados pelos revolucionários para serem bem-sucedidos é justamente fazer crer que revolução remete necessariamente a uma mudança não apenas positiva, mas imprescindível – e, de certa maneira, até mesmo inelutável. Essa distorção de conceito carrega em seu bojo a justificação moral que lhes faltava: “estou apenas servindo de instrumento daquele progresso do qual não podemos escapar”. Tanto é assim que, nos dias atuais, apresenta-se uma situação bizarra: por um lado, aquelas pessoas que prestaram valiosos serviços à Humanidade são qualificadas de “revolucionárias”; por outro lado, os verdadeiros revolucionários, que objetivavam a derrocada da tradição e da ordem em prol de uma ordem artificial nascida de suas ideologias particulares, são equiparados aos revolucionários acidentais, perfazendo com eles o mesmo panteão de heróis do gênero humano.

Toda essa celeuma em torno de um termo cuja acepção pode-se facilmente depreender a partir do contexto de sua utilização é, enfim, bastante didática no sentido de mostrar claramente a que nível a distorção de conceitos e linguagens chegou nos dias em que vivemos. Isso é bastante conveniente para aqueles que, valendo-se do grotesco relativismo que se consolida dia após dia, buscam mutilar a verdade, destronando-a em prol de mentiras perigosas. Essa realidade, ainda tomada por muitos como uma mera teoria conspiratória de conservadores crípticos e escamosos, é mais evidente do que se pensa.

Em tempo: peço desculpas a todos os leitores pela demora em publicar textos neste blog. Mesmo com a greve da UnB, tenho sido absorvido por um sem-número de atividades, sobretudo intelectuais, que inclusive servirão para alimentar o blog com textos mais aprimorados sobre temas diversos. Conto com a gentil compreensão de todos.

4 comentários:

  1. Parabéns, mom ami. Me surpreendo com seus textos. Eles demonstram o seu crescimento intelectual o qual, a olhos vistos, eu e outros temos podido testemunhar.

    Forte abraço dos sumos brothers.

    ResponderExcluir
  2. Transcrevo parte do q eu acho:

    O trabalho do Batman nesta trilogia é sim o da contra-revolução. Entretanto isto não implica na ostentação do título de Ideal Conservador. O contra-revolucionário é uma alcunha para o que pode-se chamar de reacionário. F.Melo não está querendo dizer que o herói é um novo Russell Kirk ou um Edmund Burke.
    Batman não faz justiçamento gratuito, nem justifica os meios pelos fins ou faz uso disto como seu princípio de ação.
    1a:
    Um amigo me questionou sobre o fato de nas últimas 3 décadas haver uma gigantesca aceitação da explicação sobre o progresso científico através Revoluções Científicas, propostas por Thomas S Kuhn. Após a leitura de algumas páginas das obras do e sobre Kuhn, confesso a vocês que eu tendo a comprar boa parte do seu "pacote", sobretudo as supracitadas Revoluções Científicas (RC).

    Kuhn chega a utilizar uma (UMA) única comparação com algo que se chamaria de Revolução Política (RP) para descrever certa condição de incerteza no período que ele descreve como crise, onde existiria uma disputa em teorias competidoras.
    Eu entendo que o uso de toda estrutura descrita por Kuhn na explicação de um fenômeno que se chamaria de Revolução Política é errôneo, diante das inúmeras características que as distinguem. Para ficar com uma: são de naturezas distintas.
    A explicação de Kuhn se aplica ao processo de pesquisa científica, precisamente das hard science! Por que não se aplicam as humanas e ao jogo político? Pois nestas não há a aceitação global de paradigmas e nem o compartilhamento dos mesmos em "escolas" distintas. Sem contar, que devido a Especialização investigativa, um paradigma em Ecologia nem faz cosquinha em Química Analítica Quantitativa.

    Kuhn mesmo admite que as RP aconteçam majoritaria e principalmente qd as Instituições fracassam. Nas RC não. Entre outras coisas, quando o paradigma fracassa. Ou seja, se a URSS deu errado, o PSOL vai dizer que foi uma aplicação errada da teoria. Ou como avaliou Wilhelm Reich, Stalin pegou muito leve.
    Podemos facilmente observar que existe uma tentativa enorme de se construir explicações globais para Religião, Cultura, Comportamento, Economia e Política. Entretanto, graças a Deus, existe oposição concorrente concomitantemente. Não é à toa que existem diversos partidos políticos, instituições de pesquisa e diversas orientações axiológicas conflitantes, sobrepostas e sincretizadas.
    Numa RC completada, isto não acontece já que o progresso ocorre através da eliminação do antigo, pois ele é necessariamente inferior (mas não menos real) em relação ao sucessor. Entretanto, essa eliminação não se dá matando cientistas, invadindo a Aracruz Celulose, jogando pesquisadores em Gulags, buscando eliminar os cristãos que são única fonte de resistência e oposição verdadeira, convocando militantes na CUT ou na UNE, matando o terceiro rebento das famílias, afirmando publicamente o desejo de varrer Israel do mapa, financiando imigração ilegal com o intuito de instaurar o califado mundial.

    De outro modo, se alguém pensar em Cuba, China, URSS, Coréia do Norte, Irã, Camboja, Egito, Palestina, Santa Tereza, Lapa ou Uerj poderá aplicar esta noção de superação de paradigma. Mas através do que? Como? Se não souberem a resposta, eu criarei uma conta no Paypal e responderei mediante doações.

    2a- De algum modo, esta trilogia representou certas pretensões de determinados grupos ideológicos surgidos a partir do século XIX.
    Quando eu lembro da vilania do 1o filme, eu penso no projeto positivista, fundado por Comte. Porém Ra's Al Ghur não nos deixa esquecer das pretensões do 12o Imã.
    Ao ver o segundo, penso em Nietzsche e na francesada que ama Foucault, Deleuze, movimento hippie.
    Já no terceiro, parece existir a confluência do projeto Eurasiano com os Mulçumanos. Não podemos esquecer para onde a ativista que propõe um “pacote ONU” vai levar Gotham City.
    Todos estes tem projetos de novo homem global, humanidade superior, abandono da moral judaico-cristã, limpeza ideológica e étnica.

    ResponderExcluir
  3. Felipe Melo, teus artigos são perfeitos, parabéns, meu brother.

    Essas duas análises que tu fizeste do espetacular filme do Batman são nota 10! Tanto que estou indicando esses dois artigos por email e no facebook e incentivando todos a verem o filme. Eu mesmo verei novamente o filme este final de semana no cinema, com minha namordada, meu primo e a esposa dele, já que eles viram o filme, mas sem ter em mente isso que tu postou.

    Quando eu vi o filme eu tinha lido teu artigo, mas eles não.

    Parabéns pelo teu trabalho, Cristo te abençõe.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Diogo,

      Muito obrigado pelo comentário! Cristo o abençoe também!

      Excluir

Antes de comentar, leia a política de comentários do blog. E lembre-se: o anonimato é, muitas vezes, o refúgio dos canalhas.