sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Defendendo a tolerância sendo intolerante

Uma das coisas mais interessantes de se notar nos dias de hoje é como os conceitos não significam mais absolutamente nada. As palavras perderam seu sentido original, adquirindo significado e essência com base unicamente no subjetivismo de quem as emprega.

Existem alguns exemplos bastante claros disso. O termo “utopia” foi originalmente cunhado para designar uma realidade ideal impraticável por sua absurdidade, mas hoje se refere a uma espécie de mundo idílico que poderíamos construir se nos libertássemos das nossas amarras, destruíssemos o que foi construído até hoje e, dos escombros do passado, reconstruíssemos o presente ao nosso bel-prazer. O mesmo ocorre com o termo “revolução”: o que era antes visto como um movimento abrupto de inversão, uma revolta que traz a reboque caos e desordem, hoje é comumente referido como algo necessário, até mesmo inelutável, para a construção de um mundo melhor.

Um grande exemplo de como as coisas se misturam numa mixórdia objetivamente ininteligível é um texto que descobri hoje: “Brasil é ouro em intolerância”, de André Barcinski. A tese central do texto é a de que integrantes de seleções esportivas nacionais não podem exprimir sua religiosidade livremente em público pois isso feriria a laicidade do Estado e a pluralidade religiosa de suas nações de origem. Diz o autor:
Já virou hábito: toda vez que um time ou uma seleção do Brasil ganha um título, os atletas interrompem a comemoração para abrir um círculo e rezar. Sempre diante das câmeras, claro.

O mesmo aconteceu sábado passado, quando a seleção feminina de vôlei conquistou espetacularmente o bicampeonato olímpico em cima da seleção norte-americana, que era favorita.

O Brasil é oficialmente laico desde 1891 e a Constituição prevê a liberdade de religião.

Será mesmo?

O que aconteceria se alguma jogadora da seleção de vôlei fosse budista? Ou mórmon? Ou umbandista? Ou agnóstica? Ou islâmica?

Alguém perguntou a todas as atletas e aos membros da comissão técnica se gostariam de rezar o “Pai Nosso”?

Ou será que alguns se sentiram compelidos a participar para não destoar da festa?

Será que essas manifestações públicas e encenadas, em vez de propagar o caráter multirreligioso do país, não o estão atrapalhando?
Orar diante das câmeras: demonstração detestável de intolerância
ou exercício legítimo de liberdade religiosa?

Uma coisa curiosíssima presente no texto é a defesa sub-reptícia da desumanização dos atletas. Explico: a partir do momento em que um atleta da seleção brasileira veste o uniforme, ele se torna um objeto a serviço do Estado, uma representação puramente material do poder público que deve ser instrumentalizada com base em todo o cânone do politicamente correto. Sob essa ótica, uma afirmação essencialmente positiva de religiosidade converte-se em uma manifestação impositiva de credo: é como se o mero fato de atletas se reunirem e, embalados pelo espírito de comemoração, unirem-se diante das câmeras para uma ação de graças a Deus fosse, necessariamente, um ato público de repúdio a todas as outras manifestações de religiosidade existentes no país que se representa.

Ricardo Yepes, na obra “Fundamentos de Antropologia”, explica como essa lógica funciona:
A ideologia tolerante, com efeito, é o desenvolvimento lógico do ideal da “escolha” e da visão liberal do homem e da sociedade, arraigada principalmente no mundo anglo-saxão e germânico. Segundo essa visão, a liberdade consiste sobretudo em emancipação, ou seja, independência, autonomia com relação a qualquer autoridade: cada um é a única autoridade legisladora sobre si mesmo; a autoridade civil não passa de um simples arbítrio que organiza os interesses de indivíduos que elegem livremente o que querem. [...]

O específico e típico da tolerância compreendida dessa forma é que pretende excluir qualquer forma de reprovação a condutas que desaprovamos pelo fato de serem distintas das que praticamos. Isso se chama political correctness, politicamente correto. Consiste em não reprovar a conduta de ninguém e evitar qualquer sinal ou palavra que possa ser interpretado como discriminatório. O feminismo tem algumas reivindicações típicas a esse respeito: a palavra “woman” (mulher) seria machista por conter o sufixo “man” (homem). Seria discriminatória qualquer relutância frente aos “gays”, e desde já a Igreja Católica é “super-discriminatória” por excluir as mulheres do sacerdócio.

Para esse modo de pensar, o mais perigoso para a sociedade livre e aberta em que vivemos seria o extremo oposto, conhecido hoje com o nome pejorativo de “fundamentalismo”. É evidente que se deve ser tolerante com o pluralismo e a diversidade que existem em nossa sociedade, entre outras coisas, porque devemos respeito a sua autenticidade. Mas não se pode impor uma tolerância entendida dessa maneira, porque isso seria adotar uma atitude intolerante, por exemplo, contra o legítimo direito de uma igreja organizar-se como queira. Se se leva o politicamente correto ao extremo (algo completamente inútil), eu poderia interpretar como discriminatória qualquer ação que outros cometessem contra meus desejos, ainda que seu agente esteja em seu legítimo direito de realizá-la – como, por exemplo, o direito de não me aceitar em uma instituição, como uma universidade privada ou uma empresa: não se pode ignorar o direito de admissão, que existe até mesmo em restaurantes.

Os limites da ideologia tolerante aparecem quando se quer excluir do jogo aquele que não é tolerante dessa forma, sobretudo quando os “intolerantes” formam um grupo que não pratica o politicamente correto, mas a propagação ativa de suas convicções, o que vai contra os pressupostos liberais da sociedade individualista.
O direito inalienável que toda pessoa possui de exercer livremente sua religiosidade está intimamente vinculado ao próprio conceito de Estado laico. A proposta central presente no texto do Sr. Barcinski não é a defesa do Estado laico em eventos esportivos, mas a supressão de quaisquer condutas religiosas que emanem legitimamente dos indivíduos. Nisso subjaz a tese bastante difundida que, em nome de uma defesa uniforme da sacrossanta tolerância, podemos adotar posturas intolerantes e coercitivas – como é o caso dos trogloditas da UNESP que atacaram S.A.I.R. Dom Bertrand de Orleans e Bragança no começo dessa semana. O mais irônico é que manifestações como essa têm se tornado tão corriqueiras e abundantes que o título do texto do Sr. Barcinski é, no fim das contas, bastante acertado: de fato, o Brasil tem sido medalha de ouro em intolerância.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Os dois RR da UnB: reitores e ratazanas

No poema “Define a sua cidade”, o poeta barroco Gregório de Matos Guerra (1636 – 1695), o famoso Boca do Inferno, define a cidade de Salvador. Parafraseando-o, podemos dizer que

De dois rr se compõe
esta universidade a meu ver:
um reitorar, outro roer.


A consulta – melhor seria chamá-la pelo nome, eleição, mas parece que essa palavra é forte demais para alguns setores institucionais da Universidade de Brasília – junto à comunidade universitária para compor a lista tríplice para reitor terá um segundo turno. As duas chapas que ainda estão no pleito são a Chapa 80 (reitora Márcia Abrahão, vice Marcelo Bizerril) e a Chapa 86 (reitor Ivan Camargo, vice Sônia Báo). Tanto Ivan Camargo quanto Márcia Abrahão foram decanos de Ensino de Graduação – ele, de 2003 a 2005, e ela, de 2008 a 2011. Um perfil mais amplo dos dois candidatos pode ser visto aqui e aqui.

Agora, o que isso tem a ver com reitores e ratazanas? Bom, talvez o vídeo abaixo seja mais elucidativo do que qualquer explicação:


Não temos apenas ratazanas nos subsolos da universidade. Há muitas ratazanas graúdas e bem espertas em lugares muito menos discretos e obscuros: há algumas no corpo docente, e outras tantas em meio aos estudantes. Todos os setores da universidade têm as suas próprias ratazanas gordas e marotas, todas ávidas por roer, roer e roer até não poder mais. Recentemente vimos uma boa demonstração disso, e temos acompanhado um longo processo semelhante há 4 anos. E o que essas criaturas roem? A possibilidade de uma universidade que seja realmente fundada sobre os alicerces que fazem jus aos nomes akademeia e universitas: a busca pela verdade, o crescimento humano, o ensino pautado pelas virtudes e pelos valores; em suma, a educação superior do homem.

É evidente que fazer com que a universidade deixe de ser esse imenso sepulcro caiado – imaculado por fora, detestavelmente podre por dentro – é uma tarefa de todos nós, e nisso temos insistido constantemente nesses pouco mais de dois anos de atividade. E, hoje, uma parcela importante dessa tarefa consiste em enxotar as ratazanas de seus confortáveis ninhos institucionais.

Ainda parafraseando o Boca do Inferno:

Se de dois rr composta
está a nossa Academia,
errada a ortografia,
a grande dano está posta:
eu quero fazer aposta
e quero um tostão perder,
que isso a há de perverter,
se o reitorar e o roer bem
não são os rr que tem
esta universidade ao meu ver.


O que é mais urgente hoje é fazer com que os dois RR desta universidade – o reitorar e o roer bem – se transformem nos dois CC que devemos almejar: o conhecer e o construir bem. E acreditamos que isso só poderá ser alcançado se purgarmos a Administração da UnB de qualquer resquício da gestão do Grande Timoneiro José Geraldo. Portanto, apoiamos a Chapa 86 nessa reta final.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

A legitimidade da intimidação


Inconformados com a manobra política da Associação dos Docentes da Universidade de Brasília (ADUnB) para retomar o semestre letivo, professores e estudantes resolveram ocupar a sede da associação, a Casa do Professor, para pressionar pela realização de nova assembléia que retome a greve docente na UnB. Foi realizado um abaixo-assinado para a realização de uma assembléia auto-convocada – e o Grande Timoneiro da UnB, José Geraldo, evidentemente não se eximiu de apoiar prontamente esse “direito democrático da categoria” com sua própria assinatura.

Pelo visto, os setores mais radicais da esquerda universitária – que conta com alguns estudantes que estão há tanto tempo na UnB que já devem ter criado raízes – não gostaram nadinha de provar um pouquinho de seu próprio veneno. Toda essa situação está sendo bastante didática para mostrar a que vêm, de fato, a turma “progressista”: quando a situação foge de seu próprio controle, recorrem à intimidação, à força bruta, para forçar goela abaixo seus interesses, os únicos que podem ser considerados “politicamente legítimos”.

Lembram-se da matéria da revista Veja, intitulada “Madraçal do Planalto”, sobre a perseguição política conduzida na Universidade de Brasília contra os “reacionários”? À época, houve uma indignação generalizada pelos corredores da universidade, indignação essa que levou à emissão de um sem-número de notas de repúdio, inclusive do Conselho Universitário (CONSUNI). A coisa toda foi tratada como uma invenção espúria da revista, que, tradicionalmente, representa a “extrema-direita conservadora” brasileira. Diante do atual clima de guerra campal que se instaurou na UnB nos últimos dias, pergunto: será que a reportagem foi mesmo tão surreal assim?

Mitt Romney coloca a falência do Estado Assistencialista no centro da campanha


Pierre-Yves Dugua

Mitt Romney é de direita. Ele fará uma campanha de direita. Portanto, ele é com certeza um homem perigoso, se entendi bem o New York Times. No entanto, a América é um país onde não é proibido ser liberal [1] e capitalista.

Mitt Romney

Seu companheiro de chapa, Paul Ryan, compartilha de suas convicções liberais. Mesmo que as idéias deste último para reduzir a dívida pública não sejam totalmente assumidas pelo candidato republicano à presidência.

Assim, a América terá provavelmente uma verdadeira campanha eleitoral. Ao contrário do que acontece em certo país que conhecemos bem [2], os verdadeiros problemas será explicitamente apresentados: esta crise não é conjuntural. Ela é estrutural. Para resolvê-la é preciso reinventar o sistema.

Fingir acreditar que o Estado Assistencialista pode ser corrigido é, talvez, uma boa idéia para ser reeleito. No entanto, este não é o correto diagnóstico sobre a situação atual.

Depois de mais de uma década o endividamento descontrolado dos Estados Unidos não produz mais os resultados esperados. A mediocridade do crescimento, a insuficiência da arrecadação, a impotência da política monetária, a dependência por gerações e gerações de programas sociais que já não podem ser financiados, o fracasso da regulamentação bancária para proteger os contribuintes dos riscos das decisões tomadas por uma minoria de especuladores, entre vários outros problemas reais citados pelos republicanos. E estes problemas incomodam. Soluções efetivas são duras. Impopulares. Incompatíveis, segundo os institutos de pesquisas, com uma vitória eleitoral em novembro.

Barack Obama, ao contrário, tem feito até agora campanha denegrindo seu adversário. Conseqüentemente, ele evitou esses problemas. Ele fala em defender a classe média. Ele pensa que pode salvar o Estado assistencialista da falência taxando os ricos. Questionado sobre a duplicação da dívida pública depois de sua chegada à Casa Branca, ele põe a culpa nos republicanos – os mesmos que não votaram seu plano de ampliar o teto da dívida...

O objetivo democrata: tornar Rommey odioso, porque ele é rico. Porque ele teve sucesso reestruturando empresas. Porque ele não acredita que o Estado seja o real criador das riquezas. Porque ele não acha que tirar dos ricos para dar aos sindicatos e aos pobres reduzirá as desigualdades. Porque ele não acha que tirar dos jovens para dar aos menos jovens seja uma política responsável e progressista. Barack Obama acredita que, para salvar o Estado assistencialista, é preciso mais Estado assistencialista, ou seja, mais impostos, mais transferências sociais, mais regulamentação. Seu modelo, mesmo que ele não assuma, é a Europa Social-Democrata. Eis porque os franceses adoram Barack Obama. Eis porque eles consideram Mitt Romney um mórmon terrível.

Romney é o “super-homem”? Com certeza não. Ele comete suas gafes? Às vezes, comete. Ele tem tendência de mudar de opinião quando muda a plateia? Se pode desconfiar. Os republicanos poderiam ter encontrado um candidato melhor? Claro que sim. Mas Mitt Romney também provou que ele pode governar um estado muito democrata, Massachusetts, de maneira honrada. Precisamente porque ele veio do mundo das finanças, ele é pragmático.

Gostemos ou não das soluções propostas por Paul Ryan, todos reconhecem que o representante de Wisconsin difere do conjunto da Câmara dos deputados. Ele não se contenta apenas com slogans e generalidades visando bajular essa ou aquela categoria de eleitores. Enquanto que outros eleitos pelo partido republicano e pelo “Tea Party” prometem “reduzir despesas públicas”, mas evitam entrar em detalhes, Paul Ryan ousa falar do que incomoda.

Paul Ryan

Lúcido, ele parte do princípio que a crise atual não é conjuntural, mas estrutural. Ele afirma que a redução de endividamento público é imperativa. Obama quer sempre adiar para amanhã. Paul Ryan ousa dizer que por razões demográficas e orçamentárias é preciso desfazer os sistemas sociais nascidos do “New Deal” de Franklin Roosevelt e da “New Society” [3] de Lyndon Johnson.

Ele, portanto, propõe uma privatização parcial do muito popular seguro de saúde federal (Medicare), que cobre 48 milhões de americanos aposentados. Ele quer dar aos estados a liberdade de administrar como eles acharem melhor a ajuda aos pobres e desfavorecidos (Medicaid). Ele quer eliminação de numerosas e populares deduções fiscais em troca de um declínio acentuado nas taxas marginais do imposto de renda. Na área da fiscalização das empresas, ele defende a mesma abordagem: reduzir o imposto sobre os lucros, mas remover as isenções que fazem o código tributário ser incompreensível e contra produtivo. Todas estas propostas fazem dele tanto um alvo fácil para Barack Obama quanto um homem indispensável para um republicano que está buscando a Casa Branca.

Pierre-Yves Dugua é correspondente de economia nos Estados Unidos para o jornal diário Le Figaro.
Tradução: Jorge Nobre, estudante de Letras - Tradução Francês da UnB

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Notas do Tradutor

[1] Nesse caso, a palavra “liberal” tem o sentido de ser pró livre-mercado e a favor da redução do tamanho do Estado, ou seja, tem o sentido que tanto franceses quanto brasileiros dão a palavra, que em muitos casos é o contrário do sentido que o termo “liberal” tem nos Estados Unidos.
[2] Pierre-Yves Dugua está falando da França, mas também poderia estar falando de outro país que conhecemos muito bem...
[3] Trata-se de um provável lapso do autor, que deve estar querendo dizer “Great Society”.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A conveniência do “politicamente ilegítimo”


Como todos devem saber, uma assembleia dos professores da Universidade de Brasília realizada na última sexta-feira, dia 17 de agosto, decidiu, por 130 votos a 115, pelo encerramento da greve na universidade e retomada imediata das aulas no dia 20 de agosto (hoje). O resultado pegou de surpresa muitas pessoas, especialmente do movimento grevista e da administração da universidade. O Comando Local de Greve (CLG) e seus aliados começaram unanimemente a acusar a direção da Associação dos Docentes da UnB (ADUnB) de golpe.

Hoje, as novas críticas feitas contra a diretoria da ADUnB não são mais de golpe: os integrantes e os simpatizantes do CLG admitem que não houve golpe, uma vez que a decisão não foi tomada num contexto de quebra de legalidade, mas defendem que a assembleia de sexta-feira foi “politicamente ilegítima”. Por isso, o CLG convocou uma grande reunião, que aconteceu no Auditório Dois Candangos, da Faculdade de Educação, para não apenas anular a assembleia de sexta-feira, mas para também destituir a diretoria da ADUnB.

O principal argumento que sustenta a crítica de ilegitimidade política da assembleia – o que, na visão do CLG, é uma atitude passível de destituição da diretoria da ADUnB – é o de que não havia quórum suficiente para dar legitimidade política, e não legal, à assembleia. Assim sendo, a formação do quórum pode ser questionada, pois não estariam representados na assembleia todos os segmentos políticos dos docentes.

Fonte: Correio Braziliense

O que mais chama atenção nesse argumento raso é que absolutamente todos os métodos utilizados pela turma que compõe e apoia o CLG foram “politicamente ilegítimos”. Não é de hoje que se conhece muito bem a técnica para se manipular assembleias, tanto de professores quanto de alunos: tratar de assuntos mais chamativos no começo da reunião, de modo a atrair um grande quórum inicial (e produzir uma documentação que prove a existência de quórum suficiente), e, em seguida, protelar a decisão principal para o fim da reunião, quando a assembleia já está esvaziada da grande maioria dos membros e contam-se praticamente apenas a mesma patota de sempre. Legalmente, as deliberações da assembleia podem ser declaradas válidas, mas não podemos chamar de legítimas assembleias em que 50 pessoas decidem o destino de quase 2 mil docentes.

Se essa foi a tática utilizada pela diretoria da ADUnB para dar fim à greve, as críticas raivosas da patotinha paredista não passam de hipocrisia descarada; se essa não foi a tática utilizada pela diretoria da ADUnB, então a ilegitimidade reside na própria falta de respeito do CLG a uma decisão legítima e soberana da assembleia dos professores, o que pode ser corretamente configurado de puro revanchismo. Em ambos os casos, chamar a assembleia de “politicamente ilegítima” significa dizer que só haveria “legitimidade política” se a decisão secundasse os anseios do CLG, quod erat demonstrandum.

O mais impressionante (e preocupante) nisso tudo é o afã com que alguns universitários se prestam a fazer papel de vaca-de-presépio na mão de alguns docentes, manietando a própria capacidade de raciocínio crítico para servir de bucha-de-canhão no meio de toda essa mixórdia. Eles são um retrato do que, com raras exceções, a nossa universidade se tornou: um imenso curral de jumentinhos ideologicamente dóceis e laboriosos.

Em tempo: para quem não lembra, a assembleia que instaurou a greve docente na UnB contava com 176 professores. Curiosamente, ela não foi considerada “politicamente ilegítima” como a assembleia de sexta-feira, que tinha 250 docentes. Lógica curiosa, não acham?

domingo, 19 de agosto de 2012

A universidade, a verdade e a educação liberal


Quid est veritas?

Essa pergunta retórica, eternizada pelo pusilânime Pôncio Pilatos de modo quase irônico, resume de maneira bastante eloqüente a essência do espírito da universidade hoje em dia. Dentro do ambiente acadêmico, o simples desejo de dar a conhecer que se acredita em uma verdade de fato, sólida e atemporal, dá ensejo a reações negativas as mais diversas, que vão do enxovalho à perseguição. Em todo o mundo, um único mantra parece ecoar em praticamente todas as universidades renomadas, até mesmo nas mais tradicionais: a verdade é relativa, não passa de um constructo arbitrário cujo único critério de validade é o subjetivismo. Assim sendo, não há absolutamente nada que deve ser conhecido por si mesmo, que possui um valor intrínseco e que, assim, conduza o homem a um fim mais elevado: o valor do conhecimento é medido em virtude de sua utilidade, de sua possibilidade de instrumentalização visando a atingir determinados fins materiais específicos, sejam eles aumentar a produtividade, proteger o meio-ambiente ou promover a afamada justiça social.

Todavia, não é para isso que surgiu a universidade. John Henry Newman, grande cardeal e intelectual inglês do século XIX, foi um dos grandes defensores da ideia original de universidade. Para Newman,
há um fim humano, um fim não instrumental, para a educação superior – um fim cujo valor reside em si mesmo. Para Newman, o objetivo de uma educação universitária é sempre a “ampliação da mente”, ou “iluminação”, ou “filosofia”. No entanto, ele não se satisfaz com nenhum desses termos. Ao contrário, ele evoca um termo que pode ser aplicado à mente da mesma forma que “saúde” é aplicada ao corpo. [...] Desejamos saúde em virtude do que um corpo saudável nos permite fazer, mas também por si mesma; e o mesmo também ocorre com uma mente “ampliada” ou “iluminada”. E, assim como a saúde do corpo é alcançada quando se exercitam todas as suas partes, Newman defende que a saúde do intelecto é alcançada através da educação mais aberta possível. (HENRIE, 2000. Tradução livre. Grifos do original.)
John Henry Newman

Em sua obra “The Idea of a University”, Newman aponta (tradução livre):
Nosso desiderato não são os modos e hábitos dos cavalheiros [...] mas a força, a firmeza, a compreensão e a versatilidade do intelecto, o comando sobre nossos próprios poderes, a justa estimativa instintiva das coisas quando passam ante nós, o que é um dom natural, mas que comumente não é adquirida sem grande esforço e o exercício dos anos. [...]
Quando o intelecto for apropriadamente treinado e formado para possuir uma visão ou compreensão conexa das coisas, demonstrará seus poderes com maior ou menor efeito de acordo com sua qualidade ou capacidade particular no indivíduo. No caso de muitos homens, far-se-á se sentir no bom-senso, no pensamento sóbrio, na razoabilidade, na candura, no autocontrole e na firmeza de visão, que os caracteriza. Em alguns, terá desenvolvido hábitos de negócios, poder de influenciar os outros e sagacidade. Em outros, haverá de elicitar o talento para a especulação filosófica e conduzir a mente à eminência deste ou daquele departamento intelectual. Em todos, será a faculdade de entrar com relativa facilidade em qualquer matéria do pensamento e assumir com habilidade qualquer ciência ou profissão.
Quando comparamos essas palavras de Newman com a realidade do mundo acadêmico, não apenas sentimos, mas vemos que algo se perdeu no meio do caminho – algo valioso, verdadeiramente imprescindível, que vivifica a vida intelectual de uma forma completamente alheia à estéril concepção utilitarista de hoje.

Se a universidade de hoje é apenas uma sombra distorcida da universidade original, como empreender a busca pela verdade? James Vincent Schall, S. J., professor de Filosofia Política da Georgetown University, aborda essa questão da seguinte forma (tradução livre, grifos do original):
O que pode ser essa outra forma de aprendizado? A primeira coisa a lembrar é que a maioria das grandes mudanças, dos grandes encontros com a verdade, com o que é bom, começa em lugares tranquilos e insignificantes. Frequentemente, começos pequenos surgem como que por acaso, ainda que mesmo os acasos sejam subsumidos em nossa vocação. Assim, o que nos faz acordar pode ser o que Aristóteles chamou de “admiração”, uma curiosidade sobre o que algo significa ou é. Pode ser um amor, uma consciência de que não estamos completos por nós mesmos. Mesmo nosso conhecimento começa não em conhecendo nos mesmos, mas conhecendo algo não somos nós, alguma outra coisa que seja.
James Vincent Schall, S. J.


Mais adiante, Schall esclarece:
O aprendizado descrito aqui é chamado de “liberal”, ou seja, libertador. Dá muito trabalho ser livre. Mesmo assim, precisamos de algum caminho para nos tornarmos o que somos. Ninguém pode fazê-lo por nós, mas também não podemos fazê-los simplesmente por nossa conta. Precisamos de guias para encontrar guias. Algo que Aristóteles falou certa vez deve ser reiterado aqui: muitas pessoas que não conhecem livros são, literalmente, muito sábias, às vezes mais sábias do que os ditos educados. Talvez seja o caso de nosso avô ou de algum operário ou camponês comum. Devemos conhecer e respeitar as experiências das pessoas comuns. Onde quer que haja uma mente e uma realidade, alguém pode encontrar a verdade. De modo algum isso apequena nossa vontade de conhecê-la de modo mais completo e buscar a orientação de bons livros, bons professores, bons pais, boas bibliotecas e bons amigos.
Para se buscar a verdade, não é necessário abdicar da formação acadêmica e se tornar uma espécie de intelectual recluso que vive, à sua maneira peculiar, uma vida monástica de contemplação das coisas mais elevadas da Criação. Antonin-Dalmace Sertillanges, em “A Vida Intelectual”, defendia que a aplicação disciplinada do intelecto por duas horas ao dia, já considerando todas as atividades pré-existentes no dia, já seria suficiente para cultivar o raciocínio e a capacidade contemplativa necessária a uma vida intelectual.

A. D. Sertillanges, O. P.

Evidentemente que isso não é algo que se obtém em curto prazo. Fomentar uma vida intelectual e conhecer a verdade por si mesma é mais do que um empreendimento com duração determinada: é um compromisso para a vida inteira. Isso requer um sentimento verdadeiro de amor à verdade, um desejo sincero de conhecer as coisas como elas são não baseado na crença de que, assim, poder-se-á haurir benefícios especiais ou facilidades, mas baseado na sólida crença de que esse é o propósito e o fim último da vida do homem sobre a terra: conhecer a verdade.

Para aqueles que estão interessados em iniciar essa busca, recomendo a leitura de “A Student’s Guide to Liberal Learning”, de James V. Schall, S. J., disponível gratuitamente e na íntegra no site do projeto College Guide – uma iniciativa do Intercollegiate Studies Institute. É um ensaio fabuloso que pode ajudar muito a preparar-se de maneira adequada para empreender essa longa e grandiosa jornada rumo à verdade.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A Teoria do Valor-Trabalho de Obama


Ron Ross

Além de ser irritante e ofensivo, o agora notório discurso “você não construiu isso” do presidente Obama provavelmente deixou muitas pessoas confusas. Essa ideia é tão alheia a como a maior parte dos americanos pensa que eles podem ter ficado imaginando de onde isso saiu.

Pense você ou não que é correto chamar Obama de marxista, sua perspectiva de como a economia funciona é marxista de cabo a rabo. Mais especificamente, é um reflexo do que é comumente chamado de “teoria do valor-trabalho” de Marx.

De acordo com o Dictionary of Economics, essa teoria defende que “o valor de um bem ou serviço é proporcional ao trabalho empregado para produzi-lo”.

Economistas imunes ao feitiço do Marxismo consideram a teoria do valor-trabalho uma confusão tremenda. O próprio Marx teve dificuldade em corrigir as lacunas e contradições lógicas dessa teoria. Um problema óbvio é que “trabalho” não é um recurso homogêneo. Assim sendo, não é o único recurso escasso necessário para a produção de praticamente todo bem ou serviço.

A questão de como os preços relativos são determinados ainda é uma questão central em economia. “Teoria dos preços” é o que abarca a maior parte da microeconomia.

Hoje, a conclusão principal sobre o que determina os preços relativos é que eles resultam da interação entre “oferta e demanda”. No contexto da teoria dos preços, oferta e demanda são como gavetas de arquivos onde inúmeros fatores podem ser organizados e analisados.

O preço de qualquer produto é afetado pela quantidade de todos os recursos necessários para produzi-lo – trabalho, energia, terra, informação, tempo, por exemplo. A posição de Marx era que apenas um desses recursos importava, qual seja, o trabalho. Ademais, ele não dedicou nenhuma atenção ao papel da demanda na determinação do preço. É como se ele tivesse tentado fabricar uma tesoura com uma única lâmina e, de fato, um pedaço bem pequeno. Não creio que seja exagero dizer que nenhum economista, além dos crédulos marxistas, pensa que a teoria do valor-trabalho faz algum sentido ou tem alguma serventia para se compreender como a economia realmente funciona.

Karl Marx

Em sua clássica obra sobre a história do pensamento econômico, William Fellner levanta a seguinte questão sobre a teoria do valor-trabalho e oferece uma explicação:
Que função a teoria exerce no sistema marxista, e por que os marxistas contemporâneos continuam agarrando-se a ela? A resposta, pensamos, é que uma doutrina simples e genérica da exploração é a essência do Marxismo enquanto crença, e que é impossível obter uma doutrina da exploração tão simples e genérica quanto a marxista fora da premissa do “direito do trabalhador ao total da produção”. O Marxismo enquanto crença é fundado sobre a ideia de que todo o lucro haurido pelos donos da riqueza resulta da exploração. O credo marxista necessita da doutrina da exploração como fundamento. (Grifos no original.) – William Fellner, Modern Economic Analysis
Crer na teoria do valor-trabalho é o que explica a hostilidade ao lucro que é tão prevalente na esquerda. Se o trabalho é 100% responsável pela criação do valor, lucro é roubo. O lucro só é possível se o trabalho é explorado e somente se o capitalista obtém o que não é seu de direito. Da mesma forma, propriedade é roubo, assim como diversas formas de capital. Marx é o inventor da palavra “capitalismo”. Seu túrgido magnum opus de três volumes se intitula Das Kapital.

O Marxismo é, sob diversas formas, uma confusão intelectual. Teoricamente, não faz sentido. Na prática, não levou à utopia, mas à distopia. Os regimes mais horrendos e repressivos do mundo de hoje – Coreia do Norte, Cuba e Zimbábue, por exemplo – são marxistas na teoria e na prática.

Todavia, a visão marxista de mundo continua popular na esquerda. Os discursos de Obama refletem sua crença profundamente sólida de que os donos de negócios não merecem seu quinhão de renda e riqueza que recebem. Todo valor deve ser dos trabalhadores. Qualquer outro arranjo é resultado da “exploração do homem pelo homem”. De acordo com Marx, isso é o que acontece no capitalismo e continuará a acontecer até que a propriedade privada seja abolida. Somente assim a verdadeira igualdade será alcançada.

É importante lembrar que até ideias decrépitas podem ser populares por longos períodos de tempo. Outros dois exemplos clássicos são o Malthusianismo e o Keynesianismo. Suas predições e prescrições políticas se provaram equivocadas um sem-número de vezes, mas ainda mantém grande apelo como doutrinas. O “Ensaio sobre o Princípio da População” de Malthus foi publicado em 1798 e a “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda” foi publicado em 1936. A falha do maciço gasto de estímulo dos Democratas deveria ser suficiente para jogar o Keynesianismo na lixeira de ideias que soam boas e se revelam desastrosas quando aplicadas ao mundo real.

John Maynard Keynes

Marx realmente acreditava que o capitalismo colapsasse poucos anos depois da publicação de “O Manifesto Comunista”, em 1848. “Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo”, de V. I. Lenin, publicado em 1916, foi essencialmente uma tentativa de explicar porque o capitalismo ainda existia. Nessa época, os marxistas esperavam que o capitalismo tivesse acabado há muito tempo.

Um mérito de J. M. Keynes foi sua compreensão do poder da ideologia. No parágrafo final de sua “Teoria Geral”, escreveu: “As ideias dos economistas e dos filósofos políticos, estejam certos ou errados, são mais poderosas do que é comumente compreendido. [...] As autoridades loucas, que ouvem vozes no ar, estão destilando seu frenesi de algum escritor acadêmico de alguns anos atrás.”

O fato de Barack Obama ser ou não marxista depende de como você define Marxismo. Quase todo mundo que age como marxista reage abruptamente quando chamado de marxista. Provavelmente há uma centena de marxistas enrustidos para cada um que admite sê-lo. A certidão de nascimento que eu realmente gostaria de ver é aquela que mostra onde a ideologia de Obama nasceu.

Ron Ross, Ph.D., é economista e mora em Arcata, California. É autor do livro The Unbeatable Market.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A confusão da revolução


O último texto que escrevi, uma análise do excelente filme “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, acabou suscitando alguns comentários e ideias bastante interessantes, sobretudo no tocante à definição do termo “revolução”. É certo que o tema não é nada fácil: inúmeras obras foram escritas a respeito das mais diversas revoluções, e frequentemente deparamo-nos com definições que chegam a ser mutuamente excludentes sobre o mesmo fenômeno.

A confusão não é injustificada. Quando costuma se chamar alguém de “revolucionário”, normalmente o que se busca é afirmar que essa pessoa é responsável por uma nova maneira de pensar ou agir que necessariamente gerou um benefício incalculável para a Humanidade. Nesse sentido, Albert Einstein teria “revolucionado” a Física com sua teoria da relatividade, assim como Steve Jobs “revolucionou” o mundo da informática com os produtos Apple. A rigor, entretanto, a utilização do termo nos exemplos dados é equivocada.

O termo “revolução” advém do latim “revolutio”, que significa mudança ou inversão abrupta – não foi à toa que, por exemplo, Nicolau Copérnico utilizou o termo no título de seu tratado “De revolutionibus orbium coelestium” (“Das Revoluções das Esferas Celestes”), de 1543. O uso político do termo começou no século XVII, quando começou a se referir à deposição do rei inglês James II, da casa de Stuart, como Revolução Gloriosa. A aplicação análoga ocorreu em virtude do caráter da sublevação que depôs o monarca católico: foi uma ruptura imediata com o poder vigente. Note-se que, a priori, não havia nenhum tipo de acepção moral positiva ou negativa, mas apenas uma aplicação técnica do termo para se explicar certos fenômenos marcados por uma transformação intensa e quase instantânea – tanto que “revolução” e “revolta” possuem o mesmo radical em virtude de possuírem, no começo, a mesma significação.

Se o termo “revolução” foi compreendido desde sua origem como uma mudança repentina, normalmente uma inversão, advinda de um ato abrupto de ruptura da ordem então vigente e conhecida, referir-se a Albert Einstein ou Steve Jobs como “revolucionários” é um equívoco na medida em que suas contribuições para o progresso humano representaram uma inovação calcada num continuum formado pelos desenvolvimentos promovidos por seus antecessores. Trocando em miúdos: uma vez que nenhum dos dois buscou repensar suas áreas de atuação desde o começo, o trabalho de Einstein e Jobs não pode ser visto fora da tradição específica às quais pertenciam. As inovações desenvolvidas por ambos são fruto do amadurecimento natural de suas ciências ao longo do tempo, não de esforços deliberados de ruptura visando ao surgimento de uma nova ordem de coisas. Assim sendo, Einstein e Jobs podem ter sido revolucionários acidentalmente, mas jamais essencialmente.

Quando indiquei que Bane, vilão do filme “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, é essencialmente revolucionário, indiquei que se encontravam nele todas os pré-requisitos de um verdadeiro e legítimo revolucionário: uma crença cega na indefectibilidade de sua pretensa superioridade moral, uma vontade inabalável de solapar toda a ordem constituída para erigir outra sobre seus escombros, e uma firme convicção de que um fim considerado justo e necessário à causa justifica plenamente a utilização de quaisquer meios – sobretudo a manipulação, a perseguição e o terror. Todos os grandes revolucionários da história humana possuíam essas características, dos philosophes comandados por Robespierre aos guerrilheiros de Sierra Maestra.

Curiosamente, um dos meios mais empregados pelos revolucionários para serem bem-sucedidos é justamente fazer crer que revolução remete necessariamente a uma mudança não apenas positiva, mas imprescindível – e, de certa maneira, até mesmo inelutável. Essa distorção de conceito carrega em seu bojo a justificação moral que lhes faltava: “estou apenas servindo de instrumento daquele progresso do qual não podemos escapar”. Tanto é assim que, nos dias atuais, apresenta-se uma situação bizarra: por um lado, aquelas pessoas que prestaram valiosos serviços à Humanidade são qualificadas de “revolucionárias”; por outro lado, os verdadeiros revolucionários, que objetivavam a derrocada da tradição e da ordem em prol de uma ordem artificial nascida de suas ideologias particulares, são equiparados aos revolucionários acidentais, perfazendo com eles o mesmo panteão de heróis do gênero humano.

Toda essa celeuma em torno de um termo cuja acepção pode-se facilmente depreender a partir do contexto de sua utilização é, enfim, bastante didática no sentido de mostrar claramente a que nível a distorção de conceitos e linguagens chegou nos dias em que vivemos. Isso é bastante conveniente para aqueles que, valendo-se do grotesco relativismo que se consolida dia após dia, buscam mutilar a verdade, destronando-a em prol de mentiras perigosas. Essa realidade, ainda tomada por muitos como uma mera teoria conspiratória de conservadores crípticos e escamosos, é mais evidente do que se pensa.

Em tempo: peço desculpas a todos os leitores pela demora em publicar textos neste blog. Mesmo com a greve da UnB, tenho sido absorvido por um sem-número de atividades, sobretudo intelectuais, que inclusive servirão para alimentar o blog com textos mais aprimorados sobre temas diversos. Conto com a gentil compreensão de todos.