terça-feira, 24 de julho de 2012

A Itália novamente derrota a Alemanha

John Browne
Capitalism Magazine

Junho não foi o melhor dos meses para a Alemanha. Primeiro, ela sofreu uma perda para a Itália nas semifinais da Eurocopa. Depois, ela sofreu um golpe mais significativo quando o primeiro-ministro da Itália, Mario Monti, arrancou concessões importantes da chanceler alemã Angela Merkel, numa reunião de cúpula da Europa. A perda nos gramados pode irritar um pouco o ego nacional. Mas uma perda no campo das finanças pode ser muito mais grave.

O acordo feito por Angela Merkel põe em risco o duramente conquistado tesouro financeiro da Alemanha e poderá torná-la objeto da ira permanente de seu povo. Depois de meses de resistência, muitos se perguntam por que Merkel finalmente cedeu. Alguns acreditam que ela foi convencida pela fragilidade dos bancos alemães diante da dívida soberana da Zona Euro. Outros creditam as advertências do Banco de Compensações Internacionais [1], que pode ter persuadido os líderes das nações da zona euro a ceder soberania em troca de apoio financeiro. Mas qualquer que seja a razão, Angela Merkel está navegando em águas politicamente perigosas.

Pesquisas e mais pesquisas deixam perfeitamente claro que o povo alemão não está interessado em perder suas suadas poupanças para infrutíferos e intermináveis pacotes de socorro ou desvalorização cambial. E ainda, o Tribunal Constitucional Federal da Alemanha [2] tem apoiado a opinião popular em sua oposição à aceitação germânica do controle “antidemocrático” da União Europeia sobre o povo alemão. De fato, o Tribunal tem relutado em aprovar a participação alemã no essencial Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira [3].

Os líderes alemães, no entanto, têm procurado transformar o poder econômico de seu país em poder político sobre toda a Zona Euro.

Para o povo alemão, não vale a pena sacrificar o poder aquisitivo das suas poupanças acumuladas meticulosamente para as vantagens de um império econômico. Para este fim, a Alemanha está isolada dentro da União Europeia numa grande, embora raramente comentada, luta por uma moeda estável. Nesse sentido, Angela Merkel tem enfrentado uma falange de nações que, dominadas pelos iluminados keynesianos anglo-americanos, têm lutado por um euro desvalorizado. Até agora, a Alemanha tem tido sucesso em fazer do Banco Central Europeu (BCE) um bom guardião de uma moeda forte.

Esses fatores explicam a relutância da Alemanha em atender a apelos para financiamento de países da zona euro com problemas que precisam de dinheiro, mas não estão dispostos a qualquer concessão quanto à soberania nacional. O preço recente dessa posição tem sido a recessão na Europa.

A fim de manter vivo o ideal franco-germânico de uma União Europeia, os bancos alemães se “rechearam” com dívidas questionáveis de nações membros da Zona Euro avaliadas em bilhões de euros. A Alemanha, portanto, tem interesse em proteger essas dívidas. Por isso, o Banco de Compensações Internacionais emitiu no mês passado uma declaração forte, reveladora e importante. Considerou que, “os bancos centrais estão sendo pressionados para prolongar o estímulo monetário a governos em dificuldades”, acrescentando que estes estímulos são apenas “paliativos e têm os seus limites.” O Banco de Compensações Internacionais advertiu em seguida que “como os benefícios de uma extraordinária flexibilização da política monetária se contraem e se tornam menos seguros, os riscos de expansão dos balancetes dos bancos centrais (estando atualmente em $ 18 trilhões) [4] provavelmente crescerão.”

Em resumo, o Banco de Compensações Internacionais disse aos líderes intransigentes que, para evitar as repercussões desagradáveis de uma possível grande agitação civil e de uma ampliação da pobreza em suas sociedades, eles devem entregar parte da sua soberania em troca de financiamento. Nossa suspeita é que garantias secretas de algo nesse sentido podem ter sido dadas pelos PIGS a Angela Merkel [5].

O resultado foi que alguns pacotes de socorro na Zona Euro foram autorizados para recapitalizar diretamente bancos europeus. Naturalmente, isso inclui bancos alemães. No entanto, os números são provavelmente muito pequenos para possibilitar uma recuperação bancária na Europa. Por exemplo, os créditos de aproximadamente 600 bilhões prometidos pelo Fundo Europeu de Estabilização Financeira são eclipsado pelos US $ 3 trilhões de ativos tóxicos detidos por bancos espanhóis e italianos. Por outro lado, o acordo divulgado não prepara o caminho para controles bancários pan-europeus. Isso pode indicar os passos iniciais de uma renúncia à soberania em favor dos alemães.

Se Angela Merkel for bem sucedida em convencer o parlamento e os eleitores a apoiarem o novo pacote de ajuda, e também se um acordo secreto sobre uma entrega progressiva da soberania para a Alemanha tenha de fato sido feito, o novo pacote poderá acontecer. Na ausência destas duas condições críticas, o acordo de junho deve ser visto como qualquer coisa menos uma vitória pela imprensa.

Tradução: Jorge Nobre, estudante de Letras - Tradução Francês da UnB
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Notas do tradutor

[1] O Banco de Compensações Internacionais (em inglês: Bank for International Settlements) é uma organização internacional responsável pela supervisão bancária. Visa “promover a cooperação entre os bancos centrais e outras agências na busca de estabilidade monetária e financeira”. Sediado em Basileia, na Suíça, reúne 55 bancos centrais de todo o mundo.

[2] Sobre o Tribunal Constitucional Federal da Alemanha, ler mais aqui.

[3] Sobre o Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira, ler mais aqui (onde também se pode achar uma pequena nota sobre as queixas ao Tribunal Constitucional Federal da Alemanha).

[4] Você leu certo, caro leitor: dezoito trilhões. Para ter uma idéia do que isso significa, considere que o PIB do Brasil foi avaliado em US$ 2 trilhões e 294 bilhões no ano passado.

[5] PIGS é um acrónimo pejorativo originalmente usado na imprensa de língua inglesa, sobretudo britânica, para designar o conjunto das economias de Portugal, Itália, Grécia e Espanha (Spain, em inglês). Em inglês o acrónimo significa “porcos”, animais por vezes usado em caricaturas para ilustrar a má performance económica dos 4 países. A expressão “economias porcinas” é também usada. Com a Irlanda em dificuldades, a expressão ganhou mais um I e se tornou PIIGS.

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