segunda-feira, 18 de junho de 2012

Universidade para quê?

Um dos discursos mais utilizados por integrantes e simpatizantes do Partido dos Trabalhadores para defender o governo Lula é dizer que “nunca antes na história destepaiz” foram criadas tantas universidades federais. Uma dessas instituições é a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), criada pela lei nº 11.151, de 29 de julho de 2005. A UFRB orienta-se pelos seguintes princípios:
  • Cooperação com o desenvolvimento socioeconômico, científico, tecnológico, cultural e artístico do Estado e do País e compromisso com o desenvolvimento regional;
  • Criação de marcos de reconhecimento social, oriundos dos serviços especiais prestados no atendimento da população;
  • Gestão participativa;
  • Uso de novas tecnologias de comunicação e de informação;
  • Equidade nas relações entre os campi;
  • Desenvolvimento de um ambiente capaz de viabilizar a educação à distância;
  • Processo de avaliação institucional permanente;
  • Adoção de políticas afirmativas de inclusão social.
Há poucos instantes, recebi de um leitor do blog um texto bastante interessante sobre a UFRB: trata-se de um discurso proferido pelo reitor da instituição, Paulo Gabriel Soledade Nacif, por ocasião dos 190 anos da Ata de Vereação de Santo Amaro. O que é mais interessante observar no discurso do reitor Paulo Gabriel não é a ênfase na importância da Ata de Vereação, mas as ideias que foram ardorosamente defendidas.

Paulo Gabriel, reitor da UFRB.

Para Paulo Gabriel, o papel da universidade brasileira – sobretudo da UFRB, já que “o Recôncavo sintetiza a Bahia” e esta “sintetiza o Brasil” – é reinventar o Brasil: “a Universidade, através da educação e do conhecimento, é responsável por contribuir para construção de caminhos para a transformação, o desenvolvimento e para a justiça social.” Esse papel da universidade é inelutável, especialmente depois de termos tido o melhor governo do Brasil de todos os tempos:
O período democrático, a estabilidade econômica e institucional, a sociedade do conhecimento, a redefinição do equilíbrio de poder no planeta, o Brasil, finalmente, reconhecido em sua importância econômica e política no mundo. A era Lula. Sim, estamos em mais um momento de transformações profundas.
Mas não para por aqui. Exultando a cor da pele acima de qualquer outra coisa – “um Reitor negro, algo impensável naquela época, em um País que tanto tempo depois ainda luta pela reparação ao povo escravizado” – e uma suposta baianidade que é tida como a única responsável pela “invenção” do Brasil – afinal, a Bahia é uma “região, que podemos, sem falsa modéstia e com orgulho, dizer que criou esse País, porque representa sua diversidade, reúne seus mais significativos traços culturais” –, o discurso do reitor não cita uma única palavra de nenhum pensador baiano. Não há nenhuma citação a Ático Vilas-Boas da Mota, ou Rui Barbosa, ou Teodoro Fernandes Sampaio. No entanto, pululam as citações de Gilberto Gil e Caetano Veloso, lembrados com uma deferência inusitada. Decerto estes artistas contribuíram mais para a “invenção” do Brasil do que aqueles estudiosos.

Caetano e Gil: artífices do Brasil?

O que importam essas pinçadas do texto, afinal de contas? Não tem o reitor o direito de falar o que bem quer, citar quem deseja? Não estamos aqui criticando seu direito de expressão, mas analisando o conteúdo dessa expressão. E a mensagem do discurso é: a Bahia construiu o Brasil, o governo Lula fez ressuscitar aquelas potencialidades inventoras baianas e, mais do que nunca, a universidade brasileira, especialmente baiana, deve resumir-se a “reinventar” o Brasil num incessante devenir. Não há continuidade, não há tradição, não há legado: há apenas uma mudança perene, boa em si mesma, “sem lenço e sem documento”.

Isso ilustra bem o que se pensa sobre a academia no Brasil: ela deve promover a mudança. Que mudança? Qualquer mudança, desde que seja aquela ditada pelo zeitgeist progressista em que estamos atolados. A constatação dessa realidade nos discursos sobre a universidade não é fruto de um comportamento extraordinariamente reacionário – o leitor que me mandou o discurso até mesmo compartilhou seu desejo em “saber se estou sofrendo de algum problema psicológico (paranóia ou algo parecido)” –, mas de argúcia e senso crítico. A universidade deve construir conhecimento, não brincar de monta-e-desmonta; ela deve calcar aos pés as trivialidades hodiernas em nome de um conhecimento que transcenda o mero gostismo de hoje. Ela deve ser, em suma, tradicional, profunda e livre.

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