quinta-feira, 7 de junho de 2012

Uma nota sobre ateísmo e totalitarismo


Há mais de meio século, quando eu ainda era criança, lembro de escutar alguns idosos oferecerem a seguinte explicação para os grandes desastres que se abateram sobre a Rússia: “Os homens se esqueceram de Deus; eis porque tudo isso aconteceu.” Desde então passei quase 50 anos trabalhando na história de nossa revolução; no processo, li centenas de livros, coletei centenas de testemunhos pessoais e confeccionei oito obras para contribuir no esforço de remover o entulho deixado por essa sublevação. Mas se me pedissem hoje para responder o mais concisamente possível sobre a causa da catastrófica revolução que devorou mais de 60 milhões de pessoas, eu não poderia fazê-lo de modo mais preciso do que repetir: “Os homens se esqueceram de Deus; eis porque tudo isso aconteceu.”
 
Aleksandr Solzhenitsyn

6 comentários:

  1. A Suécia, com a maioria da população atéia, parece ter esquecido de Deus e está muito melhor do que a gente, onde o Ateu é uma das "categorias" de indivíduo que mais sofre preconceito no Brasil, atrás de usuários de drogas e homossexuais. Não que usuários de drogas e homossexuais mereçam ser alvo de preconceito, ou até que tenha algo errado em sermos usuários de drogas ou homossexuais. Isso é pra mostrar como o conservadorismo é uma atraso para o país.

    Gabriel Mesquita

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    1. Gabriel,

      Eu sinceramente recomendo que você estude um pouco as coisas antes de comentar. Dos quase 10 milhões de suecos, a composição religiosa é a seguinte:

      - 6,5 milhões pertencem à Igreja Luterana da Suécia (que era estatal até o ano 2000);
      - 500 mil muçulmanos;
      - 100 mil cristãos ortodoxos;
      - 92 mil católicos;
      - 20 mil judeus;
      - O restante da população (cerca de 2 milhões de pessoas) são adeptas do neo-paganismo, do agnosticismo ou do ateísmo.

      Portanto, a maioria da população sueca ainda é cristã, e não ateia, como você disse.

      Além disso, relacionar ateísmo e bem-estar é uma das coisas mais imbecis que alguém pode inventar. Mesmo porque o bem-estar social de que a população sueca goza é produzido às custas de uma pressão fiscal absurda e de programas de assistência governamental que, a longo prazo, levarão a economia sueca a ter o mesmo destino que a economia grega. Isso não absolutamente nada a ver com religião.

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  2. Olá Senhor

    Posso estar equivocado nas pesquisas que eu fiz em relação a proporção religiosa da suécia, poderia por favor passar essa referência?

    Em relação ao modelo social sueco, eu entendo que é dessa forma, e não acho que irá levar a problemas econômicos como o da grêcia, embora também não ache que nunca irá ter problemas econômicos por lá. De qualquer forma o estado Sueco é muito mais barato em relacão ao estado brasileiro, e essa enorme carga tributária é sim revertida a população com serviços de qualidade. Mas não acho que bem-estar social esteja diretamente relacionado à riqueza, e sim à liberdade individual do cidadão.

    Bom, o bem estar social não está diretamente relacionado à religiosidade de um povo? Realmente pode soar leviano falar dessa forma. Somente que nas minhas observações eu percebi que os países onde as questões religiosas não influem diretamente na liberdade indivídual são tidos como os que melhor oferecem um bem-estar social.


    Também não digo que um país é melhor sem religião, o que eu quero dizer é que isso irá independer desse fator. O estado tem que ser para os ateus, os cristãos, os umbandistas, mulçumanos e seja lá qual for o dogma da pessoa. Qualquer religião que influe diretamente como existe hoje, com bancada cristã no congresso, por exemplo, irá interferir na construção das leis, logo das liberdades ou não do povo, só que sob uma perspectiva moral diretamente submissa à sua percepção religiosa.


    Agora em relação à esse post em específico:


    Essa citação de Aleksandr Solzhenitsyn dá a entender que o problema Russo foi devido ao foto dos homens terem esquecido de Deus. Aquela velha discussão já ultrapassada sobre moralidade e ateísmo.

    A qualidade moral da sociedade independente de sua orientação religiosa, ou até mesmo a presença de uma religião. O problema é que, como eu disse, propaga um pre-conceito ignorante sobre o ateísmo.

    Não sou comunista, socialista ou o que seja, não defendo a luta armada no Brasil ou os governos socialistas do mundo. Foram todos escrotos assim como os governos facistas ou de extrema direita. O totalitarismo não é fruto do ateísmo ou da religião, mesmo sabendo que a igreja catôlica flertou com hitler, que era totalitário.

    Eu quero um estado Laico e não um estado Ateu. Mas tem que ser Laico mesmo. Qualquer política que interfira na liberdade individual deve ser discutida levando em consideração discussões racionais, apoiada em estudos científicos, e não na existência ou não de Deus.

    Pax!

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    1. Gabriel, as fontes que usei foram:

      https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/sw.html

      http://www.ssd.scb.se/databaser/makro/start.asp?lang=2

      http://www.state.gov/j/drl/rls/irf/2004/35486.htm

      Em breve voltarei para comentar seus apontamentos.

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  3. Ademais, a Suécia é o que poderemos chamar de totalitarismo cultural. O Estado dá tudo, mas controla educação, saúde, opiniões, seja através da educação, seja através de medidas comportamentais de engenharia social contra o cidadão comum. O sueco médio é um eterno mimadinho do Estado de mal-estar social.

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  4. Acompanho este blog ocasionalmente e é a primeira vez que me manifesto. Sempre simpatizei muito mais com as ideias ditas de esquerda do que com as ditas de direita, devido a influências familiares. Contudo, com o passar dos anos (estou na casa dos 30) e por estar há algum tempo inserido em um mercado de trabalho competitivo, me dei conta que o que deve valer são as ideias em si, se elas funcionam ou não em fazer com que a sociedade avance e se torne melhor. E isso se torna impossível se alguém assume a priori ser de esquerda ou direita, teísta ou ateu, feminista ou machista, etc. Ambos os lados tem prós e contras e a partir do momento que você assume um lado, normalmente, você tende a concordar com tudo que é tido como pertencente a este "rótulo" e acaba inevitavelmente agindo de modo estereotipado, se tornando uma caricatura. Isso, na minha opinião, vai totalmente contra a liberdade individual e o livre arbítrio, porque você se sente obrgado a seguir um código de regras próprio do lado que você escolheu e condicionando o pensamento.

    No caso deste post, o autor mostra claramente o meu ponto. Citar Solzhenitsyn fora de contexto somente para dizer que a falta de Deus levou ao massacre, prova o meu ponto. Há um descontentamento (seria ódio, intolerância?) tão grande contra os não-teístas que qualquer argumento vale para desqualificar o direito constitucional que um cidadão tem de escolher acreditar em Deus ou não. E há também uma verdadeira cegueira seletiva ao ignorar que a maior parte das guerras (Cruzadas, 11 de setembro, alguém?) e massacres (Irlanda, Inquisição, catequização indígena, olá?) foi perpetrada por grupos religiosos (não importando a vertente) tentando impor seu ponto de vista.

    Gosto deste blog. É bem escrito, de fácil leitura e me fornece pontos de vista interessantes. Minha crítica somente se refere ao fato de que a partir do momento que se toma partido de alguma ideologia, seja ela de qual matiz for, o debate se empobrece, aliás, o debate morre, porque as ideias perdem o seu valor lógico intrínsico e passam a valer somente se se adequarem à linha de pensamento pré-estabelecida.

    Este é o motivo pelo qual leio este blog, mesmo não concordando com todas as ideias. Se eu ainda fosse de esquerda pura e simplesmente, viria para a caixa de comentários xingar o autor de fascista e ameaçá-lo de morte.

    Sou ateu convicto há uma década, mas meus pais são ultra-católicos e não tenho nenhum problema em rezar antes das refeições quando almoço com eles em respeito as suas crenças ou participar de batizados e casamentos (inclusive como padrinho) de conhecidos quando convidado. Além disso, minha mulher é espírita, e jamais debochei dela por acreditar em fluidoterapia e pessoas obsediadas por espíritos.

    Alguns dirão que eu não posso ser ateu de verdade por ser assim tão tolerante. Eu direi que estou defecando e andando para isso, porque não preciso provar meu ateísmo agressivamente como os neo-ateus que leram Dawkins (e não entenderam) o fazem. Eu simplesmente não acredito em divindades porque não tenho evidências disso. Isso não significa que não poderei me relacionar com quem acredita. Também não significa que tolerarei interferências de religiosos nas políticas públicas que ferem minha liberdade e meu livre-arbítrio. Não sou contra deus ou contra as religiões, sou a favor do estado laico de fato.

    Ah, meu nome é Guilherme, moro em Porto Alegre, Rio Grande do Sul e só postei como anônimo porque não quero divulgar meu email publicamente. Tenho direito a privacidade.

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