sábado, 30 de junho de 2012

Obama, o candidato do Foro de São Paulo

O Foro de São Paulo – aquela organização inexistente de partidos e grupos de esquerda, capitaneada pelo Partido dos Trabalhadores, da qual faz parte o grupo narcoterrorista FARC, e cuja existência é frequentemente imputada a certa tendência esquizofrênica da parte de perigosos ultrarreacionários direitistas delirantes – promoverá, entre os dias 2 e 6 de julho, seu XVIII Encontro em Caracas, Venezuela. A programação e o documento-base do encontro podem ser consultados aqui (em espanhol). Algo também interessante de ser consultado é o documento que o Partido dos Trabalhadores redigiu para o encontro, disponível aqui (em espanhol).


O documento-base emitido pelo FSP, sob diversos aspectos, repisa a velha cantilena comuno-socialista de sempre: o “capitalismo” é o pior mal já surgido na face da terra, é preciso lutar contra o “capitalismo”, há que se construir uma alternativa socialista através dos partidos e grupos “progressistas e de esquerda”, sobretudo a partir dos movimentos populares, a “viabilidade da democracia liberal” está em xeque, e por aí vai. Imputa-se, como sói acontecer com grupos desse calibre, a crise mundial ao grande capital – esse monstro que todo socialista deve conhecer, mas que quase nenhum consegue descrever com detalhes, sem recorrer a logorréias cheias daqueles jargões complicadíssimos e intermináveis –, e os vitupérios de praxe são lançados contra os Estados Unidos (que sempre está nos estertores, mas nunca chega a jogar a toalha).

No entanto, esse documento-base traz algumas novas linhas de discussão para as quais devemos nos atentar.

Uma dessas linhas é a busca por “uma solução política e pacífica para a situação da Colômbia”. Esse anseio vai de encontro dois pontos da história recente da Colômbia: primeiro, as bem-sucedidas incursões militares levadas a cabo pelo governo Uribe, que atacaram a serpente na cabeça e debilitaram em grande medida seu potencial estratégico, um revés com o qual certamente as hostes narcocomunistas não contavam; segundo, o novo marco legal produzido pela alcunhada Lei da Impunidade do governo Santos, da qual Graça Salgueiro já tratou com grande propriedade. Este ponto é consequência daquele: uma vez que o governo colombiano, liderado pelo presidente Alvaro Uribe, passou a obter vitórias importantes contra os guerrilheiros e narcotraficantes das FARC, abriu-se de imediato uma brecha jurídica uma vez que o mandatário se afastou do poder. Observar o Foro de São Paulo exarar seu desejo de “avançar em uma solução política e pacífica para a situação da Colômbia”, dentro desse contexto, e tomar esse comportamento como o aproveitamento de uma oportunidade fortuita seria, no mínimo, ingenuidade: claro está que foram os esforços do próprio Foro de São Paulo que redundaram na Lei da Impunidade de Santos.

Outra linha de discussão para a qual se deve conceder alguma atenção é a intenção de se criar a Secretaria Estados Unidos do Foro de São Paulo, a exemplo da já existente Secretaria Europa. Ao longo do documento, a despeito do já esperado criticismo ao neoliberalismo e ao imperialismo e ao neocolonialismo estadunidenses, observa-se uma estranhíssima neutralidade no tocante à figura do presidente Barack Hussein Obama. Sua reforma de saúde e o corte nos gastos militares são até mesmo vistos com bons olhos pelo Foro de São Paulo, apesar de serem considerados “tímidos”. Além disso, o documento coloca bastante ênfase no fortalecimento do movimento conservador dentro dos Estados Unidos – com o Tea Party, por exemplo, que surgiu como grande clamor popular contra a política progressista de Obama – e seu reflexo no Partido Republicano, o que evidencia o grau de “fanatismo, primitivismo e ignorância que existe na política da nação mais poderosa do mundo”. Continua o documento-base:
19. Ao contrário da Europa, a esquerda não possui grande expressão eleitoral própria nos EUA. Nesse contexto, o Foro de São Paulo deve manter seus esforços na constituição da Secretaria Regional do Foro de São Paulo nos Estados Unidos. Um dos debates mais importantes que devemos acompanhar será o que terão que enfrentar as organizações de latinoamericanos sobre a orientação do voto hispânico na eleição de novembro, que será muito importante e complexa, tendo em vista os efeitos que eventuais políticas do Partido Republicano teriam sobre o movimento progressista e de esquerda na América Latina.
Para bom entendedor, meia palavra basta: o Foro de São Paulo trabalhará ativamente para reeleger Barack Hussein Obama. Além disso, uma vez estabelecida sua secretaria regional nos Estados Unidos, o Foro de São Paulo terá por objetivo “fortalecer nossos laços com os movimentos de resistência nos Estados Unidos, particularmente com os movimentos em defesa dos imigrantes e de resistência contra a crise como os chamados ‘ocupe’ (occupy).” Para aqueles que não se lembram, esses movimentos originaram-se no chamado Occupy Wall Street – que, apesar de forçar uma imagem de agregação espontânea dos bravos descontentes norte-americanos, que perfazem 99% da população do país, foi um movimento fartamente financiado por organizações não-governamentais e peixes grandes da elite globalista, como o notabilíssimo George Soros. O quadro que se pinta diante dessa possibilidade é decerto o pior possível.


A partir de segunda-feira, dia 2 de julho, devemos ficar mais atentos que o costume para os desdobramentos do encontro do Foro de São Paulo. O possível êxito das diretrizes de atuação do Foro de São Paulo na conjuntura atual redundaria em uma catástrofe de proporções mais que regionais, agravando a situação no continente americano a um nível dramático.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Sobre o “espírito” do projeto do novo Código de Processo Civil

Marcus Boeira
Mídia Sem Máscara


Tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei nº 166 de 2010, relativo ao novo Código de Processo Civil. O projeto em questão abarca uma série de mudanças em comparação com o Código anterior, artesanalmente feito por Alfredo Buzaid. Em linhas gerais, o projeto possui um escopo marcadamente ativista, permitindo aos juízes uma ampla margem de discricionariedade que beira ao arbitrarismo judiciário.

Quanto ao ativismo presente no espírito do novo Código, encontra razão a acusação do jurista italiano Mauro Capelletti, para quem o sistema codificado poderia entrar em colapso pelo alargamento da teoria da Interpretação e assim levaria ao “Governo dos Juízes”, de modo que a própria atividade jurisdicional em si poderia conduzir a dois tipos de conseqüências: primeiramente, a elevação dos juízes a estatura de legisladores (Juízes Legisladores?); em segundo lugar, a irresponsabilidade jurisdicional, frente ao estado de caoticidade reinante no sistema jurídico, ou seja, diante da inexistência de parâmetros normativos objetivos, a classe dos juízes ficaria ausente de um corpo objetivo de normas perante o qual se responsabilizaria no exercício de sua atividade (Juízes Irresponsáveis?).

O projeto em questão modifica estruturalmente diversas regras clássicas do Processo Civil. Por não estar ancorado nos clássicos Princípios do Processo Civil, tais como contraditório, ampla defesa, paridade de armas, devido processo e juízo natural, vê-se afastado de uma tradição e, assim, de uma linha coerente de racionalidade prática, algo que sempre marcou a doutrina processualista. Acentua extraordinariamente o ativismo judicial, de quem parece refém, dado o fortíssimo apreço concedido pela doutrina brasileira atual para o movimento aludido. A ideologia revolucionária que se apresenta prima facie já na exposição de motivos e nos primeiros artigos denuncia o ponto aí elucidado. O juiz, historicamente conhecido como pedra angular do processo, sendo antes meramente uma peça acessória do procedimento subjacente ao próprio antagonismo processual, passa a ser uma “parte” do processo, atuando ex oficio no empreendimento da lide. A exceção torna-se regra. E a regra, pari passu, sustenta-se na visão ativista aí presente.

Alguns exemplos de artigos que se mostram diametralmente opostos ao Processo Civil segundo a visão clássica:

Art. 2º O processo começa por iniciativa da parte, nos casos e nas formas legais, salvo exceções previstas em lei, e se desenvolve por impulso oficial.

O art. 2º abre-se para “exceções”, casos esses em que o processo inicia-se por impulso oficial. Claramente, o “impulso oficial” no Processo Civil ocorre em estilos processuais acusatórios, típicos de regimes políticos cuja natureza desconhece qualquer visão de garantia de Direitos Fundamentais. No caso presente, o dispositivo aí referido está a permitir situações excepcionais em que o próprio magistrado (sumo magister) dá início a cadeia de contrários, gerando, assim, um contra-senso à visão de “paridade de armas” própria do diploma anterior.

Art. 5º As partes têm direito de participar ativamente do processo, cooperando entre si e com o juiz e fornecendo-lhe subsídios para que profira decisões, realize atos executivos ou determine a prática de medidas de urgência.

Quanto ao juiz “expedir” medidas de urgência, nunca houve qualquer dúvida. O próprio Código anterior prenuncia assertivas dessa natureza. A novidade consiste na ambígua expressão “determine a prática”. Ora, determinar é verbo diretivo, ativo, que encerra um fazer ou um agir.

No caso, o magistrado pode atuar na lide, como se parte fosse, considerando elementos que, mutatis mutandis, possam fugir ao escopo da lide. A margem de discricionariedade aí presente amplia consideravelmente a participação do juiz no processo.

Art. 6º Ao aplicar a lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum, observando sempre os princípios da dignidade da pessoa humana, da razoabilidade, da legalidade, da impessoalidade, da moralidade, da publicidade e da eficiência.

Não há muita novidade no dispositivo referido não fosse a inclusão, em diploma processual, dos princípios próprios do Direito Administrativo. No entanto, atender aos fins sociais a que se destina a lei pode, nessa acepção, permitir uma “interpretação dos Princípios”, ou seja, uma subsunção normativa cujo ponto de apoio é, por definição, uma cláusula indeterminada de caráter abstrativo e generalizante, o que aumenta consideravelmente o espaço hermenêutico do magistrado.

Art. 284. Em casos excepcionais ou expressamente autorizados por lei, o juiz poderá conceder medidas de urgência de ofício.

Esse parece ser o dispositivo mais polêmico do Novo Código. De fato, permite ao juiz praticamente uma margem indeterminável de discricionariedade, salientando seu caráter participativo na lide.

Frente a isso, cabem algumas considerações sobre a incompatibilidade latente entre o novo diploma processual e nossa tradição jurídica brasileira, ancorada na Legalidade continental. Senão, vejamos.

Os países imersos na tradição romano-germânica, fundados sobre o Princípio da Legalidade, assentam seus sistemas jurídicos na noção da supremacia da lei e da Constituição sobre as demais fontes do Direito. De fato, a burocratização da vida política durante a era moderna, traço marcante da formação do Estado-nação no ocidente continental, resultou na progressiva modificação estrutural da morfologia jurídica nos edifícios sociais de então. As heranças resultantes de uma filosofia racionalista, apoiadas em pressupostos epistemológicos críticos à metafísica clássica de um modo geral e ao direito natural em particular, fizeram nascer o arcabouço derivativo da sociologia positivista: o positivismo jurídico. O fetichismo do método, aliado a uma noção formalista e hierarquizante das fontes do Direito, encontrava na perspectiva do sistema sua fórmula de universalidade possível. A erupção do sistema normativo, dessa forma, acarretava uma transferência do centro de produção da norma desde a sociedade reunida nas Cortes (Parlamentos medievais, leis fundamentais do Reino, etc) para os Parlamentos modernos, encharcados de tensões políticas e conflitos ideológicos. A teia das relações de poder configurava, assim, o panorama de fundo do ponto catalisador da lei. A produção do Direito no continente, frente a isso, passava a ter matriz política.

Diferente é o caso do sistema anglo-saxônico. No common law, o centro produtor do Direito não é o Parlamento como tal. Antes, é a própria sociedade que, aliada às Cortes judiciárias, depura do costume e da tradição imemorial dos pactos o senso do direito comum. O Direito é, mutatis mutandis, produto da sociedade, e não diretamente das relações de poder.

Diante disso, tem-se que o Direito anglo-saxônico possui um conteúdo experiencial muito mais forte em comparação ao sistema romano-germânico, enquanto esse deriva seu sistema jurídico do consenso produzido dentre as forças políticas antagônicas operantes no Parlamento. Há, no primeiro caso, um fundamento mais moral e habitual do Direito. No segundo, opostamente, um fundamento mais político do Direito.

As diferenças apontadas nos servem de apoio. Nos sistemas continentais, a ideia da representação política tem caris mais diretivo. É dizer, o representante “representa” o representado não apenas na luta política como um todo, mas na produção da norma jurídica, no momento em que o substitui ao emitir um ato soberano de vontade constitutivo da norma como tal. A transferência da autoridade para o parlamento consiste no seguinte: o legislador é o centro produtor do direito porque recebe da sociedade civil a função de criar a norma.

Já nos sistemas de common law a sociedade como tal mantém a autoridade sobre a produção do direito. A separação entre o campo do jurídico e do político se mostra mais acentuada em comparação com o modelo continental. São os próprios indivíduos os produtores diretos do Direito. Ao Judiciário, caberá apenas a tarefa de ratificá-lo e, quando não, retificá-lo mediante a adequação das experiências sociais ao amplexo de justiça implícito nas atividades jurisdicionais. O Direito Inglês, particularmente, é um projeto de expansão no tempo e no espaço, um meio histórico civilizador que utiliza o conjunto das instituições políticas permanentes para criar mecanismos de estabilização dos conflitos sociais, bem como soar legitimidade sobre os fatores constitutivos do Government.

Por essa razão, não há um sistema jurídico hierarquizado, formalizado e coerentemente fechado no sistema anglo-saxônico como ocorre entre nós.

No sistema brasileiro, especificamente, a adesão ao sistema de legalidade, fruto das tendências ibéricas apoiadas no sistema francês, foi temperado pela onda européia do constitucionalismo de valores, saliente após a Segunda Guerra Mundial e que elevou a Dignidade da Pessoa ao ápice dos sistemas constitucionais, como também as Cortes Constitucionais ao andar supremo das instituições do Estado. De um lado, a afirmação máxima dos valores humanos fundamentais e dos princípios daí decorrentes. De outro, a garantia de efetividade desses próprios valores no âmago da jurisdição constitucional.

O sistema hierárquico, com a Constituição ao topo, as leis e atos normativos em andar intermediário e o substrato dos atos administrativos e executivos do Estado, via-se fortalecido pela rigidez material e institucional advinda após a era totalitária.

Como prática, a divisão do sistema jurídico nos três níveis aludidos tem um propósito norteador: é que, nos andares mais baixos (administração, atos administrativos), a executoriedade dos atos dessa natureza abre pouquíssima margem de discricionariedade para o executor; a saber, o grau de interpretação é mínimo, frente ao máximo poder do ato em si. A interpretação restritiva do nível aí mencionado é tergiversalmente moderada quando da subida para o andar intermediário. O nível próprio das leis e atos normativos sofre maior flexibilidade hermenêutica em relação ao nível inferior, já que é do poder judiciário a tarefa de fazê-la. O juiz, assim, possui maior discricionariedade, já que é apto a dizer o Direito com base na lei. Por fim, é do Tribunal Constitucional a função de interpretar em sentido expansivo a norma constitucional, naturalmente mais aberta e indeterminada que a lei. Por sua vez, as cláusulas abertas aí presentes pressupõem uma instituição legitimada para dizer a Constituição, desde cima do edifício estatal. À tal Corte, portanto, cabe a garantia da Constituição, sua defesa e rigidez.

No caso brasileiro, porém, a inexistência de uma Corte Constitucional separada do Poder Judiciário convive com o fato de que cada vez mais se observa um desprezo pelos estratos inferiores para dar vazão ao juiz que, em nome do Estado de Direito inteiro exerce a jurisdição não mais apenas sobre a lei, senão sobre todo o sistema jurídico. É o juiz, e não o parlamento, quem cria o direito, já que pode interpretar todos os níveis sem quaisquer restrições. Apoiado na Constituição de modo direto e sem intervalos, diz o “jurídico” de forma política, em acordo as suas convicções pessoais e, quando não, profissionais. A legitimação pelo sistema dá lugar a legitimação por posição: é o lugar ocupado pelo magistrado que já lhe confere um poder extraordinário: o de dizer o direito em nome do povo. Uma hermenêutica às avessas, em que a interpretação dá lugar à criação!

O alargamento hermenêutico aí presente provoca a destruição do sentido do ordenamento, criando erosões profundas nos cimentos dos andares. A queda do edifício normativo faz-se presente desde dentro, a partir do momento em que o juiz recebe poderes que extrapolam sua clássica posição no Estado de Direito.

No novo projeto do Código de Processo, o juiz recebe poderes extravagantes em comparação com o antigo diploma processual.

O Novo código, por sua vez, entra como mais uma das tendências de um complexo doutrinário brasilianista (que já ecoa em praças brasileiras desde a república velha): a tentativa sempre presente de tornar o sistema brasileiro uma cópia deformada e imperfeita do common law. Para tanto, acaba-se com o sistema hierárquico do ordenamento para facilitar ao juiz a realização de atividades que, por definição, competiriam ao parlamento. A substituição dessas funções acarreta um novo tipo de Estado de Direito: o juiz, soberano, coloca-se acima da pirâmide jurídico-política, decidindo em nome do Direito, tornando “direito” sua vontade. O novo Código, seguindo tal tendência, acaba por implantar um sistema totalmente sui generis, avesso ao passado e contrário ao modelo romano-germânico adotado de outrora. Um common law às avessas. Um rule of law em que o rule é posto pela autoridade jurisdicional e não mais pelo parlamento.

No common law, por conta da simbiose entre os hábitos sociais e a autoridade do juiz, subsiste o princípio do due process of law, a saber, o princípio do devido processo “jurídico”, e não legal (ver: lições de aula do professor Cezar Saldanha, na UFRGS). Propositadamente, a palavra law ao final da redação principiológica significa “jurídico”, e não lei, já que é aduzida pelo sistema jurídico anglo-saxônico, em que o jurídico surge a partir da articulação entre a sociedade e o poder judiciário. A depuração dos costumes sociais levada a cabo pela atividade jurisprudencial condiz com a herança imemorial do Direito inglês. A tradição medieval do common law soube aliar-se ao Equity pela experiência de séculos. Pari passu, conviveu também com a crescente fortificação do Parlamento (até levar a Sovereign of Parliament) e a redução paulatina das prerrogativas reais (até chegar a posição meramente decorativa do monarca no coração do Reino Unido). Enfim, no common law assistimos um diálogo de séculos entre as instituições políticas, diálogo esse que é sopesado pelo Direito e, assim, pelo próprio due process.

Por sua vez, a tradição romano-germânica centralizou no Princípio da Legalidade sua consistência espiritual. Os pátios interiores das instituições continentais sempre viram no Direito o produto do Poder, seja nas Cortes, seja nas magistraturas reais. A posição sempre suprema, primeiro dos reis, depois dos parlamentos, confluiu para a obsessão legislativa, de modo que a lei aparece sempre como pedra angular de estabilidade das relações sociais. Não um direito descritivo, como é próprio no mundo anglo-saxônico, mas um sistema prescritivo, cuja prefiguração antecipa comportamentos e antecede condutas. A legalidade, assim, encontra na visão sistemática a perspectiva diferenciadora que lhe dá identidade.

O novo Código, porém, faz tabula rasa desses elementos vertebrais de ambos os sistemas e quer, em nome de princípios criados sem prejuízo da irracionalidade, tornar o sistema processual brasileiro um modelo híbrido, em que o legislador e o juiz disputam a posição soberana no Estado de Direito. A pluralidade política é substituída pela univocidade da função de poder. A antiga diferença entre os vocábulos política e poder dá espaço para que o próprio poder – do juiz – se transforme na política por definição – ato de vontade estatal.

Portanto, o conteúdo do novo Projeto trás duas novidades: primeiro, tenta substituir o modelo clássico de legalidade por um outro, apoiado no princípio do devido processo, estranho e desconhecido por nossa tradição (já que devido processo legal é princípio constitucional bastante distinto do due process). Por fim, coloca em xeque o sistema hierárquico normativo, permitindo que o juiz, mediante uma hermenêutica aberta e sem critérios, possa valer-se de seu próprio ato de vontade constitutivo para inverter a lógica do sistema, dizendo o direito em todas as áreas sob o guarda-chuva do que entende ser “constitucional”. Vis a vis, uma autêntica política de constitucionalidade dos atos jurisdicionais.

Os riscos advindos dessas mudanças ainda poderiam levantar indagações de outras ordens, como por exemplo: a mentalidade predominantemente alternativista da classe jurídica atual, preocupada em conferir ao judiciário amplos poderes no intuito de favorecer certos projetos de poder. A aliança entre o que consideram “ciência jurídica” e o apoio da classe de juízes profissionais, ou seja, o acordo de fundo entre “juristas” e juízes permite levar adiante certos programas políticos cujos efeitos repercutem de forma positiva para os interesses de ambas as classes. Ao encontro do que alertava o sublime Miguel Reale, estamos vivendo o fenômeno do “totalitarismo jurídico”.

Marcus Boeira é doutor em Direito pela Universidade de São Paulo e professor do Instituto Internacional de Ciências Sociais.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

O impeachment de Lugo e a reação bolivariana

Fernando Lugo

Uma das pedras de toque da diplomacia brasileira, fruto da própria natureza do Estado tupiniquim, é o respeito pela soberania de nações estrangeiras e pela autodeterminação dos povos (cf. art. 4º, III, da Constituição Federal de 1988). Isso significa praticamente aplicar, em nível de relações exteriores, a máxima que diz que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Claro, há brigas e brigas: em havendo uma sublevação armada que deponha um governo democraticamente formado e aliado do governo brasileiro em um país vizinho, particularmente não vejo muitos dilemas morais quanto a uma eventual decisão de intervenção para interromper o processo revolucionário e auxiliar no restabelecimento da ordem democrática.

Vejamos, por exemplo, os casos da Líbia, da Síria, do Egito e de tantos outros países que, nos últimos dois anos, passaram por descalabros e revoltas. O Brasil, dentre todas as nações que compõem o Conselho de Segurança da ONU (ainda que sem assento permanente), foi o único a adotar uma postura reticente diante desses casos – evitando condenar ou apoiar explicitamente os revoltosos ou os governos contra os quais se levantavam – e, quando interpelado, sacava da manga o curinga do diálogo. Muammar Kaddafi foi deposto, caçado como uma besta e assassinado diante das câmeras após algumas semanas de intervenção militar ocidental. Hosni Mubarak foi deposto pelos revoltosos egípcios, dos quais se destaca a antiga organização fundamentalista islâmica Irmandade Muçulmana (que, a propósito, saiu vitoriosa nas eleições presidenciais do Egito). Na Síria, bandos armados tentam derrubar o ditador Bashar Al-Assad, que tenta desesperadamente manter-se no poder – um embate de desesperos que parece já ter ceifado a vida de mais de 15 mil sírios.

Dentro desses quadros, a formação é quase a mesma: de um lado, rebeldes inconformados com governos autocráticos e que decidem acabar eles mesmos com esses governos; de outro, ditadores antigos e seus herdeiros lançando mão de todos os recursos dos quais dispõem para se manter no poder, ainda que isso signifique impor a seu próprio povo um banho de sangue. Nenhum dos lados fala ou luta pela instauração (ou manutenção) de um regime democrático, em que as liberdade mais básicas possam ser gozadas pelas pessoas. Há dois cenários possíveis: ditaduras seculares altamente corruptas em que seus dirigentes se locupletam por décadas a fio, ou teocracias islâmicas em que a shari’a é aplicada com todo o seu rigor – o que significa, em última instância, mutilação, apedrejamento, decapitação e outras crueldades aplicadas desde homicidas confessos até conversos ao cristianismo. O que diz o Brasil? “Temos que manter o diálogo”.

Essa pusilanimidade brasileira em relações internacionais não parece se aplicar, entretanto, quando os interesses ideológicos do governo estão diretamente ameaçados. Quando o ex-presidente Lula visitou o ditador de Guiné Equatorial – que, de acordo com diversos levantamentos, angariou um patrimônio da ordem de US$ 600 milhões a expensas de seu próprio povo –, o então chanceler brasileiro (e hoje Ministro da Defesa) Celso Amorim resumiu a questão dizendo que “negócios são negócios”. Quando os pugilistas cubanos Guillermo Rigoundeaux e Erislandy Lara escaparam de sua equipe durante os Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio de Janeiro, e pediram asilo político ao Brasil, sua requisição sequer mereceu análise por parte do governo de Lula – situação bastante diferente no caso do quatro vezes homicida Cesare Battisti, cujo pedido de extradição havia sido formalmente feito pelo governo italiano. Nenhuma palavra foi emitida quando o governo Cristina Kirchner, a todo vapor, recrudesceu sua perseguição contra a imprensa livre ou simplesmente tomou posse de ativos espanhóis alegando “interesse superior” da nação argentina.

Lula cumprimenta Teodoro Obiang, ditador da Guiné Equatorial.

No entanto, de súbito, o governo brasileiro pareceu ser atingido por um ultraje fora do comum nos últimos dias. Fernando Lugo, presidente do Paraguai, um dos governantes títeres do Foro de São Paulo – aliado intestino de Hugo Chávez, Evo Morales, Rafael Correa, José Mujica, Dilma Rousseff, Cristina Kirchner, Daniel Ortega e, mais ao norte, os irmãos Castro –, foi deposto num fulminante processo de impeachment em que quase a totalidade dos parlamentares paraguaios votou por sua deposição. O rito seguiu todos os ditames previstos na Constituição paraguaia, não feriu nenhuma lei, não recorreu a nenhuma ilegalidade ou ato ilegítimo, e foi motivado pelo desastroso governo promovido por Lugo. Para qualquer pessoa com um pouco de inteligência e perspicácia, esse evento deveria ser comemorado: o próprio povo paraguaio se afastou voluntariamente do Foro de São Paulo ao destituir do cargo, democrática e legalmente, seu mandatário comuno-bolivariano.

A reação de todos os governos do Foro do São Paulo foi, como era de se esperar, a mesma reação do sumo sacerdote ao ouvir Cristo Jesus dizer que era filho de Deus: rasgar as vestes, subir nas tamancas e exigir sua morte. O destempero foi instantâneo em diversos governos da região – inclusive no brasileiro. Gilberto Carvalho, o comunista que ainda se diz é católico e chefia a Secretaria-Geral da Presidência da República, foi categórico em classificar o impeachment de Lugo como “ruptura da ordem democrática”. A presidente Dilma Rousseff já se adiantou em cogitar a interdição do Paraguai nas próximas reuniões do Mercosul e do Unasul, impedindo que o novo presidente paraguaio, Federico Franco – que, ao contrário do ex-bispo Lugo, é um católico exemplar – participe dos encontros. Não seria de se estranhar, nesse clima, que uma ação conjunta de Uruguai, Argentina e Brasil para desestabilizar o novo governo fosse tomada para que, internamente, Fernando Lugo promovesse o caos visando à volta ao poder.

Federico Franco

A despeito de tantas confusões e informações desencontradas, uma coisa é certa: a decisão tomada pelo congresso paraguaio é um refrigério de esperança no meio de um continente condenado.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

A Longa Noite da Estrela Vermelha

Dialogo conduzido por Daniel Johnson com a participação de Jung Chang, Jon Halliday e Simon Sebag Montefiore [1].
Revista Standpoint – Junho de 2008


Daniel Johnson: Têm sido lançados muitos livros sobre Hitler e Stalin, mas em geral Mao e Stalin não são tão comparados entre si. Seria um bom começo analisar de onde estes dois impressionantes ditadores vieram.

Simon Sebag Montefiore: Bem, Khrushchev, que os conheceu muito bem, por um longo período de tempo, disse numa frase famosa que eles eram completamente idênticos.

Jung Chang: Sim, e é claro Mao Aprendeu muito de Stalin – basicamente como ele governou a China. Seus métodos, mesmo nos mais mínimos detalhes, são coisas que ele aprendeu com Stalin. Ele disse que Stalin era seu mentor, e ele sabia do que falava.

SSM: Até onde se sabe sobre sua infância, Stalin foi brutalizado enquanto era educado. Ele era espancado por seu pai por frustração, e ele era espancado por sua mãe por amor, para ser disciplinado. Ele cresceu em uma cidade dominada pela violência, e numa cultura que valorizava violência. Ele cresceu com uma mistura muito estranha de traços pessoais que têm por um lado uma arrogante autoconfiança e por outro lado um enorme complexo de inferioridade e uma hipersensibilidade sobre seu próprio papel.

JC: A Infância de Mao foi realmente uma infância idílica. Ele se queixava de seu pai no final da vida, mas na verdade seu pai não era um tirano. Eu acho que Mao tinha algum complexo de inferioridade em sua adolescência e juventude. Ele foi para Pequim e Xangai, para aquelas cidades cosmopolitas quando ele era jovem. Ele não foi tratado como uma estrela, mas sim como um provinciano. Mas o fato que ele tinha um complexo de inferioridade não explica sua posterior monstruosidade.

SSM: Hitler também foi espancado pelo pai e teve uma infância infeliz nesse sentido, mas milhões de pessoas têm infâncias infelizes e pais abusivos e é claro que a maioria delas não se torna titãs históricos e mundiais. Eu acho que no século de Freud nós temos prestado atenção demasiada às infâncias destas pessoas. Tão importante no caso de Stalin, eu penso, foi o submundo conspiratório em que ele viveu na maioria de seus anos de formação, a partir dos 18 anos de idade. E também muito importante no caso dele foi sua educação religiosa.

JC: Em 1927, quando Mao tinha 33 anos, ele teve contato com stalinismo, e nesse ano ele também começou a se engajar na violência. E eu penso que antes que o stalinismo o transformasse, a atitude de Mao em relação a violência era mais a de um chinês tradicional. Houve muitas atrocidades e atos de violência cometidos, mas as pessoas não achavam que essas coisas estavam certas. O stalinismo deu a violência uma justificativa ideológica: subitamente Mao e outros comunistas chineses receberam instruções de Moscou: “Terror é o que queremos”. Você sabe, “mate, mate, mate, queime, queime, queime” – estes eram os reais slogans. Você não pode ser um comunista sem ser brutal. Então eu penso que isso foi uma revelação para Mao: você pode ser brutal, você pode ser violento, e você pode se sentir plenamente justificado.

SSM: Stalin começou muito mais jovem. Quando iniciei “O Jovem Stalin”, pensei que não haveria assassinatos no livro. Mas eu descobri que muito cedo na vida – 22 anos mais ou menos – Stalin já tinha liquidado supostos traidores. Obviamente ele depois passou a milhões, como Mao, mas nesse tempo ele era apenas uma pessoa sem uma posição fixa. Com Stalin havia uma combinação de personalidade, tradições georgianas e também estudos sobre a violência na história: estudos sobre o Terror, a Comuna de Paris, Robespierre, etc.

Uma coisa que eles tinham em comum era que ambos estudavam história vorazmente desde uma tenra idade. Isso foi muito importante. Stalin adorava Robespierre – ele usava “Robespierre” como um elogio – mas ele também adorava o czar Ivan o Terrível e Xás persas como Nader Shah, que era famoso pela brutalidade.

Iossif Dzhugashvili, mais conhecido como Josef Stalin, aos 26 anos.

JC: Sim, na grande biblioteca de Mao a maioria dos livros é sobre imperadores chineses, e muitos sobre os mais terríveis imperadores chineses. O passatempo favorito de Mao era ler sobre história. Ele tinha dessas enormes camas, cuja metade tinha altas pilhas de livros para que ele pudesse acordar, rolar, pegar um livro e começar a ler.

SSM: Stalin, no auge do Grande Terror, comparou-se a Ivã, o Terrível, dizendo que o melhor dele era ter liquidado a maioria dos boiardos, ponderando que Ivã deveria ter liquidado todos eles. Ele considerava Ivã seu “professor”. Andando no Kremlin, ele teria dito: “Ivã andou por aqui”. Mao e Stalin comparavam-se continuamente a pessoas assim, mesmo sendo dedicados comunistas de um sistema onde eles teriam matado quem usasse qualquer comparação semelhante.

JC: Nos dois últimos anos de sua vida, quando Mao estava se identificando com todos aqueles imperadores, ele nem uma vez se identificou com qualquer outro líder comunista, com exceção de Stalin.

SSM: Eu não penso que isso tem sido apreciado como merece: Mao deitado na cama como líder supremo, dando uma orientação muito oblíqua para as pessoas que ninguém conseguia entender, mas em verdade gastando voluntariamente todo seu tempo lendo nessas casas. Stalin dos anos 20 em diante foi muito semelhante. A ironia é que Trotsky sempre disse que Stalin era um burocrata produtor de documentos, que todos acreditavam estar em sua escrivaninha a cada minuto, escrevendo documentos. Na verdade isso acontecia muitas vezes à beira-mar ou em sua casa. As pessoas que foram à sua casa diziam que toda a superfície estava coberta com revistas acadêmicas, revistas literárias, revistas históricas, livros meio lidos. Então, houve uma grande semelhança na forma como eles deram informações e orientações para o seu povo.

JC: Sim, Mao, eu penso, aprendeu esta maneira de administrar de Stalin.

SSM: E geralmente pessoas como Lin Piao e Molotov saiam sem ter certeza do que tinham realmente ouvido. Eles tentavam adivinhar.

DJ: É verdade que Mao criticava Stalin pela adoção dos clássicos europeus e russos, em vez de simplesmente acabar com eles completamente? Ele pensava que Stalin, em outras palavras, não tinha sido cruel e radical o suficiente?

JC: Mao era muito mais dedicado à destruição da cultura chinesa que Stalin à destruição da cultura russa. Quando Mao lançou a Revolução Cultural em 1966, ele basicamente liquidou a cultura dos lares das pessoas. Os tesouros da Cidade Proibida foram preservados, mas nas casas das pessoas você não tinha permissão de ter qualquer coisa. Eu tenho algo que miraculosamente sobreviveu, este prato da coleção da minha avó. Mas a maioria das coisas foi destruída.

Jon Halliday: Mao tem diferenças e semelhanças com Stalin nesta questão. A ideia de que o velho era perigoso e devia ser destruído era muito mais forte com Mao. Quando os comunistas chineses entraram em Pequim, eles realmente tiveram uma reunião do Politburo para decidir se eles deveriam arrasar a Cidade Proibida, e eles elaboraram listas de monumentos a ser destruídos, e a maior parte da destruição de coisas como as muralhas da cidade antiga, os edifícios e assim por diante, foi realizada nos anos de 50.

SSM: Obviamente na Rússia dos anos 20 havia aquelas ideias sobre destruir a cultura, matar padres, explodir igrejas, mas isso realmente terminou no começo dos anos 30. Stalin estava na época se tornando cada vez mais conservador, e sua ideia de cultura era muito conservadora. De modo que é uma grande diferença.

JC: Mao era até mais cínico que Stalin. Mao realmente amava os clássicos chineses, mas o problema era que ele não permitiria sua leitura por um bilhão de chineses. Nos seus últimos anos sua visão estava falhando então ele tinha duas fábricas construídas para imprimir livros em letras grandes para que ele pudesse lê-los, e a tiragem de cada livro era cinco exemplares, todos para Mao. Eu não imagino que Stalin fizesse coisas desse tipo.

SSM: Não, mas havia um sistema similar porque todos os dirigentes recebiam livros proibidos para todos os demais. Então se você fosse ao apartamento de Kirov [Sergey Kirov, um dirigente soviético aliado de Stalin], por exemplo, ele tinha tudo lá – todos os clássicos, todas as coisas ocidentais. E Stalin dizia alguma coisa muito similar, eu penso que foi para Djilas, quando eles conversaram sobre Dostoiévski. Parte da obra de Dostoiévski era publicada, mas outra parte não, e Djilas perguntou: “Por que censurar tanto de Dostoiévski?”. Stalin respondeu: “Naturalmente, ele era um gênio psicológico, e por isso nós o censuramos”.

JC: Stalin limitaria sua lista de proibições a coisas que ele considerasse como ameaças, enquanto Mao era mais simples e censurava tudo sumariamente. Eu penso que Mao na verdade queria brutalizar os chineses, desumanizar os chineses, privando-os de qualquer contribuição intelectual e de qualquer representação de sentimentos humanos.

Jovens chinesas leem o Livro Vermelho durante a Revolução Cultural.

DJ: Será que ele não flertava com a ideia de privá-los até mesmo de nomes – simplesmente dar-lhes números, como prisioneiros em um campo de concentração?

JC: Sim, ele flertava. No nosso livro há uma fotografia de camponeses trabalhando num campo, carregando um enorme número costurado nas costas de suas roupas. Em 1958, Mao flertou com a ideia de se livrar de nomes de pessoas, e ele mencionou isso em reuniões do Politburo. Isso não foi feito em parte porque era impraticável – simplesmente havia chineses demais!

O que também me impressionou foi que, sob Stalin, em um ponto havia cerca de 40 compositores que apresentavam versões do hino nacional. Sob Mao você pode contar os compositores nos dedos de uma mão. O próprio Mao amava óperas chinesas, e ele tinha uma coleção de mais de mil fitas cassete. Ele era como que um connoisseur de óperas chinesas. As óperas chinesas não são como as ocidentais, são para as massas. Mao conhecia muitas óperas regionais de cor e poderia conversar com estrelas da ópera sobre árias com conhecimento de causa, mas novamente o problema era que ele não permitiria que um bilhão de chineses desfrutasse dessas óperas.

SSM: Eu penso que uma importante parte disso era que Mao foi o Lênin da Revolução Chinesa. Stalin foi o segundo líder. Quando ele chegou ao poder, houve um retorno aos valores russos tradicionais. Mas também Stalin tinha que fazer isso porque, diferente de Mao, que era, mesmo sendo um provinciano de Hunan, um autentico chinês, Stalin sequer era russo. E ainda, um império tão multinacional aumentava a necessidade de russificá-lo, o que significava promover a cultura e a história russas, para reunir tudo em um conjunto. E Stalin pensava muito sobre isso, sobre criar uma nova ideia de nacionalidade.

Outro ponto era que a Revolução Cultural seria impensável para Stalin. A selvagem desordem disso mostrava a imensa confiança de Mao em sua permanência no poder.

JC: Mao falava em dizimar metade do povo chinês. Ele dizia que isso tinha acontecido várias vezes na história da China – e em todos os seus projetos para progredir metade da China poderia muito bem ter de morrer. Ele realmente pretendia isso, e também disse: “se não metade da China, digamos 50 milhões”. E ele não estava só fazendo algum tipo medonho de filosofia, ele falava isso a sério porque essa é a base sobre a qual suas políticas foram planejadas.

SSM: Foi o mesmo com Stalin. Quando ele disse a Churchill, “Nós destruímos os kulaks, 10 milhões deles morreram”, ele estava mostrando quem era. Ele estava muito feliz por essas pessoas terem sido exterminadas. Mas isso também veio de Lênin. Ambos odiavam os camponeses e eles sempre tiveram genuíno prazer em todas as ocasiões em que os camponeses morriam de fome.

DJ: De onde é que esse desejo terrível genocida vem? Seria da completa ausência de restrições morais, de qualquer tipo de respeito a uma lei maior?

JC: Na tradição chinesa, o governante indiferente em relação à vida do seu povo não foi glorificado. Ele é considerado ruim. O primeiro imperador foi considerado como um imperador ruim. Os critérios chineses tradicionais para um imperador ser bom é considerar o quanto ele se preocupava com seu povo, portanto, nesse sentido Mao também fez uma ruptura total de valores tradicionais chineses.

JH: Ele rejeitou todos os valores morais, de fato. A maior parte dos mortos por Mao realmente eram parte de dois grupos. Um era exterminado por ser parte das consideradas classes inimigas, o que é inerente ao comunismo. E há também o grupo, muito maior, das pessoas simplesmente consideradas dispensáveis.

JC: Não foi por acaso. Mesmo que as vítimas não fossem inimigos reais, Mao ainda queria que morressem porque isso geraria terror, e terror é inerente ao bolchevismo.

SSM: Certamente. O bolchevismo sempre foi sanguinário. Mesmo antes de tomar o poder, eles falavam continuamente sobre o terror. Então eu penso que Jon está absolutamente certo, o terror era inerente a todo o projeto, desde o início, na ideologia. Então, se você aceitasse o bolchevismo, o marxismo, o leninismo, como quer que você queira chamá-lo, você saberia que teria que matar um grande número de pessoas ao acaso por causa da suposta classe dessas pessoas. E eles nunca tinham certeza em que classe alguém está. A pessoa no topo dava diretrizes básicas, daí descia para as aldeias, e lá eles simplesmente matavam pessoas. Alguém decidia usando um critério qualquer que valeria para aquele dia.

JC: Sim, para gerar medo, que é como eles perpetuavam seus regimes.

SSM: Você estima que Mao matou 70 milhões?

JC: Sim, pelo menos 70 milhões.

Criança chinsa vitimada pela fome durante o Grande Salto (1958 - 1961).

SSM: Eu penso que Stalin matou de vinte a vinte e cinco milhões. Claro que quando alguém fala sobre esses números, esse alguém está quase entrando no mesmo mundo em que eles existiram, porque não temos muita certeza se um número está mais perto de dez milhões ou de cinco milhões: nós, tentando estimar seus crimes, estamos em um mundo onde se perde um milhão aqui, cinco milhões ali...

DJ: Sim, é verdade, e isso nos põe face a face com o mal absoluto. Porque em ambos os casos não houve verdadeiro sentido de remorso, ou “temos que sacrificar essas pessoas para o bem maior”. Ambos parecem completamente sem arrependimentos, até o dia em que morreram, e de fato trataram seus próprios amigos mais próximos e familiares e comitiva tão mal quanto eles trataram estranhos.

SSM: Bem, ambos consideravam a si mesmos como a personificação da história, e à história como uma máquina colossal e cruel, a qual ambos estavam conduzindo, o que eles sentiam quase representado em si mesmos e em suas personalidades. Eu não sei se realmente Stalin disse as famosas palavras sobre uma morte ser uma tragédia e um milhão de ser uma estatística, mas é muito próprio de seu típico humor negro.

JC: Eu acho que Mao havia realmente eliminado as culpas de sua consciência quando ele era jovem de 24 anos, quando ele escreveu estas notas sobre um filósofo alemão pouco conhecido chamado Paulsen. Mao dizia que tudo o que fosse para a pessoal satisfação é automaticamente moral. Ele recusava explicitamente a se submeter à consciência, dizia que a consciência estava lá “para ajudar você a satisfazer os seus desejos”. Ele não considerava a consciência como algo que te detém. Então, ele estava completamente despreocupado com todos esses assassinatos e esse derramamento de sangue. Em seus últimos anos ele estava sempre chorando, mas ele estava sempre chorando por si mesmo, porque seus sonhos não foram cumpridos. Ele nunca derramou uma lágrima para os 70 milhões de pessoas que pereceram sob seu domínio.

Talvez haja uma punição psicológica para esse tipo de ausência total de piedade e remorso. Mao sofria de medo intenso – mesmo no auge de seu poder. Na véspera de conquistar a China, ele desenvolveu uma tremedeira grave. Ele era alto, tinha mais de um metro e oitenta, e ele tremia como uma folha quando via um estranho. Ao longo de seu governo de 27 anos ele viveu em seu próprio país como se fosse uma zona de guerra. Ele vivia constantemente com medo de ser assassinado.

SSM: No período pós-guerra, Stalin realmente era paranóico, mas sua paranoia não era completamente absurda. As pessoas sofriam atentados – Lênin em 1918, vários embaixadores e Kirov em 1934 – e quanto mais pessoas você mata, mais pessoas te odeiam. Então ele tinha toda razão.

Stalin era exatamente igual a Mao em sua crença de que tudo o que ele quis e o que ele fez, era em si moral, era seu direito e era para o bem do país, do povo e da revolução e assim por diante, e ele tinha muito poucas dúvidas sobre isso, embora ele constantemente realizados saltos enormes de política e mudanças de pessoal e assim por diante.

Mas uma coisa que talvez seja uma pequena diferença é que ele tinha momentos de um estranho, distante arrependimento, não culpa, em relação às pessoas que ele tinha matado. Depois da guerra, ele costumava sentar-se à noite em sua varanda e conversar com as pessoas, dizendo que ele lamentava que várias pessoas tivessem sido mortas por seus lacaios, ou perguntando distraidamente a Beria se algum indivíduo estava vivo ou não, como se as mortes nada tivessem a ver com ele e como se ele não tivesse organizado a coisa toda. E as pessoas que conversavam com ele achavam isso muito sinistro, e também se sentiam um tanto confusas. Elas não conseguiam compreendê-lo. E também, depois da Grande Guerra Patriótica, ele falava sobre como cada família tinha sofrido tragédias e perdas, mas se isso era de algum modo autentico nele é duvidoso. Como Mao, sua única preocupação era com ele mesmo. Suas duas esposas morreram, uma em 1907 e outra em 1932 (no segundo caso por suicídio) e nos dois casos ele desmoronou. Mas na verdade ele pensava nele mesmo, era o seu próprio melodrama que ele estava lamentando, e não a pessoa que ele tinha perdido.

JC: Sim. Mao parece realmente ter tido um coração de pedra. Eu fiquei atônita entrevistando pessoas próximas de Mao ao saber da total indiferença que ele tinha em relação a sua família. Há uma história que nós contamos no nosso livro sobre quando seu filho morreu. Seu mais velho e único filho mentalmente normal morreu na guerra da Coreia e Mao não mostrou qualquer sinal de tristeza. E por dois anos e meio essa notícia não foi dada a jovem viúva de seu filho, que passava todos os fins de semana e férias com Mao. Ela não perguntava a razão de não receber nenhuma carta porque estava acostumada com o sigilo comunista, mas também porque Mao não dava sinais que indicassem para ela que alguma coisa tinha acontecido com seu marido. Por dois anos e meio Mao falava sobre o filho de tempos em tempos e mesmo brincava sobre isso, como se falassem de alguém ainda vivo, então ela não tinha ideia de que ele estivesse morto.

Fiquei intrigada com isso no começo, mas então eu percebi que Mao provavelmente achava a companhia dela relaxante. Mao não queria alguém infeliz como companhia, então ele nada disse para ela.

SSM: Uma coisa que era realmente imperdoável na corte de Stalin era quando as pessoas estavam a sós com ele e eram subitamente tentadas a mencionar que um de seus entes queridos tinha sido preso e apelar por sua libertação – isso era simplesmente a morte absoluta, porque ele estava relaxando e era totalmente inaceitável para qualquer um mostrar amargura, não importa o que tivesse acontecido. Houve mesmo uma grande cena em que Stalin visitou a família de Kavtaradze, e a esposa tinha sido torturada, quase até a morte, o marido havia sido condenado à morte e depois perdoado, e ele chegou e perguntou: “eles te torturaram” e ela disse, “sim”, e ele disse: “bem, há muitos capangas em nosso país”. E subitamente ele disse, “mas como você se sente sobre isso?”, E isto era uma armadilha perigosa, porque se ela tivesse dito que ela estava magoada com isso de algum modo, estou certo de que ela teria sido presa novamente dentro de alguns dias. Mas ela foi inteligente e disse: “Vamos ignorar quem guardar algum rancor sobre isso.” Ela sobreviveu a Stalin.

Stalin é sempre considerado como um tipo de pessoa impassível e sombria, sem expressão, sem personalidade – essa era sua imagem, o homem de aço. Mas na verdade quando você olha para ele – e eu acho que era igual com Mao, no sentido de que ambos eram bons em melodramas – Ele tinha um grande senso de teatro e de sua própria performance, e eu penso que quando tragédias aconteciam, ele gostava de desempenhar papeis. Na sua velhice Stalin passou a gostar de filmes de faroestes. Ele adorava John Wayne e eu acho que era realmente assim que ele se via. Ele realmente gostava desses filmes, porque ele se via como um homem sem nome a cavalo numa cidade, com nada além de um rifle para fazer justiça, um homem sem família nem ninguém que o amava.

JC: Autopiedade!

SSM: Uma solitária autopiedade, mas também um homem justo que fazia justiça brutalmente e aí deixava a cidade. Isso era realmente como ele se via na história e era também a romantização de sua própria crueldade.

JC: Mao também, a sua maneira diferente. Ele não gostava particularmente de faroestes, ele não assistia muitos filmes

SSM: Mas a autoimagem era a mesma.

JC: Sim, ele cultivava este sentimento, lendo poesia chinesa. Ele, é claro, escreveu poesia.

JH: A minha opinião é que realmente os primeiros poemas de Mao são muito bons, e os posteriores, quando ele chegou ao poder, não são tão bons. Eu penso que Moravia na Itália fez uma edição de poemas de Mao. De fato, sua poesia foi algo que fez as pessoas pensarem muito bem dele.

JC: Sim, muitas pessoas dizem: “Oh, Mao era um bom poeta”, como se isso fosse incompatível com ele ser um assassino em massa. Mas não há contradição. Ele pode ser um bom poeta e também ter assassinado dezenas de milhões de pessoas.

SSM: Bem, com Stalin minha impressão é que seus poemas são excelentes, mas eles estão em georgiano e eu não os posso ler. E muita gente ajudou Stalin por causa deles. Seu grande assalto a um banco em Tiflis, em 1907, o que o fez conhecido, seu primeiro grande ato que foi manchete no mundo todo – o agente infiltrado no banco o ajudou porque ele admirava muito Stalin como poeta, o que é algo inacreditável.

DJ: Como esses homens foram vistos no ocidente?

JC: Uma razão para a influência de Mao no Ocidente é que ele era bom em autopromoção. A imagem benigna dele no Ocidente começou com Edgar Snow, o qual Mao teve problemas em selecionar. Não foi acidental absolutamente que Edgar Snow foi até onde estava Mao e entrevistou-o. E Mao insistiu em editar cuidadosamente o que Edgar Snow diria. Quando o livro de Snow causou alguma sensação no Ocidente, Mao o tinha traduzido para o chinês, e lhe deu o título bastante neutro de “Jornada rumo ao Ocidente” em vez de “Estrela Vermelha sobre a China”, que em chinês soava muito... bem... vermelho. Então Mao tinha sido publicado na China no final de 1930, e esses livros influenciaram uma ou duas gerações de jovens chineses radicais, incluindo os meus pais. Outra grande onda de autopromoção foi em 1960, no auge da fome. Só nesse ano mais de 20 milhões de pessoas morreram de fome. Naquele ano, Mao começou a gastar muito dinheiro no exterior, financiando organizações de esquerda para tentar influenciar as pessoas. Isso, na verdade, é um campo enorme e pouco conhecido que precisa de um estudo cuidadoso.

Edgar Snow

Ele começou a se promover nesse ano, 1960, porque ele decidira romper com Khrushchev. Ele tinha que fazer isso porque senão ele não poderia começar o seu movimento maoísta. Foi neste ano que ele começou sistematicamente a promover seu próprio culto a personalidade no mundo.

DJ: E ele já tinha a bomba atômica na ocasião, ou quase.

JC: Ele estava otimista demais, o que explica em parte por sua indústria nuclear não foi tão bem como ele queria. Tinham-lhe dito que ele tinha todas as coisas necessárias para a bomba. Ele não sabia que seus cientistas eram demasiado otimistas sobre os mísseis. Ele não tinha a tecnologia de mísseis necessária.

Quando ele rompeu com Khrushchev, ele queria duas coisas incompatíveis. Uma delas era descartar Khrushchev e estabelecer o seu próprio movimento no mundo, e a outra era continuar a receber tecnologia e equipamentos de Khrushchev. Ele não poderia ter ambos. No fim, quando Khrushchev foi deposto Mao enviou Zhou Enlai à Rússia para tentar obter a tecnologia de Brezhnev. Foi então que Malinovski, o ministro da Defesa da Rússia, disse a Zhou Enlai e ao ministro interino da defesa da China, Ho Long: “Por que vocês não se livram de Mao como nós nos livramos de Khrushchev?” Isso foi um momento muito importante na história chinesa, pois desempenhou um grande papel no desencadeamento de toda Revolução Cultural. E então Mao, é claro, se recusou a ter qualquer coisa a ver com a Rússia, mesmo querendo muito os mísseis.

DJ: A China e a Rússia não podem se livrar do legado destes dois grandes monstros? Se não, por quê?

JC: Na China de hoje o retrato de Mao está ainda na Praça Tiananmen, sobre o Portão de Tiananmen. O seu cadáver mumificado ainda está no centro da capital chinesa para que as pessoas o adorem, e ele é descrito na Constituição Chinesa como a força orientadora da China. Embora o chinês hoje se sinta muito mais livre para criticar os seus líderes atuais, eles ainda são inibidos demais para criticar o presidente. A maioria das pessoas tem um grande medo de Mao profundamente enraizado em sua psique. Assim, a posição de Mao é bastante diferente da de Stalin. O importante é que a imagem de Mao ainda é cultivada oficialmente. Claro que o atual regime rejeitou a maior parte do legado de Mao, mas eles também têm mantido alguns dos mais cruciais. Um deles é o controle dos meios de comunicação e da liberdade de expressão, que na China é pior agora do que cem anos atrás.

SSM: A Rússia é muito diferente porque, é claro, Khrushchev denunciou Stalin e ele foi retirado do Mausoléu por volta de 1961. Mas algo muito estranho tem acontecido porque Stalin se considerava tanto como uma espécie de Czar Vermelho quanto como o sumo pontífice do marxismo, mas aos poucos o marxismo tem sido deixado de lado. O comunismo foi expulso e o regime atual não é de jeito nenhum comunista. Mas é muito imperial, é muito obcecado com o poder estatal de uma forma que Stalin ainda teria compreendido. Stalin foi totalmente denunciado no início de 1990, todos os seus crimes foram revelados, todos os arquivos abertos, o que mostrou as coisas em termos totalmente diretos e francos – listas de pessoas mortas, as centenas de milhares e aos milhões, de forma aleatória. Todo mundo está esquecendo isso agora, e no início do século 21, vemos a grande ironia: este internacionalista nascido georgiano está gradualmente se tornando o símbolo do poder russo, do sucesso imperial russo.

Se você conversar com as pessoas, não apenas idosos, mas pessoas jovens, de geração de Putin, por exemplo, ou mais jovens ainda, você percebe que eles veem Stalin como o líder mais bem sucedido da Rússia. Há uma frase de um livro endossado por Putin que diz: “Stalin foi o líder mais bem sucedido da Rússia no século 20” – o que é inegavelmente verdade, com certeza, se você considerar seu poder da mesma forma que você consideraria Genghis Khan como um homem de grande sucesso por antigos critérios, critérios que as pessoas usavam antes do século 20, antes de introduzirmos considerações morais nessas questões. E o livro também diz que Stalin teve que usar o terror simplesmente para ter certeza de que a burocracia e as elites obedeceriam ordens. O império que ele deixou, se estendendo de Berlim à Mongólia, era maior que o império de qualquer czar. Então eu penso que Stalin, este georgiano que nem mesmo era russo, acabará sendo chamado de “Stalin, o Grande” nos livros russos. Eu pensei que isso levaria 50 anos, mas está acontecendo agora.

JC: Sim, na China nosso livro foi publicado em edições clandestinas, e as pessoas também o têm escaneado em sites pessoais para download, daí há vários comentários sobre o livro. E enquanto muitos dizem o quanto Mao era terrível, há também pessoas dizendo basicamente o que, segundo você, os russos dizem sobre Stalin: “Mas o presidente nos deu a bomba atômica”, como se a morte de dezenas de milhões de pessoas valesse a pena porque ganhamos a bomba atômica.

Tradução: Jorge Nobre, estudante de Letras - Tradução Francês da UnB
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Nota do tradutor


[1] Daniel Johnson é filho do famoso historiador Paul Johnson e editor e fundador da revista mensal inglesa Standpoint. Jung Chang e Jon Halliday são autores de “Mao: a história desconhecida”, uma biografia de Mao Tse-Tung. Simon Sebag Montefiore é autor de “O Jovem Stalin”, sobre a juventude do ditador soviético, e “Stalin – A Corte do Czar Vermelho”, sobre Stalin, seus aliados e seus amigos e parentes próximos durante os anos de poder.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Israel: a origem do Mal


Membros de um grupo terrorista judaico atravessam a fronteira do Sinai, adentrando em território egípcio. Uma vez dentro do território, atacam a tiros um grupo de operários egípcios que trabalhava na construção de uma barreira, matando um deles. Em resposta, as forças egípcias interceptam a célula terrorista, engajam-se em combate e matam dois de seus combatentes. Diante desse incidente preocupante, e ante o quadro de instabilidade do governo israelense – cujo poder é disputado por judeus radicais com ramificações terroristas –, o governo egípcio decide movimentar tanques para a região de modo a evitar novos ataques vindos do território israelense, ainda que isso viole um acordo de paz firmado com Israel há muitos anos. Além disso, em uma ação cirúrgica, o governo egípcio promove um ataque aéreo além de suas fronteiras, matando outros quatro terroristas judeus radicais.

Se o caso hipotético acima fosse verdadeiro, veríamos notícias muito interessantes sendo veiculadas pelos principais meios de comunicação ao redor do mundo: a TV Al-Jazeera apresentaria uma reportagem de dez minutos contando pormenorizadamente a vida do operário egípcio brutalmente assassinado pelos terroristas sionistas; a CNN exibiria imagens de protestos de solidariedade realizados diante das embaixadas egípcias nos principais países ocidentais; um ou outro membro permanente do Conselho de Segurança da ONU criticaria a leniência e a ineficiência do governo israelense em controlar suas fronteiras; programas com analistas de assuntos exteriores e de defesa sobre as perspectivas na região seriam gravados; seriam exibidas muitas reportagens mostrando os vínculos dos terroristas judaicos com o partido sionista que está na briga pelo poder em Israel, indicando que a possibilidade real de que ataque não tenha sido um incidente isolado.

Consideremos um segundo caso hipotético. Terroristas judaicos atacam constantemente o território jordaniano com mísseis de curto alcance, alvejando cidades próximas da fronteira entre os dois países. Estruturas são danificadas, e, eventualmente, um ou outro cidadão jordaniano acaba sendo vitimado. A inteligência das forças armadas jordanianas localiza os locais exatos de onde partiram os mísseis, efetuando uma varredura para identificar novos pontos de onde podem partir novos ataques, e descobre que os terroristas instalaram os equipamentos em meio à população civil com o objetivo de usá-la como escudo humano. Ainda assim, as forças da Jordânia resolvem bombardear as bases, prevenindo novos ataques. Um bom número de terroristas perece, mas um número muito maior de civis acaba morrendo nesse ínterim. A cobertura midiática da ação mostraria, certamente, a perfídia dos terroristas sionistas em usarem a população local como escudos humanos, uma dentre muitas táticas macabras utilizadas para evitar ao máximo qualquer retaliação militar por seus ataques covardes; também reforçaria o direito legítimo do Estado jordaniano em reagir aos ataques a seu território, reação que, apesar das baixas civis, jamais seria referenciada como “limpeza étnica” ou “holocausto” ou termos congêneres.

Um dos muitos exemplos da ampla propaganda anti-Israel.

Os dois casos acima retratados são perfeitamente factíveis. Na verdade, seriam mais do que esperados em um mundo normal. A invasão de um bando armado, célula de uma organização maior que recorre a expedientes terroristas para levar a cabo sua missão e é inspirado por uma ideologia que mistura fanatismo religioso e tendências genocidas, a partir de um país politicamente instável, é um fato que justifica plenamente o rompimento unilateral momentâneo de um tratado de desmilitarização de fronteiras. A interceptação e a eliminação dessa célula terrorista dentro do território invadido é uma ação militar racional que qualquer governo adotaria. A eliminação de elementos hostis ligados a essa célula fora dos limites da fronteira pode ser tomada como uma ação temerária, mas não ilegítima: sob diversos aspectos, é o desdobramento lógico das ações tomadas dentro do território invadido. As mortes civis eventualmente provocadas por ações militares em resposta a esses ataques seriam terríveis, é evidente, mas não vãs nem injustificadas.

Todo o raciocínio exposto acima deveria ser aplicado a toda nação soberana na condição de vítima dos ataques terroristas enunciados. No entanto, ao que tudo indica, Israel é um dos Estados que não possui esse direito. De fato, toda ação militar realizada pelas forças armadas israelenses com vistas a salvaguardar seus direitos e proteger seus cidadãos é tida aprioristicamente como má de per si: o enfrentamento de terroristas que invadiram seu território é resumida como “violação de tratado de paz com o Egito”, e, portanto, ilegítimo; a morte de civis utilizados como escudos humanos por terroristas palestinos é classificada de “genocídio” e “crimes contra a Humanidade”, como se esses civis fossem, desde o começo, os alvos da ação militar israelense.

Um exemplo de hoje pode ser visto numa notícia publicada pela BBC e republicada pelo jornal Folha de S. Paulo: uma mesquita foi depredada na Cisjordânia, sendo alvo de pichações e ações incendiárias. O foco da reportagem é mostrar que os crimes não recebem a atenção devida por parte das autoridades israelenses, deixando no ar um cheiro de conivência do Estado de Israel. Todavia, foi convenientemente omitida a informação de que uma grande força investigativa, que conta com policiais e agentes do Shin Bet (o serviço de segurança interna de Israel), está promovendo diligências na região para averiguar quem cometeu esses crimes – o que foi noticiado até pelo jornal esquerdista Haaretz. Quando uma sinagoga perto do assentamento de Dolev, em que se localiza o memorial de Yair Mendelson (israelense morto num ataque terrorista durante a Primeira Intifada), foi incendiada repetidas vezes, não se aventou, nem mesmo se insinuou, uma possível conivência da Autoridade Palestina. Quando a sinagoga Neve Dekalim, na Faixa de Gaza, foi reduzida a escombros por uma turba enfurecida liderada por membros do alto escalão do Hamas, nenhuma organização de direitos humanos criticou aquele grotesco ato de perseguição religiosa. Na verdade, ambos os fatos passaram praticamente despercebidos: poucos jornais os relataram.


A destruição da sinagoga Neve Dekalim.

Os inimigos de Israel podem não ter conseguido varrer o Estado judeu do mapa literalmente, mas trabalham diuturnamente para destruir sua reputação, sua legitimidade e seus esforços para sobreviver. E tudo isso com o beneplácito de quase todos os grandes veículos de informação, organizações multilaterais, instituições não-governamentais e diversos governos, inclusive ocidentais.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Universidade para quê?

Um dos discursos mais utilizados por integrantes e simpatizantes do Partido dos Trabalhadores para defender o governo Lula é dizer que “nunca antes na história destepaiz” foram criadas tantas universidades federais. Uma dessas instituições é a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), criada pela lei nº 11.151, de 29 de julho de 2005. A UFRB orienta-se pelos seguintes princípios:
  • Cooperação com o desenvolvimento socioeconômico, científico, tecnológico, cultural e artístico do Estado e do País e compromisso com o desenvolvimento regional;
  • Criação de marcos de reconhecimento social, oriundos dos serviços especiais prestados no atendimento da população;
  • Gestão participativa;
  • Uso de novas tecnologias de comunicação e de informação;
  • Equidade nas relações entre os campi;
  • Desenvolvimento de um ambiente capaz de viabilizar a educação à distância;
  • Processo de avaliação institucional permanente;
  • Adoção de políticas afirmativas de inclusão social.
Há poucos instantes, recebi de um leitor do blog um texto bastante interessante sobre a UFRB: trata-se de um discurso proferido pelo reitor da instituição, Paulo Gabriel Soledade Nacif, por ocasião dos 190 anos da Ata de Vereação de Santo Amaro. O que é mais interessante observar no discurso do reitor Paulo Gabriel não é a ênfase na importância da Ata de Vereação, mas as ideias que foram ardorosamente defendidas.

Paulo Gabriel, reitor da UFRB.

Para Paulo Gabriel, o papel da universidade brasileira – sobretudo da UFRB, já que “o Recôncavo sintetiza a Bahia” e esta “sintetiza o Brasil” – é reinventar o Brasil: “a Universidade, através da educação e do conhecimento, é responsável por contribuir para construção de caminhos para a transformação, o desenvolvimento e para a justiça social.” Esse papel da universidade é inelutável, especialmente depois de termos tido o melhor governo do Brasil de todos os tempos:
O período democrático, a estabilidade econômica e institucional, a sociedade do conhecimento, a redefinição do equilíbrio de poder no planeta, o Brasil, finalmente, reconhecido em sua importância econômica e política no mundo. A era Lula. Sim, estamos em mais um momento de transformações profundas.
Mas não para por aqui. Exultando a cor da pele acima de qualquer outra coisa – “um Reitor negro, algo impensável naquela época, em um País que tanto tempo depois ainda luta pela reparação ao povo escravizado” – e uma suposta baianidade que é tida como a única responsável pela “invenção” do Brasil – afinal, a Bahia é uma “região, que podemos, sem falsa modéstia e com orgulho, dizer que criou esse País, porque representa sua diversidade, reúne seus mais significativos traços culturais” –, o discurso do reitor não cita uma única palavra de nenhum pensador baiano. Não há nenhuma citação a Ático Vilas-Boas da Mota, ou Rui Barbosa, ou Teodoro Fernandes Sampaio. No entanto, pululam as citações de Gilberto Gil e Caetano Veloso, lembrados com uma deferência inusitada. Decerto estes artistas contribuíram mais para a “invenção” do Brasil do que aqueles estudiosos.

Caetano e Gil: artífices do Brasil?

O que importam essas pinçadas do texto, afinal de contas? Não tem o reitor o direito de falar o que bem quer, citar quem deseja? Não estamos aqui criticando seu direito de expressão, mas analisando o conteúdo dessa expressão. E a mensagem do discurso é: a Bahia construiu o Brasil, o governo Lula fez ressuscitar aquelas potencialidades inventoras baianas e, mais do que nunca, a universidade brasileira, especialmente baiana, deve resumir-se a “reinventar” o Brasil num incessante devenir. Não há continuidade, não há tradição, não há legado: há apenas uma mudança perene, boa em si mesma, “sem lenço e sem documento”.

Isso ilustra bem o que se pensa sobre a academia no Brasil: ela deve promover a mudança. Que mudança? Qualquer mudança, desde que seja aquela ditada pelo zeitgeist progressista em que estamos atolados. A constatação dessa realidade nos discursos sobre a universidade não é fruto de um comportamento extraordinariamente reacionário – o leitor que me mandou o discurso até mesmo compartilhou seu desejo em “saber se estou sofrendo de algum problema psicológico (paranóia ou algo parecido)” –, mas de argúcia e senso crítico. A universidade deve construir conhecimento, não brincar de monta-e-desmonta; ela deve calcar aos pés as trivialidades hodiernas em nome de um conhecimento que transcenda o mero gostismo de hoje. Ela deve ser, em suma, tradicional, profunda e livre.

domingo, 17 de junho de 2012

Contra magicae methodi

Meu último texto tratou de como a linguagem irracional, tão carregada de lacunas e contradições, típica dos “intelectuais” é forjada não para convencer, mas para enfeitiçar. Pegue um livro de algum bruxo-intelectual famoso, venerado, alçado aos mais áureos pedestais da nossa zelosa elite pensante – Paulo Freire, por exemplo – e você poderá se deparar com joias deste quilate:
A intencionalidade transcendental da consciência permite-lhe recuar indefinidamente seus horizontes e, dentro deles, ultrapassar os momentos e as situações, que tentam retê-la e enclausurá-la. Liberta pela força de seu impulso transcendentalizante pode volver reflexivamente sobre tais situações e momentos, para julgá-los e julgar-se. Por isto é capaz de crítica. A reflexividade é a raiz da objetivação. Se a consciência se distancia do mundo e o objetiva, é porque sua intencionalidade transcendental a faz reflexiva. Desde o primeiro momento de sua constituição, ao objetivar seu mundo originário, já é virtualmente reflexiva. É presença e distância do mundo: a distância é a condição da presença. Ao distanciar-se do mundo, constituindo-se na objetividade, surpreende-se, ela, em sua subjetividade. Nessa linha de entendimento, reflexão e mundo, subjetividade e objetividade não se separam: opõem-se, implicando-se dialeticamente. (Paulo Freire, “Pedagogia do Oprimido”)
Hoje, descobri que um dos melhores professores da Universidade de Brasília – e, talvez por isso mesmo, um dos menos (re)conhecidos da instituição –, Luís Augusto Sarmento Cavalcanti de Gusmão, doutor em Sociologia do Conhecimento pela Universidade de São Paulo (USP) e membro do Departamento de Sociologia da UnB, acabou de lançar um livro que trata de assunto análogo ao que abordei em meu texto anterior. Seu livro chama-se “O fetichismo do conceito: limites do conhecimento teórico na investigação social” e foi lançado pela editora Topbooks. De acordo com o site da editora,
este livro, fruto de mais de uma década de observações sobre o mundo dos chamados cientistas sociais, reafirma que a moderna investigação sociológica não precisa romper com o universo conceitual e linguístico do leigo experiente e bem informado. E mais: suas conclusões podem ser formuladas na linguagem corrente, dispensando jargões pedantes e esotéricos.


O professor Luís de Gusmão critica em seu livro a exaustiva utilização de “uma terminologia técnica esotérica” que visa a “fornecer definições e esclarecimentos conceituais completamente inúteis para qualquer pessoa fluente na linguagem natural empregada nas rotinas da vida cotidiana, matriz de todo jargão sociológico aproveitável, dotado de algum conteúdo empírico, numa tola e despropositada afetação de rigor e exatidão científicos. Essa verdadeira compulsão por definições supérfluas não raro acaba funcionando como um autêntico álibi para substituir as interpretações empíricas inteligentes da vida social, algo difícil de realizar, mas sempre valioso, por exegeses de textos de teóricos, algo bem mais fácil e, quase sempre, de utilidade duvidosa”.

Um trabalho desse calibre, produzido por um sociólogo (cujas grandes referências são pensadores da estatura de Isaiah Berlin, Alexis de Tocqueville e Joaquim Nabuco) que leciona em uma universidade que é bastião e menina-dos-olhos da esquerda no Brasil, é praticamente um milagre, um desses eventos que nos renova a esperança de que a academia volte a ser local de produção legítima de conhecimento, não de incessante ruminação e masturbação intelectualóide. Aliás, é de bom alvitre notar que a Secretaria de Comunicação da Universidade de Brasília não escreveu uma única linha a respeito do lançamento do livro do professor Luís de Gusmão. Bom, talvez não seja à toa, no fim das contas.

sábado, 16 de junho de 2012

Esquerdismo e bruxaria intelectual


Há quem diga que não existam fórmulas mágicas, aquelas frases aparentemente incoerentes, que nada significam, mas que são urdidas de modo meticulosamente pensado para gerar determinados efeitos ilógicos, extraordinários, quase sobrenaturais. Apesar de se crer que hoje não passem de elementos de contos de fadas e histórias fictícias – como o líder do bando dos quarenta ladrões em “O Livro das Mil e Uma Noites”, que abria o rochedo da caverna onde escondia as riquezas que roubava com um retumbante “Abre-te, sésamo!” –, existem algumas palavras que, quando concatenadas de modo a formar um raciocínio que simplesmente não faz sentido lógico algum, provocam uma reação incrível nas pessoas que as escutam, abrindo suas mentes e suas almas para serem depositários do que se julgam serem riquezas inestimáveis, raríssimas.

Temos grandes exemplos, antigos e hodiernos, de pessoas que possuem essa capacidade singular. São magos intelectuais estupendos: misturando torpes convicções pessoais com uma ímpar incapacidade de análise e grandes porções de indigência mental, tudo bem temperado com boas doses de desonestidade pura, esses Ali Babás da cultura formam uma espécie de panteão feérico: são os intelectuais de vulto venerados nas decadentes academias pós-1968 – que há muito deixaram de ser arenas de debate e investigação do saber para se tornarem altares da idolatria esquerdóide.

Um desses bruxos da intelligentsia participou ontem do Colóquio Interconselhos promovido pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS): Boaventura de Sousa Santos, sociólogo português e diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. A matéria publicada no portal da Universidade de Brasília acerca da participação do feiticeiro é abundante em loas comovidas a “um dos estudiosos da democracia mais respeitados do planeta”, cujo grimório de conhecimentos foi “apresentado com naturalidade e lucidez” à plateia arrebanhada pelo evento. Quais foram os pontos centrais desse intricado ritual? Ei-los:
“A especulação financeira fez com que o Estado se desorganizasse. O Estado não pode intervir muito na saúde, na educação, porque está preso a uma lógica de mercado. As reformas estruturais estão a ser adiadas. O Estado está tão reacionário, tão oligárquico quanto antes. O capitalismo só quer a democracia se ela lhe der lucros. A democracia tem de ser distributiva.”

“A democracia está nas funções, mas não cumpre suas funções. O abismo entre representantes e representados nunca foi tão grande. Hoje na política, tudo se compra, tudo se vende, por isso a corrupção é uma chaga tão grande.”

“Nunca se trabalhou tanto e nunca se fizeram tantos muros para impedir a passagem de imigrantes. A desvalorização do trabalho é tão grande que começa a ser difícil distinguir trabalho pago de não pago. Não há distinção entre tempo livre e tempo do trabalho. A forma mais cruel do trabalho não pago é o tempo perdido procurando trabalho.”

“Aqui bem perto, na Bolívia e no Equador, vemos a ação do capitalismo. É a mineralização [sic] a céu aberto, é a destruição dos territórios indígenas, é a destruição dos ecossistemas, é a explosão de montanhas para explorar minérios, com grande contaminação da água, essa é a outra face da chamada acumulação primitiva, e que, longe de ser uma forma de capitalismo, é uma constante de capitalismo. Muito do conhecimento técnico está relacionado com interesses de grandes empresas e serve a essa exploração. Tudo é representado de maneira técnica e fria. O valor do conhecimento é o valor do mercado do conhecimento.”
Boaventura de Sousa Santos

Diante das colocações de Boaventura Santos, só há duas possibilidades plausíveis: ou o eminente mago do saber lusitano vive em uma realidade alternativa, ou somos nós as criaturas extraplanares. Desde que a democracia passou a ser adotada como a alegada forma de governo da maior parte dos Estados ocidentais, nunca se viu tamanha intervenção do Estado nos mais diversos campos da vida humana – não apenas na saúde ou na educação, mas na economia e no âmbito social. O Estado-Deus deixou de ser apenas a ambição tresloucada dos philosophes e se tornou a realidade concreta no Ocidente.

Mas o grimório de feitiços intelectuais do mago lusitano não se esgota apenas nas crenças expostas nos pontos supracitados. Analisemos, por exemplo, alguns excertos da série de artigos “Carta às Esquerdas”, publicada por Boaventura Santos em alguns veículos de informação aqui e alhures:
As esquerdas dominaram o século XX (apesar do nazismo, do fascismo e do colonialismo) e o mundo tornou-se mais livre e mais igual graças a elas.

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O capitalismo concebe a democracia como um instrumento de acumulação; se for preciso, redu-la [sic] à irrelevância e, se encontrar outro instrumento mais eficiente, dispensa-a (o caso da China). A defesa da democracia de alta intensidade é a grande bandeira das esquerdas.

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Os neoliberais pretendem desorganizar o Estado democrático através da inculcação na opinião pública da suposta necessidade de várias transições. Primeira: da responsabilidade coletiva para a responsabilidade individual. Para os neoliberais, as expectativas da vida dos cidadãos derivam do que eles fazem por si e não do que a sociedade pode fazer por eles.

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A direita tem à sua disposição todos os intelectuais orgânicos do capital financeiro, das associações empresariais, das instituições multilaterais, dos think tanks, dos lobistas, os quais lhe fornecem diariamente dados e interpretações que não são sempre faltos de rigor e sempre interpretam a realidade de modo a levar a água ao seu moinho.

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A democracia liberal agoniza sob o peso dos poderes fáticos (máfias, maçonaria, Opus Dei, transnacionais, FMI, Banco Mundial) e da impunidade da corrupção, do abuso do poder e do tráfico de influências.

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Nos últimos 50 anos as esquerdas (todas elas) deram um contributo fundamental para que a democracia liberal tivesse alguma credibilidade junto das classes populares e os conflitos sociais pudessem ser resolvidos em paz. Sendo certo que a direita só se interessa pela democracia na medida em que esta serve os seus interesses, as esquerdas são hoje a única garantia do resgate da democracia.

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A reflexão deve começar por aí: o neoliberalismo é, antes de tudo, uma cultura de medo, de sofrimento e de morte para as grandes maiorias, se não se combater com eficácia, se não se lhe opuser uma cultura de esperança, de felicidade e de vida. A dificuldade que as esquerdas têm em assumirem-se como portadoras desta outra cultura decorre de terem caído durante demasiado tempo na armadilha com que as direitas sempre se mantiveram no poder: reduzir a realidade ao que existe, por mais injusta e cruel que seja, para que a esperança das maiorias pareça irreal. O medo na espera mata a esperança na felicidade. Contra esta armadilha é preciso partir da ideia de que a realidade é a soma do que existe e de tudo o que nela é emergente como possibilidade e como luta pela sua concretização.
Não se deixem enganar pela ausência completa de sentido lógico, embasamento e racionalidade dos excertos acima transcritos. Eles não foram escritos para informar, convencer racionalmente através de ideias concatenadas e argumentos desenvolvidos numa linha de pensamento identificável e conferível: foram feitos para funcionar exatamente como o “Abre-te, sésamo!” da história árabe e, assim, depositar magicamente na mente de quem quer que se exponha a eles os tesouros mais caros da nata da intelligentsia mundial.

Como para o bruxo intelectual Boaventura Santos é um equívoco “reduzir a realidade ao que existe”, tudo fica bastante bem entendido: aquelas ideologias que convencionou-se chamar de esquerdas (socialismo, comunismo, e, ao contrário do que ele advoga, nazismo e fascismo) não foram responsáveis pelas maiores atrocidades da história humana; não urdiram a “cultura de medo, de sofrimento e de morte para as grandes maiorias”; não foram responsáveis pelos programas de todas as grandes organizações multilaterais, como a Organização das Nações Unidas; não possuem todo um exército de intelectuais orgânicos – nas universidades, nos governos, nas organizações não-governamentais, nas organizações internacionais e nos partidos políticos, todos a serviço da elite globalista; não concebem a democracia como um instrumento de ocasião que se deve utilizar para promover a revolução desde dentro, segundo o melhor do receituário gramsciano; não são responsáveis pela grotesca hipertrofia estatal que, sob a alegação de “proteger os fracos e os oprimidos”, é justamente a principal causa das distorções bizarras que solapam a democracia – como a corrupção, o abuso de poder e o tráfico de influência. Nenhum desses dados da realidade, perfeitamente verificáveis e disponíveis a quem quer que tenha a mínima disposição para procurá-los, perfazem, de fato, a realidade.

George Soros: espécime globalista exemplar.

A despeito do fato de que a defesa irredutível de tais ideias seria, em uma sociedade madura e sadia, uma indicação indubitável de senilidade, quiçá de um seriíssimo transtorno mental de fundo psicótico, o mago lusitano do saber é apenas um dentre inúmeros representantes daquela casta chamada intelectualidade. São os pareceres, as obras e o trabalho de pessoas como ele que são ruminados no mundo acadêmico, adotados pelos governos nacionais e transformados em linhas-mestras de planejamento e ação das organizações supranacionais. Não é preciso ser um gênio, um acadêmico, muito menos um conservador – que, de acordo com essa sapiente elite, é a raça mais tacanha e ignorante já surgida na face da terra –, para se dar conta disso: basta ler o jornal.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

O espírito de Geert Wilders

Mark Steyn
National Review

Geert Wilders

Quando me pediram que escrevesse um prefácio para o novo livro de Geert Wilders, minha primeira reação, para ser honesto, foi recusar. O Sr. Wilders vive sob proteção armada 24 horas por dia, 7 dias por semana, porque um considerável número de pessoas obstinadas querem matá-lo, e pareceu-me que, sendo alguém que atraiu uma quantidade mais do que suficiente de atenção homicida ao longo dos anos, dividir com ele espaço nessas páginas certamente implicaria aumento em minhas próprias ameaças de morte. Quem precisa disso? Por que não alegar conflito de agenda e sugerir que o autor tente outra pessoa? Imagino que Geert Wilders recebe muitas respostas assim.

E então eu dei um passeio pelo bosque, e me senti vagamente envergonhado com a facilidade com que quis dar a seus inimigos essa pequena vitória. Depois que desmascarei os valentões islâmicos em meu país, seu porta-voz vangloriou-se ao The Canadian Arab News dizendo que, mesmo depois de o Congresso Islâmico Canadense não ter conseguido criminalizar meus textos sobre o Islã em três jurisdições diferentes, as ações judiciais custaram à minha revista (segundo jactou-se) dois milhões de dólares, e, portanto, “atingiram nosso objetivo estratégico – aumentar o custo de publicação de material anti-islâmico”. Nos Países Baixos, os inimigos do Sr. Wilders, sejam jihadistas homicidas ou o establishment multiculturalista, compartilham o mesmo “objetivo estratégico” – aumentar o custo de associar-se a ele em um nível maior do que as pessoas estão dispostas a arcar. Não é fácil ser Geert Wilders. Ele passou quase uma década em uma estranha, claustrofóbica, fugaz e tênue existência pouco diferente de vítimas de sequestro ou, em suas palavras, de um prisioneiro político. Ele está sob vigilância constante por causa de ameaças explícitas de assassinato por parte de muçulmanos extremistas.

E ele é o único a ser indiciado por incitação.

Na Amsterdã do século XXI, você é livre para fumar maconha ou escolher uma parceira sexual seminua na vitrine de um prostíbulo. Mas você pode ser processado por ter a opinião errada sobre um sujeito que morreu no século VII.

E, ainda que o Sr. Wilders tenha sido eventualmente absolvido pelo arremedo de tribunal que o julgou, a determinação de colocá-lo além dos limites é incansável: “O partido de extrema-direita anti-imigração de Geert Wilders” (The Financial Times)... “O líder de extrema-direita Geert Wilders” (The Guardian)... “O político de extrema-direita anti-Islã Geert Wilders” (Agence France-Presse) está “à margem da política convencional” (Time). O Sr. Wilders está tão no extremo na margem extrema da extrema-direita que seu partido é o terceiro maior do parlamento. Na verdade, o atual governo holandês só está no poder graças ao apoio do Partido da Liberdade, de Wilders. Então, ele é “radical” e “extrema-direita” e “marginal”, mas os sete partidos que tiveram bem menos votos do que o dele são “convencionais”? Isso é justamente uma das coisas que há de errado com o discurso político europeu e sua cobertura midiática: talvez ele pareça tão “radical” e “extrema-direita” porque são os outros que estão à margem.

Ainda assim, não é suficiente distorcer o próprio homem: você também tem que fazer isso com aqueles que decidem conhecê-lo por si próprios. O senador sul-australiano Cory Bernardi encontrou-se com o Sr. Wilders durante uma viagem pelos Países Baixos e, ao voltar para casa, suscitou manchetes como “Senador Sob Ameaça Por Ligações Com Wilders” (The Sydney Morning Herald) e “Geert Wilders Deixa Cory Bernardi Por Um Fio” (The Australian). Membros não só do partido de oposição, mas também de seu próprio partido, pediram que o Senador Bernardi fosse demitido de seu posto de secretário parlamentar da Liderança da Leal Oposição de Sua Majestade. E por que parar por aí? Um porta-voz do governo “recusou-se a comentar se o Sr. Abbott [1] deveria expulsar o Senador Bernardi do Partido Liberal”. Isso não aconteceria se Bernardi tivesse se metido com figuras mais respeitáveis – Hugo Chávez, por exemplo, ou um representante do Hamas. Para minha satisfação, enquanto dividia um palanque comigo em Adelaide alguns meses depois, Bernardi declarou que, como um cidadão livre, ninguém iria dizê-lo com quem ele deveria ou não se encontrar.

Cory Bernardi

Para cada pessoa que pensa de maneira independente, como o Senador Bernardi, Lorde Pearson de Rannoch [2] ou a Baronesa Cox [3] (que organizou uma exibição do filme Fitna, de Wilders, na Câmara dos Lordes), há mil outras figuras públicas que captaram a mensagem: não mexa com o Islã, a não ser que você queira morrer – e fique longe de Wilders se você quiser ficar em paz.

Mas uma vida tranquila, no fim das contas, não é uma opção. Não é preciso concordar com tudo que o Sr. Wilders diz em seu livro – ou, na verdade, com qualquer coisa que ele diga – para reconhecer que, quando o líder do terceiro maior partido de uma das mais antigas legislaturas democráticas da terra tem que viver sob ameaça constante de assassinato e é forçado a viver em “esconderijos” por quase uma década, alguma coisa está muito errada com “o país mais tolerante da Europa” – e que temos a responsabilidade de falar sobre isso honestamente antes que a situação piore.

Uma década atrás, em meio à excitação com a queda de Saddam, muitos comentaristas da mídia tinham uma definição-padrão para o Iraque: uma entidade artificial montada com grupos que não fazem parte do mesmo Estado. E eu costumava brincar dizendo que aqueles que pensavam que os diversos componentes do Iraque eram incompatíveis deveriam olhar para os Países Baixos. Se sunitas e xiitas, curdos e árabes não têm em comum o suficiente para estabelecer um Estado funcional, o que dizer de uma jurisdição dividida entre drogados depravados pós-cristãos e muçulmanos anti-prostituição, anti-sodomia e anti-qualquer-coisa? Se o Curdistão não se encaixa direito no Iraque, como o Pornostão se encaixa na República Islâmica da Holanda?

Os anos passam, e a censura se torna cada vez mais deplorável. “O país mais tolerante da Europa” é um regime cada vez mais incoerente onde gays são espancados, mulheres descobertas são vítimas de escárnio nas ruas, e você não pode ter uma encenação de “O Diário de Anne Frank” no colégio a não ser que queira ver os personagens da Gestapo recebidos com gritos efusivos da plateia – “Ela está no sótão!”

De acordo com uma pesquisa, 20% dos professores de história abandonaram certos, hm, aspectos problemáticos da Segunda Guerra Mundial porque, em turmas com uma, ahn, disposição demográfica particular, alunos não acreditam que o Holocausto aconteceu, e, se aconteceu, os alemães deveriam ter terminado o trabalho para que não tivéssemos todos os problemas de hoje. Alguns professores mais inventivos astutamente bajulam seus alunos anti-semitas comparando o Holocausto à “Islamofobia” – todos nós nos lembramos daqueles terroristas judeus sequestrando aviões Fokker e jogando-os no Reichstag, certo? E o que dizer de gangues de jovens judeus atacando idosos, como faz a juventude muçulmana no bairro de Kanaleneiland, onde Wilders morou?

Quanto à “Islamofobia”, é muito ruim ver que, er, são os judeus que estão indo embora. “Sessenta por cento da comunidade ortodoxa de Amsterdã pretende emigrar da Holanda”, disse Benzion Evers, filho do rabino-chefe da cidade, cujos cinco de seus filhos já haviam partido em 2010. O exitoso guia turístico da Frommer sobre a “cidade mais tolerante da Europa” reconhece que “visitantes judeus que se vestem de forma que os identifique claramente como tais” correm o risco de serem atacados, mas atribui isso discretamente ao “conflito israelo-palestino”. “Judeus conscientes deveriam deixar a Holanda, onde eles e suas crianças não têm futuro”, aconselhou Frits Bolkenstein, ex-líder do Partido Liberal. “O anti-semitismo continuará a existir, pois os jovens marroquinos e turcos não ligam para os esforços de reconciliação.”

Se você está pensando para o que mais esses “jovens” não ligam, pergunte a Chris Crain, editor do The Washington Blade, o jornal gay da capital americana. Buscando se afastar dos caipiras cristãos fundamentalistas teocráticos do Partido Republicano, ele e seu namorado decidiram passar um tempo numa viagem a Amsterdã, “indubitavelmente o lugar mais ‘amigo dos gays’ do planeta”. Passeando pelas ruas do centro da cidade, uma gangue de sete “jovens” os abordou, ofendeu e espancou. Perplexas com o aumento da violência, autoridades de Amsterdã promoveram um estudo para determinar, como divulgou o Der Spiegel, “porque homens marroquinos estão atacando os gays da cidade.”

Chris Crain, após a agressão em Amsterdã.

Puxa, que dureza. É desconcertante. Os gênios da Universidade de Amsterdã concluíram que os responsáveis pelos ataques se sentiam “estigmatizados pela sociedade” e “podem estar lutando com suas próprias identidades sexuais.”

Bingo! Dizer a jovens marroquinos que eles são gays enrustidos é a solução perfeita para reduzir as tensões na cidade! Enquanto isso, um monte daqueles turcos parece meio frutinha, não acha?

Mas não se preocupe. Na “nação mais tolerante da Europa”, ainda há muita tolerância. O que os holandeses não toleram? Em 2006, o ministro da justiça, Piet Hein Donner, sugeriu que não havia nada de errado com a shari’a se a maioria do povo holandês votasse a seu favor – como, de fato, estão fazendo entusiasticamente no Egito e outros regimes abençoados com a Primavera Árabe. A resposta prévia do Sr. Donner ao “radicalismo islâmico” foi (como Wilders relembra) propor uma nova lei da blasfêmia para os Países Baixos.

Nesse mundo virado do avesso, Piet Hein Donner e pesquisadores da Universidade de Amsterdã e os promotores do Openbaar Ministerie [4] responsáveis por esse espetáculo jurídico são “convencionais” – e Geert Wilders é o “radical” “extremista” “marginal”. Quão larga é essa margem? O Sr. Wilders cita uma enquete em que 57% das pessoas dizem que a imigração em massa foi o grande erro da história holandesa. Se a importação de uma grande população muçulmana para o ocidente foi realmente um erro, também foi algo inteiramente desnecessário. Algumas nações (holandeses, franceses e britânicos) podem considerar-se num certo débito pós-colonial com seus antigos povos-alvo, mas Suécia? Alemanha? De Malmö a Mannheim, o Islã transformou sociedades que até então não tinham nenhuma conexão com o mundo islâmico. Mesmo que você discorde daqueles 57% da pesquisa holandesa, a experiência do rabino-chefe de Amsterdã e do editor gay agredido e dos idosos que moram em Kanaleneiland sugere que, no mínimo, a islamização de cidades continentais oferece algum desafio para a famosa “tolerância” da Eutopia [5]. Ainda assim, a mesma classe política responsável por essa “substituição demográfica” (nas palavras da demógrafa francesa Michèle Tribalat) sem precedentes insiste em manter o assunto longe de qualquer discussão. O escritor britânico Martin Amis perguntou a Tony Blair se, durante as reuniões com seus companheiros premiês, o mapa demográfico continental fazia parte da “conversação europeia”. O Sr. Blair respondeu, com desconcertante honestidade: “é uma discussão subterrânea” – ou seja, os sujeitos que nos puseram nessa confusão não conseguem pensar num jeito de falar disso em público a não ser nas trivialidades banais de um relativismo cultural esgarçado.

Isso não é o suficiente para Geert Wilders. Ao contrário da maioria de seus críticos, ele viajou bastante pelo mundo islâmico. Ao contrário deles, ele leu o Corão – e o releu em todas aquelas noites intermináveis em algum esconderijo sombrio e afastado do consolo de sua família e seus amigos. Um modo de pensar em como as coisas estão acontecendo é inverter a lógica. Roterdã tem um prefeito muçulmano, portador de passaporte marroquino e filho de um imame berbere. Como os sauditas se sentiriam se um católico italiano fosse prefeito de Riad? Como os jordanianos se sentiriam se um judeu americano fosse prefeito de Zarqa? Os cidadãos do Cairo e de Cabul concordariam em se tornar minorias em suas próprias cidades simplesmente porque falar disso seria muito indelicado?

Ahmed Aboutaleb, o muçulmano marroquino prefeito de Roterdã.

Abordar a questão é expor sua absurdeza. Da Nigéria ao Paquistão, o mundo islâmico é intolerante até com antigas minorias estabelecidas. Metade da população do Iraque fugiu do país, a última igreja do Afeganistão foi destruída em 2010, e, em ambos os casos, essa versão confessional de limpeza étnica ocorreu sob o nariz da América. O multiculturalismo é um fenômeno unicultural.

Mas a elite política da Europa insiste em dizer que essa imigração transformadora sem precedentes só pode ser discutida dentro das piedades convencionais: dizemos a nós mesmos que, em uma sociedade multicultural, o simpático casal gay do número 27 e o muçulmano poligâmico com quatro noivas crianças em niqabs [6] idênticos do número 29 da Elm Street podem viver lado a lado, cada qual contribuindo para a rica e vibrante tapeçaria da diversidade. E qualquer um que diga o contrário deve ser expurgado para as trevas exteriores.

Geert Wilders pensa que devemos ter a capacidade de falar sobre isso – e, de fato, como cidadãos das sociedades mais antigas e livres da terra, é nosso dever fazê-lo. Sem ele e outras almas corajosas, as opiniões de 57% do eleitorado holandês não teriam representação no parlamento. O que, pensando bem, é algo bastante estranho numa sociedade democrática. A maior parte dos problemas que afronta o mundo ocidental hoje advém daquelas políticas sobre as quais a classe política está de pleno acordo: em período eleitoral na Europa, o eleitor médio deve escolher entre um partido de centro-esquerda ou um cada vez mais compassivo partido de direita-da-centro-esquerda e, não importa em quem vote, eles geralmente concordam em absolutamente tudo, de imigração em massa a programas insustentáveis de bem-estar e mudança climática. E eles são cruéis quando se trata de deslegitimar qualquer um que queira um debate mais amplo. Essa confusão do Cory Bernardi, por exemplo, fiquei impressionado em como a cobertura australiana foi preguiçosamente rasa sobre Geert Wilders. O Sydney Morning Herald publicou:

“Geert Wilders, que é o fiel da balança do poder no parlamento holandês, comparou o Corão ao Mein Kampf e chamou o Profeta Maomé de pedófilo...”

The Australian:

“Ele provocou a revolta da comunidade islâmica dos Países Baixos depois de classificar o Islã como uma religião violenta, comparando o Corão ao Mein Kampf, de Hitler, e chamando o Profeta Maomé de pedófilo.”

Tony Eastley, da ABC Radio:

“Geert Wilders, que controla o equilíbrio de poder no parlamento dos Países Baixos, revoltou os muçulmanos holandeses ao comparar o Corão com o Mein Kampf, escrito por Hitler, e chamar o Profeta Maomé de pedófilo...”

Meus Deus, você quase poderia pensar que todos esses dedicados jornalistas investigativos só copiaram e colaram o mesmo resumo preguiçoso do que efetivamente conferiram o que o sujeito disse de verdade. O homem que é revelado nas páginas seguintes não é o bandido ameaçador da demonologia midiática, mas um homem estudado, viajado, elegante, um analista perspicaz que cita figuras “extremistas” e “marginais” como Churchill e Jefferson. Quanto àquelas notícias repetidas à exaustão pela mídia de Oz, o Mein Kampf é banido na maior parte da Europa; negar o Holocausto é considerado crime; e, quando uma lei francesa sobre a negação do genocídio armênio foi derrubada, o presidente Sarkozy anunciou imediatamente que faria outra lei para substituí-la. No Canadá, a Suprema Corte manteve uma condenação de “discurso de ódio”, de primeira instância, contra um homem que simplesmente listou os capítulos e os versículos de diversas prescrições bíblicas acerca do homossexualismo. Ainda assim, em um mundo ocidental cada vez mais acostumado a regular, controlar e criminalizar livros, discursos e ideias, a deferência estatal ao Islã é cada vez mais bajuladora. O “Profeta Maomé” (como os nossos ocidentais impecavelmente seculares agora se referem) é cada vez mais beneficiado por nossa vontade de torturar a lógica e a lei e a liberdade de maneiras cada vez mais inócuas em prol da causa do ajustamento ao Islã. Considere o caso de Elisabeth Sabaditsch-Wolff, uma dona-de-casa vienense que viveu em diversos países islâmicos. Ela foi processada por uma corte austríaca por chamar Maomé de pedófilo por ter consumado o casamento quando sua noiva, Aisha, tinha apenas nove anos. A Sra. Sabaditsch-Wolff foi considerada culpada e multada em 480 euros. O raciocínio do juiz foi fascinante:

“Pedofilia é factualmente incorreto, uma vez que pedofilia é a preferência sexual direcionada única ou majoritariamente a crianças. No entanto, ela não se aplica a Maomé. Ele ainda era casado com Aisha quanto ela tinha 18 anos.”

Elisabeth Sabaditsch-Wolff e Geert Wilders

Então, você não é um pedófilo se deflorar uma criança na quarta série e mantê-la por perto até o colegial? Eis uma dica muito útil caso você esteja planejando uma viagem pelos Alpes. Ou essa é mais uma daquelas exceções que não são universalmente aplicáveis?

Um homem não quereria essa situação surreal nem mesmo para seus inimigos. Mesmo assim, é marcante como o establishment mal se incomoda em disfarçar seu desejo de que Wilders tenha o mesmo fim rápido e definitivo de Pim Fortuyn [7] e Theo van Gogh [8]. Em seu espetáculo jurídico, o juiz chegou mesmo a negar ao réu dentro do tribunal o mesmo nível de segurança de que gozou Mohammed Bouyeri, assassino de Van Gogh. Henk Hofland, eleito nos Países Baixos o “Jornalista do Século” (como ironicamente lembra o autor), pediu às autoridades para retirar a proteção policial de Wilders para que ele soubesse como era viver em constante medo de morrer. Enquanto o filme de Wilders, Fitna, é considerado “incendiário”, o filme “De moord op Geert Wilders” (“O Assassinato de Geert Wilders”) é tão não-incendiário e respeitável que foi produzido e promovido por uma emissora de rádio financiada pelo governo. Você pode quase ter a impressão de que, como sugeriu o website Gates of Vienna, o governo holandês está transmitindo “Henrique II”: “Quem irá me livrar desse loiro turbulento?”

Não faltam voluntários. Nos Países Baixos, um padrão perturbador surgiu: aqueles que buscam analisar o Islã fora dos estreitos limites do discurso político eutópico acabam banidos (Vlaams Blok [9], Bélgica), forçados ao exílio (Ayaan Hirsi Ali [10]), ou mortos (Fortuyn, Van Gogh). Impressionante quão rápido “o país mais tolerante da Europa” adotou a política “mate o mensageiro” como a panaceia para a “Islamofobia”.

Não é “irônico” que o país mais liberal da Europa ocidental seja igualmente o mais avançado em sua descida a um profundo inferno não-liberal. Isso era perfeitamente previsível, e tudo o que Geert Wilders está fazendo é afirmar o óbvio: uma sociedade que se torna mais islâmica acaba tendo menos de tudo, inclusive liberdade individual.

Eu não tenho o mínimo interesse em acabar vivendo como Geert Wilders ou Kurt Westergaard, muito menos morto como Fortuyn e Van Gogh. Mas eu também quero viver de verdade, como um homem livre, e eu não gosto da visão murcha de liberdade oferecida pelo Openbaar Ministerie holandês, pelas autoridades britânicas de imigração, pelas cortes austríacas, pelos tribunais de “direitos humanos” do Canadá e por todos os outros idiotas úteis do imperialismo islâmico. Assim, é necessário para nós fazer o que recomenda Ayaan Hirsi Ali: compartilhe o risco. Dessa forma, da próxima vez que um livro ou uma charge provocar uma fatwa, será publicado ao redor do mundo e enviará aos soldados do Islã uma mensagem: matar um de nós não fará diferença. É melhor ter uma boa linha de crédito no Banco da Jihad, porque você terá de matar todos nós.

Ayaan Hirsi Ali

Como Geert Wilders fala acerca da estagnação geral do mundo islâmico, “é a cultura, estúpido”. E nossa cultura já está se retraindo em uma capitulação preventiva e rumando a um futuro encolhido, furtivo e (como diria Blair) subterrâneo. Como escreveu John Milton em sua Aeropagitica, de 1644: “Dê-me a liberdade de conhecer, proferir e argumentar livremente de acordo com minha consciência”. É uma tragédia que as batalhas de Milton tenham de ser feitas novamente depois de três séculos e meio, mas o mundo ocidental está colapsando em um cativeiro psicológico feito por si mesmo. Geert Wilders não está pronto para se render sem exercitar seu direito de conhecer, proferir e argumentar livremente – na imprensa, nas – telas e nas urnas. Deveríamos todos louvar esse espírito enquanto ainda podemos.

— Mark Steyn, colunista da National Review, é o autor de “After America: Get Ready for Armageddon”. Esse artigo foi adaptado de seu prefácio ao livro “Marked for Death: Islam’s War against the West and Me”, de Geert Wilders.


Notas do tradutor

[1] Tony Abbott, líder do Partido Liberal da Austrália.
[2] Malcolm Everard MacLaren Pearson, Barão Pearson de Rannoch (20 de julho de 1942), membro da Câmara dos Lordes do Reino Unido.
[3] Caroline Cox, Baronesa Cox (6 de julho de 1937), é integrante da Câmara dos Lordes do Reino Unido.
[4] Órgão que executa as funções próprias de ministério público na Holanda.
[5] Mistura de “Europa” e “utopia”.
[6] Véus usados pelas muçulmanas que deixam apenas os olhos à mostra.
[7] Wilhelmus Simon Petrus Fortuijn, conhecido como Pim Fortuyn (19 de fevereiro de 1948 - 6 de maio de 2002), foi um político e sociólogo holandês. Suas críticas severas contra o multiculturalismo e o Islã motivaram seu assassinato por Volkert van der Graaf, ativista da organização ambientalista Vereniging Milieu Offensief (“Associação de Ofensiva Ambiental”, em tradução livre).
[8] Theodoor “Theo” van Gogh (23 de julho de 1957 – 2 de novembro de 2004) foi um produtor e diretor de cinema holandês. Era bisneto de Theodorus van Gogh, comerciante de arte e irmão do pintor Vincent van Gogh. Em conjunto com a escritora somali Ayaan Hirsi Ali, dirigiu o filme “Submission”, que trata do cotidiano feminino no Islã. Foi assassinado pelo extremista islâmico Mohammed Bouyeri, de origem marroquina.
[9] Vlaams Blok (“Bloco Flandrino”) foi um partido conservador belga originário da região de Flandres. Uma de suas principais plataformas eram políticas anti-imigração.
[10] Ayaan Hirsi Magan Ali (13 de novembro de 1969), ativista somali radicada nos Países Baixos. É uma das grandes críticas do Islã do país. Atualmente, mora nos Estados Unidos.