segunda-feira, 7 de maio de 2012

Sobre PMs, cadelas e sprays de pimenta

Uma tendência moderna amplamente difundida é a de dar importância excessiva a assuntos e fatos que, a bem da verdade, não influenciam absolutamente nada a vida cotidiana. Esse fenômeno se manifesta de maneira ainda mais assombrosa na internet, notadamente nas redes sociais. Um exemplo bastante claro disso ocorreu há poucos dias.

Após um tiroteio entre traficantes e policiais militares na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, a PM ocupou um bom pedaço da favela. Equipes jornalísticas faziam a cobertura da ação das forças de segurança, como de praxe. E foi durante essa cobertura que a seguinte foto foi tirada:


A imagem provocou uma verdadeira celeuma nas redes sociais. Milhares de pessoas mostraram-se indignadíssimas com a atitude do policial. Alguns chegaram ao delirante paroxismo de defender a extinção da polícia militar e a pena de morte para quem maltrata animais. Não faltaram qualificações nada benfazejas do policial que fez uso do spray de pimenta.

Ainda que a foto cause um certo choque desconfortável à primeira vista, é necessário aprender a ver além do óbvio e, sobretudo, julgar as coisas de maneira menos sentimentalóide e mais lógico-racional. Ao ver a imagem, a atitude mais prudente seria buscar mais informações sobre o fato. Afinal, trata-se de um lampejo estático de um momento muito específico de um fato que possui contexto próprio. Uma imagem pode até falar mais do que mil palavras, como diz o ditado, mas nada garante que essas palavras sejam corretas e justas: elas podem ser profundamente injustas e levianas.

Para exemplificar, observemos a foto abaixo.


Se alguém descrevesse a imagem acima, diria se tratar de um prisioneiro de guerra (reparem que tanto ele quanto os outros personagens estão usando uniformes militares, e seu uniforme é diferente dos outros) que está prestes a ser executado (um fuzil está apontado para sua cabeça). Essa foto é chocante, e pode provocar o mesmo efeito desagradável da foto em que o policial faz uso do spray de pimenta no cachorro. Mas será que a impressão causada pela foto condiz com a verdade dos fatos?

Vejam, agora, a imagem abaixo.


Poderíamos perfeitamente descrever a foto como sendo o momento em que um prisioneiro de guerra é saciado com água por seus captores, um gesto inegavelmente humano e que mostra que é possível haver demonstrações de respeito à dignidade humana mesmo em meio a conflitos armados. No entanto, reparem bem: a foto que mostra o prisioneiro de guerra prestes a ser executado é a mesma foto do prisioneiro de guerra tendo sua sede saciada. Qual é a diferença entre a primeira e a segunda? A segunda foto mostra um contexto mais amplo, e não apenas uma visão deturpada dos fatos.

Se há algo que caracteriza essencialmente os nossos dias, esse algo é o sentimentalismo. As pessoas de hoje apresentam uma enorme dificuldade em lidar com as mais diversas situações sob um ponto de vista mais analítico e, dessa maneira, tornam-se reféns de seus próprios sentimentos, que são frequentemente manifestados arroubos irracionais e descontrolados. O psiquiatra Theodore Dalrymple, em seu livro “Spoilt Rotten: The Toxic Cult of Sentimentality”, analisa de maneira pormenorizada o culto nocivo ao sentimentalismo como sendo a única forma de expressar, de modo legítimo e natural, a própria personalidade. Um dos exemplos emblemáticos dessa loucura é o caso do desaparecimento da garotinha Madeleine McCann: como os pais da menina nunca se derreteram em lágrimas e apelos desesperados na frente das câmeras, eles foram automaticamente transformados pela opinião pública nos principais suspeitos pelo desaparecimento da própria filha. Qual indício foi utilizado para embasar tal acusação? Este: o resguardo e o pudor com que o casal tratou a sua própria dor, guardando-a para si ao invés de partilhá-la com centenas de milhões de desconhecidos.

A esse respeito, há uma cena fenomenal do filme “A Dama de Ferro”, sobre Margaret Thatcher, ex-primeira-ministra do Reino Unido. Assistam à cena com atenção.


Em tempo: quem quiser saber o que realmente houve no caso do policial, clique aqui e leia a matéria.

14 comentários:

  1. Desculpe mas tudo o que você escreveu não torna o policial menos babaca pelo que fez.

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    1. Mas seu comentário demonstra que você é prova desse sentimentalismo barato em que vivemos.

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    2. Para evitar este tipo de sentimentalismo "canino" ...da próxima vez o policial atirará no cachorro com certeza...!!!

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  2. Sei...o cara atira spray de pimenta num cachorro, eu acho o cara um babaca por isso e então eu sou um sentimentalista? Eu não sabia que tinha que gostar disso. Sentir-se incomodado com esse fato não significa não prestar atenção em coisas mais importantes ou fazer coro a esses alienados de Facebook que passam o dia falando de cachorros, gatos e periquitos (e pedindo extinção da PM por causa dessa foto). Outra coisa é ver uma cena dessa e não achar nada demais. Você vai pelo extremo oposto. Boa sorte com isso.

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    1. Que tal se por na posição do policial ??
      subindo um morro, cheio de bandidos querendo alveja-lo e um cachorro que pode lhe morder !!
      Queria ver se fosse tu, em seu lugar !

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  3. Texto muito interessante! Realmente estamos hoje mais preocupados com as sensibilidades e percepções de certos grupos do que com a verdade propriamente dita.

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  4. A humanidade é hipócrita, jovens sem cultura alguma querem transformar um sentimentalismo barato em uma bandeira. Os que defendem suas opiniões nas redes sociais em prol da defesa dos animais, não agiriam diferentemente do policial "façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço". O spray de pimenta é reconhecidamente não letal e aprovado na Alemanha contra ataques de animais. Aqui, como disse o ministro do supremo Gilmar Mendes, qualquer coisa dá chilique nos politicamente correto. Só darei razão a essas frescuras quando todos deixarem de comer carne.No jornal Hoje a reportagem disse que a cadela estava agressiva, pois havia perdido os filhotes e atacou os policiais.

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  5. http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/files/2011/03/23_ghg_rio_bumba4.jpg

    Se achar isso ruim é porque é sentimentalista.

    Por que não usamos nosso julgamento lógico-racional para avaliar a possibilidade da hedionda besta-fera em questão destruir as botas e a calça tática do policial e devorar suas pernas?

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    1. Comparar um cachorro raivoso (nas palavras do próprio dono) com uma criança ou é estupidez galopante ou é desonestidade grotesca. No seu caso, uma mistura fina das duas coisas.

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  6. Viva o sentimento! Moral e emoção provém das mesmas origens em nosso cérebro, essa visãozinha de antagonismo entre razão e emoção precisa ser alargada. Álias todos os antagonismos deviam ser revistos.
    Seus ideais, teorias e métodos "analíticos" não são menos racionais que o comportamento de quem se solidariza e acredita que todo ser vivo passível de dor merece, no mínimo, a chance de não a sentir.
    Que acredita também que a polícia precisa se humanizar, ou no mínimo deixar de ser tão corrupta. Quando comecei a ler o seu post, achei que você diria "tendência moderna de mandar spray de pimenta na cara de seres em desvantagens biológicas", porque já teve o spray no idoso, na criança, na mãe com a criança no braço, agora no cachorro... talvez a próxima vítima seja algum portador de necessidades especiais. Pra não falar na tendência de estuprar estudantes universitárias; e pensar que não falta muito pra PM dominar os campi da UnB...

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    1. mimimi. nem merece resposta. rs

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    2. Conselho para os amigos da UNB. Proíbam comentários de anônimos...

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  7. Realmente, é importante fazer uma boa análise (principalmente no caso de uma imagem, ou mesmo de uma fotografia) pra se poder fazer uma crítica séria. Eu esperava que vc fosse se aprofundar no caso da foto da cadela, mas enfim. A imagem no caso é mesmo chocante, mas eu procurei saber mais sobre o assunto através da imprensa (uma nota rápida no Jornal Hoje, e depois outras em sites de notícias) e ainda assim, mesmo com as explicações da polícia e tal, a atitude deles me parece no mínimo nervosa, impensada e despreparada (novidade, né?) :P. Mas concordo em relação a questão de apuração dos fatos e boa interpretação, antes de fazer o tipo de crítica que vimos por aí. Aliás, parece que a polícia só decidiu se retratar por causa do volume que as críticas tomaram...

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  8. Perfeita a análise, na verdade fantastica! Concordo em tudo! E essa cena que vc escolhei pra completar o comentario é sensacional...

    Eu assisti esse filme no inicio do ano nos cinemas e é a melhor parte do filme. Esse dialogo é mto f....

    Leon...

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