quarta-feira, 30 de maio de 2012

O triunfo da solidariedade

José Renato N. Lima
Mídia Sem Máscara


T. S. Eliot abre seu conhecido poema “The Hollow Men”, onde fala de homens empalhados, amparados uns nos outros sussurrando palavras áridas, com a expressão: “Uma esmola para um velho”. Mesmo separado oitenta e seis anos de nossas moderníssimas políticas sociais, o escritor ofereceu, até o presente momento, sua melhor definição.

A única diferença é que na época de Eliot, os homens ocos eram produzidos principalmente por uma força difusa, atmosférica, que corrompia as almas. São eles agora produzidos pelo Estado. Antes, desligados de um princípio transcendente, limitavam-se a atravessar de olhos retos para o outro reino, o da morte. Hoje, oitenta anos mais vazio, o homem está ávido para preencher-se de alguma substância, e os cocaleiros, os políticos e os intelectuais estão prontos para cumprir o satânico plano, entregando em suas mãos o que suas almas mortas desejam.

No Brasil, os viciados em crack são os homens ocos amparados com o melhor de nossa tecnologia e política; nosso governo, objetivamente, não está ligando a mínima para a situação. Digo objetivamente porque os antropólogos, sociólogos, cientistas políticos e outros bien-pensants precisam, por força de sua profissão, considerar coisa demasiado científica o teatro de palavras das personagens envolvidas.

Entretanto, o homem comum, o cidadão das ruas, está a ver coisas que antes não via, como a fundação espontânea de centenas de novas cracolândias pelo país – só em Niterói o número dobrou –, enquanto ninguém faz a bondade de mostrar como as cargas de drogas, que abastecem estes miseráveis, entram impunemente pelas fronteiras.

O homem comum desconfia do relacionamento amoroso entre nosso governo e o governo do presidente Hugo Chávez, com sua rede de narcotraficantes. O homem comum vê a impostura no fato de uma instituição como o Foro de São Paulo, da qual Lula e Fidel Castro são fundadores, ter comprovadas relações com as Farc, a maior fornecedora de pasta base de coca do sistema solar.

Olavo de Carvalho, Graça Salgueiro e o próprio Mídia Sem Máscara são algumas das fontes – que não enchem os dedos de duas mãos – aplicadas na missão impossível de compensar a desinformação generalizada produzida pela grande mídia. É possível ler os jornais todos os dias e no fim de um ano não estar informado de nada essencial sobre os rumos políticos do continente.

Em entrevista no ano passado, a secretária nacional de política sobre drogas, Paulina Duarte, fez o favor de lembrar o país que o crack não é epidemia – não criemos pânico – porque “o governo nunca reconheceu o crack como epidemia, isso é bobagem.” Mas é claro que é bobagem. Discordar apontando os fatos é o imperdoável reacionarismo de crer nos próprios olhos. Se o governo não reconhece a epidemia, quem será o louco de reconhecer? Juiz de Fora, pacífica cidade universitária, ganhou sua própria cracolândia e isto não tem nada a ver com a epidemia de crack, evidentemente.

No seu discurso de posse, Dilma prometeu um combate severo contra “o avanço do crack que desintegra a juventude e infelicita nossas famílias”. Por hora, sua severidade oferece verbas de pesquisa para as universidades estudarem uma solução para o problema. Exatamente o lugar que abriga uma quantidade considerável de consumidores das mesmas drogas ilícitas – os financiadores do mesmo tráfico que sustenta a existência do crack. Seria embaraçoso imaginar um pesquisador empregando sua bolsa de estudos para viver sua experiência transcendente fumando um baseado. Alguns deles devem estar no meio de passeatas gritando “eu sou maconheiro com muito orgulho, com muito amor”. É a sutileza própria dos cérebros formados com tapioca e ananás.

Como outra medida de austeridade contra a epidemia inexistente do crack, a “presidenta” elegeu Paulina Duarte para um cargo de importância nacional de mentirinha: a Secretaria Nacional de Política sobre Drogas, liderada por uma secretária devotada a desmentir a existência do problema que justificou a criação do seu próprio emprego. Paulina também é contra clínicas de internação e tratamento dos dependentes químicos.

Recentemente foi incluído no cardápio o óxi, responsável pela morte de 30% dos usuários no primeiro ano de uso. A polícia já registrou apreensões da nova droga em 12 estados do país. Ela destrói os neurônios e causa um arco-íris de transtornos psiquiátricos, reduzindo o sujeito a um estado de sociopatia quase sem solução. Mas, veja, não é motivo para descontrole. Paulina pontifica que “não há nenhum relato disso. É mentira, não tem embasamento científico.”

A esquerda não prega caridade, e sim, solidariedade. A caridade é a virtude teologal descrita pelas palavras sublimes do Apóstolo. Uma virtude que não está vinculada às coisas do mundo sublunar. A solidariedade é um termo escorregadio que remonta àquela França cuja solidarité despegou algumas cabeças do corpo. É a responsabilidade mútua, aliança circunstancial a favor de um empreendimento.

Para os solidários, tudo é política; para os caridosos, a política pertence ao reino deste mundo, “cá nesta Babilônia, onde o puro amor não tem valia”. Centenas, milhares, ainda vão morrer vencidos pelas drogas no Brasil. Cá nesta Babilônia, onde os representantes do governo tiveram seu coração de aço forjado na ideologia da solidariedade. Os solidários não se comovem com a morte, mas com discursos. Aqui, o epíteto do poema de Eliot precisa ser revisado: “uma esmola para um homem morto.”

Um comentário:

  1. O que a Paulina Duarte disse é um discurso oficialista, feito para minimizar o que está acontecendo. E é claro que isso não resolve nada.

    Katlyn - UFSC

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