quinta-feira, 17 de maio de 2012

Cuba e Venezuela depois de Chávez

Carlos Alberto Montaner
Libertad Digital

Carlos Alberto Montaner

A parte mais complexa do legado que Hugo Chávez deixará são as relações entre Venezuela e Cuba, montadas a partir de uma estranha subordinação emocional, política e ideológica do líder bolivariano a Fidel Castro e que não atende aos interesses ou as preferências dos venezuelanos.

Pesquisa atrás de pesquisa, mais de 82% dos venezuelanos (o que significa que muitos são chavistas) dizem não querer que em seu país se instale um modelo político similar ao de Cuba. Presumivelmente, uma porcentagem semelhante tampouco concorda em continuar subsidiando com bilhões de dólares o teimoso e improdutivo coletivismo introduzido pelos irmãos Castro.

Por que Chávez fez da Venezuela a financiadora – a fundo perdido [1] – de Cuba? Os motivos variam, mas o mais importante é que o tenente-coronel viu em Fidel Castro em uma espécie de guia espiritual e político que a lhe indicar o que devia fazer, e também como e quando. Fidel era o seu guru, seu pai moral, seu protetor contra os perigos que o espreitavam na Venezuela e que em abril de 2002 quase lhe custaram o poder e a vida.

Fidel também o dotou com uma visão compatível com o marxismo e com uma épica missão internacional que o colocaria para sempre na história: derrotar os Estados Unidos e enterrar o capitalismo. Com a sabedoria de Fidel, enriquecida por três décadas de aprendizado com a santa mãe Soviética, mais a juventude impetuosa de Chávez, juntamente com seu caudaloso rio de petrodólares, os dois seria bem-sucedido na tarefa de salvar o mundo, traiçoeiramente abandonada pela URSS.

Quanto valia para Chávez o protetorado ideológico, policiesco, estratégico, tão diferente do pouco confiável universo de seus próprios funcionários, muitas vezes corruptos e potencialmente desleais? Valia tudo o que Fidel necessitava e lhe pedia. Chávez confiou cegamente no Comandante. Era a sua única fonte de segurança.

Houve uma ocasião em que os dois líderes, compartilhando o mesmo delírio, planejaram federar os dois países, e até criaram uma comissão conjunta de juristas começaram a estudar como levar isso a cabo. No percurso, Chávez, cada vez mais, foi se colocando sob a autoridade do habilíssimo serviço de inteligência cubano, organização que lhe deu informações sobre todos os altos funcionários e sobre seus ministros e colaboradores próximos.

Fidel Castro e Hugo Chávez

Hoje ninguém ao redor de Chávez se atreve a falar sem medo das escutas de Havana. A oposição, certamente, é controlada ou monitorada pelos “cubanos”, mas o cerco e o assédio humilhante aos chavistas são muito mais intensos.

Quando Chávez desaparecer de cena, a qualquer ocupante de Miraflores, mesmo se for um chavista – que sentido faz prolongar essa relação doentia, montada sobre a fidelidade emocional de um líder co-dependente que já não existirá, preocupado em controlar e espionar sua própria classe dominante? Por que temer uma metrópole miserável que vive das esmolas de uma colônia infinitamente mais rica, poderosa e sofisticada?

O cientista político venezuelano Aníbal Romero costuma dizer que os esforços internacionais do castrismo sempre terminaram em fracasso. As guerrilhas castristas, às vezes dirigidas pelos próprios cubanos, foram derrotadas em toda a América Latina nas décadas de sessenta, setenta e oitenta. Só triunfaram na Nicarágua, paradoxalmente auxiliadas pelos governos da Venezuela e Costa Rica, mas apenas para perder o poder uma década mais tarde, em uma eleição democrática.

O peruano Velasco Alvarado, o panamenho Noriega, o chileno Allende, os três ligados à Havana, foram expulsos do poder sem que Cuba pudesse impedir. Angola e Etiópia têm hoje a regimes totalmente afastados do modelo comunista que foi implantado nelas tempos atrás, com assistência e sangue cubanos. Quem disse que a influência castrista pode ser mantida na Venezuela depois da morte de Chávez? Por quê? Para quê? Cuba é especializada em perder. Essa tem sido a sua história.

Tradução: Jorge Nobre, estudante de Letras – Tradução Francês da UnB.

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Notas do tradutor
[1] Financiamento a fundo perdido é um financiamento sem expectativa de retorno do montante investido.

Um comentário:

  1. MAIS UM CORONEL LATINO
    Quando começaram a surgir algumas notas sobre Hugo Chávez, ainda no início dos anos 90, disse a alunos que não deveria passar de mais um típico coronel latino golpista.
    Nunca achei, pela terminologia utilizada por ele, que fosse marxista (não que isso faça diferença), mas um sujeito em busca de poder. Segue a receita de bater no capitalismo, nos americanos, sem perder de vista as contas das vendas de petróleo pela subsidiária da PDVSA nos EUA,com sete refinarias e uma imensa rede de postos de combustível. Seus parentes adoram passear em Miami e Orlando.
    Talvez seduzido, hipnotizado por Castro, sempre muito mais esperto que todos esses idiotas, passasse a fornecer petróleo a Cuba, assim como o nosso país petralhificado envia bilhões de dólares à ilhota caribenha (com o devido respeito ao povo e à cultura de Cuba) que não pode mais passar o pires na URSS e manter o espetáculo comunista funcionando.
    Especula-se na Florida e na Venezuela que os milhares de assessores cubanos no país possam criar dificuldades no futuro. Há gente que acredita na junção dos dois estados. Loucura? Ditaduras como a cubana e um tonto como Chávez e seus bolivarianos podem aprontar qualquer coisa.
    Mas, de fato, penso que haverá forte luta interna na Venezuela caso Chávez morra e o candidato oposicionista vença as eleições. De qualquer modo, o coronel criou as tais milícias bolivarianas e, bem ou mal treinadas, mas armadas, podem fazer um imenso estrago no país. São uns 400 mil membros, parece que, hoje, um número superior ao das forças armadas.
    Mais de um milhão de venezuelanos, diplomados, com dinheiro, de classe média e alta já abandonaram o país nos últimos anos.
    A Venezuela, assim, penará bastante para recuperar o tempo perdido, caso não passem por uma longa e dolorosa guerra civil.
    Vejam que quando pensamos que as coisas se resolvem, como por exemplo, na Colômbia, um presidente fracote -para dizer o menos- põe tudo a perder.
    A Venezuela pode repetir a violência interna colombiana, que recrudesce.

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