sexta-feira, 20 de abril de 2012

Os missionários islâmicos de gibi

Daniel Pipes

Histórias em quadrinhos como um método de divulgação do Islã (dawa)?

Sim. Um ano atrás, a Universidade de Harvard sediou um workshop para ensinar quadrinistas como lidar com o “desassossego com o Islã e o Oriente Médio” dos americanos. E nessa semana, a Universidade de Georgetown apresentou um documentário da PBS, Wham! Bam! Islam!, a respeito de uma HQ intitulada Os 99. 


Os 99 soa inócuo. A Adweek descreve seu enredo como “um time multinacional de super-heróis unidos para enfrentar as forças do mal”. A TV infantil americana Hub explicar melhor que, “criada pelo Dr. Naif al-Mutawa, renomado acadêmico e psicólogo clínico do Oriente Médio, [a HQ consiste em] super-heróis que devem trabalhar juntos para maximizar seus poderes. Cada um dos membros de Os 99 incorpora um dos 99 valores globais como sabedoria, misericórdia, força ou fé, e eles vêm de 99 países diferentes dos 7 continentes. Os super-heróis da série mostram personagens feitos para serem modelos de comportamento positivo, representando culturas variadas, que trabalham juntos para promover a paz e a justiça.”

Quem poderia opor-se à promoção de “valores globais [...] representando culturas variadas”?

Entretanto, um olhar mais atento revela a natureza islâmica da HQ. O título se refere ao conceito islâmico de que Deus possui 99 nomes, os quais aparecem no Alcorão e personificam algum tributo de Seu caráter: o Misericordioso, o Compassivo, o Gentil, o Sacratíssimo, o Todo-Pacificador – mas também o Vingador, o Afligidor, e o Causador da Morte.

A HQ, produzida pelo Teshkeel Media Group, do Kuwait, conta uma história meio verdadeira, meio fantasiosa, que começa no ano 1258, quando os mongóis fazem cerco a Bagdá. Bibliotecários supostamente salvam a sabedoria da biblioteca principal da cidade, decodificando-a em 99 gemas que são espalhadas ao redor do mundo. Os heróis devem encontrar essas “gemas do poder” antes que o arquivilão o faça. Cada um deles é um muçulmano comum que, através do contato com uma gema, adquire poderes sobre-humanos e representa um dos 99 atributos de Deus.

Os super-heróis são todos muçulmanos (nenhum cristão, judeu, hindu ou budista), alguns dos quais oriundos de países ocidentais, como Estados Unidos e Portugal. Em contrapartida, os vilões são quase todos não-muçulmanos.

Naif Al-Mutawa

Al-Mutawa fornece objetivos contraditórios para Os 99. Às vezes, ele insiste: “Não estou tentando converter ninguém”. Dessa forma, ele espera que “crianças judias pensem que os personagens de Os 99 são judeus, e crianças cristãs pensem que eles são cristãos, e crianças muçulmanas pensem que eles são muçulmanos, e crianças hindus pensem que eles são hindus”.

Outras vezes, ele diz que concebeu a série ao concluir que “o mundo árabe precisava de melhores modelos de comportamento”. Ele visou a desenvolver “um novo conjunto de super-heróis para crianças do mundo islâmico” e esperou que seu trabalho “possa ajudar a salvar uma geração” de muçulmanos. Ele pensa até mesmo que seus personagens podem “salvar a reputação do Islã”. De fato, a discussão sobre Os 99 enfatiza seu componente islâmico. O New York Times observa que os super-heróis são “direcionados especificamente para jovens leitores muçulmanos e focados nas virtudes islâmicas”. O Times de Londres descreveu a missão da série como instilar “valores islâmicos conservadores em crianças cristãs, judias e atéias”.

Da mesma forma, Barack Obama louvou a HQ por ter “capturado a imaginação de tantos jovens com super-heróis que incorporam os ensinamentos e a tolerância do Islã”. Um banco de investimentos islâmico, cujos produtos “estão plenamente de acordo com os princípios da Sharia”, investiu US$ 15,9 milhões na Teshkeel e a cumprimentou por “destacar a rica cultura e herança do Islã”.

Resumindo, Os 99, disponível tanto em árabe como em inglês, contém conteúdo islâmico claro e promove o Islã explicitamente. De fato, seu Islã possui aspectos modernos, mas a série objetiva uma dawa sub-reptícia dentre os não-muçulmanos.

Além da HQ, Al-Mutawa desenvolveu alguns subprodutos (quadrinhos online, jogos, lancheiras e parques temáticos) e planeja outros (tirinhas de jornal, posteres e talvez brinquedos). Mas, acima de tudo, ele deseja um desenho animado. Apesar de a rede Hub ter planejado levar Os 99 ao ar em 2011, isso nunca ocorreu, sobretudo em virtude das críticas que a levaram a se afastar de um programa que instila “valores islâmicos em crianças cristãs, judias e atéias”.

Em suma, à doutrinação islâmica de crianças ocidentais, já presente nas escolas através de livros-texto, materiais complementares e excursões escolares, agora adicione HQs e muitos subprodutos, atuais e potenciais. Os 99 pode ser bom para crianças muçulmanas, mas, não obstante o apoio da Universidade de Georgetown, crianças não-muçulmanas não deveriam ser expostas a esse tipo de propaganda religiosa.

Daniel Pipes é presidente do Middle East Forum.

5 comentários:

  1. Santa Ignorância, Batman! Os maometanos estão cooptando criancinhas com gibis agora, o que vamos fazer?! Fujam para as colinas!!! Este post merece a exumação do alemão Dr. Fredric Wertham (1895 - 1981) autor de A Sedução do Inocente de (1955) para um chá com os "homens de bem" que mantem esse espaço. Ele praticamente criou um código de ética para os Quadrinhos nos EUA. Segundo ele os gibis seriam armas poderosas para "infiltrar" os vírus da mundanidade na puritana sociedade estadunidense (!), segundo ele os gibis sugeriam até relações homossexuais entre o Batman e Robin. Se o dr. Werthan tivesse sido seguido a risca nos anos posteriores a publicação, obras como Sandman, V de Vingança, Ronin, Sin City, Cavaleiro das Trevas e, principalmente, Watchmen (maior entre todas as obras da nona arte escrita até hoje nunca seria publicada, pois tem um estupro como um dos elementos principais no desfecho do enredo. O estupro seria totalmente abolido segundo nosso sábio guardião da moral, como nossos queridos colegas da JCUNB só me pergunto: e quando envelhecerem? Serão a terceira idade conservadora da UNB? Que magavilha Arnesto!)
    Mas, se me lembro bem um tempo atrás, quando o Frank Miller lançou uma série de bobagens pra vender seu lixo anti-islâmico "Holly War", aí sim! Isso é uma obra correta! Isso eu assino em baixo!
    O mais engraçado é que um tempo atrás em uma questão da UEL o povo conservador ficou bravo: Ah! como pode dizer que o Capitão América e o Superman são instrumentos de propaganda ideológica (magina, a cor do uniforme é coincidência) eles são brancos e WASP (apesar de ser de Kripton, Kal-El foi cair justo no coração "mais profundo" da América por acaso). Agora se fazem um Gigi islâmico... não pode, o loco! vai transmitir os ideais de cooperação, mas é islâmico, manda esse autor proselitista pra Guantánamo e tratem ele no modo americano de interrogatório (Cadê os Bushs quando precisamos deles, ah! Esse Obama ainda vai transformar os EUA em um URSS islâmica). Dê boa só tenho uma coisa pra dizer para vocês, o dia que vocês sentirem o cheirinho do bacalhau, meus chapas, vão largar dessa bobeira de Tea Party Brasil!

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  2. O autor fala de "doutrinação islâmica das crianças ocidentais" como se fosse óbvio. Deve ser por isso que os muçulmanos são tão bem tratados no Ocidente hoje em dia...

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    1. Os muçulmanos são extremamente bem tratados no Ocidente. Muito melhor do que os cristãos nos países islâmicos.

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  3. Vamos proibir o Smilinguido!

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    1. O Smilinguido não é uma história em quadrinhos que busca realizar doutrinação religiosa sub-reptícia através de super-heróis: ele é um gibi explicitamente cristão (e algo infantil) com formiguinhas.

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