terça-feira, 3 de abril de 2012

O canyon que separa a direita francesa e a direita americana

Pierre-Yves Dugua
American Business & Co

O abismo entre a direita americana e a direita francesa nunca foi tão grande. Em tempos normais os franceses mal compreendem os republicanos. A defesa do direito de adquirir e manter (o que não é a mesma coisa que o porte) armas, a recusa do princípio de cobertura universal pelo Estado das despesas de saúde, a oposição ao princípio de uma carteira nacional de identidade... Tantos temas que deixariam atônitos os eleitores de Nicolas Sarkozy. E mesmo os de Marine Le Pen.

Marine Le Pen

O rumo tomado nos últimos dias pelas campanhas presidenciais de ambos os lados do Atlântico amplia o “canyon” entre as crenças e os valores dos republicanos americanos e os das facções direitistas francesas.

Eu estou sempre escutando uma ministra francesa defender o direito ao acesso gratuito, anônimo e confidencial à contracepção para menores de idade [1]. Nos Estados Unidos, esta posição é inimaginável para um republicano e mesmo para muitos democratas.

O que mais me interessa como jornalista é a necessidade de fazer meus leitores entenderem que é preciso que eles abandonem seu desejo instintivo de descobrir nos Estados Unidos seus referentes franceses. Ron Paul nada tem a ver com Le Pen. Barack Obama está muito a direita de Nicolas Sarkozy. É preciso parar de considerar os americanos uns tolos porque eles não são como os franceses. É preciso aceitar que países de culturas e de histórias diferentes produzem candidatos profundamente diferentes. Eu estou chocado com o complexo de superioridade de numerosos franceses em relação aos americanos, qualificados como “crianças grandes” ou “bárbaros” a todo instante. Aceitemos a diferença. Nem a França (e nem mesmo a Europa) e nem a America estão no centro do mundo civilizado. O mundo é diversificado.

Nicolas Sarkozy

Nem todos os sistemas políticos tendem a se aproximar de um “modelo francês” que cada nação supostamente sonharia em copiar. Eu digo a mesma coisa aos americanos: “parem de acreditar que o mundo quer se tornar como vocês”.

O exemplo mais estonteante do abismo entre os dois países é a maneira através da qual o populismo se manifesta. O populismo americano é em princípio libertário, favorável à livre empresa e ao individualismo, anti-impostos e anti-estado. Ele às vezes resulta em xenofobia anti-imigração, mas nem sempre. Ele pretende se inspirar nos pais fundadores da América. Tal é o Tea Party.

Este “populismo de direita” não existe na França. Os eleitores do Tea Party passam na França por extraterrestres. É lamentável, pois se nós nos déssemos ao trabalho de escutar seu raciocínio, poderíamos melhor compreender sua visão do mundo, por mais arbitrária ou falsa que ela possa parecer.

A bandeira Gadsden, um dos símbolos do Tea Party.

Mas há também nos Estados Unidos um movimento populista de esquerda que denuncia com cólera as desigualdades de renda e de condições. Há alguns meses os democratas tentam conquistá-lo. Ele é menos poderoso, mas a imprensa, que é majoritariamente pró-democrata, o promove muito. Este tipo de populismo é em parte inspirado pela Europa. Ele está no coração da campanha de muitos candidatos na França hoje, tanto à direita como à esquerda.

A idéia de que um candidato de direita nos Estados Unidos pudesse fazer do aumento de impostos e da invenção cotidiana de um novo imposto mais perverso que os demais um eixo de sua campanha é totalmente impensável. Sobretudo no contexto de tributação já muito pesado predominante na França.

A ausência de um debate mais profundo na direita francesa sobre a maneira de reduzir as despesas públicas é também totalmente incompreensível para um republicano. O americano de direita tem a impressão que a direita francesa de saída concedeu à esquerda a superioridade moral de seus argumentos: o Estado deve redistribuir as riquezas, a iniciativa privada é a causa das desigualdades, se os ricos são ricos é porque eles roubaram o dinheiro em algum lugar, etc.

O recurso à tributação não simplesmente para aumentar as receitas, mas para empobrecer os ricos, é chamado nos Estados Unidos “social engineering”. Este é um termo altamente pejorativo na boca de um americano médio, pois é uma teoria que admite ser o modelo americano fundamentalmente falso. A liberdade individual e a responsabilidade dos cidadãos conduziram a uma sociedade de classes? O republicano não acredita nisso. Mas principalmente ele acredita que deixar o Estado corrigir estas “desigualdades” é um remédio pior do que a doença!


Pierre-Yves Dugua é correspondente econômico do jornal francês Le Figaro nos Estados Unidos.
Tradução: Jorge Nobre, estudante de Letras – Tradução Francês da UnB.

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Notas do tradutor

[1] Trata-se de Jeannette Bougrab, da UMP (União por um Movimento Popular).

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