quarta-feira, 28 de março de 2012

A UnB e a revolução campesina


A Universidade de Brasília é um dos baluartes da deliberada instrumentalização do ensino superior em prol da ampliação e do aprofundamento das ideologias de fundo marxista no Brasil. Na atualidade, é difícil encontrar uma instituição federal de ensino superior que assuma tal protagonismo como o faz a UnB – algo que, salvas as devidas proporções, pode-se comparar com a USP e a Unicamp nos anos 1960 e 1970. Uma das atividades que compõe esse protagonismo foi divulgada recentemente: a abertura de mais um vestibular para Licenciatura em Educação do Campo.

Mas, afinal, do que se trata Educação do Campo?

Entre os dias 2 e 6 de agosto de 2004, foi realizada na cidade de Luziânia/GO a II Conferência Nacional Por Uma Educação do Campo. O documento gerado ao término dessa conferência, a Declaração Final Por Uma Política Pública de Educação do Campo, define algumas coisas interessantes (grifos meus):
Reafirmamos a luta social por um campo visto como espaço de vida e por políticas públicas específicas para sua população.

Em julho de 1998, nesse mesmo lugar, foi realizada a I Conferência Nacional Por Uma Educação Básica do Campo, promovida pelo MST, UNICEF, pela UNESCO, CNBB e UnB. Foi uma ação que teve papel significativo no processo de rearticulação da questão da educação da população do campo para a agenda da sociedade e dos governos, e inaugurou uma nova referência para o debate e a mobilização popular: a Educação do Campo que é contraponto tanto ao silêncio do Estado como também às propostas da chamada educação rural ou educação para o meio rural no Brasil. Um projeto que se enraíza na trajetória da Educação Popular e nas lutas sociais da classe trabalhadora do campo.
Mais adiante, diz o documento (grifos meus):
O QUE DEFENDEMOS

Lutamos por um projeto de sociedade que seja justo, democrático e igualitário; que contemple um projeto de desenvolvimento sustentável do campo, que se contraponha ao latifúndio e ao agronegócio e que garanta:

• a realização de uma ampla e massiva reforma agrária;
• a demarcação, homologação e desintrusão [sic] das terras indígenas;
• o reconhecimento e a titulação coletiva de terras quilombolas;
• a regularização dos territórios remanescentes de quilombos;

• a demarcação e regularização das terras de ribeirinhos e pescadores;
• o fortalecimento e expansão da agricultura familiar/camponesa;
• as relações/condições de trabalho, que respeitem os direitos trabalhistas e previdenciários das trabalhadoras e dos trabalhadores rurais;
• a erradicação do trabalho escravo e da exploração do trabalho infantil;
• o estímulo à construção de novas relações sociais e humanas, e o combate de todas as formas de discriminação e desigualdade fundadas no gênero, geração, raça e etnia;
• a articulação campo-cidade, o local-global.

Lutamos por um projeto de desenvolvimento do campo onde a educação desempenhe um papel estratégico no processo de sua construção e implementação.
Bonito, não é? Estou certo de que Paulo Freire, onde quer que esteja (por mais quente e barulhento que seja), deve ter ficado sinceramente tocado com essas palavras. É nesse espírito que a Universidade de Brasília tem promovido vestibulares para Licenciatura em Educação do Campo.

Mas, como nem tudo são flores, não é qualquer pessoa que pode participar desse vestibular. Como uma iniciativa legítima que faz parte de “um projeto de sociedade que seja justo, democrático e igualitário”, assim reza o edital de abertura do vestibular:
3 DAS CONDIÇÕES DE PARTICIPAÇÃO

3.1 O processo seletivo será destinado a pessoas que tenham concluído o ensino médio, ou estejam em fase final de conclusão, e não tenham formação em nível superior e que estejam enquadradas em pelo menos uma das seguintes situações:
a) professores em exercício nas escolas do campo da rede pública na região do Distrito Federal, entorno (DF) e Goiás (GO); ou
b) outros profissionais da educação com atuação na rede pública da região do Distrito Federal, entorno (DF) e Goiás (GO); ou
c) professores e outros profissionais da educação que atuem nos centros de alternância ou em experiências educacionais alternativas de Educação do Campo, ou
d) professores e outros profissionais da educação com atuação em programas governamentais que visem à ampliação do acesso à educação básica da população do campo, ou
e) jovens e adultos de comunidades do campo que tenham o ensino médio concluído ou em fase de conclusão e ainda não tenham formação em nível superior.
3.1.1 São consideradas escolas do campo aquelas que têm sua sede em espaço geográfico classificado pelo IBGE como rural e, mais amplamente, aquelas escolas que, mesmo tendo sua sede em áreas consideradas urbanas, atendem à população de municípios cuja reprodução social e cultural está majoritariamente vinculada ao trabalho no campo (Decreto nº 7.352, artigo 1º, § 1º, Inciso II, de 4 de novembro de 2010).
O que isso quer dizer? Bom, quer dizer que, caso você corrobore das idéias propostas e tenha vontade de atuar em alguma “experiência educacional alternativa”, mas teve o azar de nascer na cidade e ter uma vida tipicamente urbana, você não pode fazer esse vestibular. Algo bem “justo, democrático e igualitário”, não?

Mas o melhor ainda está por vir. Ao analisarmos melhor o edital de abertura do vestibular, encontramos os objetos de avaliação desse vestibular. Abaixo, alguns exemplos para vossa apreciação.

Conhecimentos de geografia exigidos na prova.

Conhecimentos de história exigidos na prova.

Conhecimentos de história exigidos na prova.


Conhecimentos de história exigidos na prova.
Se antes, por prudência ou ingenuidade, poderia pairar qualquer tipo de dúvida sobre o apoio entusiástico que a Universidade de Brasília dá a organizações de "movimentos sociais" – ainda que, a rigor, grupos que promovem a invasão de propriedades, a depredação de patrimônio público e privado, bem como atos de violência (espancamentos, assassinatos e que tais) possam ser mais bem qualificados como organizações criminosas –, não resta dúvida alguma. A falta de pudor na declaração desses vínculos não pode deixar de escandalizar aqueles que ainda acreditam que o objetivo da universidade é educar de maneira verdadeiramente livre, não aparelhar e instrumentalizar o ensino em prol de bandeiras políticas profundamente anti-humanas.

6 comentários:

  1. Isso tudo com dinheiro público a financiar a construção do socialismo no campo. Vamos ver no que vai dar.

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  2. Parabéns pela postagem. Este tipo de coisa não pode passar em branco.

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  3. Porque os conservadores filhinhos de daddy não se pronunciam sobre isso??

    http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/presos-pela-policia-federal-planejavam-atentado-contra-alunos-da/n1597704530851.html

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  4. É bom ver que a Polícia Federal às vezes cumpre bem seu papel. =)

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  5. Estudantes da LIcenciatura em Educação do Campo( LEdoC- UnB Planaltina)17 de abril de 2012 14:02

    Entendemos o ponto de vista da juventude conservadora, porém para uma critica com propriedade, sugerimos que conheçam a nossa realidade. Entendam que o curso é para formação de INTELECTUAIS ORGÂNICOS- (Gramsci), capazes de analisar criticamente a própria realidade buscando transformá-la. A nossa luta é para desmonopolizar o acesso ao curso superior em que desde a colonização foi sempre destinado à minoria burguesa nos deixando sempre á margem da sociedade. Buscamos também á transformação da Educação do campo que hoje se encontra de forma deteriorada, em que os educadores simplesmente têm apenas a formação do Ensino Médio e o conteúdo ensinado na sala de aula dissocia-se da realidade do educando.

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    1. Prezados,

      Vocês reafirmaram aquilo que é um dos maiores crimes que se pode cometer com relação à educação: sua instrumentalização ideológica. O objetivo da educação é emancipar os indivíduos conferindo-lhes o ferramental básico para que possam analisar e compreender sua realidade; no entanto, essa emancipação se dá a partir dos valores morais do indivíduo, e a transformação da realidade por ele é uma opção, não um dever inelutável.

      O que o curso de Educação do Campo propõe é justamente a instrumentalização ideológica do ensino no campo fazendo com que os alunos compreendam com os óculos das teorias socialistas, e não de maneira plural e complexa. É um curso que nasceu diretamente das errôneas concepções de educação de Paulo Freire - que, por sua vez, era um discípulo dedicado do Louis Althusser, para quem era imperativo controlar o "aparelho ideológico do Estado" da escola para promover, desde dentro, a revolução socialista - com toques maoístas.

      O que está havendo é um patente aparelhamento da universidade para a doutrinação ideológica, algo que investe diretamente contra o próprio espírito de universidade.

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