sexta-feira, 23 de março de 2012

Trotes e infantilização na UnB

Trote de calouros do Waterloo College (Ontário, Canadá) em 1947.

Nos últimos dias, o jornal Correio Braziliense tem destacado (não sem alguma dose de exagero, é verdade) os chamados “trotes sujos” que têm ocorrido na Universidade de Brasília. Algumas pessoas enxergam nas cenas algo comum, até mesmo desejável, em um ambiente universitário saudável. Uma boa parte, entretanto, vê os “trotes sujos” como um comportamento inaceitável.

O grande problema em ambas as análises é não se considerar que existem tipos e tipos de “trotes sujos”. Um trote em que os calouros sejam alvo de tinta, farinha e ovos, por exemplo, não pode ser comparado a um trote em que os calouros sejam obrigados a mergulhar em uma “piscina” cheia de dejetos orgânicos ou a chupar uma lingüiça coberta com uma camisinha, ou ainda a tomar umas talagadas de aguardente. Por mais que aparentemente se possa meter os dois casos no mesmo saco de “trotes sujos”, a verdade é que os casos concretos são muito mais complexos do que a simples aparência.

É verdade que os “trotes sujos” são uma tradição universitária. É verdade também que, na maioria deles, não se ouve falar em comas alcoólicos, ou queimaduras provocadas por substâncias químicas, ou tratamento degradante e pressão psicológica. Boa parte dos “trotes sujos” são realizados não em um espírito de dominação e controle, mas dentro de um contexto de festa e irmandade: trata-se de um legítimo rito de passagem.

Entretanto, a vida em sociedade pressupõe que determinados limites seja observados de acordo com o ambiente em que se encontra. Nada mais natural – e necessário, uma vez que, na ausência desses limites, situações corriqueiras podem degenerar em verdadeiras tragédias. Diversos campos do conhecimento humano estudam a observância desses limites e os mecanismos que são necessários para sua aplicação. Um desses campos é a psicologia comportamental. A utilização de reforços positivos e negativos não exclui a utilização de punições: a função desta é extinguir um determinado comportamento, enquanto a função daquelas é fortalecer comportamentos desejáveis.

A utilização da punição é importante no sentido de eliminar comportamentos indesejáveis. Todavia, a punição realiza somente isso: ela não ensina novos comportamentos, nem serve de reforço para comportamentos desejáveis que já existam. Assim sendo, a punição deve ser concertada com sistemas de reforço que fortaleçam os comportamentos desejáveis. Reforço e punição não são mutuamente excludentes, mas complementares; um depende do outro para que o processo seja eficiente e salutar.

Infelizmente, as declarações recentes do Grande Timoneiro da UnB, o reitor José Geraldo, parecem carregar uma inata incompreensão dessa verdade. Em se tratando não apenas de um educador, mas de um reitor de universidade, é preocupante que a punição seja vista de maneira tão perniciosa, quando ela é, em verdade, imprescindível no processo de educação. Quando ele insinua que a expulsão de um aluno que infringe as regras é inútil, pode-se estender analogamente o raciocínio para uma contravenção ou um crime, e, assim, advogar que prender um criminoso é ineficiente no sentido em que não muda a situação, e que, portanto, ele deve permanecer livre. Tal raciocínio ser defendido por um representante do Direito é, no mínimo, escandaloso.

A existência de um ambiente social determinado pressupõe também a existência de um corpo de regras que devem ser respeitadas. Aqueles que teimam em infringir as regras devem ser ensinados a respeitá-las, e a punição não apenas castiga, mas ajuda a educar: ela mostra que comportamento é indesejável, e abre caminho para que o comportamento desejável possa ser fortalecido por meio dos reforços adequados. A universidade não está dissociada dessa realidade, e qualquer esforço no sentido de proceder a essa dissociação mostra não uma preocupação em educar, mas em infantilizar. A universidade, assim, abdica de seu papel de educação para a vida adulta e se transforma num jardim de infância para moleques mimados.

Em tempo: o reitor mencionou a clássica obra “As Aventuras de Pinóquio”, de Carlo Collodi, para reforçar seu argumento de que a punição é perniciosa. Nosso Grande Timoneiro disse que, no contexto da obra, “foi a escola quem transformou o boneco em criança”. Na verdade, não. Àqueles que tiverem curiosidade de ler o livro, verão que, após as presepadas do Pinóquio, ele utiliza positivamente as punições que recebeu por seus comportamentos ruins e decide emendar-se; a fadinha de cabelos azuis da história, vendo que Pinóquio decide trabalhar duro para mudar de vida, recompensa-o ao transformá-lo em um menino de verdade. A transformação de Pinóquio foi o reforço, e a emenda iniciou-se pela punição. Esquecer-se disto é apenas querer que bonecos de madeira não se transformem em pessoas de verdade.

Um comentário:

  1. A Tolice da polêmica sobre os trotes só consegue ser sobrepujada pela Tolice do Zé Geraldo que trata rapagões maiores de idade como bebês. No fundo é o que ele mesmo quer: bebês dóceis, que se sentem irresponsáveis, pois tem sempre um papai que lhes diga que a culpa não é deles. É assim que se conduz uma massa de rapagões infantilizados rumo às eleições para Reitor.

    Em menor escala, esse é a mesma linha de pensamento que visa tornar impunes degenerados sociais, fazer o Estado pagar vultuosas somas arrecadadas dos contribuintes para tomar conta de usuários de drogas e todo tipo de assistencialismo demagógico para que a prática do parasitismo social e da falta de conquista pelo próprio mérito seja uma espécie conduta digna de louvor. Sempre no espírito do "papai tomará conta de vocês, meus filhos". É claro, desde que justifique papai continuar no poder e ninguém se meta a contrário.

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