sábado, 3 de março de 2012

Porque a direita sumiu

Olavo de Carvalho

Ninguém entenderá a história do período militar sem estar consciente de que em 1964 não houve um golpe, porém dois: o primeiro removeu do poder um governante odiado por toda a população, que foi às ruas aplaudir entusiasticamente a derrubada do trapalhão esquerdista. O segundo, meses depois, traiu a promessa de restauração democrática imediata e iniciou o longo e deprimente processo de demolição das lideranças políticas conservadoras, substituídas, no poder, por uma elite onipotente de generais e tecnocratas “apolíticos”. A grande ironia das duas décadas de governo militar foi que este, movendo céus e terras para liquidar a esquerda armada, nada fez contra a desarmada, mas antes a cortejou e protegeu, permitindo que ela assumisse o controle de todas as instituições universitárias, culturais e de mídia, fazendo daqueles vinte anos, alegadamente “de chumbo”, uma época de esfuziante prosperidade da indústria das idéias esquerdistas no Brasil.

Vasculhem a história do período e verão que, se o governo perseguia e amaldiçoava a violência guerrilheira, ao mesmo tempo nada fazia para combater o comunismo no plano ideológico, muito menos para ensinar à nação o valor perene dos princípios conservadores, que pouco a pouco foram caindo no total esquecimento até tornar-se como que uma língua estrangeira, desaparecida do cenário público decente já antes de que os líderes esquerdistas mais notórios voltassem do exílio.

À imperdoável omissão dos governos militares no campo da guerra cultural e ideológica somou-se o desprezo da clique oficial pela classe política, onde as grandes lideranças conservadoras foram sendo apagadas, uma a uma, como velas sob um vendaval. Foi durante aquele regime que vozes poderosas do campo conservador, como as de Carlos Lacerda e Adhemar de Barros, foram caladas, enquanto outras, como as de Pedro Aleixo e Paulo Egídio Martins, foram menosprezadas e esquecidas, e outras ainda, como a de Roberto de Abreu Sodré, acabaram se acomodando à mediocridade oficial até perderem toda relevância própria. Tanto foi assim que, quando o governo Geisel deu sua virada à esquerda, adotando uma política nuclear antiamericana, estimulando o mais obsceno “terceiromundismo” na diplomacia e até fornecendo armas, dinheiro e assistência técnica para Fidel Castro invadir Angola, não se ouviu um protesto sequer das lideranças civis. E a única resistência que apareceu, vinda do campo militar por meio do valente general Sylvio Frota, foi logo sufocada sob acusações de “golpismo” e aplausos gerais ao presidente triunfante que estrangulara a “linha dura”. Nas universidades, a direita foi sistematicamente preterida na distribuição de verbas e cargos, que a generosidade insana do governo prodigalizava aos esquerdistas na ilusão de neutralizá-los ou seduzi-los (o processo, de uma indecência sem par, é descrito em http://www.ecsbdefesa.com.br/defesa/fts/QTMFB.pdf pelo estudioso venezuelano Ricardo Vélez Rodriguez, um dos mais abalizados conhecedores da vida universitária no Brasil). Até mesmo no jornalismo, foi ainda durante o período militar que a esquerda assumiu de vez o controle das redações (v. meus artigos a respeito em http://www.olavodecarvalho.org/semana/111124dc.html, http://www.olavodecarvalho.org/semana/111125dc.html e http://www.olavodecarvalho.org/semana/111130dc.html), enquanto porta-vozes fulgurantes do pensamento conservador, como Gustavo Corção, Lenildo Tabosa Pessoa e Nicolas Boer, iam sendo jogados para escanteio sem que ninguém desse pela sua falta. A direita pensante e atuante foi, literalmente, esmagada pela ditadura, que ao mesmo tempo, na esperança idiota de dividir os adversários e ganhar o apoio de uma parte deles, abria as portas e os cofres das instituições de cultura para o ingresso da revolução gramsciana.

Quando terminou a era dos governos militares, em 1988, só quem era ainda conservador no Brasil era o povão mudo, desprovido de canais para fazer valer suas opiniões, enquanto o espaço cultural inteiro – mídia, movimento editorial, universidades, escolas secundárias e primárias, etc. – já era ocupado, gostosamente, pela multidão de tagarelas da esquerda que ainda mandam e desmandam no panorama mental brasileiro. Aos sucessos retumbantes que obteve na economia e no combate às guerrilhas, a ditadura aliou, em triste compensação, uma cegueira ideológica indescritível, que expulsou a direita do cenário público e entregou o espaço inteiro àqueles que até hoje o dominam. Cabe, nesse contexto, lembrar mais uma vez o dito de Hugo Von Hofmannsthal, segundo o qual nada está na política de um país que primeiro não esteja na sua literatura (tomada em sentido amplo de alta cultura). A direita saiu da política nacional, porque, com a complacência e até a ajuda do governo militar, foi primeiro banida da cultura nacional.

6 comentários:

  1. Ô Felipe, estou sentindo falta das imagens nos posts. Não esqueça delas, pois deixam o post sempre mais agradável e atrativo!

    Um abraço.

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  2. É de botar lágrimas nos olhos.

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  3. Ah! esses esquerdistas tudo começou com o FDP do Oswald de Andrade, se alguém tivesse calado de forma eficaz esse facínora que tudo teve depois deu para defender os esquerdistas. O governo paulista deveria ter proibido a arte degenerada de 22, se tivessem ouvido Lobato, deveriam ter apedrejado Anita Malfati na praça da Sé. Depois, outro esquerdista FDP Carlos Drummond, que sendo de esquerda trabalhou no gabinete do Capanema, como Getúlio deixou isso acontecer, devia ter feito como fez com Olga Benário, isso sim foi um ato cristão por Deus, pela Pátria e Família. Sem contar Jorge Amado, outro FDP. Deveríamos ter expulsado todos eles para a Rússia, ou, no caso dos exilados da Ditadura, fazer um bom e velho voo da morte, isso sim que era política. Sem contar como outros FDP como Chaplin e Brecht, esses são responsáveis por esse esquerdismo que corrói nossa sociedade....

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    1. Oswald de Andrade e Carlos Drummond de Andrade fazem parte do grupo de maiores artistas brasileiros, com um inteligência e talento indescritíveis.
      Não sei de que Deus você está falando, mas o Deus cristão teria considerado mandar uma mulher grávida morrer num campo de concentração nazista um ato abominável.
      De acordo com sua teoria, devíamos mandar todo mundo que pensa para Rússia e aqui só ficaria as pessoas sem cérebro e sem um pingo de humanidade como você.

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  4. A ditadura não perseguiu só militantes armados, mas também jornalistas, artistas e intelectuais, uns até contra a luta armada.
    Estuda história antes de falar besteira.

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  5. Não, obrigado não creio que a pessoa aconselhada deveria estudar uma historia como a nossa completamente distorcida por comunistas como você.
    A ditadura perseguiu guerrilheiros do comunismo, covardes. Sorte deles que a ditadura aconteceu. Senão os paramilitares do adhemar de barros cerca de 30 mil homens (leia-se Policia Militar de São Paulo de 1964) teriam derramado o sangue destes que você julga os grandes pensantes da NAÇÃO.


    A HISTÓRIA DEVE SER REESCRITA
    PELO BEM DO BRASIL E PELOS BRASILEIROS

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