domingo, 18 de março de 2012

O antifilisteu

Rodrigo Gurgel


Baluarte do movimento abolicionista, representante da quarta geração de sua família no parlamento brasileiro, “monárquico de razão e sentimento”, como ele próprio se define, a Joaquim Nabuco aplica-se, com perfeição, o ideário de Russel Kirk, cujos Dez princípios conservadores encontram-se dispersos nas páginas de Minha formação, um dos melhores exemplos da memorialística nacional, gênero narrativo infelizmente pouco desenvolvido em nosso país, mas que deu sinais de revivescer, há algumas décadas, graças à obra de Pedro Nava.

A maneira como Nabuco analisa, por exemplo, o sistema republicano, considerando-o inferior à monarquia constitucional, pelo fato de se basear na “ausência de unidade, de permanência, de continuidade no governo” e por construir um Estado “em que todos pudessem competir desde o colégio para a primeira dignidade”, sua qualificação da república como “utopia sem atrativo, o paraíso dos ambiciosos, espécie de hospício em que só se conhecesse a loucura das grandezas”, apresentam, no substrato, o desejo do que Kirk chamaria de “ordem moral duradoura”, uma sociedade na qual haja “um forte sentido de certo e errado”, onde os cidadãos não vivam “moralmente à deriva, ignorantes das normas, e voltados primariamente para a gratificação de seus apetites”.

Tal certeza se amplia quando Nabuco recorda a política que encontrou nos Estados Unidos, durante viagem realizada entre 1876 e 1877. Ele não se satisfaz em definir o país como “uma torre de Babel bem-sucedida” e grava sua impressão geral: “a de uma luta sem o desinteresse, a elevação de patriotismo, a delicadeza de maneiras e a honestidade de processos que tornam na Inglaterra (…) a carreira política aceitável e mesmo simpática aos espíritos mais distintos”. Nabuco também critica o jornalismo, cuja “obrigação” é “rasgar a reputação” do candidato, “reduzi-lo a um andrajo, rolar com ele na lama. Para isso não há artifício que não pareça legítimo à imprensa partidária; não há espionagem, corrupção, furto de documentos, intercepção de correspondência ou de confidência, que não fosse justificada pelo sucesso”. E completa:
O efeito de tal sistema pode ser moralizar a vida privada, pelo menos a dos que pretendem entrar para a política, se há moralidade no terror causado por um desses formidáveis exposures eleitorais, os franceses diriam chantage. A vida política, porém, ele não tem moralizado.
Comparando as instituições norte-americanas às inglesas — estas, sim, dignas de incessantes elogios —, Nabuco mostra-se ainda mais severo:
A atmosfera moral em roda da política era seguramente muito mais viciada; a classe de homens a quem a política atraía, inferior, isto é, não era a melhor classe da sociedade, como na Inglaterra; pelo contrário, o que a sociedade tem de mais escrupuloso afasta-se naturalmente da política. A luta não se trava no terreno das idéias, mas no das reputações pessoais; discutem-se os indivíduos; combatem-se, pode-se dizer, com raios Roentgen; escancaram-se as portas dos candidatos; expõe-se-lhes a casa toda como em um dia de leilão. Com semelhante regímen, sujeitos às execuções sumárias da calúnia e aos linchamentos no alto das colunas dos jornais, é natural que evitem a política todos os que se sentem impróprios para o pugilato na praça pública, ou para figurar em um big show.
Suas críticas aumentam ao analisar o republicanismo francês, marcado por um “fermento de ódio, uma predisposição igualitária que logicamente leva à demagogia”. Realidade, aliás, possível de ser constatada em diferentes momentos da história republicana brasileira e que, na última década, além de nos oferecer amostras da típica agressividade esquerdista, tem se configurado, como bem define Nabuco, num “fenômeno de retração intelectual” que conduz à “hipertrofia ingênua da personalidade”. Em outro trecho, no Capítulo XII, ao retomar a discussão, ele conclui:
O fato é que no republicanismo, falo do sincero, do verdadeiro, há um ideal, como no socialismo, no comunismo, no anarquismo há ideal, mas há também inveja, e desta é que parte, quase sempre, o impulso revolucionário.
Admirador do ensaísta Walter Bagehot — autor de The English Constitution e memorável editor da The Economist —, Nabuco não é só um crítico da República e das revoluções, mas também da política que chama de “baixa”, isto é, a política profissional, da luta partidária cotidiana, “espécie de oclusão de pálpebras”. Considerando-se “antes um espectador do meu século do que do meu país”, aponta, com acerto, que “para ser um homem de governo é indispensável fixar, limitar, encerrar a imaginação nas coisas do país e ser capaz de partilhar, se não das paixões, decerto dos preconceitos dos partidos (…)”.

Nabuco não fazia esses comentários no papel de um observador distante. Ao contrário, participou, no início da vida pública, dos embates partidários e sofreu as vilanias típicas da política menor, estreita, que produz raríssimos estadistas. Gradativamente, contudo, libertou-se dos interesses comezinhos, apegando-se à causa da abolição da escravatura e, depois de proclamada a República, impondo-se o ostracismo que só não o afastou da vida intelectual. São os anos, aliás, de maior produtividade, quando publica, em 1896, a biografia de seu pai, Um estadista do Império, outro de seus clássicos. Alguns historiadores defendem a idéia de que, a partir de 1900, ao reingressar no serviço diplomático, Nabuco teria se tornado republicano, mas prefiro crer que entendia seu trabalho como um gesto de patriotismo.

Na verdade, Joaquim Nabuco foi movido por um sentimento aristocrático que se mostrou muito superior ao mero apoio político à monarquia brasileira. Guiava-se segundo aquele ideal de nobreza que Ortega y Gasset definiu como uma “vida dedicada, sempre disposta a superar a si mesma, a transcender do que já é para o que se propõe como dever e exigência”. Sabemos que, para o filósofo espanhol, “a vida nobre se contrapõe à vida vulgar e inerte, que, estaticamente, se restringe a si mesma, condenada à imanência perpétua, a não ser que algum fator externo a obrigue a reagir”. Esse princípio — definido por Nabuco como ser “sensível à impressão aristocrática da vida” — o impediu de se tornar republicano.

Tal elã conservador é, nos dias atuais, incompreensível, inalcançável à maioria das pessoas. Primeiro, por um motivo que, sob determinados aspectos, chega a ser dramático: a república presidencialista arraigou-se à história, aos hábitos e ao imaginário nacional, respondendo à doentia necessidade de sermos comandados por um pater familias e ao desejo submisso de que ele detenha mais que a patria potestas e possa resolver, num passe de mágica, todos os nossos problemas. Segundo, porque a maioria de nós ainda acredita que o sufrágio universal é um sistema democrático, quando, na verdade, como ensina Ortega y Gasset, “no sufrágio universal não são as massas que decidem, seu papel consiste em aderir à decisão de uma ou outra minoria”. Esses dois aspectos da nossa organização social, somados ao desprezo e à chacota das panelinhas marxistas, contribuem para revestir um escritor conservador daquele manto de excentricidade que afasta o leitor médio. Salientemos, no entanto, outra tendência atual: a de reler Nabuco com um olhar esquerdista, o que, além de estrambótico, só cria deturpações.

Mas há uma quarta razão: com o advento do homem-massa, passamos a sofrer do mal que Ortega y Gasset chama de “estranha pretensão”: a de “ser mais que qualquer outro tempo passado; mais ainda: por se desligar de todo o passado, não reconhecer épocas clássicas e normativas, e ver-se a si mesmo como uma vida nova superior a todas as antigas e irredutível a elas”. Assim, para apontar apenas uma das graves conseqüências desse quadro patológico, nossos estudantes saem do ensino médio completamente ignorantes da história brasileira, incapazes de escrever uma lauda, por exemplo, sobre o 2º Império ou qualquer período republicano. Mostrem-me um jovem vestibulando capaz de escrever cinco parágrafos razoáveis sobre o governo Floriano Peixoto ou a Revolução de 1930 e eu lhes mostrarei um bezerro que voa.

Em tal conjuntura, não causa surpresa que ler Joaquim Nabuco tenha se transformado, infelizmente, numa irregularidade, ocorrência extemporânea, de alguma forma prevista pelo próprio escritor durante seus anos de afastamento da vida pública, quando, movido por certa melancolia, afirmava:
O público, os grandes auditórios eram para mim o que é hoje a minha cesta de papel, ou a labareda que dá conta da exuberância supérflua do pensamento. Só muito tarde compreendi por que os que vieram antes de mim se retraíam, quando eu me expandia: em muitos era a saciedade, o enojo que começava; em alguns a troca da aspiração por outra ordem de interesses mais utilitária (…).
Antes desse período, entretanto, Nabuco será uma das principais vozes do movimento de libertação dos escravos, drama para o qual despertara na infância, de maneira inesperada: sentado na entrada da casa-grande do engenho em que vivia, surpreende-se com um jovem negro que se lança aos seus pés, “suplicando-me pelo amor de Deus que o fizesse comprar por minha madrinha para me servir. Ele vinha das vizinhanças, procurando mudar de senhor, porque o dele, dizia-me, o castigava, e ele tinha fugido com risco de vida…”. A partir daí, sua visão evoluirá, a ponto de, na vida adulta, fazê-lo encarar a diplomacia e a política como questões menores. Para ele, o centro de sua existência se resumiu aos dez anos de dedicação exclusiva à campanha abolicionista: “A feição política tornar-se-á secundária, subalterna, será substituída pela identificação humana com os escravos e esta é que ficará sendo a característica pessoal, tudo se fundirá nela e por ela”.

Estilo e ironia
O Nabuco que escreve suas memórias é, antes de tudo, um estilista. Quem se aproximar de seus livros buscando algo que não se assemelhe à sobriedade da frase ou ao uso lapidar da língua se decepcionará. As pistas sobre a formação de seu estilo são múltiplas, mas ele salienta a cópia, na juventude, de páginas das leituras preferidas, as que mais lhe “feriam a imaginação”. Sobre esse exercício, defende uma tese curiosa:
(…) ninguém escreve nunca senão com o seu período, a sua medida, Renan diria a sua eurritmia, dos vinte e um anos. O que se faz mais tarde na madureza é tomar somente o melhor do que se produz, desprezar o restante, cortar as porções fracas, as repetições, tudo o que desafina ou que sobra: a cadência do período, a forma da frase ficará, porém, sempre a mesma.
O fato de manter, desde sempre, o francês como primeira língua também não é desprezível. A intimidade com o idioma estrangeiro leva-o a considerar sua frase como uma “tradução livre”, sendo que “nada seria mais fácil do que vertê-la outra vez para o francês do qual ela procede”, o que o obriga a “constante vigilância”:
Falta-me para reproduzir a sonoridade da grande prosa portuguesa o mesmo eco interior que repete e prolonga dentro de mim, em gradações curiosamente mais íntimas e profundas, à medida que se vão amortecendo, o sussurro indefinível, por exemplo, de uma página de Renan.
Finalmente, não podemos esquecer de suas leituras, nas quais se misturam romancistas, poetas e historiadores: William Thackeray, Thomas Macaulay, John Keats, Ernest Renan, Cícero, Theodor Mommsen, Hippolyte Taine, Jacob Burckhardt e outros.

Desse universo tão particular nascem ótimos trechos, como a definição de certa paisagem do Rio de Janeiro — “um paraíso terrestre antes das primeiras lágrimas do homem, uma espécie de jardim infantil”; sua versão, talvez inconsciente, do famoso verso de Wordsworth (título do Capítulo XI de Memórias póstumas de Brás Cubas) — “O traço todo da vida é para muitos um desenho de criança esquecido pelo homem, mas ao qual ele terá sempre que se cingir sem o saber…”; e a descrição espirituosa de Saraiva, um velho conhecido: “(…) o dicionário português de Londres, verão e inverno em um casacão que lhe descia até os pés, a longa barba inculta, a pele entalhada como um retábulo espanhol, com um montão de livros debaixo do braço e em cada bolso (…)”.

Nabuco é capaz de sínteses inspiradoras: “Cada um de nós é só o raio estético que há no interior do seu pensamento, e, enquanto não se conhece a natureza desse raio, não se tem idéia do que o homem realmente é”. Mas também pode compor longos períodos, exemplos de austeridade — nos quais a pontuação concede às frases um ritmo sereno — e de um escritor que investiga, sem receio, os nichos do seu espírito:
Foi em Londres, graças a uma concentração forçada, a qual não teria sido possível para mim senão em sua bruma, que a minha inteligência primeiro se fixou sobre o enigma do destino humano e das soluções até hoje achadas para ele, e, insensivelmente, na escondida igreja dos Jesuítas, em Farm Street, onde os vibrantes açoites do padre Gallway me fizeram sentir que a minha anestesia religiosa não era completa, depois no Oratório de Brompton, respirando aquela pura e diáfana atmosfera espiritual impregnada do hálito de Faber e de Newman, pude reunir no meu coração os fragmentos quebrados da cruz e com ela recompor os sentimentos esquecidos da infância.
As mesmas qualidades podem ser reencontradas na lembrança da descoberta do mar:
Muitas vezes tenho atravessado o oceano, mas se quero lembrar-me dele, tenho sempre diante dos olhos, parada instantaneamente, a primeira vaga que se levantou diante de mim, verde e transparente como um biombo de esmeralda, um dia em que, atravessando por um extenso coqueiral atrás das palhoças dos jangadeiros, me achei à beira da praia e tive a revelação súbita, fulminante, da terra líquida e movente… Foi essa onda, fixada na placa mais sensível do meu kodak infantil, que ficou sendo para mim o eterno clichê do mar. Somente por baixo dela poderia eu escrever: Thalassa! Thalassa!
E também no final do Capítulo XXV, inteiramente dedicado à figura singular do barão de Tautphœus, trecho no qual Nabuco evoca uma das inúmeras lições ensinadas pelo grande amigo, comparando-a à realidade brasileira:
Oh! que admiráveis monólogos os dele! A última vez que atravessou o nosso mare clausum voltou para casa para morrer. O vestígio do seu pensamento ficou por muito tempo comigo, e ainda por vezes lhe sinto a ondulação fugidia. Foi por minhas palestras com ele que compreendi por fim que um grande espírito podia ficar à vontade, livre, em uma religião revelada, do mesmo modo que foi graças a ele que compreendi que os escritores não formam por si sós a elite dos pensadores, que há ao lado deles, talvez acima, uma espécie de Trapa intelectual votada ao silêncio, e onde se refugiam os que experimentam o desdém da publicidade, de sua ostentação vulgar, de seu mercenarismo mal disfarçado, de seu modo frívolo, de sua apropriação do bem alheio, de sua falta de sinceridade interior. O horror da cena, hoje do mercado, não pode ser um sinal de inferioridade intelectual.
Essa percepção irônica da intelectualidade nacional — atualíssima, aliás — nasceu não só do convívio com as inteligências da época — Nabuco foi grande amigo de Machado de Assis e do grupo responsável pela fundação da Academia Brasileira de Letras —, mas da lenta, e nem sempre prazerosa, construção da autocrítica, faculdade sem a qual é impossível surgir um bom escritor. Nesse sentido, o longo episódio narrado no Capítulo VII merece a leitura de todo candidato a ficcionista ou poeta. Ali, Nabuco nos conta como corria atrás de elogios para os seus primeiros versos — e de que maneira chegou a recebê-los, mas somente para pagar o preço da decepção, ao descobrir que tinham nascido da hipocrisia, do mascaramento das relações sociais. Sua conclusão permanece válida: “O escritor juvenil que não se resignar ao sacrifício da sua honra (grifo do autor) literária não fará progressos em literatura”. Apenas uma pessoa lhe foi sincera: Edmond Schérer — à época, famoso crítico literário da Revue des Deux Mondes —, que reagiu aos seus versos com um “silêncio frio, impenetrável, entretanto polido, atencioso, simpático”.

Aristocracia
No ensaio Um capítulo da higiene mental dos artistas, Hermann Hesse fala sobre a importância do ócio na vida do escritor. O tom às vezes exageradamente hedonístico dessas páginas não me agrada, mas o romancista alemão está certo quando diz que “o trabalho intelectual se deixa envolver e dominar” cada vez mais “pela atividade industrial rude e violenta, sem tradição e bom gosto” e que “retalhamos o tempo em pequenos e ínfimos pedaços, dos quais cada um tem ainda o valor de uma moeda”. O texto, escrito em 1940, permanece atual, com um agravante: a arte, contaminando-se, de maneira crescente, do corriqueiro, do vulgar, passou a obedecer a certo filistinismo hostil, zombeteiro até, em relação à estética que, repelindo a demagogice, anseia preservar um mínimo de virtuoso requinte. Nabuco tinha perfeita consciência disso e denunciava que “o público, o protetor moderno das letras, cuja generosidade tem sido tão decantada, não passa de um Mecenas de meia-cultura”. Não por outro motivo ele alertou, 40 anos antes de Hesse, que
a primeira condição para o espírito receber a impressão de uma grande criação qualquer, seja ela de Deus, seja das épocas — nada é puramente individual —, é o repouso, a ocasião, a passividade, o apagamento do pensamento próprio (…).
Sigamos ou não o seu conselho, nessas palavras — e em toda a obra de Nabuco — encontra-se o signo da verdadeira aristocracia, que não deve oferecer ao leitor apressado a imagem de uma classe supostamente ociosa ou de pessoas que gastam suas vidas em superficialismos. Não. Aqui falamos de altivez, honra e coragem para defender as próprias idéias, mesmo que isso signifique, recordando Ortega y Gasset, possuir elegância digna inclusive para oferecer o pescoço ao golpe da guilhotina. Nabuco, que tinha clara noção de ter sido “uma das mais consistentes figuras da nossa política”, era constituído por tais valores — e, tenhamos esperança, não foi o último de sua espécie.

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