sexta-feira, 9 de março de 2012

A inflação pode reaquecer a economia sem matá-la?

Jeffrey Miron
Cato Institute



Muitos economistas de prestígio acreditam que o FED (1) deveria estimular a economia se comprometendo com teto de 5 por cento para a inflação, ao invés do teto atual de dois por cento. Estes economistas argumentam que uma inflação elevada significaria uma taxa de juros real menor, o que poderia estimular investimentos e acelerar a recuperação econômica. Esta proposta de política parece lógica. Mas pode não funcionar, e tem seus riscos.

Uma inflação maior não estimularia necessariamente a economia porque as taxas de juros não são o único fator, e provavelmente nem mesmo o fator mais importante, a limitar investimentos e contratações. Pelo contrário, expectativas pessimistas por parte das empresas quanto ao consumo, preocupação com as tendências anticapitalistas na política governamental, e o temor de forte aumento dos impostos para pagar direitos sociais têm provavelmente tido uma influência mais importante. Portanto, elevar a inflação através do FED poderia gerar uma maior inflação sem qualquer outro benefício para a economia.

A dificuldade essencial com um teto maior para a inflação é administrar as antecipações da economia sobre isso. Por um lado, a resistência política a uma inflação maior pode iniciar uma reação logo que a inflação cresça, tornando mais difícil para o FED se manter focado em sua nova meta. Por outro lado, um maior teto para a inflação poderia gerar temores de que a inflação não permanecerá em no máximo 5% apenas, mas ultrapassará em muito esse ponto. O último resultado parece ser o mais provável, pois a situação da dívida americana provoca naturalmente temores de que uma inflação maior é simplesmente um artifício para desvalorizar a dívida. E isto é precisamente o que muitos economistas estão dizendo que o Banco Central Europeu deve fazer quanto à crise da dívida européia.

Assim, um teto maior para a inflação tem uma justificação coerente em um hipotético mundo onde o FED pode com credibilidade adotar essa política e administrar as antecipações da economia sobre a inflação. No mundo real, a tarefa é mais difícil.

Há outro problema: um teto maior para a inflação, qualquer que seja o seu mérito em estimular investimentos, redistribuiria riquezas de credores para devedores. Isto indignaria muitos cidadãos por ser uma estratégia arbitrária e injusta, levando a um protesto político que seria difícil de responder. Os movimentos Occupy Wall Street e Tea Party se veriam em uma causa comum. Talvez o maior dano de um teto maior para a inflação é que se presume que os problemas da economia se originam de uma insuficiente “demanda agregada”. Se isso fosse correto, potencialmente seria lógico estimular esta demanda.

Mas uma interpretação diferente de nossos recentes problemas econômicos, e particularmente de nossa lenta recuperação, é que os Estados Unidos experimentaram uma grande queda de patrimônio (2) quando a bolha imobiliária estourou. Ao mesmo tempo, a ascensão dos déficits chamou atenção para nossa política fiscal insustentável. Os dois eventos revelaram que os Estados Unidos fazem dividas que não podem pagar, consomem mais do que podem consumir, e negligenciam a poupança em razão de hipóteses irreais quanto ao crescimento econômico, aos preços imobiliários e quanto à capacidade política de administrar a economia.

Segundo essa interpretação, investimentos maiores não fazem sentido nenhum até os consumidores terem reconstruído seu poder de compra, e isto não acontecerá senão gradualmente, na medida em que os consumidores recuperarem sua grande perda patrimonial. Uma política monetária expansionista poderia aplicar uma parte dos investimentos guardados para o futuro no presente, mas isto não seria produtivo, pois o investimento seria subutilizado devido à falta de demanda dos consumidores.

De uma forma mais abrangente, a defesa de um teto maior para a inflação (e as políticas de estimulo em geral) peca por imaginar que a política americana pode retomar um crescimento normal rapidamente. A interpretação baseada numa “grande queda de patrimônio” sugere que nossa recuperação lenta é inevitável, o que significa que as tentativas de modificá-la serão contraprodutivas.


Tradução: Jorge Nobre, estudante de Letras - Tradução Francês da UnB.
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Notas do tradutor

(1)   Trata-se do Sistema de Reserva Federal dos Estados Unidos (em inglês, Federal Reserve System, mais conhecido como Federal Reserve e, informalmente, como The Fed), que tem funções equivalentes às do Banco Central do Brasil, e é autônomo em relação ao poder executivo americano.
 
(2)   A expressão “wealth shock” foi traduzida como “un choc de richesse” na versão francesa e costuma ser traduzida como “choque de riqueza” na maioria das traduções de textos econômicos escritos em inglês, mas dentro deste contexto a tradução mais correta é “queda de patrimônio”. Há uma boa explicação para a expressão “wealth shock”  neste link: http://www.ncsu.edu/project/calscommblogs/economic/archives/2009/01/the_wealth_shoc.html

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