segunda-feira, 12 de março de 2012

Arábia Saudita: o clamor contra Hamza Kashgari

Giuliano Luongo
Un Monde Libre

O jornalista saudita Hamza Kashgari.

A perseguição ao jovem jornalista Hamza Kashgari pelas autoridades da Arábia Saudita, acusado de apostasia por causa de seus tweets julgados “blasfemos”, é um novo caso de uso político da sensibilidade religiosa do país.

Política, religião e... internet

Este último episódio interessou à mídia internacional pela metade de fevereiro, mas começou no dia 4 de fevereiro deste ano, data do Mawlid (nascimento do profeta Maomé). Neste dia, Hamza Kashgari, repórter saudita de 23 anos que trabalha no diário Al-Bilad, publicou em sua conta no Twitter mensagens fortes sobre sua relação com a religião. [1]

Tais tweets receberam rapidamente 30 mil comentários de pessoas que se sentiram gravemente atingidas: os mais radicais chegaram a pedir a cabeça do jornalista. Ironicamente, os “tweets blasfemos” foram duramente contestados por um grupo do Facebook (com cerca de 20 mil pessoas) chamado “O povo saudita pede a execução de Hamza Kashgari”. O jornalista reagiu a tudo isso se desculpando quase imediatamente suas afirmações, se dizendo arrependido e pedindo o “perdão de Deus e dos crentes por seu pecado”. E ele terminou por deletar seus tweets.

Este caso deu às autoridades sauditas a chance de mostrar sua força aos olhos dos cidadãos e, ao mesmo tempo, consolidar sua legitimidade política.

Elas não aceitaram as desculpas de Kashgari e, em seguida à onda de indignação da população, decidiram intervir aplicando a letra da lei, acusando o jornalista de apostasia – crime passível de pena de morte. Devemos lembrar que um comitê de religiosos emitiu uma fatwa contra ele. Além disso, o Xeque Nasser Al-Omar (personalidade muito influente) pediu pessoalmente o processo por apostasia. Segundo o jornal online SABQ, o rei em pessoa emitiu um mandato de prisão contra Kashgari.

Percebendo a situação, o jornalista fugiu para Malásia pretendendo se refugiar na Nova Zelândia, mas ele foi preso pelas autoridades malásias e extraditado para a Arábia. É interessante notar que entre os dois países não há tratado de extradição, mesmo que existam “relações cordiais”. As pressões das ONGs Anistia Internacional e Human Rights Watch para impedir a extradição [2] não serviram para nada.

A religião a serviço da política, a política a serviço do dinheiro

Estamos diante de um caso típico do uso político da religião. O governo saudita tira sua força da legitimação religiosa: as autoridades conseguiram permanecer em seu lugar, resistindo à onda da “Primavera Árabe”, instaurando um regime repressivo baseado na aplicação literal de uma leitura radical do Islã, que manteve o sistema social no tempo da Idade Média. A mensagem de paz da religião se viu deformada, numa série de diktats impostos pela força: a repressão violenta e desproporcional ao crime está na ordem do dia. Perseguir Kashgari é, para as autoridades, um ato exemplar, para “convidar” os outros cidadãos a se calarem.

O caso Kashgari não é um caso isolado: na Arábia Saudita a pena de morte (por decapitação ou, no caso de adultério, por apedrejamento) é pratica comum. Numerosos são os delitos que levam a essa condenação, como a apostasia, a blasfêmia, a feitiçaria e o homossexualismo – sem contar os delitos ligados à violência contra a pessoa.

Traço de união entre as diferentes condenações: o silêncio dos países ocidentais que continuam a não fazer qualquer pressão pelo progresso na Arábia. A razão é fácil de entender: irritar um país com tanto petróleo e fortemente ligado às potências ocidentais em vários cenários de economia e de geopolítica não é considerado como... economicamente racional. A Arábia é muito útil neste momento e portanto seus parceiros “democráticos” não optam por pressões oficiais. O combate pela promoção de direitos é sustentado somente do exterior pelas ONGs, mas a situação interna é muito difícil: as chances de se opor são mínimas, e graças ao controle de informação e ao ostracismo que sofrem os “subversivos”, a população não toma plena consciência da situação. É preciso fazer uma triste consideração: a Arábia tem todas as cartas na mão para manter uma fortaleza de totalitarismo religioso, onde uma elite rica e radical, sustentada por potências estrangeiras, sufoca o livre pensamento e os direitos fundamentais.

Devemos nos lembrar também que Hamza Kashgari, provavelmente, não queria (e não quer) se tornar um mártir. Ele é somente um jovem que quer viver num regime mais democrático e refletir publicamente sobre sua relação com a Fé. A Arábia, tratando desse episódio como uma “grave crise”, falhou ao mesmo tempo como Estado (no sentido moderno do termo) e como força autenticamente islâmica, considerando sua tendência a tirar proveito da religião para fins políticos e de controle de seus cidadãos.


Giuliano Luongo é um economista da Universidade Federico II, de Nápoles, e analista de Un Monde Libre.
Tradução: Jorge Nobre, estudante de Letras – Tradução Francês da UnB.
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Notas do tradutor

[1] Conforme um artigo em Jovem África: http://www.jeuneafrique.com/Article/JA2667p046.xml0/facebook-condamnation-malaisie-journalisteen-arabie-saoudite-on-ne-blogue-pas-avec-le-prophete.html

[2] A hipótese de envolvimento da Interpol nessa prisão foi desmentida pela Interpol.

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