quarta-feira, 28 de março de 2012

A UnB e a revolução campesina


A Universidade de Brasília é um dos baluartes da deliberada instrumentalização do ensino superior em prol da ampliação e do aprofundamento das ideologias de fundo marxista no Brasil. Na atualidade, é difícil encontrar uma instituição federal de ensino superior que assuma tal protagonismo como o faz a UnB – algo que, salvas as devidas proporções, pode-se comparar com a USP e a Unicamp nos anos 1960 e 1970. Uma das atividades que compõe esse protagonismo foi divulgada recentemente: a abertura de mais um vestibular para Licenciatura em Educação do Campo.

Mas, afinal, do que se trata Educação do Campo?

Entre os dias 2 e 6 de agosto de 2004, foi realizada na cidade de Luziânia/GO a II Conferência Nacional Por Uma Educação do Campo. O documento gerado ao término dessa conferência, a Declaração Final Por Uma Política Pública de Educação do Campo, define algumas coisas interessantes (grifos meus):
Reafirmamos a luta social por um campo visto como espaço de vida e por políticas públicas específicas para sua população.

Em julho de 1998, nesse mesmo lugar, foi realizada a I Conferência Nacional Por Uma Educação Básica do Campo, promovida pelo MST, UNICEF, pela UNESCO, CNBB e UnB. Foi uma ação que teve papel significativo no processo de rearticulação da questão da educação da população do campo para a agenda da sociedade e dos governos, e inaugurou uma nova referência para o debate e a mobilização popular: a Educação do Campo que é contraponto tanto ao silêncio do Estado como também às propostas da chamada educação rural ou educação para o meio rural no Brasil. Um projeto que se enraíza na trajetória da Educação Popular e nas lutas sociais da classe trabalhadora do campo.
Mais adiante, diz o documento (grifos meus):
O QUE DEFENDEMOS

Lutamos por um projeto de sociedade que seja justo, democrático e igualitário; que contemple um projeto de desenvolvimento sustentável do campo, que se contraponha ao latifúndio e ao agronegócio e que garanta:

• a realização de uma ampla e massiva reforma agrária;
• a demarcação, homologação e desintrusão [sic] das terras indígenas;
• o reconhecimento e a titulação coletiva de terras quilombolas;
• a regularização dos territórios remanescentes de quilombos;

• a demarcação e regularização das terras de ribeirinhos e pescadores;
• o fortalecimento e expansão da agricultura familiar/camponesa;
• as relações/condições de trabalho, que respeitem os direitos trabalhistas e previdenciários das trabalhadoras e dos trabalhadores rurais;
• a erradicação do trabalho escravo e da exploração do trabalho infantil;
• o estímulo à construção de novas relações sociais e humanas, e o combate de todas as formas de discriminação e desigualdade fundadas no gênero, geração, raça e etnia;
• a articulação campo-cidade, o local-global.

Lutamos por um projeto de desenvolvimento do campo onde a educação desempenhe um papel estratégico no processo de sua construção e implementação.
Bonito, não é? Estou certo de que Paulo Freire, onde quer que esteja (por mais quente e barulhento que seja), deve ter ficado sinceramente tocado com essas palavras. É nesse espírito que a Universidade de Brasília tem promovido vestibulares para Licenciatura em Educação do Campo.

Mas, como nem tudo são flores, não é qualquer pessoa que pode participar desse vestibular. Como uma iniciativa legítima que faz parte de “um projeto de sociedade que seja justo, democrático e igualitário”, assim reza o edital de abertura do vestibular:
3 DAS CONDIÇÕES DE PARTICIPAÇÃO

3.1 O processo seletivo será destinado a pessoas que tenham concluído o ensino médio, ou estejam em fase final de conclusão, e não tenham formação em nível superior e que estejam enquadradas em pelo menos uma das seguintes situações:
a) professores em exercício nas escolas do campo da rede pública na região do Distrito Federal, entorno (DF) e Goiás (GO); ou
b) outros profissionais da educação com atuação na rede pública da região do Distrito Federal, entorno (DF) e Goiás (GO); ou
c) professores e outros profissionais da educação que atuem nos centros de alternância ou em experiências educacionais alternativas de Educação do Campo, ou
d) professores e outros profissionais da educação com atuação em programas governamentais que visem à ampliação do acesso à educação básica da população do campo, ou
e) jovens e adultos de comunidades do campo que tenham o ensino médio concluído ou em fase de conclusão e ainda não tenham formação em nível superior.
3.1.1 São consideradas escolas do campo aquelas que têm sua sede em espaço geográfico classificado pelo IBGE como rural e, mais amplamente, aquelas escolas que, mesmo tendo sua sede em áreas consideradas urbanas, atendem à população de municípios cuja reprodução social e cultural está majoritariamente vinculada ao trabalho no campo (Decreto nº 7.352, artigo 1º, § 1º, Inciso II, de 4 de novembro de 2010).
O que isso quer dizer? Bom, quer dizer que, caso você corrobore das idéias propostas e tenha vontade de atuar em alguma “experiência educacional alternativa”, mas teve o azar de nascer na cidade e ter uma vida tipicamente urbana, você não pode fazer esse vestibular. Algo bem “justo, democrático e igualitário”, não?

Mas o melhor ainda está por vir. Ao analisarmos melhor o edital de abertura do vestibular, encontramos os objetos de avaliação desse vestibular. Abaixo, alguns exemplos para vossa apreciação.

Conhecimentos de geografia exigidos na prova.

Conhecimentos de história exigidos na prova.

Conhecimentos de história exigidos na prova.


Conhecimentos de história exigidos na prova.
Se antes, por prudência ou ingenuidade, poderia pairar qualquer tipo de dúvida sobre o apoio entusiástico que a Universidade de Brasília dá a organizações de "movimentos sociais" – ainda que, a rigor, grupos que promovem a invasão de propriedades, a depredação de patrimônio público e privado, bem como atos de violência (espancamentos, assassinatos e que tais) possam ser mais bem qualificados como organizações criminosas –, não resta dúvida alguma. A falta de pudor na declaração desses vínculos não pode deixar de escandalizar aqueles que ainda acreditam que o objetivo da universidade é educar de maneira verdadeiramente livre, não aparelhar e instrumentalizar o ensino em prol de bandeiras políticas profundamente anti-humanas.

terça-feira, 27 de março de 2012

Aí vem os... sem-sexo?

Se você acha que parecer o Sylvester Stallone e falar (e vestir-se) como a Ísis Valverde é algo que choca, se você acredita que ter relações sexuais com uma canaleta de PVC ou com uma mudinha de buriti é escandaloso, certamente você será tachado de preconceituoso e isso vai motivar a ação de um sem-número de ONGs cuja existência baseia-se tão-somente em instrumentalizar características e opções particulares para secar as gordas tetas do poder público. E, de acordo com uma matéria recentemente publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, a coisa não vai parar por aí. Prepare-se para receber os assexuados!

Sim, eles já tem até uma bandeira!

Na verdade, o termo é utilizado de maneira incorreta, uma vez que todos nós nascemos sexuados. Utilizar ou não essa capacidade natural é uma questão individual, seja de escolha, seja de saúde. Existem aquelas pessoas que sacrificam seus impulsos sexuais de maneira profunda em prol de atividades e idéias que considerem superiores – é o caso daqueles que optam pelo celibato apostólico ou religioso –, e há os que de fato não sentem atração sexual. É a estes que se aplica a denominação de assexuados.

Há algo excepcionalmente gritante e escandaloso em alguém simplesmente não querer ter sexo? Não. Entretanto, como sói acontecer nesse mundo em que toda e qualquer preferência individual é fatalmente instrumentalizada para fins políticos, já existem (pasmem!) organizações em defesas dos assexuados. Essas organizações têm por objetivo informar as pessoas sobre o que é ser assexuado, lutar contra a discriminação (!) que existe contra os assexuados e formar uma rede de apoio em que outros assexuados enrustidos possam “sair do armário” (ou, talvez, manter-se em suas calças) sem pressões nem problemas.

Onde reside o problema? Toda essa instrumentalização conduz, inevitavelmente, para os cofres públicos. Assim como centenas de organizações LGBT têm dedicado suas existências a auferir suas verbas do Estado – ou seja, de toda a sociedade, uma vez que o Estado não tem, por si mesmo, dinheiro algum –, não é exagerado supor que, num futuro mais-do-que-próximo, teremos ONGs que lutarão pelos direitos dos assexuados, que exigirão tratamento especializado no sistema de saúde, que demandarão legislação específica para proteger seus interesses e que, evidentemente, terão suas próprias tetas da Mãe-Estado nas quais haverão de se fartar despreocupadamente.

A tática da fragmentação social em grupos antagônicos, todos digladiando-se por terem guarida do Estado e por terem sustentadas suas pretensões (às quais dão o singelo e mutilado nome de “direitos”) tem um objetivo claro: o enfraquecimento da tessitura sócio-cultural para a instalação de um regime supranacional. Evidências há, e aos montes: a atuação constante e diligente de organizações internacionais – como a Fundação Ford, a Fundação Rockfeller, a Organização das Nações Unidas, a UNESCO e a OMS – e nacionais – associações feministas, gayzistas e militantes de toda sorte, atuando dentro e fora dos ambientes institucionalizados brasileiros (sobretudo as universidades) com apoio material e financeiro daquelas mesmas organizações internacionais já citadas. Instrumentalizar o assexualismo (!) como uma bandeira social, cultural e política é do mais alto interesse para as organizações globalistas. Não é à toa que havia uma ala de assexuados na última Parada Gay de San Francisco.

O problema de tudo isso não é, de fato, a opção (ou condição) individual, mas a noção completamente equivocada de que o Estado deve subvencionar toda e qualquer preferência individual sob a única justificativa de ser característica de uma “minoria”. A distorção criada por esse pensamento é o que, por exemplo, levou à estapafúrdia decisão do Conselho da Magistratura do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul em retirar todos os crucifixos dos prédios do judiciário gaúcho a pedido da Liga Brasileira de Lésbicas (LBL). O falso discurso de proteção às minorias gerou a agressão a um símbolo que, mais do que um sinal material de um credo religioso, é um objeto central na própria cultura brasileira. Como lembrou Paulo Brossard em seu artigo ao jornal Zero Hora:
Em todas as salas onde existe a figura de Cristo, é sempre como o injustiçado que aparece, e nunca em outra postura, fosse nas bodas de Caná, entre os sacerdotes no templo, ou com seus discípulos na ceia que Leonardo Da Vinci imortalizou. No seu artigo “O justo e a justiça política”, publicado na Sexta-feira Santa de 1899, Rui Barbosa salienta que “por seis julgamentos passou Cristo, três às mãos dos judeus, três às dos romanos, e em nenhum teve um juiz”… e, adiante, “não há tribunais, que bastem, para abrigar o direito, quando o dever se ausenta da consciência dos magistrados”.   Em todas as fases do processo, ocorreu sempre a preterição das formalidades legais. Em outras palavras, o processo, do início ao fim, infringiu o que em linguagem atual se denomina o devido processo legal. O crucifixo está nos tribunais não porque Jesus fosse uma divindade, mas porque foi vítima da maior das falsidades de justiça pervertida.
Não se espantem, pois, se em breve alguma LBA (Liga Brasileira dos Assexuados) começar a emitir panfletos, divulgar vídeos malfeitos, espalhar discursos inflamados e exigir, a expensas de toda a população, dinheiro público para financiar suas atividades. Lembremos, hoje e sempre, daquelas sábias palavras do economista francês Frédéric Bastiat: “O Estado é a grande ficção na qual todos querem viver às custas de todos.”

segunda-feira, 26 de março de 2012

"Destruam todas as igrejas"

Clifford D. May
Foundation for Defense of Democracies


Imaginem se Pat Robertson [1] clamasse pela demolição de todas as mesquitas na América. Isso seria destaque em todos os jornais. Estaria nos noticiários de cada canal de televisão. Haveria uma demanda para que os cristãos o denunciassem, e eles o fariam – nos termos mais duros. O Presidente dos Estados Unidos e outros líderes mundiais também se pronunciariam. E com razão.

Então, por que é que quando Abdulaziz ibn Abdullah Al al-Sheikh, o Grão-Mufti [2] do Reino da Arábia Saudita, declara que é “necessário destruir todas as igrejas na Península Arábica”, a grande mídia não vê nisso como digno de ser noticiado? E ninguém, até onde eu saiba, notou que ele disse isso para membros de um grupo terrorista.

Abdulaziz ibn Abdullah Al al-Sheikh, Grão-Mufti saudita.
 
Eis os fatos: alguns membros do parlamento kuwaitiano têm procurado demolir igrejas, ou pelo menos proibir a construção de novas, dentro do país. Assim, levantou-se a questão: o que a Sharia, a lei islâmica, diz a respeito disso?

Uma delegação do Kuwait pediu conselhos ao Grão-Mufti saudita. Ele respondeu que o Kuwait faz parte da Península Arábica – e qualquer igreja dentro da Península Arábica deve, realmente, ser destruída porque a alternativa seria aprová-las. O Grão-Mufti explicou: “O Profeta (que a Paz esteja com ele) nos ordenou: ‘Duas religiões não podem coexistir na Península Arábica’. Assim, construir [igrejas], em primeiro lugar, não é permitido porque esta Península deve ficar livre [de outras religiões].” Na Arábia Saudita, evidentemente, templos não-islâmicos foram banidos há muito tempo e não-muçulmanos são proibidos de pisarem seus pés em Meca e Medina.

E tem mais: os espectadores kuwaitianos eram da Sociedade de Reavivamento da Herança Islâmica (Revival of Islamic Heritage Society – RIHS). Pode soar bastante inocente, mas algumas pesquisas feitas por Steve Miller, pesquisador da Foundation for Defense of Democracies, revelaram que, dez anos atrás, grupos da RIHS no Afeganistão e no Paquistão foram designados pela ONU como associados a – e provedores de fundos e armas para – “Al-Qaeda, Osama bin Laden ou o Talibã.”

O governo norte-americano foi mais longe, denunciando que a sede da RIHS no Kuwait por “fornecer apoio financeiro e material para a Al-Qaeda e suas aliadas, incluindo o Lashkar e-Tayyiba [3]” que teve “envolvimento no ataque a múltiplos trens em Mumbai, em julho de 2006, e no ataque contra o parlamento indiano em dezembro de 2001.” Tais atividades levaram escritórios da RIHS a serem “fechados ou ocupados pelos governos da Albânia, Azerbaijão, Bangladesh, Bósnia-Herzegovina, Camboja e Rússia.”

Isto deve ser enfatizado: Al al-Sheikh não é o equivalente árabe para algum pastor desconhecido da Flórida. Ele é a maior autoridade religiosa da Arábia Saudita, onde não há separação entre mesquita e Estado, e a religião estatal é a ultra-ortodoxa/fundamentalista leitura do Islã conhecida como Wahhabismo [4]. Ele também é membro da principal família religiosa do país.

Em outras palavras, seus pronunciamentos representam a posição oficial da Arábia Saudita – um país que, segundo nos dizem há tempos, mudou de curso após o dia 11 de setembro de 2001 e é agora nosso firme aliado na área do antiterrorismo.

Nada disso teria sido esclarecido se não fosse por Raymond Ibrahim, Shillman Fellow no David Horowitz Freedom Center e pesquisador associado do Middle East Forum. Ele foi o primeiro a chamar atenção para as declarações do Grão-Mufti baseado em três sites em língua árabe: Mideast Christian News, Linga Christian Service e Asrare, também um folhetim cristão. Ocorreu-me então que, talvez, essas fontes tivessem compreendido mal ou exagerado as declarações. Então, pedi a Miller, que lê árabe, que fizesse uma pesquisa mais profunda. Ligações para o escritório do Departamento de Estado e a embaixada da Arábia Saudita foram infrutíferas, mas ele encontrou as declarações do Mufti em um bem conceituado jornal kuwaitiano, Al-Anba, em 11 de março.

Tudo isso ajuda a compor o quadro da mais importância notícia que a grande mídia insiste em ignorar: a expansão e a intensificação da perseguição de cristãos em países de maioria muçulmana (um assunto sobre o qual já escrevi antes, aqui por exemplo, bem como Ibrahim, mais recentemente, aqui). Igrejas foram alvo de incêndio e/ou bombas no Egito, Iraque, Nigéria, Paquistão, Indonésia e nas Filipinas. As antigas comunidades cristãs de Gaza e da Cisjordânia estão minguando. No Paquistão, Asia Bibi, uma mulher cristã, foi condenada à pena de morte por supostamente “insultar” o Islã. No Irã, Youcef Nadarkhani está no corredor da morte pelo “crime” de escolher o Cristianismo ao invés do Islã.

Igreja Ortodoxa da Virgem Maria, no Cairo, que foi alvo de incêndio criminoso durante protestos promovidos pela Irmandade Muçulmana em maio de 2011.
 
Na semana passada, como informou Nina Shea, a Comissão dos Estados Unidos sobre Direitos Humanos Internacionais (Uscirf) emitiu seu 14º relatório anual identificando os piores países opressores do mundo. Dos 16 países, 12 são de maioria muçulmana.

Por que os jornalistas que cobrem o Departamento de Estado e a Casa Branca não estão questionando oficiais da administração se estão preocupados com o fato de a maior autoridade religiosa da Arábia Saudita ter se encontrado com aliados da Al-Qaeda e lhes ter dito que, sim, igrejas cristãs devem ser destruídas? Por que os jornalistas que cobrem as Nações Unidas decidiram que essas questões não são de interesse da chamada comunidade internacional? E quanto aos centros para “entendimento Islâmico-Cristão” que foram estabelecidos – com dinheiro saudita – em universidades como Harvard e Georgetown: acaso supõem que não há nada aqui para tentar entender – nenhuma necessidade de investigação acadêmica sobre a perspectiva saudita/wahhabista no incêndio de igrejas e nas relações com grupos terroristas?

Meu palpite é de que tudo dito acima os persuadiu de que há aqui questões mais sérias para se preocupar, como a epidemia mundial da “islamofobia” e a necessidade de impor penas severas aos seus responsáveis. Eu entendo. De verdade.

Clifford D. May é o presidente da Foundation for Defense of Democracies.

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Notas do tradutor
[1] Pat Robertson é um advogado e famoso tele-evangelista norte-americano.
[2] O Grão-Mufti é a maior autoridade religiosa em um país islâmico de tendência sunita. Nos países xiitas, seu equivalente é o Aiatolá.
[3] Lashkar e-Tayyiba (“Exército de Deus”) é um grupo terrorista islâmico indo-paquistanês, um dos maiores em atividade na região.
[4] O Wahhabismo foi um movimento religioso fundado pelo teólogo islâmico Muhammad ibn Abd al-Wahhab (1703 – 1792) e tinha por objetivo purificar o Islã de quaisquer inovações e influências externas. Foi através da adesão e da divulgação das idéias wahhabistas que a família Al-Saud unificou o Levante e instaurou a atual monarquia saudita.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Trotes e infantilização na UnB

Trote de calouros do Waterloo College (Ontário, Canadá) em 1947.

Nos últimos dias, o jornal Correio Braziliense tem destacado (não sem alguma dose de exagero, é verdade) os chamados “trotes sujos” que têm ocorrido na Universidade de Brasília. Algumas pessoas enxergam nas cenas algo comum, até mesmo desejável, em um ambiente universitário saudável. Uma boa parte, entretanto, vê os “trotes sujos” como um comportamento inaceitável.

O grande problema em ambas as análises é não se considerar que existem tipos e tipos de “trotes sujos”. Um trote em que os calouros sejam alvo de tinta, farinha e ovos, por exemplo, não pode ser comparado a um trote em que os calouros sejam obrigados a mergulhar em uma “piscina” cheia de dejetos orgânicos ou a chupar uma lingüiça coberta com uma camisinha, ou ainda a tomar umas talagadas de aguardente. Por mais que aparentemente se possa meter os dois casos no mesmo saco de “trotes sujos”, a verdade é que os casos concretos são muito mais complexos do que a simples aparência.

É verdade que os “trotes sujos” são uma tradição universitária. É verdade também que, na maioria deles, não se ouve falar em comas alcoólicos, ou queimaduras provocadas por substâncias químicas, ou tratamento degradante e pressão psicológica. Boa parte dos “trotes sujos” são realizados não em um espírito de dominação e controle, mas dentro de um contexto de festa e irmandade: trata-se de um legítimo rito de passagem.

Entretanto, a vida em sociedade pressupõe que determinados limites seja observados de acordo com o ambiente em que se encontra. Nada mais natural – e necessário, uma vez que, na ausência desses limites, situações corriqueiras podem degenerar em verdadeiras tragédias. Diversos campos do conhecimento humano estudam a observância desses limites e os mecanismos que são necessários para sua aplicação. Um desses campos é a psicologia comportamental. A utilização de reforços positivos e negativos não exclui a utilização de punições: a função desta é extinguir um determinado comportamento, enquanto a função daquelas é fortalecer comportamentos desejáveis.

A utilização da punição é importante no sentido de eliminar comportamentos indesejáveis. Todavia, a punição realiza somente isso: ela não ensina novos comportamentos, nem serve de reforço para comportamentos desejáveis que já existam. Assim sendo, a punição deve ser concertada com sistemas de reforço que fortaleçam os comportamentos desejáveis. Reforço e punição não são mutuamente excludentes, mas complementares; um depende do outro para que o processo seja eficiente e salutar.

Infelizmente, as declarações recentes do Grande Timoneiro da UnB, o reitor José Geraldo, parecem carregar uma inata incompreensão dessa verdade. Em se tratando não apenas de um educador, mas de um reitor de universidade, é preocupante que a punição seja vista de maneira tão perniciosa, quando ela é, em verdade, imprescindível no processo de educação. Quando ele insinua que a expulsão de um aluno que infringe as regras é inútil, pode-se estender analogamente o raciocínio para uma contravenção ou um crime, e, assim, advogar que prender um criminoso é ineficiente no sentido em que não muda a situação, e que, portanto, ele deve permanecer livre. Tal raciocínio ser defendido por um representante do Direito é, no mínimo, escandaloso.

A existência de um ambiente social determinado pressupõe também a existência de um corpo de regras que devem ser respeitadas. Aqueles que teimam em infringir as regras devem ser ensinados a respeitá-las, e a punição não apenas castiga, mas ajuda a educar: ela mostra que comportamento é indesejável, e abre caminho para que o comportamento desejável possa ser fortalecido por meio dos reforços adequados. A universidade não está dissociada dessa realidade, e qualquer esforço no sentido de proceder a essa dissociação mostra não uma preocupação em educar, mas em infantilizar. A universidade, assim, abdica de seu papel de educação para a vida adulta e se transforma num jardim de infância para moleques mimados.

Em tempo: o reitor mencionou a clássica obra “As Aventuras de Pinóquio”, de Carlo Collodi, para reforçar seu argumento de que a punição é perniciosa. Nosso Grande Timoneiro disse que, no contexto da obra, “foi a escola quem transformou o boneco em criança”. Na verdade, não. Àqueles que tiverem curiosidade de ler o livro, verão que, após as presepadas do Pinóquio, ele utiliza positivamente as punições que recebeu por seus comportamentos ruins e decide emendar-se; a fadinha de cabelos azuis da história, vendo que Pinóquio decide trabalhar duro para mudar de vida, recompensa-o ao transformá-lo em um menino de verdade. A transformação de Pinóquio foi o reforço, e a emenda iniciou-se pela punição. Esquecer-se disto é apenas querer que bonecos de madeira não se transformem em pessoas de verdade.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Sobre a escolha do reitor na UnB

Caros leitores,

Esse ano, teremos eleição para reitor na Universidade de Brasília. Para a infelicidade de toda a comunidade acadêmica, muitos estão caindo no melífluo e enganoso canto de sereia da paridade. Já escrevemos aqui, meses atrás, sobre como a defesa da paridade é um engodo que não visa à democratização (sic) da universidade, mas à instrumentalização da comunidade acadêmica como massa de manobra política, pura e simplesmente.

O texto abaixo nos traz excelentes reflexões sobre esse tema. O melhor de tudo é que se trata de um professor da Universidade de Brasília – fato que, para muitos (incluindo nós), representa um refrigério de inteligência, maturidade e bom-senso em nossa universidade.

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Sobre a escolha do reitor na UnB
Prof. Adson Ferreira da Rocha
Departamento de Engenharia Elétrica – Faculdade UnB Gama


“Estudante mandar na universidade é um caminho para matá-la. O estudante está numa casa hierárquica e hierarquizada. O sábio é sábio e tem que ensinar o aprendiz. O aprendiz pode exigir do sábio que ensine a ele. Mas não pode querer substituir o sábio. E claro que um certo porcentual de estudantes, 20% por exemplo, pode votar para reitor. Mas não pode ser maioria. Se a porcentagem dada aos professores for menor que 70%, com três candidatos o estudante se junta com o funcionário e faz o reitor. O estudante não tem que reivindicar isso, isso é bobagem de política, de partidarismo. Ele quer que a universidade seja boa, que funcione, que dê cursos adequados, material didático adequado, mas não quer mandar na universidade.”

Hoje, na UnB, muitos atribuiriam ao autor do texto acima os rótulos de direitista, conservador, anti-democrático, fascista ou outros mais. Mas na verdade, a sentença é de Darcy Ribeiro – que não é nenhuma dessas coisas. O autor tem muitos críticos, mas mesmo esses críticos não questionariam seu compromisso com a Universidade. Parece que, naquele ponto de sua vida, ele estava preocupado em salvar o que pode e o que vale a pena ser salvo, mesmo tendo de ser ríspido em suas frases. Darcy Ribeiro continua:

“O que está acontecendo é que a eleição do reitor virou uma eleição partidária, com cartazes, com ofertas de vantagem, de emprego, com suborno para conquistar o voto de funcionário e o voto dos alunos. Para evitar essa corrupção tem que deixar essa escolha para os professores. Ele são responsáveis e têm que ser responsabilizados. São eles que fazem o corpo de governo da universidade, é assim no mundo inteiro. Aqui foi partidarismo, sectarismo e corporativismo que fizeram diferente.”

Esta é uma época muito difícil na Universidade de Brasília. Apesar de um dos princípios da Universidade moderna ser a defesa intransigente do livre pensar, aqui esse princípio se tornou letra morta. Valem mais as claques, o ativismo de Internet, o uso de textos impressos sem autoria identificada e até mesmo a intimidação física. Infelizmente, acredito que isso vai se intensificar ainda mais neste ano, devido às várias eleições. Pelas mesmas razões, acho que veremos poucos textos defendendo posições impopulares mas necessárias, como fez Darcy Ribeiro.

Veremos, ao longo dos próximos meses, os mais variados argumentos defendendo a eleição paritária. Um dos argumentos preferidos é a tentativa de igualar a eleição de reitor a um processo democrático. Obviamente, qualquer análise minimamente profunda mostrará que esse argumento é falso. A Universidade não é uma nação, e as pessoas que participariam da eleição não têm, em princípio, legitimidade para votar. Os professores e funcionários são empregados da instituição, cujo dono é a população. Os alunos também não – como os professores e funcionários, é verdade que eles pagam impostos, mas são apenas uma pequena parcela da população (o restante é excluído da Universidade).

Outro argumento – este, a meu ver, correto – é que não é possível, na prática, que toda a população vote para reitor. Também, deixar a escolha nas mãos do presidente, em um país com partidos políticos não muito amadurecidos, como o Brasil, não traria bons resultados. Portanto, um bom teste seria deixar que a comunidade escolha, e avalie, ao longo dos anos, se esse modo de escolha surte bons efeitos. Esse me parece um argumento razoável.

Entretanto, a verdade é que esse modelo de escolha já foi testado em vários lugares e em várias épocas e, sem exceção, acabou sendo sempre abandonado. Há sempre a menção de universidades medievais em que os alunos escolhiam o reitor. É verdade. Mas também é verdade que esse modelo foi abandonado há muito tempo nessas universidades, e nunca mais foi tentado novamente. Houve tentativas, também em outros períodos, em países como França, Brasil, Argentina, Portugal e muitos outros. Em todos os casos, o modelo foi abandonado porque os resultados foram ruins. Muitos dizem que os modelos foram abandonados porque os países abriram mão da democracia. Isso não é verdade – muitos países democráticos estão entre os que abandonaram essa prática.

Hoje, não mais que 5 países escolhem o reitor por consulta a toda a comunidade. Mas há, nesses países, forte sentimento de que o sistema não é bom – os professores que, em princípio, deveriam colaborar entre si, acabam em brigas horríveis, que degradam muito o ambiente universitário.

Desses poucos países que escolhem o reitor por consulta a toda a comunidade é provável que, atualmente, apenas no Brasil os estudantes participem da votação. Há pouco tempo, os estudantes votavam em Portugal e na Argentina. Essa prática foi abandonada nesses países.

Na maioria dos países do mundo, a escolha recai sobre um grupo menor de pessoas. Em muitos casos apenas os professores titulares votam, em outros, um “Board of Trustees” faz a escolha, e em outros há uma comissão específica para fazer a busca pelo melhor nome.

No Brasil, por iniciativa de Darcy Ribeiro, foi aprovada uma lei para tentar amenizar esse efeito das eleições, em que qualquer consulta à comunidade deve ser feita com 70% do poder de decisão para os docentes. Mas os conselhos das universidades têm achado “truques” para driblar essa lei, com a conivência do Ministério Público.

Infelizmente, insistimos nesse modelo que tem causado tantos problemas à Universidade Brasileira. Na verdade, acho que muitas das pessoas que defendem a eleição paritária já conhecem os argumentos acima, mas defendem esse modelo simplesmente porque acreditam que ele irá facilitar que alguém do seu grupo de interesses se eleja, ou dará maior poder ao ativismo do seu grupo. Acredito que alguns defendam o modelo por serem idealistas, e acreditarem sinceramente que o modelo que não funcionou em nenhum outro lugar irá funcionar no Brasil.

Resta esperar que a comunidade consiga reagir a esse estado de coisas, e, em particular, que o CONSUNI tenha a coragem para tomar as decisões corretas.

domingo, 18 de março de 2012

O antifilisteu

Rodrigo Gurgel


Baluarte do movimento abolicionista, representante da quarta geração de sua família no parlamento brasileiro, “monárquico de razão e sentimento”, como ele próprio se define, a Joaquim Nabuco aplica-se, com perfeição, o ideário de Russel Kirk, cujos Dez princípios conservadores encontram-se dispersos nas páginas de Minha formação, um dos melhores exemplos da memorialística nacional, gênero narrativo infelizmente pouco desenvolvido em nosso país, mas que deu sinais de revivescer, há algumas décadas, graças à obra de Pedro Nava.

A maneira como Nabuco analisa, por exemplo, o sistema republicano, considerando-o inferior à monarquia constitucional, pelo fato de se basear na “ausência de unidade, de permanência, de continuidade no governo” e por construir um Estado “em que todos pudessem competir desde o colégio para a primeira dignidade”, sua qualificação da república como “utopia sem atrativo, o paraíso dos ambiciosos, espécie de hospício em que só se conhecesse a loucura das grandezas”, apresentam, no substrato, o desejo do que Kirk chamaria de “ordem moral duradoura”, uma sociedade na qual haja “um forte sentido de certo e errado”, onde os cidadãos não vivam “moralmente à deriva, ignorantes das normas, e voltados primariamente para a gratificação de seus apetites”.

Tal certeza se amplia quando Nabuco recorda a política que encontrou nos Estados Unidos, durante viagem realizada entre 1876 e 1877. Ele não se satisfaz em definir o país como “uma torre de Babel bem-sucedida” e grava sua impressão geral: “a de uma luta sem o desinteresse, a elevação de patriotismo, a delicadeza de maneiras e a honestidade de processos que tornam na Inglaterra (…) a carreira política aceitável e mesmo simpática aos espíritos mais distintos”. Nabuco também critica o jornalismo, cuja “obrigação” é “rasgar a reputação” do candidato, “reduzi-lo a um andrajo, rolar com ele na lama. Para isso não há artifício que não pareça legítimo à imprensa partidária; não há espionagem, corrupção, furto de documentos, intercepção de correspondência ou de confidência, que não fosse justificada pelo sucesso”. E completa:
O efeito de tal sistema pode ser moralizar a vida privada, pelo menos a dos que pretendem entrar para a política, se há moralidade no terror causado por um desses formidáveis exposures eleitorais, os franceses diriam chantage. A vida política, porém, ele não tem moralizado.
Comparando as instituições norte-americanas às inglesas — estas, sim, dignas de incessantes elogios —, Nabuco mostra-se ainda mais severo:
A atmosfera moral em roda da política era seguramente muito mais viciada; a classe de homens a quem a política atraía, inferior, isto é, não era a melhor classe da sociedade, como na Inglaterra; pelo contrário, o que a sociedade tem de mais escrupuloso afasta-se naturalmente da política. A luta não se trava no terreno das idéias, mas no das reputações pessoais; discutem-se os indivíduos; combatem-se, pode-se dizer, com raios Roentgen; escancaram-se as portas dos candidatos; expõe-se-lhes a casa toda como em um dia de leilão. Com semelhante regímen, sujeitos às execuções sumárias da calúnia e aos linchamentos no alto das colunas dos jornais, é natural que evitem a política todos os que se sentem impróprios para o pugilato na praça pública, ou para figurar em um big show.
Suas críticas aumentam ao analisar o republicanismo francês, marcado por um “fermento de ódio, uma predisposição igualitária que logicamente leva à demagogia”. Realidade, aliás, possível de ser constatada em diferentes momentos da história republicana brasileira e que, na última década, além de nos oferecer amostras da típica agressividade esquerdista, tem se configurado, como bem define Nabuco, num “fenômeno de retração intelectual” que conduz à “hipertrofia ingênua da personalidade”. Em outro trecho, no Capítulo XII, ao retomar a discussão, ele conclui:
O fato é que no republicanismo, falo do sincero, do verdadeiro, há um ideal, como no socialismo, no comunismo, no anarquismo há ideal, mas há também inveja, e desta é que parte, quase sempre, o impulso revolucionário.
Admirador do ensaísta Walter Bagehot — autor de The English Constitution e memorável editor da The Economist —, Nabuco não é só um crítico da República e das revoluções, mas também da política que chama de “baixa”, isto é, a política profissional, da luta partidária cotidiana, “espécie de oclusão de pálpebras”. Considerando-se “antes um espectador do meu século do que do meu país”, aponta, com acerto, que “para ser um homem de governo é indispensável fixar, limitar, encerrar a imaginação nas coisas do país e ser capaz de partilhar, se não das paixões, decerto dos preconceitos dos partidos (…)”.

Nabuco não fazia esses comentários no papel de um observador distante. Ao contrário, participou, no início da vida pública, dos embates partidários e sofreu as vilanias típicas da política menor, estreita, que produz raríssimos estadistas. Gradativamente, contudo, libertou-se dos interesses comezinhos, apegando-se à causa da abolição da escravatura e, depois de proclamada a República, impondo-se o ostracismo que só não o afastou da vida intelectual. São os anos, aliás, de maior produtividade, quando publica, em 1896, a biografia de seu pai, Um estadista do Império, outro de seus clássicos. Alguns historiadores defendem a idéia de que, a partir de 1900, ao reingressar no serviço diplomático, Nabuco teria se tornado republicano, mas prefiro crer que entendia seu trabalho como um gesto de patriotismo.

Na verdade, Joaquim Nabuco foi movido por um sentimento aristocrático que se mostrou muito superior ao mero apoio político à monarquia brasileira. Guiava-se segundo aquele ideal de nobreza que Ortega y Gasset definiu como uma “vida dedicada, sempre disposta a superar a si mesma, a transcender do que já é para o que se propõe como dever e exigência”. Sabemos que, para o filósofo espanhol, “a vida nobre se contrapõe à vida vulgar e inerte, que, estaticamente, se restringe a si mesma, condenada à imanência perpétua, a não ser que algum fator externo a obrigue a reagir”. Esse princípio — definido por Nabuco como ser “sensível à impressão aristocrática da vida” — o impediu de se tornar republicano.

Tal elã conservador é, nos dias atuais, incompreensível, inalcançável à maioria das pessoas. Primeiro, por um motivo que, sob determinados aspectos, chega a ser dramático: a república presidencialista arraigou-se à história, aos hábitos e ao imaginário nacional, respondendo à doentia necessidade de sermos comandados por um pater familias e ao desejo submisso de que ele detenha mais que a patria potestas e possa resolver, num passe de mágica, todos os nossos problemas. Segundo, porque a maioria de nós ainda acredita que o sufrágio universal é um sistema democrático, quando, na verdade, como ensina Ortega y Gasset, “no sufrágio universal não são as massas que decidem, seu papel consiste em aderir à decisão de uma ou outra minoria”. Esses dois aspectos da nossa organização social, somados ao desprezo e à chacota das panelinhas marxistas, contribuem para revestir um escritor conservador daquele manto de excentricidade que afasta o leitor médio. Salientemos, no entanto, outra tendência atual: a de reler Nabuco com um olhar esquerdista, o que, além de estrambótico, só cria deturpações.

Mas há uma quarta razão: com o advento do homem-massa, passamos a sofrer do mal que Ortega y Gasset chama de “estranha pretensão”: a de “ser mais que qualquer outro tempo passado; mais ainda: por se desligar de todo o passado, não reconhecer épocas clássicas e normativas, e ver-se a si mesmo como uma vida nova superior a todas as antigas e irredutível a elas”. Assim, para apontar apenas uma das graves conseqüências desse quadro patológico, nossos estudantes saem do ensino médio completamente ignorantes da história brasileira, incapazes de escrever uma lauda, por exemplo, sobre o 2º Império ou qualquer período republicano. Mostrem-me um jovem vestibulando capaz de escrever cinco parágrafos razoáveis sobre o governo Floriano Peixoto ou a Revolução de 1930 e eu lhes mostrarei um bezerro que voa.

Em tal conjuntura, não causa surpresa que ler Joaquim Nabuco tenha se transformado, infelizmente, numa irregularidade, ocorrência extemporânea, de alguma forma prevista pelo próprio escritor durante seus anos de afastamento da vida pública, quando, movido por certa melancolia, afirmava:
O público, os grandes auditórios eram para mim o que é hoje a minha cesta de papel, ou a labareda que dá conta da exuberância supérflua do pensamento. Só muito tarde compreendi por que os que vieram antes de mim se retraíam, quando eu me expandia: em muitos era a saciedade, o enojo que começava; em alguns a troca da aspiração por outra ordem de interesses mais utilitária (…).
Antes desse período, entretanto, Nabuco será uma das principais vozes do movimento de libertação dos escravos, drama para o qual despertara na infância, de maneira inesperada: sentado na entrada da casa-grande do engenho em que vivia, surpreende-se com um jovem negro que se lança aos seus pés, “suplicando-me pelo amor de Deus que o fizesse comprar por minha madrinha para me servir. Ele vinha das vizinhanças, procurando mudar de senhor, porque o dele, dizia-me, o castigava, e ele tinha fugido com risco de vida…”. A partir daí, sua visão evoluirá, a ponto de, na vida adulta, fazê-lo encarar a diplomacia e a política como questões menores. Para ele, o centro de sua existência se resumiu aos dez anos de dedicação exclusiva à campanha abolicionista: “A feição política tornar-se-á secundária, subalterna, será substituída pela identificação humana com os escravos e esta é que ficará sendo a característica pessoal, tudo se fundirá nela e por ela”.

Estilo e ironia
O Nabuco que escreve suas memórias é, antes de tudo, um estilista. Quem se aproximar de seus livros buscando algo que não se assemelhe à sobriedade da frase ou ao uso lapidar da língua se decepcionará. As pistas sobre a formação de seu estilo são múltiplas, mas ele salienta a cópia, na juventude, de páginas das leituras preferidas, as que mais lhe “feriam a imaginação”. Sobre esse exercício, defende uma tese curiosa:
(…) ninguém escreve nunca senão com o seu período, a sua medida, Renan diria a sua eurritmia, dos vinte e um anos. O que se faz mais tarde na madureza é tomar somente o melhor do que se produz, desprezar o restante, cortar as porções fracas, as repetições, tudo o que desafina ou que sobra: a cadência do período, a forma da frase ficará, porém, sempre a mesma.
O fato de manter, desde sempre, o francês como primeira língua também não é desprezível. A intimidade com o idioma estrangeiro leva-o a considerar sua frase como uma “tradução livre”, sendo que “nada seria mais fácil do que vertê-la outra vez para o francês do qual ela procede”, o que o obriga a “constante vigilância”:
Falta-me para reproduzir a sonoridade da grande prosa portuguesa o mesmo eco interior que repete e prolonga dentro de mim, em gradações curiosamente mais íntimas e profundas, à medida que se vão amortecendo, o sussurro indefinível, por exemplo, de uma página de Renan.
Finalmente, não podemos esquecer de suas leituras, nas quais se misturam romancistas, poetas e historiadores: William Thackeray, Thomas Macaulay, John Keats, Ernest Renan, Cícero, Theodor Mommsen, Hippolyte Taine, Jacob Burckhardt e outros.

Desse universo tão particular nascem ótimos trechos, como a definição de certa paisagem do Rio de Janeiro — “um paraíso terrestre antes das primeiras lágrimas do homem, uma espécie de jardim infantil”; sua versão, talvez inconsciente, do famoso verso de Wordsworth (título do Capítulo XI de Memórias póstumas de Brás Cubas) — “O traço todo da vida é para muitos um desenho de criança esquecido pelo homem, mas ao qual ele terá sempre que se cingir sem o saber…”; e a descrição espirituosa de Saraiva, um velho conhecido: “(…) o dicionário português de Londres, verão e inverno em um casacão que lhe descia até os pés, a longa barba inculta, a pele entalhada como um retábulo espanhol, com um montão de livros debaixo do braço e em cada bolso (…)”.

Nabuco é capaz de sínteses inspiradoras: “Cada um de nós é só o raio estético que há no interior do seu pensamento, e, enquanto não se conhece a natureza desse raio, não se tem idéia do que o homem realmente é”. Mas também pode compor longos períodos, exemplos de austeridade — nos quais a pontuação concede às frases um ritmo sereno — e de um escritor que investiga, sem receio, os nichos do seu espírito:
Foi em Londres, graças a uma concentração forçada, a qual não teria sido possível para mim senão em sua bruma, que a minha inteligência primeiro se fixou sobre o enigma do destino humano e das soluções até hoje achadas para ele, e, insensivelmente, na escondida igreja dos Jesuítas, em Farm Street, onde os vibrantes açoites do padre Gallway me fizeram sentir que a minha anestesia religiosa não era completa, depois no Oratório de Brompton, respirando aquela pura e diáfana atmosfera espiritual impregnada do hálito de Faber e de Newman, pude reunir no meu coração os fragmentos quebrados da cruz e com ela recompor os sentimentos esquecidos da infância.
As mesmas qualidades podem ser reencontradas na lembrança da descoberta do mar:
Muitas vezes tenho atravessado o oceano, mas se quero lembrar-me dele, tenho sempre diante dos olhos, parada instantaneamente, a primeira vaga que se levantou diante de mim, verde e transparente como um biombo de esmeralda, um dia em que, atravessando por um extenso coqueiral atrás das palhoças dos jangadeiros, me achei à beira da praia e tive a revelação súbita, fulminante, da terra líquida e movente… Foi essa onda, fixada na placa mais sensível do meu kodak infantil, que ficou sendo para mim o eterno clichê do mar. Somente por baixo dela poderia eu escrever: Thalassa! Thalassa!
E também no final do Capítulo XXV, inteiramente dedicado à figura singular do barão de Tautphœus, trecho no qual Nabuco evoca uma das inúmeras lições ensinadas pelo grande amigo, comparando-a à realidade brasileira:
Oh! que admiráveis monólogos os dele! A última vez que atravessou o nosso mare clausum voltou para casa para morrer. O vestígio do seu pensamento ficou por muito tempo comigo, e ainda por vezes lhe sinto a ondulação fugidia. Foi por minhas palestras com ele que compreendi por fim que um grande espírito podia ficar à vontade, livre, em uma religião revelada, do mesmo modo que foi graças a ele que compreendi que os escritores não formam por si sós a elite dos pensadores, que há ao lado deles, talvez acima, uma espécie de Trapa intelectual votada ao silêncio, e onde se refugiam os que experimentam o desdém da publicidade, de sua ostentação vulgar, de seu mercenarismo mal disfarçado, de seu modo frívolo, de sua apropriação do bem alheio, de sua falta de sinceridade interior. O horror da cena, hoje do mercado, não pode ser um sinal de inferioridade intelectual.
Essa percepção irônica da intelectualidade nacional — atualíssima, aliás — nasceu não só do convívio com as inteligências da época — Nabuco foi grande amigo de Machado de Assis e do grupo responsável pela fundação da Academia Brasileira de Letras —, mas da lenta, e nem sempre prazerosa, construção da autocrítica, faculdade sem a qual é impossível surgir um bom escritor. Nesse sentido, o longo episódio narrado no Capítulo VII merece a leitura de todo candidato a ficcionista ou poeta. Ali, Nabuco nos conta como corria atrás de elogios para os seus primeiros versos — e de que maneira chegou a recebê-los, mas somente para pagar o preço da decepção, ao descobrir que tinham nascido da hipocrisia, do mascaramento das relações sociais. Sua conclusão permanece válida: “O escritor juvenil que não se resignar ao sacrifício da sua honra (grifo do autor) literária não fará progressos em literatura”. Apenas uma pessoa lhe foi sincera: Edmond Schérer — à época, famoso crítico literário da Revue des Deux Mondes —, que reagiu aos seus versos com um “silêncio frio, impenetrável, entretanto polido, atencioso, simpático”.

Aristocracia
No ensaio Um capítulo da higiene mental dos artistas, Hermann Hesse fala sobre a importância do ócio na vida do escritor. O tom às vezes exageradamente hedonístico dessas páginas não me agrada, mas o romancista alemão está certo quando diz que “o trabalho intelectual se deixa envolver e dominar” cada vez mais “pela atividade industrial rude e violenta, sem tradição e bom gosto” e que “retalhamos o tempo em pequenos e ínfimos pedaços, dos quais cada um tem ainda o valor de uma moeda”. O texto, escrito em 1940, permanece atual, com um agravante: a arte, contaminando-se, de maneira crescente, do corriqueiro, do vulgar, passou a obedecer a certo filistinismo hostil, zombeteiro até, em relação à estética que, repelindo a demagogice, anseia preservar um mínimo de virtuoso requinte. Nabuco tinha perfeita consciência disso e denunciava que “o público, o protetor moderno das letras, cuja generosidade tem sido tão decantada, não passa de um Mecenas de meia-cultura”. Não por outro motivo ele alertou, 40 anos antes de Hesse, que
a primeira condição para o espírito receber a impressão de uma grande criação qualquer, seja ela de Deus, seja das épocas — nada é puramente individual —, é o repouso, a ocasião, a passividade, o apagamento do pensamento próprio (…).
Sigamos ou não o seu conselho, nessas palavras — e em toda a obra de Nabuco — encontra-se o signo da verdadeira aristocracia, que não deve oferecer ao leitor apressado a imagem de uma classe supostamente ociosa ou de pessoas que gastam suas vidas em superficialismos. Não. Aqui falamos de altivez, honra e coragem para defender as próprias idéias, mesmo que isso signifique, recordando Ortega y Gasset, possuir elegância digna inclusive para oferecer o pescoço ao golpe da guilhotina. Nabuco, que tinha clara noção de ter sido “uma das mais consistentes figuras da nossa política”, era constituído por tais valores — e, tenhamos esperança, não foi o último de sua espécie.

sábado, 17 de março de 2012

Do extermínio de crianças ao aborto

Alessandro Barreta Garcia
De seu site pessoal

Na época clássica (séculos V e IV a.C.), o fio condutor da educação espartana se converteu somente a uma estrutura militar e seu objetivo era a formação do hoplita (soldado). Esparta se priva de uma educação completa, fecha-se em um totalitarismo desprovido de uma formação integrada, e assim, não podendo se beneficiar dos tempos de paz. Preocupava-se com as crianças mesmo antes de nascerem, pois, a eugenia espartana selecionava os melhores, os sem defeitos, sem disformias e os não raquíticos, nesse sentido, os “perfeitos” eram privilegiados (GARCIA, 2011).

Esparta conforme Plutarco (s/d) esclarece-nos por meio da legislação de Licurgo que as crianças eram educadas da seguinte forma:

Pois, logo que estes chegavam à idade de sete anos, ele os tomava e os distribuía por grupos, para serem educados juntos e se habituarem a brincar, aprender e estudar uns com os outros; depois, escolhia em cada grupo aquele com aparência de ser o mais avisado e mais corajoso no combate, ao qual dava a superintendência de todo o grupo. (PLUTARCO, s/d, p. 226).

Submetidas desde cedo aos treinamentos físicos, um em cada grupo era escolhido como líder, e sua tarefa era supervisionar os demais. Além do escolhido como líder do grupo, os mais velhos supervisionavam todos, inclusive os lideres. Muitos debates eram impostos para testar as decisões dos jovens espartanos, e quem não se apresentasse dispostos a julgar com convicção eram castigados pelos lideres (PLUTARCO, s/d).

As crianças que não servissem ao fim militar eram jogadas do precipício, e aquelas aptas a suportarem ao serviço militar sofreriam castigos como terem seus dedos mordidos pelos supervisores. Não é de hoje que os homens tentam eliminar seus semelhantes, em Esparta as crianças que não servissem ao serviço militar eram eliminadas, exterminadas da cidade-estado. Com o tempo as constituições foram se alterando e a defesa das crianças passa a ser uma preocupação constante ou deveria ser.

No entanto, em nosso tempo as leis não interessam mais ao coletivo, sendo assim, as que existem funcionam para minar as últimas bases da moral conservadora. Legitimar o direito do individuo em detrimento do direito supremo, do bem comum a toda coletividade é hoje uma agenda internacional.

Hoje em dia, um gigantesco plano mundial tenta classificar o aborto como legítimo, como resolução individualista, esquecendo-se da inexorável ideia de Aristóteles, a potência e ato. Uma semente é uma árvore em potência. Um feto é uma criança em potência. Diferente de ter potencial para engravidar, potência e a transição para o ato, ou seja, é já o próprio crescimento e desenvolvimento da vida. Do contrário, impotente é alguém que não goza da possibilidade de gerar mudança específica, no caso engravidar. Para Aristóteles (2006): “Impotência é a privação de potência, ou seja, a supressão do principio que foi descrito” (p. 149). Ao abortar se mata um cidadão em potência e em ato, podendo ser ato se respeitado o devir natural da vida. Abortar é matar as potencialidades do suprassensível, da tradição moral, filosófica, cívica e jurídica. Abortar é matar.

No Brasil observa-se uma justiça de valor relativo, e sendo essa a nova ética, a moral clássica tão valiosa perde seu esplendor, até mesmo seu significado. Nesse mundo, tudo é a busca do prazer, pelo útil individual e isolado dos bens supremos. Dessa forma, recuperar seu significado é uma tarefa árdua, de poucos, se comparado ao ambiente decadente ao redor. Sendo assim, nos resta ensinar, pois o ensino é ainda a forma mais hábil de se conduzir a morada das ideias e da defesa das constituições.

REFERÊNCIAS

ARISTÓTELES. Metafísica. Bauru, SP: EDIPRO, 2006.
GARCIA, A. B. Aristóteles nos manuais de história da educação. 1ª Edição, São Paulo: Clube de Autores, 2011.
PLUTARCO. Licurgo. In. As vidas dos homens ilustres. Trad. Brasileira de: Aristides da Silveira Lobo, São Paulo: Editora das Américas, 1951.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Cuba se Fidel!

Caros leitores,


Quebrando a tradição de rabugice do blog, esse post é apenas para descontrair. Aproveitem! ; )
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Fidel está fazendo um dos seus famosos discursos na Praça da Revolução:
- E a partir de agora temos de fazer mais sacrifícios!
Ouve-se uma voz na multidão:
- Trabalharemos o dobro!
O Comandante continua:
- E temos de entender que haverá menos alimentos!
A mesma voz:
- Trabalharemos o triplo!
Fidel prossegue:
- E as dificuldades vão aumentar!
- Trabalharemos o quádruplo!
Fidel vira-se para o chefe da segurança e pergunta:
- Quem é esse idiota que vai trabalhar tanto?
- O coveiro, meu comandante.
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Fidel vai a um centro espírita e, na sessão, consegue conversar com a mãe e morta. Fidel pergunta-lhe:
- Mãe, no próximo ano eu ainda vou estar no poder?
- Sim, filho - responde a mãe.
E Fidel continua a perguntar:
- E o povo vai estar comigo?
- Não, querido filho. Vai estar comigo...
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Encontram-se um espanhol e um cubano. O cubano pergunta:
- Você é católico?
- Eu acredito, mas não pratico. E você, é comunista?
- Eu pratico, mas não acredito.
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Uma professora mostra aos alunos um retrato do presidente Reagan e pergunta à turma:
- De quem é este retrato?
Silêncio absoluto.
- Eu vou ajudar um pouco - diz a professora. – É por culpa desse senhor que nós estamos passando fome.
Pepito diz, ao fundo da sala:
- Ah, professora! É que sem o uniforme e sem a barba não dava para reconhecer.
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Três tubarões encontram-se no meio do oceano e decidem tomar rumos diferentes para testar a sorte. Combinam depois encontrar-se novamente para saber o que aconteceu a cada um. Um dirige-se para a Espanha, outro para Miami e o terceiro vai para Cuba. Um mês depois, os tubarões voltam a reunir-se.
O que foi para Miami diz:
- Uau! Foi uma maravilha! Comi dois americanos, um cubano e uma canadense. Estavam deliciosos!
O que foi para a Espanha diz:
- Vocês nem imaginam como estão gordos os espanhóis. Comi pelo menos nove, sem contar as crianças...
Chega então a vez do que foi para Cuba. Ele está todo estropiado, magro, com o corpo cheio de arranhões e de mordidelas.
- Vocês nem queiram saber o que me aconteceu. Quando eu apareci com a minha barbatana numa praia de Havana, estava lá um magricela que começou logo a gritar: Pessoal, chegou o nosso peixe! Num instante, tinha umas 200 pessoas a minha volta. Por pouco não me comeram...!
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O povo cubano estava todo reunido para ouvir um discurso do ditador. O seu assessor olhava para Fidel, virava para o povo e dizia:
— Veja, povo de Cuba! Aqui está Fidel! Ele não tem a barba de Cristo?
E o povo:
— Tem, sim!
— Fidel não tem os cabelos de Cristo?
— Tem, sim!
— Fidel não tem os olhos de Cristo?
— Tem, sim!
Um bêbado berra do meio da turba:
— Então, crucifica!
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Fidel Castro morre e chega no céu, mas não estava na lista. Assim, São Pedro o manda ao inferno. Quando chega lá, o diabo em pessoa o recebe e diz:
— Olá, Fidel, seja bem-vindo. Eu estava à sua espera. Aqui você vai se sentir em casa.
— Obrigado, Satanás, mas estive primeiro no céu e esqueci minhas malas lá em cima, na portaria.
— Não se preocupe. Vou enviar dois diabinhos para pegar suas coisas.
Os dois diabinhos chegam às portas do céu, mas as encontram fechadas, porque São Pedro tinha saído para almoçar. Um dos diabinhos diz ao outro:
— Olha, é melhor pularmos o muro. Aí pegamos as malas sem perturbar ninguém.
Os dois diabinhos começam a escalar o muro. Dois anjinhos passavam por ali, e ao verem os diabinhos, um comenta com o outro:
— Não faz nem dez minutos que Fidel está no inferno, e já temos refugiados.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Crianças do Estado


John Hayward
Human Events



Não chega a ser uma surpresa o quanto o Grande Governo trata seu povo como crianças, mas é um tanto deprimente que o público tenha crescido tão habituado a tal tratamento.

Dependência é essencialmente infantilidade. Independência e responsabilidade são componentes fundamentais tanto da liberdade quanto da maturidade. Uma nação de assistência social e “bailouts” [1] é uma nação onde a nenhuma criança é permitido cair e se machucar por sua própria conta. Você não pode ter empreendimento sem risco e você não pode ter risco sem consequências. Calcular os riscos é tarefa de adultos.

O governo nos trata como crianças em questões grandes e pequenas. Para dar um pequeno exemplo, considere a saga da “polícia do almoço” na Carolina do Norte [2]. Ao menos dois pais surgiram com histórias de agentes federais inspecionando as lancheiras de seus filhos pequenos, declarando ser o lanche delas deficiente para nutrição e obrigando os pais a pagar pela merenda escolar aprovada pelo governo em lugar do lanche. Uma das crianças teve em mãos um memorando assinado pelo diretor da escola, discutindo as exigências da USDA [3] por lancheiras com um conteúdo aceitável e claramente declarando que “a estudantes que não trouxerem uma merenda saudável serão oferecidas as partes faltantes, o que pode resultar em uma taxa cobrada pelo refeitório”.

Essencialmente, isso quer dizer tratar os pais como se eles fossem crianças caprichosas. Eles não são aptos a decidirem o que seus filhos podem ou não comer, então a Mamãe Estado assumirá a tarefa.

Aos cidadãos –crianças congregados na “creche católica” não será permitido colocar seus pequenos devaneios religiosos à frente da sabedoria da Mamãe Estado em matéria de contracepção. Quando os católicos fizeram algazarra na sala de aula, a solução do vovô Obama foi declarar que os anticoncepcionais eram um presente das companhias de seguro. Isto supostamente aquietaria o clamor, porque eles não estariam pagando pelos “presentinhos” para o controle de natalidade. É preciso ter a mente de uma criancinha para aceitar este tipo de raciocínio.

Quando lhe foi solicitado a apresentação de um orçamento para o próximo ano fiscal, bem como previsões para o futuro financeiro dos Estados Unidos, o presidente Barack Obama apresentou um plano com uma pilha de trilhões de dólares em déficits, sem menção a dívida nacional. Só uma nação de crianças estaria disposta a permitir-lhe fugir com raciocínio tão tipicamente adolescente como “o amanhã nunca virá”. A situação de um governo falido no piloto automático rumo a 20 trilhões de dólares em dívida é fundamentalmente infantil. Somente os adultos pensam sobre as consequências, ou sobre como pagar sua própria vida.

As desculpas do presidente são o tipo de nonsense que só soam razoáveis a ouvidos muito jovens. Todos os seus problemas foram causados por seu há muito afastado predecessor. Nada é sua culpa, em qualquer assunto. Na última vez que ele ultrapassou o teto da dívida, ele prometeu que não faria isso novamente... mas agora parece que um novo aumento do teto da dívida será necessário antes da eleição de 2012.

Nós aceitamos maciços, insustentáveis déficits em tempo de paz como a “nova normalidade” porque os acólitos do Grande Governo não querem discutir abertamente o nível de impostos que seria necessário para sustentar sua utopia. A fantasia que algum vago grupo de ricaços poderia pagar por tudo isso, se eles estiverem corretamente interessados em “pagar por sua parte”, é um conto de fadas profundamente infantil. Você pode provar que isso é impossível com matemática básica, mas isto não funciona melhor do que qualquer tentativa de usar matemática básica para explicar a uma criancinha histérica porque você não pode se dá ao luxo de comprar o brinquedo que ele mais quer. Criancinhas reunidas ao redor da árvore de natal não perguntam ao papai e à mamãe se eles foram sábios em estourar o cartão de crédito da família para comprar todos aqueles presentes.

O discurso de “falha da liberdade” de Obama é o tipo de história útil para assustar crianças com obediência. Uma nação segura de si tem pouca paciência com um presidente que decide quais companhias deveriam “ganhar” ou “perder”, que explica aos pequeninos quanta ambição eles deveriam ter permissão de conservar, e nos oferece uma escolha entre adotar um planejamento central hiper-regulado ou ser perseguido por lobos na tundra gelada do mercado livre.

A esquerda prefere um imaturo e medroso eleitorado, mais interessado em proteção estatal que na liberdade de procurar oportunidades. Um mecanismo de controle baseado na inveja só funciona nessas condições. Quem respeita menos os direitos de propriedade dos outros que uma criança desamparada? Quem poderia estar mais ansioso em ouvir falar sobre o que ele é dele “de direito”, ao invés de sobre o que ele tem feito por merecer?

Não é por acaso que a cultura popular está passando a venerar a adolescência perpétua. Estudantes de 30 anos e homens de 40 anos vivendo na casa da mamãe estão se tornado cada vez mais comuns. Só um relativamente pequeno ultraje recebeu o fato da lei de saúde pública de Barack Obama considerar que pessoas de 26 anos são oficialmente “crianças”. Casamento e paternidade estão sendo atacados de várias maneiras. O grande projeto para fazer a maioria adotar hábitos que as antigas gerações teriam considerado vergonhosos está quase completo. Quanto a isso, a própria vergonha tem sido largamente abolida. Nós ouvimos infinitamente que se sentir bem é a maior virtude e que só pessoas reprimidas perderiam tempo sentido vergonhas delas mesmas, qualquer que seja o motivo. Costumávamos ter uma palavra diferente para pessoas assim: adultos.

Uma das características definidoras dos adultos é seu desejo de ser responsável por suas crianças. Somos os guardiões do futuro, que nossos filhos herdarão. Mas os garotos de hoje já nascem com quase 50 mil dólares em dívidas nas costas. Nós estamos contraindo empréstimos que nunca seremos capazes de pagar. Nós escolhemos o caminho de atrelá-los com uma dívida que 100% do dinheiro público serão usados apenas para financiar os pagamentos dos juros. Este não é o comportamento de uma nação adulta.

Uma coisa pode ser dita com certeza sobre a infância: ela termina. As realidades que nós temos sido persuadidos a ignorar estão se impondo a nós. Confrontado com um gráfico que mostrava nosso débito nacional subindo a uma estonteante altura por volta de 2075, o secretário do tesouro Tim Geithner resmungou que o gráfico poderia muito bem ter incluído projeções para o ano 3000. O presidente da comissão de orçamento da câmara Paul Ryan replicou que não havia condições de levar as coisas adiante, porque “a economia, segundo o CBO [4], entrará em colapso por volta de 2027, neste ritmo”. Isso soou como um adulto repreendendo severamente uma criança com nariz sujo. Nós não sobreviveremos por mais quatro anos de “liderança” de crianças de nariz sujo, adequadas apenas para governar infantilizados.


John Hayward é colunista do Human Events e autor do recentemente publicado Doctor Zero: Year One.
Tradução: Jorge Nobre, estudante de Letras - Tradução Francês da UnB.

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Notas do tradutor

[1] No original a palavra é “bailout” (de bail: fiança, garantia) que, em economia e finanças, significa uma injeção de liquidez dada a uma entidade (empresa ou banco) falida ou próxima da falência, a fim de que possa honrar seus compromissos de curto prazo. Em geral, os bailouts são dados pelos governos ou por consórcios de investidores que, em troca da injeção de fundos, assumem o controle da entidade.
[2] Para maiores informações sobre esse caso ver o seguinte link: http://www.carolinajournal.com/exclusives/display_exclusive.html?id=8762
[3] USDA é a sigla para United States Department of Agriculture, órgão público que cuida da agricultura e tenta garantir uma boa alimentação ao povo americano.
[4] CBO é a sigla para Congressional Budget Office. Trata-se de um órgão do poder legislativo dos Estados Unidos que fornece dados econômicos para o Congresso.

quarta-feira, 14 de março de 2012

A ignorância de uma feminista


Para alguém que considera que os homens formam, via de regra, uma espécie de máfia obscura – o tal Patriarcado – que envida todo e qualquer esforço para solapar os direitos das mulheres e dominá-las de todas as maneiras possíveis e imagináveis, talvez seja demais pedir que tenha o interesse e a honestidade intelectual de fazer algumas leituras básicas antes de sair por aí falando asneiras. Entretanto, para aqueles que tem um mínimo compromisso com a verdade, isso não deixa de fazer o sangue ferver.

E é exatamente isso o que acontece ao se ler o mais recente panfleto feminista publicado, com toda pompa e circunstância, no portal da Universidade de Brasília. O texto, intitulado “O Dia Internacional das Mulheres e o ‘caso Eloá’”, foi escrito pela professora Lia Zanotta Machado – que recentemente emprestou seu prestígio de pesquisadora (que deve, em grande parte, aos generosos financiamentos da globalista Fundação Ford) para defender a legalização do aborto numa audiência pública no Congresso Federal.

E de que asneiras me refiro? Bom, a professora Lia, na mesma linha de artigo recente da professora Tania Navarro Swain – (in)felizmente, com um pouco mais de sutileza do que esta –, resolveu torcer um pouco nossa realidade e culpar os conservadores pela violência contra a mulher. Em uma passagem realmente inspiradora, escreve a professora (grifos meus):
De 13 a 17 de outubro de 2008, a população brasileira pôde assistir por televisão e rádio, o desenrolar do cárcere privado e da ameaça de morte de um rapaz de 22 anos contra uma menina de 15 anos. Em fevereiro de 2012, assistiu ao recente julgamento que finaliza com a sentença de homicídio doloso e premeditado. O caso Eloá emocionou a opinião pública, dividida entre a crença de um desejado desfecho positivo, tal como anunciado por vários meios de comunicação, e um desfecho trágico. Tratava-se de uma ocorrência que se dava ao vivo e que instava os sujeitos a se posicionarem. Era difícil aplicar o refrão conservador de que “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”.

Em 13 de outubro, Lindemberg invadiu o domicílio da ex-namorada onde ela e colegas realizavam trabalho escolar, com duas armas e um saco de munições. Às 23h30 de sábado, 18 de outubro, Eloá Pimentel, baleada na cabeça e na virilha, não resistiu e veio a falecer por morte cerebral. No depoimento, Lindemberg admite que levantou a arma quando a ex-namorada teria mentido ao negar que havia beijado outro que não ele. Parecia estar preso a um outro refrão conservador: “se não for minha, não será de ninguém”.
Eu gostaria realmente que a professora Lia Zanotta mostrasse algum nexo causal que indicasse que esses pensamentos fazem parte da mentalidade conservadora, e não da mentalidade brasileira – independente de posicionamento político. Afinal de contas, se assim fosse, não ocorreriam casos como o de Netinho de Paula, cantor e membro do Partido Comunista do Brasil, que agrediu sua mulher. Ora, Netinho é comunista de carteirinha (literalmente), e, portanto, decerto não deveria comungar dos cânones conservadores que a professora Lia tão zelosamente expõe em seu texto. De duas, uma: ou Netinho é um conservador em pele de bolchevique, ou a professora Lia recorreu a uma vergonhosa petição de princípio para provar um ponto de vista sem base.

Uma vez mais, vê-se como a Secretaria de Comunicação da UnB possui um tal alinhamento político que instrumentaliza essencialmente um órgão que, a bem da verdade, deveria dedicar-se à comunicação institucional, não ao jornalismo panfletário. Mas isso já não é nenhuma novidade, certo?

segunda-feira, 12 de março de 2012

Arábia Saudita: o clamor contra Hamza Kashgari

Giuliano Luongo
Un Monde Libre

O jornalista saudita Hamza Kashgari.

A perseguição ao jovem jornalista Hamza Kashgari pelas autoridades da Arábia Saudita, acusado de apostasia por causa de seus tweets julgados “blasfemos”, é um novo caso de uso político da sensibilidade religiosa do país.

Política, religião e... internet

Este último episódio interessou à mídia internacional pela metade de fevereiro, mas começou no dia 4 de fevereiro deste ano, data do Mawlid (nascimento do profeta Maomé). Neste dia, Hamza Kashgari, repórter saudita de 23 anos que trabalha no diário Al-Bilad, publicou em sua conta no Twitter mensagens fortes sobre sua relação com a religião. [1]

Tais tweets receberam rapidamente 30 mil comentários de pessoas que se sentiram gravemente atingidas: os mais radicais chegaram a pedir a cabeça do jornalista. Ironicamente, os “tweets blasfemos” foram duramente contestados por um grupo do Facebook (com cerca de 20 mil pessoas) chamado “O povo saudita pede a execução de Hamza Kashgari”. O jornalista reagiu a tudo isso se desculpando quase imediatamente suas afirmações, se dizendo arrependido e pedindo o “perdão de Deus e dos crentes por seu pecado”. E ele terminou por deletar seus tweets.

Este caso deu às autoridades sauditas a chance de mostrar sua força aos olhos dos cidadãos e, ao mesmo tempo, consolidar sua legitimidade política.

Elas não aceitaram as desculpas de Kashgari e, em seguida à onda de indignação da população, decidiram intervir aplicando a letra da lei, acusando o jornalista de apostasia – crime passível de pena de morte. Devemos lembrar que um comitê de religiosos emitiu uma fatwa contra ele. Além disso, o Xeque Nasser Al-Omar (personalidade muito influente) pediu pessoalmente o processo por apostasia. Segundo o jornal online SABQ, o rei em pessoa emitiu um mandato de prisão contra Kashgari.

Percebendo a situação, o jornalista fugiu para Malásia pretendendo se refugiar na Nova Zelândia, mas ele foi preso pelas autoridades malásias e extraditado para a Arábia. É interessante notar que entre os dois países não há tratado de extradição, mesmo que existam “relações cordiais”. As pressões das ONGs Anistia Internacional e Human Rights Watch para impedir a extradição [2] não serviram para nada.

A religião a serviço da política, a política a serviço do dinheiro

Estamos diante de um caso típico do uso político da religião. O governo saudita tira sua força da legitimação religiosa: as autoridades conseguiram permanecer em seu lugar, resistindo à onda da “Primavera Árabe”, instaurando um regime repressivo baseado na aplicação literal de uma leitura radical do Islã, que manteve o sistema social no tempo da Idade Média. A mensagem de paz da religião se viu deformada, numa série de diktats impostos pela força: a repressão violenta e desproporcional ao crime está na ordem do dia. Perseguir Kashgari é, para as autoridades, um ato exemplar, para “convidar” os outros cidadãos a se calarem.

O caso Kashgari não é um caso isolado: na Arábia Saudita a pena de morte (por decapitação ou, no caso de adultério, por apedrejamento) é pratica comum. Numerosos são os delitos que levam a essa condenação, como a apostasia, a blasfêmia, a feitiçaria e o homossexualismo – sem contar os delitos ligados à violência contra a pessoa.

Traço de união entre as diferentes condenações: o silêncio dos países ocidentais que continuam a não fazer qualquer pressão pelo progresso na Arábia. A razão é fácil de entender: irritar um país com tanto petróleo e fortemente ligado às potências ocidentais em vários cenários de economia e de geopolítica não é considerado como... economicamente racional. A Arábia é muito útil neste momento e portanto seus parceiros “democráticos” não optam por pressões oficiais. O combate pela promoção de direitos é sustentado somente do exterior pelas ONGs, mas a situação interna é muito difícil: as chances de se opor são mínimas, e graças ao controle de informação e ao ostracismo que sofrem os “subversivos”, a população não toma plena consciência da situação. É preciso fazer uma triste consideração: a Arábia tem todas as cartas na mão para manter uma fortaleza de totalitarismo religioso, onde uma elite rica e radical, sustentada por potências estrangeiras, sufoca o livre pensamento e os direitos fundamentais.

Devemos nos lembrar também que Hamza Kashgari, provavelmente, não queria (e não quer) se tornar um mártir. Ele é somente um jovem que quer viver num regime mais democrático e refletir publicamente sobre sua relação com a Fé. A Arábia, tratando desse episódio como uma “grave crise”, falhou ao mesmo tempo como Estado (no sentido moderno do termo) e como força autenticamente islâmica, considerando sua tendência a tirar proveito da religião para fins políticos e de controle de seus cidadãos.


Giuliano Luongo é um economista da Universidade Federico II, de Nápoles, e analista de Un Monde Libre.
Tradução: Jorge Nobre, estudante de Letras – Tradução Francês da UnB.
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Notas do tradutor

[1] Conforme um artigo em Jovem África: http://www.jeuneafrique.com/Article/JA2667p046.xml0/facebook-condamnation-malaisie-journalisteen-arabie-saoudite-on-ne-blogue-pas-avec-le-prophete.html

[2] A hipótese de envolvimento da Interpol nessa prisão foi desmentida pela Interpol.

domingo, 11 de março de 2012

O que aconteceu com a razão?

Roger Scruton [1]
Traduzido por: André Assi Barreto [2]



O Iluminismo tornou explícito o que esteve por muito tempo implícito na vida intelectual da Europa: a crença que a investigação racional conduz à verdade objetiva. Até mesmo aqueles pensadores iluministas que desconfiavam da razão, como Hume, e aqueles que tentaram circunscrever seus poderes, como Kant, nunca abandonaram sua confiança na argumentação racional. Hume opôs-se à ideia de uma moralidade racional; mas ele justificava a distinção entre o certo e o errado em termos de uma ciência natural das emoções, ficando implícito que poderíamos descobrir a verdade sobre a natureza humana e construir sobre ela uma fundação firme. Kant pode ter rebaixado a “razão pura” à condição de uma história cheia de ilusões, mas colocou a razão prática em seu lugar, argumentando em favor da validade absoluta da lei moral. Nos 200 anos subsequentes, a razão manteve sua posição de árbitro da verdade e fundação do conhecimento objetivo.

A razão está agora num processo de retração, tanto como ideal quanto como realidade. Em seu lugar adveio a “visão de um ponto de vista externo” – que põe toda nossa tradição de aprendizado em xeque. Somos avisados que o apelo à razão é um mero apelo à cultura ocidental, que fez da razão sua pedra-de-toque e clama possuir uma objetividade que nenhuma cultura poderia possuir. Ademais, ao afirmar que a razão é seu fundamento, a cultura ocidental ocultou seu etnocentrismo pernicioso; travestiu as maneiras ocidentais de pensar como se tivesse força universal. A razão, portanto, é uma mentira e ao expor essa mentira revelamos a opressão que jaz no coração da cultura ocidental. Por trás do ataque à razão espreita-nos outra e mais virulenta hostilidade: a hostilidade à cultura e ao currículo que herdamos do iluminismo.

Se examinarmos os gurus do novo establishment universitário, aqueles cujos trabalhos são, amiúde, citados no interminável fluxo de artigos devotados a desbancar a cultura ocidental, descobrimos que eles são todos oponentes da verdade objetiva. Nietzsche é um favorito, já que ele asseverou explicitamente: “Não existem verdades”, ele escreveu, “apenas interpretações”. Agora, ou o que Nietzsche disse é verdade – o que no caso não o é, já que não existem verdades – ou é falso. Dito o suficiente, você pode imaginar. Mas não: a questão pode ser asseverada de maneira menos brusca e o paradoxo, velado. Isso explica o apelo a pensadores mais recentes – Michel Foucault, Jacques Derrida e Richard Rorty – que devem sua eminência intelectual não a seus argumentos (dos quais eles têm muito poucos) mas ao papel que empenham em dar autoridade à rejeição da autoridade e ao compromisso com a impossibilidade de compromissos absolutos. Em cada um deles você encontrará a visão de que a verdade, a objetividade, o valor e o significado são quimeras e que tudo que podemos ter é a morna segurança da nossa própria opinião.

É inútil argumentar contra esses gurus. Nenhum argumento, por mais racional que seja, pode conter a enorme vontade de acreditar que os torna populares para seus leitores. Afinal de contas, um argumento racional assume precisamente o que eles colocam em xeque – a saber, a possibilidade de se argumentar racionalmente. Ao menos um deles – Michel Foucault – foi objeto de uma hagiografia, Saint Foucault por David Halperin, tomando nota da mensagem libertadora contida em seu ataque ao pensamento estruturado. Mas cada um deve sua reputação a uma nova espécie de fé religiosa: a fé na relatividade de todas as opiniões, incluindo esta.

A verdade, nos diz Foucault, não é um absoluto que pode ser compreendido e avaliado de alguma forma trans-histórica, como que por meio dos olhos de Deus. A verdade é filha do “discurso” e como o discurso muda, o mesmo vale para a verdade contida nele. O que o termo “discurso” significa? Olhe para qualquer periódico acadêmico da área de humanidades e você o encontrará no centro de milhares de debates artificiais: “Falocentrismo ocidental e o discurso de gênero”, “O discurso da supremacia branca nos romances de Conrad”, “O discurso da exclusão: uma perspectiva homossexual”, etc. Ao descrever os argumentos como “discurso” você os observa por detrás, no estado mental em que surgiram. Você não confronta mais a verdade ou razoabilidade da opinião de alguém mas foca diretamente na força social que fala por meio dela. A questão deixa de ser “O que tu estas a dizer?” e torna-se, em vez disso, “De que perspectiva estas a falar?”. Este foi o triunfo de Foucault, prover uma palavra que nos capacita a reanexar todo pensamento a seu contexto e fazer do contexto algo mais importante que o pensamento.

O discurso, para Foucault, é o produto de uma época e existe em virtude do poder social vigente. É o que Marx chamou “ideologia”: uma coleção de ideias que não possuem autoridade por si mesmas mas que disfarçam e mistificam a realidade social. Não há nada mais para a verdade a não ser o poder que a considera conveniente; e ao desmascarar o poder, desestabelecemos a verdade. Em qualquer época existem aqueles que recusam o poder vigente. Estes são denunciados, marginalizados – até mesmo encarcerados como loucos. A voz deles é a voz da “não-razão” e para os que estão na posição de autoridade o que eles proferem não é verdade, mas um delírio. Entretanto, Foucault deixa claro, não há nada de objetivo nessa denúncia de loucura: não é nada além de um dispositivo pelo qual o poder estabelecido, o poder da ordem burguesa se sustenta, salvaguardando sua própria “verdade” contra o discurso rival que o rejeita.

Foucault e seus seguidores generalizaram este argumento, ao sugerir que a visão tradicional do homem, da família, das relações sexuais e da moralidade sexual não possuem autoridade além daquela fornecida pelo poder que a sustenta. Em seus três volumes do History of Sexuality, Foucault dá um passo adiante. O prazer sexual, ele afirma, não é intrinsicamente problemático, não há razão na natureza das coisas para controlá-lo ou suprimi-lo. Se o sexo for “problematizado”, a fim de se proibir alguns prazeres e encorajar outros, então este é um fato social curioso, que pode ser explicado mas nunca justificado. Ele descreve seu próprio estudo do sexo, tomando emprestado de Nietzsche, como uma “genealogia” da moral – como uma explicação das crenças que, por não terem nenhuma validade intrínseca ou verdade, devem ser explicadas em termos de seu contexto social, e só assim justificadas.

Tal modo de vida foi extremamente útil a Foucault, cuja homossexualidade descontrolada não sofrera nenhuma censura. Sua morte por SIDA pôs um fim à sua predação sexual. Mas não limitou sua influência: pelo contrário, coroou seu pensamento com um halo de correção política. Foucault não estava meramente a advogar em favor de prazeres imediatos, foi um mártir deles. Ainda, essa nuvem de correção não deve levar-nos a aceitar sua desmistificação da moral sexual. Para a “genealogia” de Foucault não há distinção entre causa e efeito. Por mais que Foucault diga o contrário, pode ser objetivamente verdadeiro que a sociedade e as realizações pessoais são mais facilmente garantidas pelo casamento heterossexual do que pela transgressão sexual e que o capital político e cultural de uma época é mais facilmente garantido onde as pessoas devotam-se a criar seus filhos em seus lares. Em vez de ser um efeito do poder social, a velha moral poderia ser sua causa. No que concerne a isso – causa e efeito – o método diagnóstico de Foucault não pode nos dizer nada. A suposição é que, ao ligar uma crença ao poder dos que o sustentam, a alegação em favor da objetividade é desfeita. Mas esta suposição pode ser o polo oposto ao da verdade.

Popular pela mesma razão que a análise do poder de Foucault é a desconstrução associada com Jacques Derrida. Ninguém sabe – ou ao menos ninguém explicou até agora – o que a desconstrução é. Mas é sua excessiva obscuridade que constitui uma ampla parte do seu apelo. Ao oferecer muitas palavras sem sentido, o desconstrucionista é capaz de fortalecer sua suposição mais importante: que a significação é impossível. Não existe tal coisa como o significado objetivo, decifrável de uma palavra ou de um argumento. No jargão oficial, não existe “significado transcendental”. Cada palavra, uma vez proferida, está refém de uma interpretação e a decisão de interpretar uma palavra de uma maneira ou outra é, em última instância, análise política – as únicas questões reais são aquelas levantadas por Lênin: “Quem?” e “A quem?” Quem está interpretando e contra quem enquanto vítima? Se os velhos homens brancos (Dead white males) monopolizaram a interpretação de Jane Austen, por exemplo, surpreende que as interpretações oficiais dos romances de Austen não reconheçam algum lugar real para as mulheres, bem como para suas aspirações? Surpreende que estes romances sejam construídos como justificativas, em vez de repúdios ao casamento nos moldes burgueses? Confrontados por um texto do cânone tradicional, podemos desconstruí-lo de acordo com nossa vontade, pois as únicas restrições que os afligem são aquelas que nós escolhemos. O criticismo desconstrutivo é como uma produção moderna do teatro tradicional: o texto é lido contra si próprio, de modo que signifique qualquer coisa que a crítica ou o produtor bem escolha. E, invariavelmente, o propósito é político: desbancar as velhas autoridades em nome da liberação.

O “pragmatismo” de Richard Rorty opera de maneira similar [3], alcançando conclusões políticas antevistas por meio de um truque manual repetido. Mas como o pragmatismo é um produto nativo americano com uma história respeitável, as pessoas nem sempre o consideram com tanta suspeita que ele agora (graças a Rorty) merece. Vale a pena, portanto, examinar suas credenciais subversivas.

Grosso modo, o pragmatismo é o ponto de vista de que “verdade” significa “útil”. A crença mais útil é aquela que me proporciona a melhor maneira de lidar com o mundo: a crença que, quando colocada em ação, assegura o maior sucesso. Obviamente que essa não é uma caracterização suficiente da diferença entre o verdadeiro e o falso. Qualquer um que esteja a buscar uma carreira numa universidade americana descobrirá que as crenças feministas são úteis, da mesma forma como as crenças racistas eram úteis ao apparatchik universitário na Alemanha nazista. Contudo isso dificilmente mostra que essas crenças sejam verdadeiras.

Mas então, o que realmente queremos dizer com “útil”? Uma sugestão é esta: uma crença é útil quando é parte de uma teoria de sucesso. Mas uma teoria de sucesso é aquela que faz previsões verdadeiras. Dessa maneira andamos em círculos, definindo a verdade por meio da utilidade e a utilidade por meio da verdade. De fato, é difícil encontrar um pragmatismo plausível que não incorra nisso: uma proposição verdadeira é aquela que é útil de forma que proposições verdadeiras são úteis. Impecável, mas vazio.

A ameaça da vacuidade não detém Rorty, que vê o pragmatismo com uma arma contra a ideia tradicional de razão. Mesmo tendo falhado miseravelmente em sua tentativa de dizer o que o pragmatismo realmente é, esta falha não é de interesse de seus seguidores, que usam isso em seu favor, da mesma maneira que o seguidores de Foucault usam em seu favor a ausência de conteúdo da “genealogia” da moral de Foucault e a impenetrável ausência de sentido da desconstrução. É suficiente que Rorty invoque seu pragmatismo como um tipo de encanto mágico contra a ideia tradicional de razão e a favor da causa do relativismo cultural. É isso que o garante o status de guru em nossos departamentos de humanidades.

Em suas palavras: “Os pragmatistas [4] veem a verdade como... o que seja bom para acreditar... eles veem a lacuna entre a verdade e a justificação não como algo a ser transposto por isolamento de uma forma de racionalidade natural e transcultural que pode ser usada para criticar certas culturas e elogiar outras, mas simplesmente como a lacuna entre o bom real e o melhor possível... Para os pragmatistas, o desejo pela objetividade não é o desejo de escapar as limitações de uma comunidade, mas simplesmente o desejo de acordo intersubjetivo possível, o desejo de estender a referência do “nós” tanto quanto pudermos”. Em outras palavras, o pragmatismo nos permite rejeitar a ideia de “uma racionalidade... transcultural”. Não há lugar para as ideias tradicionais de objetividade e verdade universal; tudo que importa é aquilo com que concordamos.

Mas quem somos nós? E com o que concordamos? Voltemo-nos aos ensaios de Rorty e você logo descobrirá. “Nós” somos todos feministas, esquerdistas [5], advogados da liberação gay e do currículo aberto: “nós” não acreditamos em Deus ou qualquer religião herdada; tampouco as tradicionais ideias de autoridade, ordem e autodisciplina têm peso para nós. “Nós” mudamos de opinião de acordo com o significado dos textos ao criar por meio das nossas palavras um consenso que nos inclua. Nada nos constrange, além da comunidade a qual escolhemos viver. E como não existem verdade objetiva mas apenas nosso próprio consenso auto-engendrado, nossa posição é inacessível de qualquer ponto de vista exterior. O pragmatista não apenas pode decidir o que pensar; ele pode proteger a si mesmo de qualquer um que não pense o mesmo que ele.

Um verdadeiro pragmatista, sem dúvida, inventará a história da mesma forma que ele inventa todo o resto, ao persuadir-'nos' e fazer com que concordemos com ele. Entretanto, vale a pena observar a história, apenas para verificarmos o quão paradoxal e perigosa é visão de Rorty acerca do intelecto humano. A ummah islâmica – a sociedade de crentes – era e continua sendo o consenso mais extenso que o mundo já conheceu. Ela reconhece expressamente que o consenso (ijma') serve de critério para a verdade, em realidade, um substituto para ela, além de estar engajada em um incessante esforço de incluir o maior número de possíveis na sua abrangente primeira pessoa do plural. Ademais, o que quer que Rorty entenda por crenças “boas” ou “melhores”, o muçulmano pio deve, certamente, acreditar que detém algumas das melhores: crenças que trazem segurança, estabilidade, felicidade, suporte para o mundo e uma consciência satisfeita que explode os kafirs, que pensam de maneira diferente.

Ainda assim, não permanece, em algum lugar, aquele incômodo sentimento de que aquelas crenças agradáveis podem não ser verdade e de que as opiniões frágeis do ateu pós-moderno podem tirar vantagem delas? De acordo com a concepção pragmatista de Rorty, isto não é algo que um pragmatista possa dizer. Afinal, ateus pós-modernos, à parte de muçulmanos pios, não compõem uma comunidade – nem mesmo uma comunidade imaginária. Eles não têm credo ou catecismo, nenhum texto sagrado, nenhum consenso estabelecido. Ainda assim Rorty é um ateu pós-moderno. Por quê? Não porque ele pertença a uma comunidade de descrentes, mas porque ele acredita que o ateísmo seja verdade. O pragmatismo que ascende o consenso ao lugar da verdade torna-se um logro.

Em seus próprios olhos, o iluminismo envolveu a celebração de valores universais e uma natureza humana comum. A arte do iluminismo percorreu vários outros lugares, outros tempos e outras culturas, numa heroica tentativa de justificar uma visão do homem como livre e autocriado. Esta visão inspirou e foi inspirada pelo currículo tradicional, cujo qual tem sido o primeiro alvo de questionamento e preocupação da universidade pós-moderna. Essa preocupação explica a popularidade de outro guru relativista – Edward Said, cujo livro Orientalism, mostrou como descartar o iluminismo em si, como uma forma de imperialismo cultural. O Oriente aparece na arte e literatura Ocidental, diz Said, como algo exótico, irreal, teatral e, portanto, frívolo. Longe de ser um generoso reconhecimento de outras culturas, a arte orientalista da Europa iluminista é uma tentativa de apequená-las, reduzi-las a episódios decorativos dentro do grande império do progresso Ocidental.

O argumento de Said anda de mão em mão junto com aqueles que advogam um currículo multicultural. O currículo tradicional, um produto do iluminismo, é, somos ensinados, monocultural, devotado a perpetuar o ponto de vista da civilização Ocidental como inerentemente superior às suas rivais. Ela também é patriarcal, produto dos velhos homens brancos europeus que há muito perderam sua autoridade. E sua pressuposição de uma perspectiva racional universal, ponto o qual de onde toda a humanidade pode ser estudada, não é melhor que a racionalização das suas ambições imperialistas. Em contraste, nós, que vivemos num ambiente amorfo e multicultural da cidade pós-moderna, devemos abrir nossos corações e mentes a todas culturas e não ater-nos a nenhuma delas. O resultado inescapável disso é o relativismo: o reconhecimento que nenhuma cultura tem qualquer apelo especial à nossa atenção e que nenhuma cultura pode ser julgada ou descartada desde fora.

Mas uma vez mais há um paradoxo. Aqueles que advogam esta abordagem multicultural são, via de regra, veementes em descartar a cultural Ocidental. Said não é uma exceção. Enquanto exortam-nos a julgar outras culturas em seus próprios termos, também pede que julguemos a cultura Ocidental de um ponto de vista desde fora – pô-la contra alternativas e julgá-la, adversamente, como etnocêntrica e racista.

Mas as críticas feitas à cultura Ocidental são verdadeiras confirmações do que pretendem criticar. É graças ao iluminismo e sua concepção de valores humanos como universais que a igualdade sexual e racial tem tanto apelo sobre nosso senso comum. É a visão universalista do homem que faz exigir tanto da literatura e da arte Ocidental – mais do que nós jamais deveríamos exigir da arte e da literatura de Java, Bornéu ou da China. É a tentativa de tentar abarcar outras culturas – uma tentativa que não tem paralelo na arte tradicional da Arábia, Índia ou África – que faz da arte Ocidental refém da crítica severa e capciosa de Said. E é apenas uma visão muito estreita da nossa tradição artística que não descobre nela um multiculturalismo que é muito mais imaginativo que qualquer coisa agora ensinada sob essa alcunha. Nossa cultura invoca um sentimento histórico de comunidade, enquanto celebra valores humanos universais. É enraizada na experiência cristã que bebe de uma fonte rica em sentimentos humanos que ela difunde por mundos imaginários. Do Orlando Furioso de Ariosto ao Don Juan de Byron, do Poppea de Monteversi ao Hiawatha de Longfellow, do The Winter's Tale ao Madame Butterfly, nossa cultura tem, continuamente, aventurando-se em território espiritual que não tem lugar no mapa cristão.

O iluminismo, que pôs diante de nós um ideal de verdade objetiva, também dispersou a névoa da doutrina religiosa. A consciência moral, livre da observância religiosa, começou a ver a si própria desde fora. Ao mesmo tempo, a crença numa natureza humana universal, tão poderosamente defendida por Shaftesbury, Hutcheson e Hume manteve o ceticismo cercado. Seus contemporâneos iluministas teriam considerado absurda a sugestão que, ao traçar o curso da simpatia humana, Shaftesbury e Hume estavam meramente descrevendo um aspecto da cultura “Ocidental”. Para eles, as “ciências da moral”, incluindo o estudo da arte e da literatura, incorporavam o que T. S. Eliot posteriormente chamou de a “busca comum pelo julgamento verdadeiro”. E essa busca comum ocupou os maiores pensadores da era vitoriana, que, mesmo quando davam os primeiros passos na sociologia e na antropologia, acreditaram na validade objetiva dos seus resultados e numa natureza humana universal que seria revelada neles.

Tudo isso mudou completamente. Em lugar da objetividade nós só temos “intersubjetividade” – em outras palavras, consenso. Verdades, significados, fatos e valores são agora considerados como negociáveis. O curioso, entretanto, é que este confuso subjetivismo está de mãos dadas com uma censura vigorosa. Aqueles que colocam o consenso no lugar da verdade encontram-se distinguindo o consenso falso do verdadeiro. Assim, o consenso de Rorty exclui rigorosamente todos os conservadores, tradicionalistas e reacionários. Apenas os esquerdistas podem pertencer a ele, apenas feministas, radicais, gays, ativistas e antiautoritários podem tirar vantagem da desconstrução; tal como apenas os oponentes do “poder” podem fazer uso das técnicas de sabotagem moral de Foucault; e tal como apenas os multiculturalistas podem beneficiar-se das críticas de Said aos valores do iluminismo. A conclusão inescapável é que os gurus de hoje em dia advogam a subjetividade, relatividade e o irracionalismo não para permitir todas as opiniões mas precisamente para excluir as opiniões de pessoas que acreditam nas autoridades tradicionais e na verdade objetiva.

Se você estudar as opiniões que prevalecem nas academias modernas, descobrirá que elas são de dois tipo: aquelas que emergem do constante questionamento dos valores tradicionais e aquelas que emergem da tentativa de prevenir qualquer tentativa de questionar as alternativas esquerdistas. Todas as crenças subsequentes são efetivamente proibidas nos campi normais da América: (1) A crença na superioridade da cultural Ocidental; (2) a crença de que podem existir distinções moralmente relevantes entre sexos, culturas e religiões; (3) a crença no bom gosto, seja em literatura, música, arte, amizade ou comportamento e (4) a crença nos costumes sexuais tradicionais. Você pode dar crédito a essas crenças, mas é perigoso confessá-las e ainda mais perigoso defendê-las, pois você pode ser acusado de discurso odioso (“hate speech”) – em outras palavras, de julgar adversamente alguns grupos de seres humanos. E a hostilidade a essas crenças não está fundada na razão e nunca é suscetível a justificação racional. A universidade pós-moderna não derrotou a razão mas a substituiu por um novo tipo de fé – uma fé sem autoridade e sem transcendência, uma fé ainda mais tenaz, exatamente por não se reconhecer enquanto tal.

A religião do politicamente correto não está confinada à América. Recentemente, Glen Hoddle, o treinador de futebol inglês, expressou uma visão (perfeitamente aceitável quando proferida por um representante de alguma minoria étnica) que pessoas deficientes estão sofrendo nesta vida por pecados cometidos em outra. Ele foi castigado por seus empregadores, pela mídia e pelo governo, em uma notável série de julgamentos. Então ele foi demitido. Tais caças às bruxas estão cada vez mais frequentes na Grã-Bretanha, são conduzidas de fora por cortes de burocratas e comissões quase-independentes como a Comissão para Igualdade Racial. E o princípio orientador é sempre “culpado até que se prove inocente”.

Similarmente, você irá constatar que todos aqueles que aderem os “métodos” relativistas que Foucault, Derrida e Rorty introduziram nas humanidades são veementes apoiadores de um código politicamente correto que condena a divergência em termos absolutos e intransigentes. A teoria relativista existe com o propósito de suportar uma doutrina absolutista. Daí a extrema confusão que adentrou o campo da desconstrução quando foi descoberto que um de seus líderes, Paul de Man, já foi simpático aos nazistas. É manifestamente absurdo sugerir que um desacordo semelhante seria causado caso a descoberta fosse que Paul de Man já foi comunista – mesmo se ele tivesse feito parte de algum dos grandes crimes comunistas. Em tal caso, ele teria se aproveitado do mesmo endosso cheio de compaixão que foi oferecido a comunistas e companheiros de viagem como Lukács, Merleau-Ponty e Sartre. O ataque ao significado feito pelos desconstrucionistas não é um ataque aos “nossos” significados, que permanecem exatamente o que eles sempre foram: radicais, igualitários e transgressivos. É um ataque aos significados “deles” – significados sequestrados de uma tradição de pensamento artístico e filosófico e passados de uma geração à outra pelas maneiras tradicionais de ensino.

Vale a pena manter tudo isso em mente quando consideramos o estado atual da vida intelectual na Europa e na América. Embora áreas como a filosofia tenham, por muitos anos, permanecido imunes ao subjetivismo que prevalece, elas também estão começando a sucumbir a ele. Professores que permanecem apegados ao que Rorty chama “um tipo natural e transcultural de racionalidade” – em outras palavras, quem crê poder dizer algo permanentemente e universalmente verdadeiro acerca da condição humana – consideram cada vez mais difícil despertar interesse nos estudantes, para quem a negociação tomou o lugar da argumentação racional. Expor a ética de Aristóteles e mostrar que as virtudes cardeais por ele defendidas fazem parte da nossa felicidade para nós modernos tanto quanto elas faziam para os antigos gregos é fazer um convite à incompreensão. O máximo que um estudante moderno pode administrar é a curiosidade: esta, ele confessará, é a maneira como eles encaravam a questão. No que diz respeito a mim, quem sabe?

Desse estado de ceticismo confuso, o estudante pode dar um salto de fé. E o salto nunca é para o currículo tradicional, o antigo cânone, a crença em padrões objetivos e formas de vida estabelecidas. É sempre um passo adiante, no mundo da escolha e da opinião livres, no qual nada tem autoridade e nada é objetivamente certo ou errado. Nesse mundo pós-moderno, não existe julgamento adverso – a menos que haja um juiz adverso. É um mundo que se assemelha a um parque de diversões, no qual todos têm direito à sua cultura, ao se “estilo de vida” e às suas opiniões.

E esta é a razão, paradoxalmente, pela qual o currículo pós-moderno promove a censura – da mesma forma que o esquerdismo o faz. Quando tudo é permitido, é vital proibir o proibidor. Todas culturas sérias são fundadas em distinções entre certo e errado, verdadeiro e falso, bom e mau gosto, conhecimento e ignorância. Era à perpetuação dessas distinções que as humanidades estavam, no passado, devotadas. Dessa forma, o ataque pós-moderno ao currículo e a veemente tentativa de impor um padrão “politicamente correto” – significa, com efeito, um padrão de não-exclusão e não-julgamento.

Mas o ataque ao currículo tradicional é infundado, pois o currículo tradicional jamais foi monocultural. Nossos ancestrais estudaram – e quero dizer que estudaram de fato – culturas que lhes eram inteiramente estranhas. Aprenderam as línguas e a literatura da Grécia e de Roma, vieram a compreender, amar e até mesmo, à sua maneira, adorar os deuses pagãos; traduziram a partir do hebreu, sânscrito e árabe; vagaram pelo mundo com uma curiosidade insaciável, acreditando com toda força que nada que fosse humano lhes seria estranho. Fazia parte da natureza do estudante universitário do século XIX aprender a língua do país para o qual viajasse, bem como estudar sua literatura, religião, história e costumes – a ponto de, amiúde, tornar-se um nativo, como muito dos britânicos na Índia e muito dos indianos na Grã-Bretanha. O iluminismo europeu, levado pelo comércio e pelas aventuras coloniais ao litoral do mediterrâneo oriental, inspirou a classe intelectual do Egito e do Líbano, tendo o aprendizado universal sempre em vista. Edward Said é um produto disso: ele é uma prova viva contra suas próprias teorias.

Tudo isso traz sobre nós a natureza profundamente paradoxal do novo relativismo. Enquanto afirma que todas as culturas são iguais e que fazer julgamentos entre elas é absurdo, o novo relativismo apela secretamente à crença oposta. Seu empreendimento é convencer-nos de que a cultural ocidental e o currículo tradicional são racistas, etnocêntricos, patriarcas e, portanto, além do limite da aceitabilidade política. Por mais falsas que essas acusações sejam, elas pressupõem a visão universalista que declaram ser impossível.

A consciência subliminar desse paradoxo explica a popularidade dos gurus que discuti. Seus argumentos pertencem a uma nova espécie de teologia: a teologia do politicamente correto. Como em toda teologia, não é a qualidade do argumento, mas a natureza da conclusão que torna a discussão aceitável. As crenças relativistas existem porque sustentam uma comunidade, a nova ummah dos desenraizados e dos descontentes. Dessa maneira, em Rorty, Derrida e Foucault, nós encontramos uma duplicidade de propósitos: de um lado, desmontar todas as alegações de verdade absoluta e por outro, sustentar as ortodoxias sobre as quais suas congregações dependem. O mesmo raciocínio que pretende destruir as ideias de verdade objetiva e valor absoluto impõe o politicamente correto como absolutamente obrigatório e o relativismo e cultural como objetivamente verdadeiro.

Qual deve ser nossa resposta a isso? Claramente, a primeira conclusão a que devemos chegar é que o novo relativismo é autocontraditório. Seu caráter absolutamente censorioso já é prova disso, também o é sua constante pressuposição da perspectiva “transcultural” que ele nega que seja possível. Sem tal perspectiva, a própria ideia de pluralidade de culturas não poderia ser expressa. E qual perspectiva é essa – a “do ponto de vista além da cultura” – senão a perspectiva da razão?

A segunda conclusão que podemos tirar é que, intelectualmente falando, o projeto do Iluminismo, como Alastair MacIntyre chamou – o projeto de derivar uma moralidade objetiva a partir da argumentação racional – é uma realidade para nós tanto quanto fora para Kant ou Hegel. O problema se encontra em fornecer fundamentos racionais para a moralidade ou para princípios objetivos de crítica. O problema se encontra em persuadir as pessoas a aceitá-los. Embora existam aqueles que, como John Gray, que nos dizem que o projeto falhou, a falha se encontra neles e não no projeto. É possível fornecer uma defesa racional da moralidade tradicional e mostrar por que a natureza humana e as relações pessoais a requerem. Mas o argumento é difícil. Nem todos podem segui-lo, tampouco todos têm o tempo, a inclinação ou a sensibilidade necessária para perceber o que está em questão. Dessa maneira, a razão, que gera questões fáceis enquanto provê apenas respostas difíceis, muito provavelmente mais destruirá do que fundamentará nossas devoções.

O que está errado com o projeto Iluminista não é a crença que a razão pode prover uma moralidade transcultural. Pois bem, essa crença é verdadeira. O que está errado é a suposição de que as pessoas têm algum interesse, ainda que débil, na razão. A falsidade dessa suposição está aí, para todos verem, em nossas academias: no relativismo de seus gurus e no absolutismo equivocado – absolutismo sobre as coisas erradas e pelas razões erradas, absolutismo que exclui tudo ao seu redor, exceto os relativistas.

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Notas do tradutor

[1] Retirado de: http://www.city-journal.org/html/9_2_urbanities_what_ever.html

[2] É estudante de Filosofia e responsável pelo site http://www.andreassibarreto.org/.

[3] Uma apreciação crítica, em meu entender, definitiva, do pragmatismo de Rorty pode ser lida em “Rorty e os animais”, In: CARVALHO, Olavo de. O Imbecil Coletivo, 3ª ed., Rio de Janeiro: ed. Faculdade da Cidade, p. 60-68, 1996. (N. Do T.)

[4] O dicionário Michaelis sugere a tradução de “pragmatists”, quando estamos a nos referir aos adeptos do pragmatismo filosófico como “pragmatistas” e não “pragmáticos” (N. do T.).

[5] A palavra usada por Scruton aqui é liberal, que em inglês tem o significado do português “esquerdista”. É aos esquerdistas (mormente americanos) que Lionel Trilling se refere em seu The Liberal Imagination (1950), como mostrou Olavo de Carvalho em “Uma lição tardia” (http://www.midiasemmascara.org/artigos/cultura/12531-uma-licao-tardia-1.html).