quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A UnB em defesa do aborto

Primeiramente, quero pedir aos leitores mil desculpas pela ausência do blog. Estive com alguns problemas de ordem pessoal que, nas últimas semanas, me impediram de atualizar este espaço com maior frequência. Espero poder corrigir isso hoje.

E faço isso não sem um certo gosto asqueroso no fundo da garganta. No dia 24 de fevereiro, a professora Tania Navarro Swain, do Departamento de História da Universidade de Brasília, publicou o texto “Voto feminino, primeira conquista”. Apesar do título, o objeto de análise do artigo não é a importância do voto feminino, nem mesmo a grande e gloriosa luta das mulheres contra a malvada camarilha de seres cruéis e sanguinolentos chamada Patriarcado – cuja formação, no jargão da professora, é constituída por toda a parcela da sociedade que não é feminista; o texto objetiva defender a ministra Eleonora Meniccuci, defensora assumida do aborto.

No trecho do artigo em que sai em defesa de Meniccuci e do aborto – o que faz como uma amazona armada até os dentes, uma criatura beligerante que faria estremecer até mesmo as valquírias de Wagner –, a professora Tania escreve (grifos meus):
No imaginário patriarcal as mulheres são ainda sinônimas de corpos a serem dominados/utilizados e o direito ao governo de seu próprio corpo é um bastião que tarda a cair, sobretudo sob as influencias (sic) religiosas, que fazem em torno do ventre das mulheres seu campo de batalha.

Não espanta os ataques virulentos vindos de deputados “religiosos” contra a nova ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), Eleonora Meniccuci, incansável defensora dos direitos das mulheres, entre os quais o direito ao aborto: o controle dos corpos das mulheres representa pedra fundamental da vontade de poder do patriarcado. E a hipocrisia religiosa esconde mais de um milhão de abortos clandestinos por ano no Brasil, como foi estimado pela ONU nos últimos dias; neste caso, a mortalidade materna não entra no famoso “direito à vida”.  Assim como não tinham direito ao voto, as mulheres ainda hoje não dispõem legalmente de seus corpos.
Uma coisa que é interessante notar é que essa argumentação adota como algo líquido e certo o fato de que o bebê, na melhor das hipóteses, não passa de um apêndice do corpo materno – nem é preciso mencionar que, em alguns outros textos mais apetecíveis ao gosto da própria professora Tania, não há nenhum problema em se referir à criança em gestação como um detestável verme parasitário que se pode eliminar a qualquer tempo. Algo que é convenientemente esquecido é que, sob todos os aspectos, inclusive científicos, o bebê não é, nunca foi e nunca será um apêndice do corpo materno. A despeito da ausência de ligação física que enseje essa interpretação – afinal, a criança é dependente do corpo da mãe, mas não se encontra incorporada, fundida em seu organismo –, a própria composição genética do bebê é distinta da mãe, ainda que dela herde bastantes características. Para todos os efeitos, o fato de um feto estar em desenvolvimento não lhe tira o status biológico de ser humano.

Esse artigo da professora Tania é um exemplo patente de como o relativismo está entranhado no meio acadêmico. Por quê? Em todo momento, fala-se do “direito” de abortar como uma mera questão de disposição legal das mulheres sobre seus corpos – quando, na verdade, trata-se da disposição também de corpos alheios. Em momento algum a questão moral é abordada – a não ser, é claro, para se criticar as “influencias (sic) religiosas” e a “hipocrisia religiosa”. A cegueira moral mostrada pela professora dificilmente não provoca engulhos em quem tem um mínimo de senso crítico.

O Dr. Stephen D. Schwarz, PhD em Filosofia pela Universidade de Harvard e professor da Universidade de Rhode Island, escreve em seu livro “The Moral Question of Abortion” algo interessante sobre esse ponto (grifos meus):
Em todos os pontos sugeridos, o ser dentro do útero é essencialmente o mesmo antes e depois. Ele pode ser um pouco mais gordo ou estar um pouco mais desenvolvido, mas é sempre o mesmo ser, sempre a mesma pessoa, antes e depois. Em nenhum dos pontos sugeridos ele adquire algo que o transforme em algo que ele não era. De forma alguma temos a rã transformada em príncipe encantado. Neste caso é que haveria uma mudança radical e substancial. Mas nada deste tipo ocorre nos pontos sugeridos. Pelo contrário, o que nós temos é (…) o desenvolvimento de uma vida e de um único ser.

Isto significa, entre outras coisas, que a questão habitual – Em que ponto da gravidez passamos a ter uma pessoa? – é uma questão falsa porque se baseia na seguinte premissa falsa: “existe um ponto na gravidez (ou no seu fim – o nascimento) no qual a pessoa começa a existir”. O fato é que não existe um tal ponto. A pessoa esteve sempre lá.
Não me assombra, particularmente, a defesa do aborto. Afinal, ainda nos dias de hoje há quem defenda Fidel Castro, Josef Stalin, Mao Tsé-Tung e Pol Pot como políticos-modelo, incansáveis humanistas, príncipes de um Novo Mundo justo e igualitário, e que faça aberta apologia a revoluções, à tomada violenta do poder, ao confisco de bens e perseguição aberta e mortal a determinadas pessoas com base em critérios sociais e econômicos (e, em alguns casos, também raciais). O que é realmente assombroso é que se queira dizer que um feto não é um ser humano por não ter consciência de si como tal, e que, portanto, o aborto não é a eliminação de uma vida humana (indefesa, há que se lembrar), mas a eliminação de um ente quase-humano, ou sub-humano, ou pseudo-humano.

Se queremos defender ideias, o primeiro passo para fazê-lo com honestidade é chamar as coisas pelos seus nomes. O aborto significa, sim, o fim da vida de um ser humano. O aborto é, sim, assassinato – assim como o é o infanticídio indígena, tão prestigiado pela nata da bioética da Universidade de Brasília. Que os defensores dessa peculiar modalidade de extermínio tenham pelo menos a decência de assumir isto, não tanto para os outros, mas para si mesmos: lutar pelo aborto não é lutar pelo direito de viver, mas pelo direito de matar.

7 comentários:

  1. Me parece que o título da postagem pode provocar muitos desentendimentos, já que o autor não é a favor do aborto, mas (felizmente) sim, contra.

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  2. Olá Felipe. Enquanto na Unb essa professora maluca escreve isso, na Uel, um professor teve a coragem de falar contra o aborto. Escrevi sobre isso no meu blog

    http://portadafe.wordpress.com/2012/02/29/professor-da-uel-fala-contra-o-aborto-na-folha-de-londrina/

    Abraço

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  3. Parabéns pelo blog e pelas palavras inteligentes. Há vida, sim, na classe estudantil atual.

    http://umaeducadora.blogspot.com

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  4. Parabéns, Felipe! Continue lutando contra a música ao som da qual a maioria da comunidade 'intelectual' brasileira dança.

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  5. Felipe, chega a ser interessante: a professora fala um dos clichês que movem o discurso cínico dessa gente, alegando uma "hipocrisa religiosa" (?) que esconderia "mais de um milhão de abortos clandestinos por ano no Brasil, como foi estimado pela ONU".

    Ora, que credibilidade possui essa dita estimativa? Qual foi o seu método de inferência? Como se fez a amostragem? Acaso, a ONU conhece clinicas clandestinas que praticam aborto, à mercê de sua óbvia ilegalidade?

    Então, vemos de que lado está, realmente, a hipocrisia: no lado de quem forja números exorbitantes, tirados do nada e trabalhados com coisa alguma, para exibir uma mentira descarada.

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  6. Ótimo artigo...devidamente compartilhado!

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