quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Schettinos à brasileira

O acidente com o navio transatlântico Costa Concordia no Mar Tirreno possui grandes similaridades com a situação do Brasil. À primeira vista, parece estranho ler isso. Entretanto, permitam-me algumas linhas explicativas para elucidar a questão.

Como todos já devem saber, a luxuosa embarcação Costa Concordia chocou-se de lado contra um rochedo perto da ilha de Giglio, o que provocou o rasgo de cerca de setenta metros no casco do navio. Pouco mais de uma dezena de pessoas morreu, e cerca de 20 ainda estão desaparecidas. Considerando que havia aproximadamente 4.200 pessoas na embarcação, qualquer pessoa diria que o acidente não foi tão ruim assim, que poderia ter sido muito pior. A questão é que não deveria ter ocorrido acidente algum se a rota do navio não tivesse sido desviada.

O comandante do transatlântico, Francesco Schettino, decidiu mandar às favas a rota original da embarcação para poder “homenagear” – e a prática parece ser tão comum que há inclusive um termo técnico, “inchino”, utilizado pela marinha italiana – um comandante aposentado, Mario Palombo, e o chefe dos garçons. O gesto de gentileza acabou se transformando em uma grande cagada que, conforme já havia previsto o profeta moderno Murphy, geraria consequências castatróficas: o navio atingiu um rochedo, teve o casco rasgado, estancou e começou a adernar.

Diante da confusão – e, conforme relatos, Schettino não estava na cabine de comando da embarcação no momento do acidente –, qual foi a primeira providência tomada pelo comandante? Salvar o próprio rabo. Sem pestanejar, encarnou o próprio Leão da Montanha e, fazendo uma “saída estratégica pela direita”, meteu-se no primeiro bote salva-vidas que encontrou. Tudo isso seria cômico se não fosse trágico – ainda que, no fundo, não deixe de ser ridículo.

O que isso tudo tem a ver com nós, rebentos da Terra Brasilis? Muita coisa.

É evidente para muitos de nós que nossa rota está fora dos eixos há décadas. Há algo de errado. A paisagem que vemos não é a que deveríamos ver. Estamos navegando por mares revoltos, em meio a vagas atrozes e solavancos terríveis, e os comandantes da embarcação querem fazer-nos crer que tudo não passa de delírio, que não há perigo. E, mesmo aqueles de nós que sabem que não devíamos estar nessa rota – aliás, especialmente esses –, ao invés de fazer algo ativamente contra isso, limitam-se ao seu papel de passageiros e, impassíveis, assistem a tudo de camarote.

Esses são a grande maioria de nossos ditos liberais e conservadores. O máximo que alcançam é uma masturbação egocêntrica coletiva, um circle jerk intelectualóide bizarro, como se o fato de enxergarem que a rota está errada fosse, em si mesmo, meritório, e como se nada além disso fosse necessário. Não alertam os outros passageiros. Não se amotinam legitimamente contra o comando espúrio da embarcação e o forçam a voltar o navio à rota original. Ficam congratulando-se mutuamente ad nauseam por terem grande visão, mas não denunciam de maneira contundente e firme o perpétuo inchino prestado a cadáveres políticos insepultos.

Quando nos chocarmos contra o rochedo da realidade, a água começar a invadir o navio e tudo virar caos, já terá sido tarde. E então, tanta pompa e circunstância transformar-se-á em desespero e auto-preservação, e, como Schettino, pularão para o primeiro bote salva-vidas para ficarem a salvo. Vangloriando-se em suspiros graves, “eu disse que isso acontecer!”, “eu já sabia!”, verão o barco e os outros passageiros sendo devorados pelas águas inclementes. É preciso que, como Gregorio Di Falco, capitão da Guarda Costeira italiana, digamos a esses Schettinos à brasileira, em alto e bom som:

VADA A BORDO, CAZZO!

Um comentário:

  1. Se, no Twitter, já se comentou que, “for every Schettino, there is a De Falco, thank goodness,”... Infelizmente, no Brasil isso ainda está longe de acontecer.
    E a Nau dos Insensatos prossegue. "Navegar é preciso" blá blá blá.

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