quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

A barbárie e o exílio de Deus

Há quase duas semanas, o mundo inteiro ficou chocado com o banho de sangue promovido na escola primária Sandy Hook, na pequena cidade de Newtown, Connecticut. O saldo total de mortos foi de 28 pessoas: vinte crianças com idades entre 6 e 7 anos, seis funcionários da escola, o atirador – Adam Lanza, 20, que cometeu suicídio quando a polícia chegou ao local – e sua mãe, a primeira das vítimas. Desportistas homenagearam as vítimas, diversos memoriais foram erigidos ao redor do país, um sem-número de faixas de solidariedade enfeitou as varandas e fachadas das residências da pequena cidade e o presidente dos Estados Unidos em pessoa, Barack Obama, esteve em Newtown para prestar suas condolências a todos que foram diretamente atingidos por esse horror.

Um dos memoriais feitos em memória das vítimas de Sandy Hook.

Como sói acontecer nesses momentos de tristeza e choque, diversas vozes oportunistas levantaram-se em meio ao generalizado sentimento de luto para apontar os culpados por essa tragédia e exigir que fossem punidos. E que culpados seriam esses? A pretensa cultura belicista norte-americana e a suposta facilidade em adquirir armas de fogo foram as campeãs dentre os elencados. É algo surpreendente como pululam “especialistas” em noticiários televisivos, jornais impressos, portais de notícias e outros veículos de comunicação, e é igualmente surpreendente a quase unanimidade entre eles. Isso quando não aderem a isso aqueles velhos e gastos chavões da “turma do bem” – apensar os termos “conservador”, “provinciano”, “supremacista” e “retrógado” ao americano médio que representa, no fim das contas, a tal cultura belicista vigente nos Estados Unidos. A solução para tudo isso, de acordo com os “especialistas”, é simples: desarmar a população civil, controlar vigorosamente a concessão do porte e a venda de armas, adotar políticas que se pautem pelo multiculturalismo – tudo, claro, a expensas da população via Estado.

Todavia, não é a facilidade em se adquirir armas de fogo em território norte-americano, muito menos a fantasiosa cultura belicista daquela nação, que são responsáveis por atrocidades como a de Newtown. Adam Lanza não é produto de uma tal cultura. Adam Lanza é um fenômeno global cujos fundamentos são bastante distintos dos escolhidos pelos “especialistas” de última hora: o divórcio entre direitos e deveres; a supressão da responsabilidade em nome de uma liberdade sem amarras; a idéia de que o homem é um ser histórica e socialmente construído, fruto das vicissitudes do momento, uma tabula rasa que pode ser moldada ao discricionário bel-prazer dos “iluminados”; a desumanização do homem, cujo valor é mensurado não pelo que é e faz, mas de acordo com o grupo, real ou fictício, que integra. Tudo isso, e outras coisas mais, concorrem para a formação de um homem egoísta, corroído por um hedonismo niilista e autodestrutivo, um homem mutilado e patologicamente vulnerável a todo tipo de insanidades e loucuras; um homem, ao fim e ao cabo, que se esqueceu de Deus.

Quem afirma isso não sou eu, mas alguém que sofreu na própria carne os horrores da erosão humana provocada pelo ateísmo mais fanático e raivoso: Aleksandr Solzhenitsyn. Laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1970, Solzhenitsyn mergulhou profundamente nos alicerces do totalitarismo socialista – do qual foi prisioneiro entre 1945 e 1956 – e, após décadas, afirmou:
Mais de meio século atrás, quando eu ainda era uma criança, lembro-me de ter escutado um grupo de pessoas mais velhas darem a seguinte explicação para os grandes desastres que se abateram sobre a Rússia: “Os homens se esqueceram de Deus; eis porque tudo isso aconteceu.”

Desde então, passei cerca de cinqüenta anos trabalhando na história de nossa Revolução; nesse processo, li centenas de livros, coletei centenas de testemunhos pessoais, e contribui com oito tomos de minha própria autoria para com o esforço de limpar os destroços deixados por aquela revolta. Mas se me pedissem hoje para formular concisamente qual foi a principal causa da ruinosa Revolução que engoliu quase sessenta milhões de russos, eu não poderia fazê-lo de modo mais preciso do que repetir: “Os homens se esqueceram de Deus; eis porque tudo isso aconteceu.”

E mais: os eventos da Revolução Russa só podem ser compreendidos agora, no fim do século, contra o pano de fundo do que tem ocorrido desde então no resto do mundo. O que ocorre aqui é um processo de importância universal. E se fosse requisitado a identificar brevemente a principal característica de todo o século XX, eu seria incapaz de encontrar algo mais preciso e essencial do que repetir: “Os homens se esqueceram de Deus.”
O mundo jamais viu um esforço tão colossal em expulsar Deus de todas as esferas da vida humana do que o presenciado no século XX. A perseguição religiosa – não de qualquer religião, mas especialmente do Cristianismo – alcançou níveis inimagináveis. As maiores e mais mortíferas doutrinas políticas e sociais da nossa era – socialismo, nazismo, fascismo, comunismo – foram erguidas sobre sólidos alicerces anti-religiosos. Só que, hoje, a perseguição anticristã não é um privilégio exclusivo de regimes totalitários como os de outrora: ela é um dogma difuso que, como um vírus, tem se espalhado lentamente pelo Ocidente, conquistando mentes e corações incautos com discursos aparentemente libertários e progressistas. Adam Lanza é um filho legítimo desse cancro sócio-cultural.

Dois dias depois do massacre de Sandy Hook, Mike Huckabee, ex-governador do Arkansas pelo Partido Republicano e apresentador do canal Fox News, fez uma reflexão absolutamente fantástica sobre como o afastamento sistemático e deliberado de Deus da vida das pessoas, algo transformado inclusive em política de governo nos Estados Unidos, foi responsável pelo derramamento de sangue em Newtown:


Há decerto aquelas pessoas que advogam que Deus deve se manter somente na esfera privada da vida humana e que qualquer manifestação pública, sobretudo em assuntos políticos, deve ser veementemente rechaçada. Esse é o caminho mais curto para a barbárie. Não precisamos apontar casos específicos e pontuais para corroborar esse argumento: basta vermos que, em um país como o Brasil – que não se encontra oficialmente em guerra contra nenhuma nação, nem passa oficialmente por qualquer guerra civil –, mais de 1 milhão de pessoas foram assassinadas em 30 anos; isso equivale a mais de cem pessoas por dia, um número que é muito superior à maior parte dos conflitos armados do mesmo período. E, aqui mesmo, à margem do mundo civilizado, vemos esforços coordenados e diuturnos para empurrar Deus e os cristãos de volta para o tempo das catacumbas. A única forma de não cairmos no abismo do terror mais abjeto e puro é mantermos posição e mostrarmos que uma sociedade minimamente digna é aquela em que a adoração a Deus é um dos fundamentos do homem. E a própria história o mostra.

Em 1914, eclodiu um dos conflitos armados mais sangrentos e desumanos da história: a Primeira Guerra Mundial. Solzhenitsyn, quando falou a respeito dela, disse que “a única explicação possível para essa guerra é um eclipse mental dos líderes da Europa causado por terem ignorado a existência de um Poder Supremo sobre eles”. Nunca, até então, o esplendor tecnológico humano foi posto a serviço da carnificina. Entretanto, mesmo em meio a trincheiras cheias de homens sujos e cansados, embotados de dor e medo, Deus se fez presente naquele ano de uma maneira surpreendente. Ao longo do front ocidental, em que lutavam forças alemãs e inglesas, mais de cem mil soldados depuseram suas armas durante o Natal, saíram de suas trincheiras, cruzaram campos devastados e sem vida, e uniram-se a seus inimigos para comemorar o nascimento de Cristo Jesus. Inimigos que tentaram obstinadamente se matar em dias anteriores passaram a dividir mais do que o esforço para eliminar o outro lado: dividiram refeições, funerais, canções natalinas, e, em alguns casos, até mesmo presentes.

Soldados alemães do 134º Regimento Saxão e soldados ingleses
do Regimento Real Warwickshire durante o Natal de 1914.

Ontem, nós cristãos comemoramos o Natal. Temos presenciado que, hoje em dia, nem mesmo a festa mais importante de toda a civilização ocidental passa incólume ao aviltante materialismo que tem destruído as bases da vida humana. No entanto, o verdadeiro espírito do Natal – o nascimento de Jesus Cristo, o Verbo Divino que se fez carne e habitou entre nós (João 1, 14) – nunca poderá ser arrancado dos corações daqueles que se mantêm fiéis. Mas não basta manter a chama divina acesa em nossos corações. Nós, cristãos, devemos lutar e perseverar até o fim para que Deus não seja expurgado da vida social e pública de nossa nação; devemos, com nossas palavras e ações, levar Cristo a todos, injetando-o na corrente sangüínea da sociedade, e jamais esmorecer diante da intolerância, da perseguição, nem mesmo da morte. Afinal, o discípulo não é maior do que o Mestre (Mateus 10, 24).

domingo, 16 de dezembro de 2012

O infantilismo de um progressista

Um leitor nosso, bastante cioso, informou-nos que o Dr. Banho Bagno escreveu, olhem só, uma cartinha para Papai Noel a nosso respeito. Isso mesmo! Parece que o estimado professor, diante de sua incapacidade de encetar qualquer debate sério – na verdade, ele ignora qualquer crítica e argumento contrário, talvez por causa de sua impossibilidade de dizer qualquer coisa relevante, e, quando rebate, adora esfregar sua pseudo-autoridade intelectual na fuça alheia –, prefere recorrer ao “humor” e à “comédia” para sair “por cima da carne seca”. Não é à toa que William Hazlitt, o crítico literário, dizia que os sarcásticos ganham o aplauso alheio pelo medo, não pelo amor.

Eis a cartinha do Marquinhos Banho Bagno:


Uma coisa que é interessante de se notar é que o Dr. Banho Bagno tem um costume bastante inusitado para um homenzarrão daquela idade. Talvez Freud explique. Agora, uma coisa que descobrimos é que, após tantas cartinhas malcriadas ao Papai Noel, o Bom Velhinho resolveu respondê-las! Tivemos acesso exclusivo à cartinha do Papai Noel ao Marquinhos Banho Bagno:



Não fica chateado não, viu Marquinhos? A gente sabe que isso tudo está sendo muito difícil pra você. Sempre é complicado quando o nosso pedestalzinho de cristal começa a rachar. Dá medo. Insegurança. Desconforto. Ansiedade. Mas faça como disse o Bom Velhinho e não chora não, tá? A gente promete que te deixa em paz!

sábado, 15 de dezembro de 2012

Um ato de fé na ignorância

O recente showzinho virtual capitaneado pelo Dr. Bagno a uma platéia das mais privilegiadas levantou uma questão interessante: a facilidade com que as pessoas no geral aderem a rótulos e alheiam-se da realidade para melhor poderem atacar esses rótulos. O Dr. Bagno e suas bagnettes não utilizaram qualquer espaço virtual para contestarem nossas ideias, apontarem falhas em nossos raciocínios, contra-argumentarem de modo estruturado e honesto. O que houve, ao invés disso, foi uma avalanche de ilações e achismos baseados unicamente numa frágil superioridade moral que eles, definitivamente, não possuem. De modo a não seguir o mesmo caminho detestável, resolvemos ler alguma peça produzida pelo Dr. Bagno e, assim, familiarizarmo-nos com seu “pensamento”. O texto que escolhemos chama-se “Norma lingüística & preconceito social: questões de terminologia”, publicado Revista de Estudos Lingüísticos Veredas, editada pela Universidade Federal de Juiz de Fora.

Dr. Bagno: o Exterminador da Gramática

No início de seu texto, o Dr. Bagno aponta que o termo norma culta
trata-se muito mais de um preconceito do que de um conceito propriamente dito. E que preconceito é esse? É o preconceito de que existe uma única maneira “certa” de falar a língua, e que seria aquele conjunto de regras e preceitos que aparece estampado nos livros chamados gramáticas. Por sua vez, essas gramáticas se baseariam, supostamente, no uso feito por um grupo muito especial e seleto de pessoas, os grandes escritores da língua, que também costumam ser chamados de “os clássicos”. Inspirados nos usos que aparecem nas grandes obras literárias, sobretudo do passado, os gramáticos tentam preservar esses usos compondo com eles um modelo de língua, um padrão a ser observado por todo e qualquer falante que deseje usar a língua de maneira “correta”, “civilizada”, “elegante” etc. É esse modelo que recebe, tradicionalmente, o nome de norma culta. (Grifos do original)
Já evocamos mais de uma vez aqui no blog que o próprio conceito de luta de classes foi extravasado do âmbito meramente social e, aplicado a todas as relações pessoais existentes, consegue subverter-lhes a essência e tornar a vida um verdadeiro inferno. Paulo Freire se valeu da aplicação desse conceito no campo educacional para advogar que os professores “Caxias” eram opressores sanguinários que seguiam uma lógica estupidificante de educação e que, portanto, era necessário libertar os oprimidos. Aqui, vemos um fruto da nefanda lógica freireana: a chamada “norma culta” é, na verdade, um instrumento de repressão sócio-lingüístico utilizado por uma pretensa elite intelectual opressora. Mais adiante, escreve o Dr. Bagno:
Ao longo dos séculos, os defensores dessa concepção tradicional de isolaram a língua, a retiraram da vida social, a colocaram numa redoma, onde deveria ser mantida intacta, “pura” e preservada da “contaminação” dos “ignorantes”. Por isso, até hoje, o professor de português ou, mais especialmente o gramático, é visto como uma espécie de criatura incomum, um misto de sábio e mágico, que detém o conhecimento dos mistérios dessa “língua”, que existe fora do tempo e do espaço – e é esse “saber misterioso” que costumo chamar de “norma oculta”...
Uma coisa bastante curiosa nessas primeiras linhas, e que já é possível notar, é a ideia de que todos os defensores do uso da norma culta na comunicação crêem firmemente que qualquer pessoa deve se expressar de maneira corrente como se fosse um avatar de Machado de Assis, Luís de Camões, Eça de Queiroz ou Alphonsus de Guimaraens, e que qualquer pessoa que ouse não fazê-lo é uma espécie de criminoso lingüístico dos mais atrozes. Eu jamais vi qualquer gramático defender uma sandice dessas. O único crime cometido pelos gramáticos, na opinião do Dr. Bagno, parece ser o fato de defenderem que a compreensão de uma mensagem não é o único elemento que caracteriza uma comunicação correta.

Podemos exemplificar isso com um exemplo muito, muito simples. Tomemos a seguinte frase: “Jesus disse que nos amássemos uns aos outros”. Como podemos ver, o verbo “amar” está na primeira pessoa do plural do pretérito imperfeito do subjuntivo e, portanto, a palavra gerada – “amássemos” – é uma proparoxítona. Agora, suponhamos que a pessoa que escreve a frase ignore que a palavra em questão é acentuada e escreva: “Jesus disse que nos amassemos uns aos outros”. Uma mensagem foi compreendida? Sim. Que mensagem? Esta: amassar-nos uns aos outros foi uma orientação de Jesus. A comunicação foi efetiva? Nesse caso, não, pois a mensagem que o emissor quis passar – de que Jesus pediu que as pessoas se amassem – foi subvertida por um sentido completamente alheio. E isso é uma questão de utilização da norma culta.

Ao contrário que dito pelo Dr. Bagno, a norma culta da língua não se refere à transformação da linguagem corrente em uma verborréia literária cheia de floreios decorativos anacrônicos e absolutamente desnecessários. O bom uso da língua não reside apenas num vasto conhecimento lexical ou no domínio pleno das figuras de linguagem, mas é, antes de tudo, uma questão de lógica. Se eu quero dizer que a maçã é vermelha, eu devo saber que “maçã” é um substantivo feminino, que “vermelha” é uma qualificação e que o verbo “ser”, flexionado na terceira pessoa do singular do presente do indicativo, estabelece uma relação entre essas duas palavras. Se eu digo “o maçã é vermelho” ou “a maçã ser vermelha”, é bem provável que a mensagem que eu quero comunicar seja recebida pelo meu interlocutor; todavia, isso se dá em virtude da simplicidade do que se quer comunicar: mensagens cada vez mais complexas não conseguirão ser formuladas sem que um mínimo de coerência lógica seja mantida.

É claro que a boa lógica na comunicação não é algo sacrossanto e intocável. Diversos grandes escritores – como, por exemplo, Guimarães Rosa – sacrificaram a lógica lingüística em prol de peças estupendas do ponto de vista poético. No entanto, há que se esclarecer uma coisa: não é possível brincar com algo que se desconhece. Figuras de linguagem usadas de modo corrente por todas as pessoas – como a paranomásia (comumente chamada de trocadilho), a ironia, a hipérbole e a metáfora – só surtirão o efeito almejado se o emissor e o receptor dominarem as mínimas regras lógicas subjacentes a essas figuras. E é justamente isso que amplia as possibilidades de comunicação, que enriquece o pensamento e faz cócegas no intelecto. Sem isso, a língua se torna pobre e limitada.

No entanto, não é bem isso que o Dr. Bagno acha. Eis mais um ponto de seu parecer (grifos do original):
Para começar, quando alguém diz que uma determinada norma, que uma determinada maneira de falar e de escrever é culta, automaticamente está deixando entender que todas as demais maneiras de falar e de escrever não são cultas – são, portanto, incultas, com todos os sentidos possíveis capazes de se abrigar por trás da palavra inculto: “rude”, “tosco”, “grosseiro”, “bronco”, “selvagem”, “incivilizado”, “cru”, “ignaro”, “ignorante” e por aí vai, e vai longe...

Ora, do ponto de vista sociológico e antropológico, simplesmente não existe nenhum ser humano que não seja culto, isto é, que não participe de uma cultura, que não tenha nascido dentro de um grupo social com seus valores, suas crenças, seus hábitos, seus preconceitos, seus costumes, sua arte, suas técnicas, sua língua... (Faraco, 2002). A questão, como bem sabemos, é que no senso comum só se considera culto aquilo que vem de determinadas classes sociais, as classes sociais privilegiadas. Quando dizemos que uma pessoa é muito “culta”, que tem muita “cultura”, estamos dizendo que ela acumulou conhecimentos de uma determinada forma de cultura, uma entre muitas: no caso, a cultura baseada numa escrita canonizada, a cultura livresca, a cultura que é fruto da produção intelectual e artística valorizada pelas classes sociais favorecidas, detentoras do poder político e econômico.
Decerto o Dr. Bagno deve viver em uma determinada realidade em que Mr. Catra ou Erika Leonard James, autora de “Cinquenta tons de cinza”, representam cultura. Todavia, T. S. Eliot, que dedicou um livro inteiro ao assunto – “Notas para uma definição de cultura” – lança algumas luzes sobre o assunto que podem deixar o Dr. Bagno ligeiramente desconfortável (grifos nossos):
Existem vários tipos de realizações que podemos ter em mente em contextos diferentes. Podemos pensar em refinamento das maneiras – ou urbanidade e civilidade: nesse caso, pensaremos primeiramente numa classe social, e no indivíduo superior como representante do melhor dessa classe. Podemos pensar em erudição e muita intimidade com a sabedoria acumulada do passado: nesse caso, nosso homem de cultura é o erudito, o scholar. Podemos estar pensando em filosofia no sentido mais amplo – um interesse por, e alguma capacidade em manipular, idéias abstratas: nesse caso, podemos referir-nos ao intelectual (reconhecendo o fato de que esse termo é usado agora muito frouxamente para abarcar muitas pessoas não muito notáveis pela força do intelecto). Ou podemos estar pensando nas artes: nesse caso, queremos indicar o artista e o amador ou diletante. Mas raramente temos em mente todas essas coisas ao mesmo tempo. [...]

Se examinarmos as diversas atividades culturais arroladas no parágrafo anterior, devemos concluir que a perfeição em qualquer uma delas, com exclusão das outras, não pode conferir cultura a ninguém. Sabemos que boas maneiras sem educação, inteligência ou sensibilidade para as artes, tendem a ser mero automatismo; que erudição sem boas maneiras ou sensibilidade é pedantismo; que a capacidade intelectual sem os atributos mais humanos é tão admirável quanto o brilho de uma criança-prodígio em xadrez; e que as artes sem o contexto intelectual é vaidade. E se não encontramos cultura em qualquer dessas perfeições isoladamente, não devemos esperar que alguma pessoa seja perfeita em todas elas; podemos até inferir que o indivíduo totalmente culto é uma ilusão; e iremos buscar cultura, não em algum indivíduo ou em algum grupo de indivíduos, mas num espaço cada vez mais amplo; e somos levados, afinal, a achá-la no padrão de toda sociedade. Isso me parece uma reflexão bastante óbvia, porém é negligenciada com muita freqüência. Sempre somos propensos a considerar-nos pessoas de cultura, com base numa competência, quando somos não só faltos de outras, mas cegos às que nos faltam. Um artista de qualquer tipo, mesmo um artista renomado, não é por essa única razão um homem de cultura; os artistas não somente são insensitivos às outras artes que não aquelas que praticam, mas também, às vezes, têm péssimas maneiras e dons intelectuais escassos. A pessoa que contribui para a cultura, por mais importante que possa ser sua contribuição, nem sempre é uma “pessoa culta”.
T. S. Eliot

Do apuradíssimo raciocínio de Eliot, podemos inferir que o fato de alguém dominar unicamente a norma culta de um idioma não a transforma automaticamente em uma pessoa culta, mas que não dominar a norma culta de um idioma automaticamente a transforma em uma pessoa inculta. Explicando melhor: dominar apenas um aspecto do que é, de fato, cultura não torna ninguém culto, pois é preciso dominar uma gama de características para tanto.

É necessário dizer que, em momento algum, levantou-se a opinião (perniciosa, realmente) de que pessoas incultas são, de alguma forma, subumanas. Não é necessário ser um indivíduo altamente letrado, elegante, distinto, educado, enfim, um dândi burguês, para ser uma pessoa mais livre e menos limitada. James V. Schall, professor de Filosofia Política da Universidade de Georgetown, escreve em “A Student’s Guide to Liberal Learning” que onde há uma mente e a realidade, é possível descobrir a verdade das coisas. Mas parece evidente que, quanto menor for a capacidade de utilizar conhecimentos diversificados nesse intento, tanto mais difícil e ingrata será essa tarefa.

E este deveria ser um dos objetivos primordiais do ensino: auxiliar as pessoas na aquisição de um ferramental intelectual que ampliasse sua capacidade de compreensão do mundo e apreensão das coisas como elas são. Não é o que defende o Dr. Bagno. Para ele, a norma culta, integrante desse ferramental ao qual nos referimos, “paira acima de nós como uma espada pronta para decepar nossas cabeças [e] há muito tempo já deixou de ser um instrumento de regulação lingüística: é, sim, um instrumento de opressão ideológica, de perseguição, de patrulha social, de discriminação e preconceito.” Não conseguimos enxergar como a limitação intelectual advinda da ignorância possa ser libertadora, mas parece que essa lógica deturpada tem bastante eco na universidade de nossos tempos.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A nova-velha reductio ad fascistum

Aristóteles, na seminal obra “Retórica”, aponta três aspectos que se pode explorar na retórica para atrair a simpatia das pessoas e convencê-las acerca da retidão de sua argumentação: o logos, que se relaciona com a lógica dos argumentos apresentados; o ethos, que consiste em transmitir, durante a argumentação, a impressão de se ser uma pessoa boa, inteligente e arguta – o que se chamava antigamente de “homem virtuoso”; e, por fim, o pathos, que é a exploração dos sentimentos através do discurso. Claro que para Aristóteles esses três aspectos não deviam ser utilizados para enganar as pessoas de modo a convencê-las de coisas mentirosas, pois isso seria um papel indigno feito por sofistas e charlatães. Schopenhauer tratou de diversas técnicas de engabelação pseudo-intelectual em seu livro sobre dialética erística.


No entanto, nem Aristóteles nem Schopenhaer viveram o suficiente para ver surgir um dos mais freqüentes e nauseabundos expedientes utilizados exaustivamente pela mais vasta classe de apedeutas e empulhadores ideológicos: a reductio ad fascistum – uma versão bastante particular da reductio ad Hitlerum (expressão cunhada por Leo Strauss) e da Lei de Godwin. A Lei de Godwin diz: “À medida que uma discussão se torna mais longa, a probabilidade de uma comparação envolvendo Hitler e os nazistas se aproxima de 1”. No entanto, a reductio ad fascistum possui uma peculiaridade incrível: ela prescinde de qualquer discussão. O único pré-requisito necessário é que o alvo da reductio ad fascistum adote qualquer comportamento ou defenda qualquer ideia que não esteja devidamente salvaguardada pela cartilha do politicamente correto, do credo progressista ou dos dogmas marxistas.

Um exemplo clássico do uso exaustivo da reductio ad fascistum é o Dr. Bagno, citado no nosso artigo anterior. O Dr. Bagno, como já foi dito, não conhece o que defendemos, os valores pelos quais lutamos, os autores que lemos, as ideias que divulgamos... Ele é absolutamente ignorante quanto a essas coisas. No entanto, o Dr. Bagno pôs na cabeça que somos fascistas! O motivo disso? Somos declaradamente conservadores. Na cabeça de pessoas como o Dr. Bagno, pessoas conservadoras – aquelas que acreditam na imperfectibilidade humana, em uma ordem moral superior, na impossibilidade de instaurar um Paraíso Terreno (libertino, coletivista ou ambos), na existência de uma natureza humana – são automaticamente fascistas – acreditam num Homem Novo, na derrocada dos valores tradicionais e sua substituição por valores adversos, no coletivismo, no Estado-Deus.


É possível conjeturar se o Dr. Bagno sequer ouviu falar de autores como Leo Strauss, Peter Kreeft, Paul Johnson, Russell Kirk, T. S. Eliot, Roger Scruton, Josef Pieper, Étienne Gilson, Mortimer Adler, Erik von Kuehnelt-Leddihn, Alasdair MacIntyre e outros tantos – citando apenas pensadores dos últimos 100 anos. Se isso se dá com esses grandes nomes do pensamento humano recente, é quase impossível pedir que conheça Edmund Burke, Alexander Hamilton, Alexis de Tocqueville, Frédéric Bastiat, Lorde Acton, Adam Smith, Samuel Johnson, toda uma tradição de ideias que remontam à própria Grécia antiga e que, em maior ou menos grau, influencia o pensamento conservador. Não, não, não! Se eu tenho Noam Chomsky e Michel Foucault à mão, para que olhar para toda essa velharia reacionária, não é mesmo?

Preconiza um antigo ditado semita o seguinte: “Um tolo joga uma pedra em um poço e mil sábios não conseguem removê-la.” Esse ditado guarda uma verdade inconteste: é muito mais trabalhoso explicar uma falácia que já é tomada como realidade do que transformar em realidade uma falácia. De pouco adiantaria explicar que essa conexão entre conservadorismo e fascismo foi urdida por Stalin – um dos maiores genocidas da história humana – como tática de agitação e propaganda, que essa mentira tem sido repisada há décadas, que ela se entranhou no imaginário popular graças à sua utilização ad nauseam pelas abundantes tropas de choque marxistas. A única coisa possível de se fazer é rir da tolice e da ignorância dessas pessoas, pois a reductio ad fascistum é apenas uma forma de se tentar encerrar qualquer debate por medo de ser desmascarado.

Em tempo: o incansável Conde Loppeux de la Villanueva publicou um texto excepcional a respeito do Dr. Bagno. Recomendamos fortemente a leitura de “Marcos Bagno, o Lyssenko da linguística brasileira”!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

A esquizofrenia progressista do Dr. Bagno

Não é novidade alguma que o ideal mesmo de universidade foi incinerado pelo “pensamento” progressista. A universidade, que foi legada ao mundo – e todos deveriam sabê-lo – pela Igreja Católica, era um lugar que visava à formação completa do homem, um recanto em que todos estavam plenamente comprometidos com a busca de algo elevado e excelso: a Verdade. Sim, Verdade com “v” maiúsculo, que só pode ser alcançada quando se está disposto a enxergar a realidade e esforçar-se por compreendê-la de modo honesto, humilde e abnegado. Experimente falar em Verdade dentro de uma universidade brasileira e você logo será achincalhado sem dó nem piedade.

Já escrevemos muito sobre como os universitários de hoje são, com raríssimas exceções, um exemplo emblemático da degenerescência que desvirtuou completamente o sentido da universitas magistrorum. No entanto, os universitários são, bem ou mal, mero produto de um processo que é levado a cabo de maneira obstinada por pessoas profundamente desonestas, que encontram no ensino – a quem confundem puerilmente com educação – um instrumento de manipulação barata e eficaz. Infelizmente, não são poucos os exemplos de pessoas que adotam posturas completamente opostas ao que se esperaria de um docente, tanto dentro quanto fora de sala de aula.

Uma dessas pessoas é o Dr. Marcos Araújo Bagno, professor do Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução da Universidade de Brasília. O Dr. Bagno, fazendo uso de sua grande platéia no Facebook, resolveu pronunciar-se a respeito do ingresso do Papa Bento XVI no universo do Twitter. Eis o que o ilustre professor disse:


Ninguém é obrigado a ser católico. Ninguém é obrigado a concordar com o que o Papa Bento XVI diz sobre a vida, o universo e tudo o mais. O Dr. Bagno tem a liberdade para discordar de quem quiser, sobre qualquer assunto que lhe convier. No entanto, ele tem a responsabilidade de fazê-lo da maneira mais cordata e respeitosa possível – afinal, esse é um dos fundamentos da convivência humana, certo? –, e essa responsabilidade é tanto maior em se tratando de uma, digamos, “figura pública”, alguém que trabalha na formação de futuros profissionais e que, portanto, deveria ser um modelo a ser seguido. Não é isso, no entanto, o que ocorre.

Aliás, o que foi dito acima expõe de modo cru o que se poderia classificar caridosamente de comportamento abjeto. O que o Dr. Bagno fez não foi apenas externar uma opinião pessoal sobre um assunto em questão, mas um ato público de fé na desumanização de um dos maiores teólogos do século XX. E tudo isso com base em quê? Na posição que essa pessoa ocupa: o trono papal. O Dr. Bagno decerto não leu um único livro do Papa Bento XVI, não leu nenhuma de suas entrevistas, não assistiu a nenhum de seus discursos... O que importa para o Dr. Bagno é que o Papa Bento XVI é... Papa! Isso é motivo e razão suficiente para execrá-lo em público, fazer pouco de sua figura e achar maravilhosa a possibilidade de “mandá-lo à merda” publicamente. É esse o comportamento que se espera de um professor de uma das maiores universidades federais do Brasil?

E o mais impressionante é que o Dr. Bagno já trabalhou como tradutor de obras católicas para editoras católicas, como a Edições Loyola. Ver alguém tão profundamente anticatólico fazendo isso é tão absurdo quanto ver Olavo de Carvalho traduzindo obras da Escola de Frankfurt para a Boitempo Editorial!

Curioso que é o Dr. Bagno, que arroga a si mesmo uma superioridade moral mais falsa do que uma nota de três reais, deve ter se esquecido de ler, ainda que rapidamente, o Código de Ética Profissional do Servidor Público Civil do Poder Executivo Federal. Não precisaria nem ler muito, bastaria o primeiro ponto:
A dignidade, o decoro, o zelo, a eficácia e a consciência dos princípios morais são primados maiores que devem nortear o servidor público, seja no exercício do cargo ou função, ou fora dele, já que refletirá o exercício da vocação do próprio poder estatal. Seus atos, comportamentos e atitudes serão direcionados para a preservação da honra e da tradição dos serviços públicos.
A atitude vexatória do Dr. Bagno não se resumiu a isso, como sói acontecer nesses tempos insanos em que vivemos. Ele ainda elegeu uma outra “vítima” – muito menos digna do que o Papa, diga-se de passagem: este blog. Vejam:


O Dr. Bagno nos conhece? Não. Ele já leu alguma coisa que escrevemos? Não. Ele está a par dos autores que nos influenciam, dos textos que traduzimos, do tipo de pensamento que divulgamos a tão duras penas? Não. E isso importa para o Dr. Bagno? Evidente que não! O que importa é o preconceito, a insídia, o ataque raso, rasteiro, reptiliano a algo que possui a mera possibilidade de adotar posturas contrárias ao que ele defende. O que importa é a ofensa gratuita com quê de populismo, coisa bastante promovida nas redes sociais pela massa ignara de amebas humanas ansiosas por bajularem alguém.

O Dr. Bagno pode ofender à vontade – e ignorar solenemente as vozes discordantes, talvez por puro medo do debate honesto. Quanto a nós, certamente preferimos desmascarar suas imposturas – e com classe!

Em tempo: olhem só que coisa mais M-I-M-O-S-A a cartinha que o Marquinhos (!) Bagno escreveu para Papai Noel sobre a Cibele Baginski, que quer ressuscitar no cenário político a Aliança Renovadora Nacional (ARENA):

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Ah, quão amargo é o ressentimento!

A ex-chefe do Decanato de Ensino de Graduação da Universidade de Brasília, Márcia Abrahão, deve estar bastante chateada com o fato de não ter sido empossada como reitora, e decerto essa chateação toda deve ter afetado as sinapses da insigne geóloga. Olhem só o que a professora doutora em Geologia anda divulgando por aí nas redes sociais:


É bem certo que a ex-reitorável não deve ser muito afeita a pesquisas para atestar a veracidade das informações. Se a professora se desse o hercúleo trabalho de acessar o site do Diretório Central dos Estudantes da UnB, ou o próprio portal da universidade na internet, poderia facilmente encontrar a informação de que a criação do Batalhão Universitário visa a “capacitar um batalhão de policiais militares para lidar com a diversidade e as características próprias dos estudantes de universidades públicas e privadas do Distrito Federal.”

Sim, sim, é bem verdade que ver uma professora de tão boa cepa defendendo que o Batalhão Universitário significa que “os estudantes da UnB agora vão andar na universidade de farda”, ainda mais com seu currículo, pode nos levar a pensar que Márcia Abrahão está destilando veneno puro de maneira desonesta e leviana, mentindo descaradamente acerca de um grupo de estudantes que certamente não representa o projeto político abraçado por ela e tão fartamente promovido por seu mentor, o eterno Grande Timoneiro da UnB, José Geraldo de Sousa Júnior.

Mas pensar isso da referida professora seria pura maldade. Não, certamente há um grande mal-entendido nessa história toda. A professora Márcia deve estar agindo com a mais absoluta boa fé – o histórico de seu comportamento prova-o cabalmente – e acreditamos piamente que isso tudo será esclarecido muito em breve.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Aniversário de D. Pedro II

Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga, filho mais novo de D. Pedro I, Imperador do Brasil, e D. Maria Leopoldina de Áustria, nasceu aos 2 de dezembro de 1825 na cidade do Rio de Janeiro. Governou o Império de 1841 a 1889, quando foi deposto pelo golpe militar que proclamou a República, em 15 de novembro daquele ano.

Era um entusiasta das artes e da ciência, um exímio linguista (dominava 15 idiomas) e um intelectual de vulto, amigo pessoal de grandes mentes da época - Louis Pasteur, Richard Wagner, Victor Hugo, Alexander Graham Bell, dentre outros. Conhecido pela modéstia no vestir o portar-se, trabalhava mais da metade do dia. Seus 48 anos de reinado foram o período de maior estabilidade econômica, política e social que o Brasil já viveu. Vivendo dias em que se faz pensar que o Brasil foi inventado pelo PT em 2003, é de suma importância honrar os verdadeiros grandes homens que já governaram o País.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A luta da idiocracia na PUC-SP

“A liberdade é bonita,
mas não é infinita!
Eu quero que você acredite,
a liberdade é a consciência do limite!”


Por mais que esses versinhos tenham um quê de pretensiosa puerilidade – típico da poesia pós-moderna –, eles carregam uma verdade bastante clara: só existe liberdade dentro de um limite. Esse limite é delineado pela, antes de tudo, pela moral, mas também por uma série de contingências mais ou menos circunstanciais: o direito, a etiqueta, o senso de conveniência, o estado de necessidade, dentre outros. Não há, portanto, liberdade ilimitada, absoluta, uma tal faculdade de agir que não encontre barreiras naturais e que não exija a necessária contrapartida, chamada responsabilidade.

Os versos que encimam este artigo tornaram-se o mote dos revoltosos da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Ironicamente, a ridícula rebelião promovida por alguns professores e alunos da PUC-SP convenientemente atropela a ideia que tão singelamente cantam em seu “hino de resistência”. O que se vê é uma tentativa de extrapolar os limites fundacionais da própria universidade em nome de uma pretensa democracia.

Para os que não sabem do caso, explicá-lo-ei: recentemente, aconteceu na PUC-SP uma consulta direta à comunidade acadêmica para se definir a lista tríplice de “reitoráveis”. A consulta é realizada pelo Conselho Universitário (CONSUN), a quem compete “definir as diretrizes acadêmicas da política universitária, acompanhando sua execução e avaliando seus resultados, zelando pelas finalidades, princípios e missão educativa da Instituição” (Estatuto da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, art. 19). A lista tríplice, uma vez composta, é submetida ao Grão-Chanceler da universidade – cargo exercido pelo Cardeal D. Odilo Scherer, Arcebispo de São Paulo e Presidente da Fundação São Paulo, mantenedora da PUC-SP –, a quem cabe a decisão de escolha do novo reitor. Isso está muito claro no próprio estatuto da universidade (grifos nossos):
Art. 21 – Compete ao CONSUN:

XXII – organizar, através de consulta direta à comunidade, por meio de processo eletivo, lista tríplice de nomes de professores para escolha e nomeação do Reitor e respectivo Vice-Reitor nos termos deste Estatuto, encaminhando-a ao Grão-Chanceler;

Art. 43 – Compete ao Grão-Chanceler:

I – zelar para que a PUC-SP se mantenha fiel às suas finalidades, pelo respeito à integridade dos princípios da fé e moral cristãs e pela observância das prescrições canônicas aplicáveis à PUC-SP;
II – escolher e nomear o Reitor e o Vice-Reitor, dentre os professores de uma lista tríplice organizada e encaminhada pelo CONSUN, nos termos do Artigo 21, inciso XXII deste Estatuto;
III – receber a profissão de fé do Reitor e do Vice-Reitor, consoante aos preceitos canônicos;

IV – aprovar, nomear e destituir os Pró-Reitores indicados pelo Reitor;
V – escolher e nomear o Coordenador da Coordenadoria da Pastoral Universitária;
VI – escolher e nomear o Pároco da Paróquia Universitária;
VII – apreciar o pedido de reexame do Reitor às decisões do CONSUN;
VIII – presidir as reuniões de quaisquer órgãos Colegiados a que compareça;
IX – assinar os diplomas conferidos pela PUC-SP;
X – decidir em última instância sobre a concessão de títulos honoríficos;
XI – aprovar o Regimento da Faculdade de Teologia, bem como nomear seu Diretor, em conformidade com as normas eclesiais;
XII – decidir em grau de última instância sobre interesses acadêmicos e administrativo-financeiros não previstos neste Estatuto, encaminhados pelos Conselhos Universitário e de Administração.

Art. 59 – A Reitoria é exercida pelo Reitor e, em sua ausência ou impedimento, pelo Vice-Reitor, escolhidos e nomeados pelo Grão-Chanceler na qualidade de Presidente do Conselho Superior da Fundação São Paulo, dentre os professores de uma lista tríplice organizada pelo CONSUN, por meio de consulta direta à Comunidade.
D. Odilo Scherer

D. Odilo Scherer, cumprindo ipsis litteris aquilo que está estabelecido nos documentos legais que regem a PUC-SP, fez uso de suas prerrogativas de Grão-Chanceler e escolheu um dos nomes da lista tríplice elaborada pelo CONSUN através de consulta direta à comunidade acadêmica. A pessoa escolhida foi a Dr.ª Anna Maria Marques Cintra, professora da Faculdade de Comunicação e Filosofia da PUC-SP, que ficou em terceiro lugar na consulta à comunidade universitária. Isso foi motivo suficiente para que os “defensores da liberdade e da democracia” de plantão se mobilizassem contra a decisão, gerando um clamor quase bíblico: luminares do movimento estudantil rasgando as vestes, choro e ranger de dentes, gritos de “anátema!” pululando pelas faculdades da PUC-SP. Pura escatologia de botequim.

A coisa toda ficou ainda melhor (só que não) quando uma ilustríssima figura das sarjetas artísticas do Brasil, alçada aos píncaros da glória mais excelsa pela escumalha pós-moderna, resolveu realizar uma pequena intervenção a favor da “democracia” na PUC: Zé Celso Martinez, il Duce do Teatro Oficina. Zé Celso comandou uma procissão burlesca em que um boneco gigante vestido com paramentos semelhantes aos do Papa foi lentamente mutilado aos gritos de “A Igreja castra e o catolicismo é antropófago!”, “Vaticano tem que entrar pelo cano!”, “O papa é um ditador!”, dentre outros.

Zé Celso (D) comandando o ato de mutilação do boneco.

Após a “intervenção artística”, a manifestação terminou toda a pompa e circunstância digna dos (agora) mais altos dignitários da democracia universitária de São Paulo:


Não existe democracia sem leis. Não é possível se falar em defesa da democracia quando estatutos e regimentos submetidos à apreciação da comunidade acadêmica, amplamente discutidos e, a seguir, devidamente aprovados em todas as instâncias institucionais, são escandalosamente achincalhados por uma hoste de barbaretes aburguesados em fúria mimada. Também não é possível se falar em defesa da democracia quando a legítima reitora da PUC-SP, integrante da lista tríplice e escolhida pelo Grão-Chanceler da instituição, é fisicamente impedida de adentrar o gabinete da reitoria pelos revoltados. A isso se pode dar o nome de qualquer coisa, menos de espírito democrático.

A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo não é uma universidade pública: é uma universidade católica, uma instituição privada que “inspira e realiza a sua investigação, o ensino e todas as outras atividades segundo os ideais, os princípios e os comportamentos católicos” (Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae, Normas Gerais, art. 2º, § 2º).
Os professores e o pessoal administrativo que pertencem a outras Igrejas, Comunidades eclesiais ou religiosas, bem como aqueles que não professam nenhum credo religioso e todos os estudantes, têm a obrigação de reconhecer e respeitar o caráter católico da Universidade. (Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae, Normas Gerais, art. 4º, § 4º. Grifo nosso.)
O eminente Cardeal D. Odilo Scherer “tem a responsabilidade de promover o bom andamento das Universidades Católicas na sua diocese e tem o direito e o dever de vigiar sobre a preservação e o incremento do seu caráter católico. No caso de surgirem problemas a respeito de tal requisito essencial, o Bispo local tomará as iniciativas necessárias para resolvê-los, de acordo com as Autoridades acadêmicas competentes e de harmonia com os processos estabelecidos e – se necessário – com a ajuda da Santa Sé” (Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae, Normas Gerais, art. 5º, § 2º). E é exatamente isso o que está fazendo. Tamanho clamor contra o exercício legítimo de sua autoridade só pode ser interpretado como uma atitude profundamente antidemocrática e arbitrária que visa, a exemplo do boneco na apresentação de Zé Celso, à mutilação da própria essência da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – o que certamente resultará em sua destruição.

domingo, 25 de novembro de 2012

As raízes nazistas da causa palestina

O expediente mais comum utilizado para criticar ações israelenses contra seus inimigos, notadamente os grupos terroristas palestinos, é efetuar comparações entre judeus e nazistas de todas as maneiras possíveis: quando alguma ação militar é executada contra o Hamas, centenas de vozes se erguem para denunciar o “Holocausto palestino” perpetuado pelo “Estado sionista” (ou sionazista, em alguns casos), acusam o Estado de Israel de limpeza étnica, de supremacismo judaico, de apartheid, dentre outras coisas. Os tradicionais meios de comunicação de massa – canais televisivos, jornais de grande circulação – e os não tão tradicionais – como os blogueiros estatólatras de plantão – utilizam ad nauseam esse expediente, seja de modo explícito ou sub-reptício. Abundam cenas e relatos de destruição, dor, sofrimento e tristeza na Faixa de Gaza como se se tratasse, de fato, de uma limpeza étnica, enquanto se ignora solenissimamente os milhares foguetes palestinos que chovem sobre as cidades israelenses – provocando destruição, dor, sofrimento, tristeza e, acima de tudo, terror.

Capa da revista estatal egípcia October Weekly comparando Binyamin Netanyahu com Adolf Hitler.

Vladimir Ilitch Ulianov, mais conhecido como Lênin, possuía uma máxima interessante: “acuse o seu inimigo daquilo que você é”. Os grupos terroristas palestinos – que dominam tanto a propaganda quanto as modernas técnicas terroristas – seguem esse conselho há décadas, e não é à toa: as origens da “resistência” palestina à “ocupação” judaica no Oriente Médio é algo que tem origem em uma convenientemente ignorada aliança entre o Nacional-Socialismo e a causa palestina.

A raiz dos grupos terroristas palestinos – OLP, FPLP, Fatah, Hamas – e de sua ideologia pode ser atribuída a um homem: Hajj Amin al-Husseini. O pai de Hajj, Muhammad Tahir al-Husseini, foi Qadi (chefe do Supremo Conselho Islâmico) em Jerusalém e primeiro Grão Mufti da cidade. Nomeado ao posto pelas autoridades otomanas na década de 1860, Tahir al-Husseini incitou a perseguição contra imigrantes judeus, chegando a conseguir a aprovação de uma lei que proibia a aquisição de terras por parte de judeus em Jerusalém e áreas circunvizinhas. Em 1908, quando Muhammad Tahir al-Husseini morreu, o posto de Grão Mufti de Jerusalém foi ocupado por seu filho mais velho, Kamil al-Husseini.

Hajj Amin al-Husseini (1895 - 1974)

A postura de Kamil foi bastante diferente daquela adotada por seu pai: buscou uma política mais apaziguadora do que Muhammad Tahir com relação aos judeus e, quando o Império Otomano ingressou na Primeira Guerra, demonstrou simpatia e abertura aos britânicos. Com a derrota dos turcos, em 1918, diversos territórios do Império Otomano foram divididos entre França, Inglaterra e Rússia, estabelecendo-se o Mandato Britânico da Palestina por volta de 1920. Nessa mesma época, Hajj al-Husseini organizou um levante armado contra os judeus que já habitavam a região da Palestina, o que levou a muitas mortes e à destruição de diversas propriedades de imigrantes judeus. O pretexto para esse levante foi o apoio dado pelas autoridades britânicas à Declaração de Balfour (1917), que pedia a criação de um Estado judeu na região da Palestina.

No ano de 1921, com a morte de Kamil, Hajj assumiu o posto de Grão Mufti de Jerusalém e de líder do Supremo Conselho Islâmico. Adotando uma postura completamente diferente da do irmão, Hajj al-Husseini não apenas ressuscitou a agressiva política anti-semita de seu pai, Muhammad Tahir, como foi além e recrudesceu-a: viajou por todos os países árabes da região com vistas a formar uma grande liga anti-judaica. Seu objetivo não era garantir que houvesse Palestina para os palestinos, mas era a perseguição aos judeus que garantisse ou sua expulsão, ou seu extermínio.

O clima anti-judaico alimentado diuturnamente por Hajj al-Husseini era um fator de grande instabilidade na região, o que provocava confrontos diários entre judeus e árabes palestinos. Em 23 de agosto de 1928, uma sexta-feira, três árabes foram mortos no bairro judeu de Mea Shearim, em Jerusalém; durante o sermão na Mesquita de Al-Aqsa, o Grão Mufti conclamou todos os fiéis islâmicos a atacar os judeus de Mea Shearim. Após as preces na mesquita, uma grande multidão afluiu para o bairro judeu e atacou seus habitantes, que não foram pegos de surpresa. O saldo foi de 249 mortos (116 árabes, 133 judeus) e aproximadamente 600 feridos, judeus em sua maioria. Um ano depois, dois outros atos bárbaros contra os judeus na Palestina tiveram lugar na região: o primeiro foi em 24 de agosto na cidade de Hebron, onde 67 judeus foram assassinados e centenas ficaram feridos – muitos deles mutilados; o segundo foi em Safed, onde 18 judeus foram mortos e 80 ficaram feridos. Esses pogroms foram convocados pelo próprio Grão Mufti de Jerusalém, que vinha sustentando que os sionistas estavam tentando tomar de assalto a Mesquita de Al-Aqsa. Não havia qualquer complô do tipo.

Árabes promovendo o pogrom de Hebron.

Ao longo da década de 1930, a perseguição promovida pelo Grão Mufti de Jerusalém contra os habitantes judeus da região da Palestina alçou um nível internacional jamais visto até então. Entre os dias 7 e 17 de dezembro de 1931, Hajj al-Husseini promoveu em Jerusalém o Congresso Islâmico Mundial, que reuniu 130 delegados de 22 países. O congresso foi uma grande demonstração anti-judaica, com diversas declarações conclamando pela perseguição aos judeus e o boicote a suas empresas em todo o mundo. Também por essa época, o Grão Mufti apoiou entusiasticamente o primeiro grupo terrorista palestino, o Al-Kaff Al-Aswad‎ (“Mão Negra”), fundado pelo clérigo sírio Izz ad-Din al-Qassam – que dá nome às Brigadas al-Qassam, o braço militar do Hamas.

Zeloso por difundir e amplificar cada vez mais seu espírito anti-judaico, Hajj al-Husseini mantinha contato com diversos governos, inclusive na Europa. E foi um governante em particular que, em 1933, atraiu a mais ampla e sincera simpatia do Grão Mufti de Jerusalém: o recém-eleito chanceler alemão Adolf Hitler. Em 31 de março de 1933, Hajj al-Husseini enviou um telegrama oficial ao gabinete de Hitler informando que os muçulmanos na Palestina e ao redor do mundo viam com entusiasmo sua ascensão à chancelaria alemã. A partir desse ano, as relações entre a autoridade islâmica de Jerusalém e o governo nazista só foram aumentado e se fortalecendo. O Grão Mufti se tornou voluntariamente uma espécie de garoto-propaganda do regime nazista no Oriente Médio, sobretudo junto às autoridades e grupos islâmicos da região – em especial a Irmandade Muçulmana, que hoje governa o Egito. Com a fundação do Comitê Pan-Árabe de Bagdá, em 1934, o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, de Hitler, montou um escritório oficial na Palestina, onde passou a trabalhar em estreita cooperação com as autoridades islâmicas do Oriente Médio.

Edição árabe do Mein Kampf, de Hitler.

No dia 19 de abril de 1936, Hajj al-Husseini convocou um levante geral de árabes contra os judeus na Palestina. Grupos armados de extermínio foram formados e, durante 177 dias, mais de três mil judeus foram assassinados. Dezenas de milhares de colonos judeus tiveram suas propriedades destruídas, e muitos se viram forçados a fugir da região. Os governos de Hitler e Mussolini não apenas forneceram grandes somas de dinheiro para a revolta, como também abasteceram os grupos de al-Husseini com armamentos que entravam pela Jordânia e a Arábia Saudita. A autoridade britânica na região se viu forçada a agir, o que fez com que Hajj al-Husseini fugisse em 1937 para o Líbano. Em outubro de 1939, mudou-se para Bagdá até a queda do ditador iraquiano Rashid Ali al-Gaylani, em maio de 1941, quando fugiu para Teerã. Em 8 de outubro daquele ano, os Aliados ocuparam a Pérsia, mas Hajj al-Husseini conseguiu escapar mais uma vez. Graças a uma ação da Inteligência Militar Italiana, o agora ex-Grão Mufti de Jerusalém foi para a Turquia e, de lá, para a Itália, chegando a Roma em 10 de outubro de 1941.

Hajj al-Husseini buscou apoio formal dos governos do Eixo contra os judeus na Palestina e a favor do movimento pan-árabe. Em 27 de outubro, encontrou-se pessoalmente com Benito Mussolini, que declarou seu apoio à causa palestina. Uma declaração formal foi rascunhada por al-Husseini e aprovada por Mussolini. Após esse encontro, al-Husseini foi para Berlim, onde obteve também do governo nazista a aprovação da declaração – aprovação que obteve diretamente de Adolf Hitler em 28 de novembro de 1941.

Hajj al-Husseini com Adolf Hitler, 28 de novembro de 1941.

A partir desse momento, as relações entre autoridades islâmicas ao redor do mundo e o Terceiro Reich estreitaram-se sobremaneira. Hajj al-Husseini tornou-se um grande propagandista de Hitler em meio às comunidades muçulmanas do leste europeu, sobretudo dos Bálcãs, e do Cáucaso. Ele foi um dos grandes mentores das divisões islâmicas da Waffen-SS, obtendo recrutas em países como Albânia, Bósnia, Iugoslávia, Croácia e Azerbaijão. Elementos culturais tipicamente islâmicos chegaram a ser incluídos nas insígnias e nos uniformes das divisões islâmicas da SS, como o tradicional fez turco. A mais importante divisão islâmica da SS foi a Divisão Handschar, croata, cujo comandante era o SS-Brigadeführer Karl-Gustav Sauberzweig.

Al-Husseini passa a Divisão SS-Handschar em revista. Atrás, à direita, o SS-Brigadeführer Sauberzweig.

A aliança entre os grupos muçulmanos envolvidos com Hajj al-Husseini e o governo nazista não era meramente tática. Ela era essencial, estratégica, pois envolvia um ponto nevrálgico de ambas as ideologias: o extermínio dos judeus. Em 1942, quando al-Husseini encontrou-se com Adolf Eichmann e ficou a par da chamada die Endlösung der Judenfrage (“a Solução Final da Questão Judaica”), instou Eichmann a exterminar todos os judeus, não poupando nem as crianças. E essa aliança estratégica se manteve até o fim da guerra, quando o Terceiro Reich caiu. No entanto, isso não afetou em nada os esforços de Hajj al-Husseini na promoção do extermínio de judeus no Oriente Médio. Em 1946, instalou-se no Cairo e, unindo-se novamente à Irmandade Muçulmana, utilizou sua expertise na formação das divisões islâmicas da SS para fundar os Batalhões de Alá, que se dedicavam ao assassínio de judeus. Os Batalhões de Alá foram uma das principais forças agressoras na primeira guerra enfrentada pelo Estado de Israel, que começou um dia após a sua instituição, em 1948. Até a sua morte, em 1974, Hajj al-Husseini sustentou até o fim sua posição pró-nazista em todos os seus meandros, como a negação do Holocausto.

A simpatia pelo nazismo não sumiu do seio dos grupos terroristas palestinos. Ao contrário, ela ainda está muito viva. Não são poucas as referências honrosas a Hitler e as tentativas de negação do Holocausto – que ora é descrito como uma fantasia sionista, ora como uma reação legítima ao complô sionista para dominar o mundo. Mahmoud Ahmadinejad, um dos principais financiadores do Hamas, promoveu em Teerã um encontro de revisão do Holocausto. Ekrima Sa’id Sabri, Grão Mufti de Jerusalém de 1993 a 2006 por indicação Yasser Arafat, então líder da Autoridade Palestina, argumentava que “Os Protocolos dos Sábios de Sião” provavam cabalmente que os sionistas tinham capacidade para inventar uma história como o Holocausto. Izz ad-Din al-Qassam – que, como vimos, também era pró-nazista – é o nome que batiza as Brigadas al-Qassam, braço militar do Hamas, responsáveis pelo lançamento diário de mísseis contra o sul de Israel. Os ecos da influência nazista reverberam até hoje contra os judeus.


O principal objetivo dos grupos políticos e terroristas palestinos jamais foi a fundação de um Estado palestino soberano, independente e plenamente reconhecido, mas o extermínio dos judeus da face da Terra. Esse sentimento existe de maneira inequívoca e inconfundível desde meados do século XIX, e, com o passar do tempo, sofisticou-se. O empenho do Terceiro Reich em apoiar essas iniciativas no Oriente Médio prova-o além de qualquer dúvida. Chamar o Estado de Israel de sionazista é ultrajante e despropositado, mas não seria equivocado chamar o Hamas de nazislâmico.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

As Velhas Piadas Soviéticas se tornam a nova realidade americana

Oleg Atbashian
The Washington Times Communities


Eu vi o futuro e fugi (1).

No início, me mudar da antiga URSS para a América me fez sentir como se eu tivesse feito um salto no tempo de uma estagnada e depravada antiguidade para um distante e dinâmico futuro.

Havia uma abundância de aparelhos futuristas facilmente disponíveis, máquinas, engenhocas e eletrodomésticos que faziam a existência cotidiana mais fácil e agradável. Menos óbvio, mas igualmente excitante era a mídia sem censura: Eu não precisava mais ler nas entrelinhas para saber o que estava acontecendo.

Mais importante, havia honestidade, dignidade e respeito nas relações entre as pessoas.

Hoje eu me sinto novamente como um viajante do tempo. Só que desta vez não só a América produtiva, honesta e independente está desaparecendo no passado, como nós estamos se aproximando rapidamente para um futuro muito familiar.

É o futuro de pobreza igualitária, regime de partido único, mídia vendida, pilhagem governamental, corrupção burocrática, eleições fraudulentas (2), literatura clandestina, piadas em voz baixa e o hábito muito útil de olhar por cima do ombro.

A vida era agradável na América antes que ela mudasse de rumo e seguisse “adiante” segundo Obama (3), o que, de acordo com a minha bússola, significa ir para trás.

De repente, eu me vejo fazendo o papel de um companheiro vindo do futuro, ajudando meus novos compatriotas a navegar através do pântano à nossa frente.

Privados da liberdade de expressão política, os soviéticos tinham desenvolvido uma cultura clandestina de piadas políticas. Eu costumava me lembrar de milhares delas. Aqui está uma das minhas favoritas, sobre a discrepância entre a versão oficial e a realidade cotidiana:

As seis contradições do socialismo na URSS:
  • Não há desemprego – mas ninguém está trabalhando.
  •  Ninguém está trabalhando – mas as quotas da indústria são cumpridas.
  • As quotas da indústria são cumpridas – mas as lojas não têm nada para vender.
  • As lojas têm nada para vender – mas as moradias estão cheias de mercadorias.
  • As moradias estão cheias de coisas – mas ninguém está feliz.
  • Ninguém está feliz – mas nas eleições os votos são sempre unânimes a favor do governo.
Já na América, eu descobri que a maioria das minhas antigas piadas soviéticas não funcionavam traduzidas. Não foi tanto a diferença de linguagem como o fato de que os americanos não tinham conhecimento de primeira mão de um governo totalitário, da uniformidade ideológica e da propaganda descarada. Mas isso está mudando. Quanto mais a América segue “adiante” de volta ao modelo soviético, mais traduzível as velhas piadas soviéticas se tornam.


Vamos ver como uma velha piada soviética pode ser reescrita e se tornar uma nova piada americana.

As seis contradições do socialismo nos Estados Unidos da América:
  • A América é capitalista e gananciosa – mas metade da população recebe assistência pública.
  • Metade da população recebe assistência pública – mas eles se consideram vítimas.
  • Eles se consideram vítimas – mas seus representantes controlam o governo.
  • Seus representantes controlam o governo – mas os pobres continuam ficando mais pobres.
  • Os pobres continuam ficando mais pobres – mas eles têm coisas que pessoas de outros países só têm em sonho.
  • Eles têm coisas que pessoas de outros países só têm em sonho – mas eles querem que a América seja mais parecida com os outros países.
Há mais de onde veio – ou para onde estamos indo, se for o caso.


Tradução: Jorge Nobre, estudante de Letras - Tradução Francês da UnB.
________________________
Notas do tradutor

(1) Trata-se de uma paródia da frase de Lincoln Steffens sobre a antiga União Soviética: “I have seen the future, and it works.
(2) Sobre as eleições fraudulentas, ver o artigo “Os Brasis Americanos”, de Felipe Moura Brasil.
(3) No original, “forward”, lema da campanha de Obama.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A canonização estatal de Marighella


“Todos nós somos guerrilheiros, terroristas e assaltantes e não homens que dependem de votos de outros revolucionários ou de quem quer que seja para se desempenharem do dever de fazer a revolução.”

Essa frase é bastante conhecida e mostra um pouco do caráter de quem a escreve: Carlos Marighella. Membro da Executiva do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que abandonou em 1966 por achar que o partido estava traindo o sacrossanto dever que todo comunista tem de fazer a revolução, Marighella fundou a Aliança Libertadora Nacional (ALN), um dos grupos mais cruéis da guerrilha marxista brasileira que atuou durante o Regime Militar (1964 – 1985). A ALN foi responsável por assaltos, sequestros, atentados a bomba e diversos assassinatos. Seu objetivo era claro: instaurar uma ditadura marxista-leninista em território brasileiro.


Carlos Marighella

Ainda que ele mesmo se assumisse guerrilheiro, terrorista e assaltante, não é essa a visão que o governo federal tem. O Diário Oficial da União do dia 9 de novembro deste ano traz a seguinte portaria:

PORTARIA Nº 2.780, DE 8 DE NOVEMBRO DE 2012

O MINISTRO DE ESTADO DA JUSTIÇA, no uso de suas atribuições legais, com fulcro no artigo 10 da Lei nº 10.559, de 13 de novembro de 2002, publicada no Diário Oficial de 14 de novembro de 2002 e considerando o resultado do julgamento proferido pela Comissão de Anistia na 6ª Sessão de Julgamento da Caravana de Anistia, na cidade de Salvador/BA, realizada no dia 05 de dezembro de 2011, no Requerimento de Anistia nº 2011.01.70225, resolve:

Declarar CARLOS MARIGHELLA filho de MARIA RITA DO NASCIMENTO MARIGHELLA, anistiado político “
post mortem”, nos termos do artigo 1º, inciso I, da Lei nº 10.559, de 13 de novembro de 2002.

JOSÉ EDUARDO CARDOZO

Somente isso já seria suficiente para causar uma profunda indignação em qualquer pessoa com mínimo conhecimento da nossa história. No entanto, o blog do Ministério da Justiça – um veículo oficial de comunicação desse órgão do Executivo – fez questão de colocar uma cereja nesse bolo: chamou Marighella de “herói da resistência à ditadura militar”.

A organização fundada e dirigida por esse “herói” foi responsável por bárbaros crimes. Em 22 de junho de 1969, por exemplo, guerrilheiros da ALN atacaram os policiais militares Guido Boné e Natalino Amaro Teixeira: a viatura em que estavam foi incendiada, e os ambos morreram carbonizados. Em outra ocorrência, datada de 3 de setembro do mesmo ano, o comerciário José Getúlio Borba, que trabalhava em uma loja de aparelhos eletrodomésticos, foi morto por guerrilheiros que reagiram a voz de prisão. E, ao contrário de serem casos isolados, essas ocorrências fazem parte da própria essência da bandeira que Carlos Marighella empunhou durante toda sua vida: a da ditadura do proletariado.

A alegação de que aqueles que pegaram em armas contra o governo militar objetivavam a “redemocratização” do Brasil é empulhação pura e simples, e todos estão cansados de saber disso. No entanto, o óbvio ululante se tornou hoje em dia do fruto de uma hermenêutica deturpada, o que gera uma visão distorcida das coisas. Essa lógica produz inferências interessantes: 1) o governo militar foi algo ontologicamente pérfido e vil; 2) o contrário do governo militar é a democracia; 3) se alguém lutou de alguma forma contra o governo militar, era porque só tinha em mente a “restauração” do regime democrático; 4) a luta armada só surgiu em face da violência do regime, e foi, portanto, tão-somente uma característica acidental (e uma reação legítima) da luta contra o governo militar.

Se não é suficiente interpretar os atos criminosos de Marighella e seus camaradas como o que realmente foram – ações cruentas e desprezíveis que visavam à transformação do Brasil em uma ditadura comunista –, então recorramos às próprias palavras de Marighella.

Quando o fundador da ALN rompeu oficialmente com o PCB, em 1966, alegou que o partido estava traindo os ideais revolucionários que herdara ao supostamente defender uma via pacífica de ação:

Em vez de uma tática e estratégia revolucionárias, tudo é reduzido – aberta ou veladamente – a uma impossível e inaceitável saída pacífica, a uma ilusória redemocratização (imprópria até no termo).

Parece não se ter compreendido Lênin quando em “Duas Táticas” afirma que “os grandes problemas da vida dos povos se resolvem somente pela força”.
Em outra parte, falando sobre a vitória, acrescenta Lênin que esta “deverá apoiar-se inevitavelmente na força armada das massas, na insurreição”, e não em tais ou quais instituições criadas “por via legal” e “pacífica”. [1]

Carteira do PCB de Marighella

A violência não era uma deturpação da oposição ao regime militar oriunda do medo e do desespero gerados pela repressão: a violência era a manifestação mais honesta e clara do espírito revolucionário. Marighella não apenas o admitiu claramente, mas invocou-o como um dos motivos pelos quais estava abandonando o PCB e seguindo um caminho próprio.

Ao fundar o Agrupamento Comunista de São Paulo, que depois se tornaria a ALN, Marighella deixa ainda mais evidente que a violência guerrilheira é a própria essência de seu afã revolucionário:

Pensamos sobre a guerrilha o mesmo que a Conferência da OLAS [Organização Latino-Americana de Solidariedade] quando, no ponto 10 de sua “Declaração Geral”, apresenta a guerrilha como embrião dos Exércitos de Libertação e como método mais eficaz para iniciar e desenvolver a luta revolucionária na maioria dos países latino-americanos.

Não se trata, portanto, de desencadear a guerrilha como um foco, como querem insinuar nossos inimigos, acusando-nos daquilo que não pretendemos fazer.

O foco seria lançar um grupo de homens armados em qualquer parte do Brasil, e esperar que, em consequência disso, surgissem outros focos em pontos diferentes do país. Se assim fizéssemos, estaríamos adotando uma posição tipicamente espontaneísta e o erro seria fatal.

Para nós, a guerrilha brasileira não terá condições de vitória senão como parte de um plano estratégico e tático global.
Isto quer dizer que a guerrilha exige preparação e que o seu desencadeamento depende dessa preparação. A preparação da guerrilha, coisa muito complexa e muito séria, não pode ser vista com leviandade. Tal preparação exige o adestramento do combatente, a coleta de armas, a escolha do terreno, a fixação da estratégia e da tática a seguir, e, por fim, o estabelecimento do plano de apoio logístico. [2]
A guerrilha não é, portanto, apenas um recurso extremo utilizado em casos excepcionais: para Marighella, “a guerrilha é a vanguarda revolucionária, o seu núcleo fundamental, e constitui o centro do trabalho dos comunistas e demais patriotas”. Não é possível revolução sem ação revolucionária, e esta se apóia essencialmente na violência. Mais adiante, escreve Marighella:
Precisamos agora de uma organização clandestina, pequena, bem estruturada, flexível, móvel. Uma organização de vanguarda para agir, para praticar a ação revolucionária constante e diária, e não para permanecer em discussões e reuniões intermináveis.

Uma organização vigilante, severa contra os delatores, aplicando os métodos de segurança eficientes para evitar que venha a ser destroçada pela polícia e para impedir a infiltração do inimigo.

Os membros desta organização são homens e mulheres decididos a fazer a revolução. Os comunistas de tal organização são companheiros e companheiras de espírito de iniciativa, livres de qualquer espírito burocrático e rotineiro, que não esperam pelos chamados assistentes, nem ficam de braços cruzados aguardando ordens.

Ninguém é obrigado a pertencer a esta organização. Os que a aceitam, tal como ela é e dela vêm fazer parte, só o fazem voluntariamente, só querem ter compromissos com a revolução.
[3]

Cap. Charles Rodney Chandler, uma das vítimas dos “heróis” incensados pelo governo.

Não havia santos. Não havia inocentes. As coisas sempre, desde o começo, foram colocadas de maneira clara, claríssima: acreditamos na violência, abraçamo-la como um modus vivendi, deixamo-la penetrar em cada um de nossos poros e a ela nos entregamos de corpo e alma sem pressões, voluntária e deliberadamente. Em outro documento, Marighella repisa a defesa da violência:
As organizações revolucionárias que se dedicaram ao proselitismo no transcurso de 1968 não conseguiram avançar. A outra maneira do crescimento das organizações revolucionárias rejeita o proselitismo e dá ênfase ao desencadeamento das ações revolucionárias, apelando para a violência extrema e o radicalismo.

Foi esta a maneira que preferimos, por ser a mais convincente, quando se trata de derrubar a ditadura com a força das massas e através da luta armada, repudiando o jogo político das personalidades e grupos burgueses.

Quando utilizamos o método da ação revolucionária, os elementos que vêm às nossas fileiras só o fazem porque desejam lutar e sabem que não encontrarão outra alternativa entre nós senão a luta prática e concreta.

Sendo o nosso caminho o da violência, do radicalismo e do terrorismo (as únicas armas que podem ser antepostas com eficiência à violência inominável da ditadura) os que afluem à nossa organização não virão enganados, e sim, atraídos pela violência que nos caracteriza.
[4]
Não havia perspectiva de nada parecido com democracia nas táticas, nas ações e nos planos estratégicos de Marighella. Ele não foi um lutador da liberdade, alguém que dedicou sua vida a uma causa nobre, elevada: Marighella foi um facínora, um homem que aspirava “à tomada do poder pela violência da guerra revolucionária”.

Anistiar Carlos Marighella e chamá-lo de “herói” é, no mínimo, uma ofensa terrível a todos aqueles que perderam seus bens, sua saúde e, em última instância, suas vidas em virtude da sanguinária sede de poder das hostes marxistas. Com esse gesto, o governo brasileiro indica perfeitamente quem deve compor o panteão de heróis da nação: “guerrilheiros, terroristas e assaltantes”, homens devotados ao coletivismo ditatorial, à supressão da liberdade, à perseguição, à barbárie, à morte, homens que pavimentaram com os crânios de inocentes seu caminho revolucionário.

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Notas

[1] “Carta à Executiva”, 1º de dezembro de 1966. In: Escritos de Carlos Marighella. São Paulo: Editorial Livramento, 1979, p. 93.

[2] “Pronunciamento do Agrupamento Comunista de São Paulo”, 1968. In: Escritos de Carlos Marighella. São Paulo: Editorial Livramento, 1979, p. 132.

[3] “Pronunciamento do Agrupamento Comunista de São Paulo”, 1968.
In: Escritos de Carlos Marighella. São Paulo: Editorial Livramento, 1979, p. 133-134.

[4] “O Papel da Ação Revolucionária na Organização”, maio de 1968. In: REIS FILHO, Daniel Aarão; FERREIRA DE SÁ, Jair (Org.). Imagens da Revolução: Documentos políticos das organizações clandestinas de esquerda dos anos 1961 – 1971. Rio de Janeiro: Editora Marco Zero, 1985, p. 212.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

A nova cruzada laicista

A diversidade e a tolerância são dois fundamentos essenciais de qualquer sociedade justa. O embate entre ideias divergentes é uma força motriz de grande importância para a saúde social dos homens – desde que, claro, seja conduzida dentro dos limites morais, os quais são impossíveis de ignorar sem colocar em risco a própria civilização. Assim sendo, partimos do seguinte pressuposto: há, por um lado, muitas questões que são opináveis por se relacionarem a problemas contingenciais e, portanto, não se vertem em obrigações morais de per si; e, por outro lado, há questões que não são opináveis, cuja vigência independe das contingências locais e temporais por se relacionarem à natureza humana. Na defesa das questões opináveis, um indicador da seriedade de quem toma uma posição é a coerência. Exemplo: se eu defendo que o governo não deve se intrometer na economia, é lógico deduzir que eu também teria de defender que o salário mínimo fosse abolido. Quando nos deparamos com alguém que não apresenta essa coerência, há duas possibilidades: ou sua crença naquela ideia não é honesta, ou seus objetivos ao defender essa crença não são honestos.


Coerência e honestidade são, como sói acontecer nesses tempos revolucionários, artigos raríssimos cuja alarmante escassez nos fez, ao longo do tempo, transformá-los não em itens obrigatórios, mas em adornos acessórios. E existem alguns indivíduos que menosprezam completamente esses acessórios, não por ignorância, mas voluntariamente. Curiosamente, a esmagadora maioria desses indivíduos se auto-intitula “livre pensador”, “progressista” ou “libertário”, alegando serem dotados de “consciência social”, “espírito democrático” e outros termos politicamente corretos que estão na moda. Tudo isso é uma cortina de fumaça para esconder a real ânsia totalitária que subjaz a essa retórica florida e perfumada.

Dentre as inúmeras bandeiras levantadas pelo vulgo progressista, uma delas é a defesa do Estado laico – ou melhor, é isso o que eles alegam. O velho cadáver insepulto do laicismo, que já fedia na época dos jacobinos, parece ter um efeito hipnotizador sobre algumas mentes. A separação entre Igreja e Estado não foi suficiente, pelo visto: é preciso igualmente sufocar qualquer manifestação pública de religiosidade que respingue, de alguma forma, no trono do Leviatã. Nos últimos tempos, temos visto uma grande quantidade de ações vergonhosas que buscam levar o laicismo – um dos muitos artigos de fé do credo revolucionário – a todos os lugares, solapando aos poucos as manifestações públicas de crença religiosa. Em um discurso ao corpo diplomático junto à Santa Sé, afirmou o Papa João Paulo II:
As comunidades de crentes estão presentes em todas as sociedades, expressão da dimensão religiosa da pessoa humana. Por conseguinte, os fiéis esperam poder participar legitimamente no diálogo público. Infelizmente, deve-se observar que nem sempre é assim. Nestes últimos tempos, em certos países da Europa, nós somos testemunhas de uma atitude que poderia pôr em perigo o respeito efetivo pela liberdade de religião. Se o mundo inteiro concorda em respeitar o sentimento religioso dos indivíduos, não se pode dizer a mesma coisa do “fato religioso”, ou seja, da dimensão social das religiões, esquecendo-se dos compromissos assumidos no contexto daquela que então se chamava a “Conferência sobre a Cooperação e a Segurança na Europa”. Evoca-se com frequência o princípio da laicidade, em si mesma legítima, quando é compreendida como distinção entre a comunidade política e as religiões (cf. Gaudium et spes, 76). Todavia, distinção não quer dizer ignorância! Laicidade não é laicismo! Ela não é senão o respeito por todos os credos por parte do Estado, que assegura o livre exercício das atividades cultuais, espirituais, culturais e caritativas das comunidades dos crentes. Numa sociedade pluralista, a laicidade é um lugar de comunicação entre as diferentes tradições espirituais e a nação. Pelo contrário, as relações Igreja-Estado podem e devem dar lugar a um diálogo respeitoso, portador de experiências e de valores fecundos para o futuro de uma nação. Um diálogo sadio entre o Estado e as Igrejas que não são concorrentes, mas parceiros, pode sem dúvida favorecer o desenvolvimento integral da pessoa humana e a harmonia da sociedade.
No preâmbulo da Constituição Federal de 1988, diz-se que a Carta Magna foi promulgada “sob a proteção de Deus”. Apesar de se estabelecer claramente que, no Brasil, existe independência entre as religiões e o Estado – “[é] vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança” (Cf. Constituição Federal, art. 19, I) –, a deformada mente laicista vê nisso uma afronta ao princípio do Estado laico. Ela vê também na presença de crucifixos em repartições públicas uma evidência de que o Estado brasileiro não respeita a laicidade.

Mas não paramos por aí. A novidade agora é que a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão em São Paulo ajuizou pedido à Justiça Federal para que as cédulas de real não mais sejam impressas com a frase “Deus seja louvado”. Alegando que “é sabido que inúmeras pessoas têm sua liberdade de crença ofendida diante da ostentação da expressão ‘Deus seja louvado’ das cédulas brasileiras”, o procurador Jefferson Aparecido Dias – cuja formação foi fortemente influenciada pelo neomarxista Joaquín Herrera Flores e pelo jurista marxista Antonio Carlos Wolkmer, ligado a Roberto Lyra Filho e o chamado “Direito Achado na Rua” – defende que a liberdade religiosa não é respeitada no Brasil em virtude da presença dessa frase nas cédulas de dinheiro. E vai além:
[D]o mesmo modo que a presença de crucifixo em salas de aula pode representar diretriz a balizar os caminhos religiosos a serem seguidos pelos jovens alunos, com a mentalidade e caráter ainda em desenvolvimento, em razão da possibilidade de associação entre a religião ali representada e a escola, fonte do saber, assim também o é com a presença da expressão “Deus seja louvado” em cédulas de Real, devido à potencialidade da associação a ser realizada pelos jovens brasileiros, os quais também se utilizam do Real para atender suas necessidades materiais, entre as religiões que professam a fé em Deus e o dinheiro, instrumento de poder aquisitivo.
O procurador Jefferson Aparecido Dias

O eminentíssimo Dr. Aparecido Dias deve conhecer bastante o drama de todas aquelas “inúmeras pessoas têm sua liberdade de crença ofendida diante da ostentação da expressão ‘Deus seja louvado’ das cédulas brasileiras”. Ele aponta também que a “manutenção da situação em discussão constrange a liberdade de religião de todos os cidadãos que não cultuam Deus, tais quais os ateus e os que professam a religião budista, muçulmana, hindu e as diversas religiões de origem africana.”

É até de se imaginar a cena: um babalorixá – ou um praticante de wicca, ou um budista Mahayana, ou um muçulmano sunita, ou um sikh ostentando um suntuoso turbante colorido sobre o rosto barbado, ou até mesmo um daqueles ateus bem descolados, com direito a camiseta do Richard Dawkins – vai descontar um cheque na boca do caixa e recebe, trêmulo, notas e mais notas de real; nenhuma, nenhumazinha sequer, escapa do lastimável e grotesco destino de ter sua superfície tingida com as ignominiosas palavras “Deus seja louvado”. Descargas de adrenalina, uma trava na garganta, olhos embaçados... Ultrajante, simplesmente ultrajante.

Caso o zeloso Dr. Aparecido Dias prossiga em sua impetuosa cruzada contra quaisquer manifestações que, a exemplo da frase “Deus seja louvado” das notas de real, é possível induzir quais são as ações vindouras: a mudança do nome de todos os logradouros, bairros, vilas, cidades e estados que levam nomes de cunho cristão – Espírito Santo, São João Del Rey, São Paulo, Santa Catarina, Belém, e inúmeros outros – para nomes neutros que não ofendam os não-cristãos; a eliminação de todos os feriados e pontos facultativos motivados por religião, como o dia de Nossa Senhora Aparecida (12 de outubro); a proibição da instalação de presépios e outras decorações de Natal por parte dos governos federal, estaduais e municipais; a proibição do uso de adornos de cunho religioso por parte de servidores públicos durante o horário de expediente; a dissolução das capelanias das corporações militares; e, por que não?, a mudança do calendário – afinal, essa história de “antes de Cristo” e “depois de Cristo” claramente privilegia Jesus em detrimento de outras figuras religiosas, certo?

Curiosamente, nem o eminente procurador, nem qualquer um dos defensores dessa visão laicista levantou a voz contra a permanência das estátuas da deusa pagã Têmis em todos os tribunais brasileiros. Aliás, não há qualquer menção de se constranger manifestações públicas de qualquer religião exceto o cristianismo. Quando a organização da Parada Gay de São Paulo – financiada largamente com dinheiro público, diga-se de passagem – utilizou, em 2011, fotos que imitavam santos da Igreja Católica em suas propagandas, ou quando invadiram a igreja de Nossa Senhora de Copacabana durante um protesto feminista, nada foi dito quanto ao constrangimento da liberdade religiosa dos cristãos. O que parece estar em jogo não é a liberdade religiosa dos cidadãos brasileiros, mas o aparente excesso de liberdade religiosa dos cristãos.

Isso é que é respeito à liberdade religiosa!

Aliás, vale mencionar algo no mínimo irônico. As notas de real levam impressas a efígie da República, imagem construída pelos revolucionários jacobinos durante o banho de sangue que promoveram na França de fins do século XVIII. A imagem da República, batizada pelos jacobinos de Marianne, teve uma inusitada inspiração: a sacerdotisa Semíramis, esposa de Nimrod. O soberano Nimrod foi o governante babilônico que, considerando ser uma injusta escravidão servir a Deus, decidiu desafiá-Lo construindo a Torre de Babel. Nimrod queria mostrar com isso que o homem não precisava de Deus para absolutamente nada, e que era um dever do homem fazer pouco do Criador.

Qualquer semelhança com a situação atual não é mera coincidência.