terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Vergonha nacional: Marighella é anistiado


Ontem, dia 5 de dezembro, na cidade de Salvador/BA, foi anunciada a concessão de anistia a Carlos Marighella, líder da Aliança Libertadora Nacional (ALN). O anúncio ocorreu no primeiro dia da 53ª Caravana da Anistia, realizada pelo Ministério da Justiça. A data desse anúncio não foi escolhida de maneira aleatória: o dia 5 de dezembro de 2011 marca o centenário de nascimento de Marighella.

No site do Ministério da Justiça sobre a 53ª Caravana da Anistia, assim é relatada brevemente a história de Marighella (grifos meus):
Filho de imigrantes italianos, Marighella lutou pela inclusão dos direitos econômicos das classes populares. Ele sonhava com um Brasil livre da submissão ao capital estrangeiro. Sua primeira prisão foi em 1932, após escrever um poema contendo críticas ao interventor Juracy Magalhães. Libertado, continuou na militância política no Rio de Janeiro. Em 1° de maio de 1936, Marighella foi novamente preso e enfrentou, durante 23 dias, torturas. Permaneceu encarcerado por um ano.

Já em São Paulo, Marighella trabalhou na reorganização dos revolucionários comunistas e combateu a ditadura de Getúlio Vargas. Em 1939, foi preso novamente, sendo mais uma vez torturado na Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) de São Paulo.

Nos presídios de Fernando de Noronha e Ilha Grande pelo seis anos seguintes, dirigiu sua energia revolucionária ao trabalho de educação cultural e política dos companheiros de cadeia.

Participou do processo de redemocratização do país e da reorganização do Partido Comunista depois que foi anistiado em abril de 1945. Foi eleito deputado federal constituinte pelo estado da Bahia. Em 1948, foi obrigado a retornar à clandestinidade condição em que permaneceria por mais de duas décadas, até seu assassinato.

Nos anos 1950, voltou a exercer novamente a militância em São Paulo e tomou parte nas lutas populares do período. Após o golpe militar de 1964, Marighella foi localizado por agentes do DOPS carioca em 9 de maio num cinema do bairro da Tijuca. Enfrentou os policiais que o cercavam com socos e gritos de “Abaixo a ditadura militar fascista” e “Viva a democracia”, recebendo um tiro a queima-roupa no peito. O episódio está descrito no livro “Por que resisti à prisão”.

Desse momento em diante, intensificou o combate à ditadura. Em dezembro de 1966, em carta à Comissão Executiva do PCB, solicitou o desligamento da mesma. Fundou a Ação Libertadora Nacional para enfrentar a ditadura.

Marighella passou a ser apontado como inimigo público do Estado, transformando-se em alvo da polícia política. Na noite de 4 de novembro de 1969, foi surpreendido por uma emboscada na alameda Casa Branca, na capital paulista, quando foi assassinado por agentes do DOPS.
Carlos Marighella – que foi referido no evento de anúncio de sua anistia como um “herói do povo brasileiro” – escreveu um documento intitulado “Sobre a Organização dos Revolucionários”, que contém linhas programáticas e de ação da ALN. Segue abaixo alguns trechos elucidativos (grifos meus):
Toda a infra-estrutura revolucionária é baseada na conceituação estratégica e decorre da ação correlata com a estratégia revolucionária. Não pode haver infra-estrutura revolucionária sem aperfeiçoamento técnico do guerrilheiro.

Para manejar as armas, explosivos, munições; para fazer sabotagem, colocar minas, explosivos, explodir pontes, precisamos técnicos e técnicos com visão estratégica da revolução brasileira.
Com os guerrilheiros que possuem preparo técnico é que podemos montar uma correta infra-estrutura revolucionária.

[...]

Todos nós somos guerrilheiros, terroristas e assaltantes e não homens que dependem de votos de outros revolucionários ou de quem quer que seja para se desempenharem do dever de fazer a revolução. O centralismo democrático não se aplica a Organizações revolucionárias como a nossa.
O professor Daniel Aarão Reis, que foi militante do MR-8, afirmou, em entrevista a Élio Gaspari (grifo meu):
As ações armadas da esquerda brasileira não devem ser mitigadas. Nem para um lado nem para o outro. Não compartilho a lenda de que no fim dos anos 1960 e no início de 1970 (inclusive eu) fomos o braço armado de uma resistência democrática. Acho isso um mito surgido durante a campanha da anistia. Ao longo do processo de radicalização iniciado em 1961, o projeto das organizações de esquerda que defendiam a luta armada era revolucionário, ofensivo e ditatorial. Pretendia-se implantar uma ditadura revolucionária. Não existe um só documento dessas organizações em que elas se apresentam como instrumento da resistência democrática.
A organização fundada por esse “herói do povo brasileiro”, a ALN, foi responsável por 17 assassinatos, além de inúmeras ações de assalto, sabotagem e seqüestro – inclusive a abdução do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick. Uma das pessoas assassinadas pela ALN foi o comerciante cearense José Armando Rodrigues. De acordo com o relatório Orvil (p. 490, grifos meus):
Se as ações armadas, pela freqüência e pelos recursos auferidos, contrastavam com a atividade subversiva nos grandes centros, o mesmo não se podia dizer de sua violência. Em 29 de agosto [de 1970], o seqüestro e o assassinato do comerciante José Armando Rodrigues, proprietário da firma Ibiapaba Comercial Ltda [sic], em São Benedito/CE, revoltaram a opinião pública. Após assaltarem a loja, os terroristas da ALN levaram José Armando, sob a ameaça de revólveres, amarraram-no com cordas para prevenir resistências, torturaram-no – barbaramente espancado, conforme laudo cadavérico –, assassinaram-no a tiros e lançaram seu corpo num precipício, na Serra de Ibiapaba (26).

Os assaltantes recolheram 32 mil cruzeiros da loja do comerciante, sem qualquer reação. Por que o mataram? A resposta à pergunta envolve-se no absurdo, quando se sabe que dois de seus assassinos eram os ex-seminaristas Antonio Espiridião Neto e Waldemar Rodrigues de Menezes – este, o autor dos disparos. Cabe uma reflexão sobre o assunto: onde teriam assimilado tanto ódio e violência? No ensino cristão dos seminários ou na curta estada em Cuba? O fanatismo ideológico teria transformado o modesto comerciante de São Benedito em burguês monopolista, associado ao imperialismo norte-americano?
Os assassinos de Rodrigues não estavam deturpando a luta ou os ideais da ALN, mas tão somente cumprindo à risca as palavras ditas por Marighella. Esse é um dos frutos da luta desse “herói do povo brasileiro”, que foi anistiado pelo governo federal.

O governo brasileiro está, oficialmente, homenageando “guerrilheiros, terroristas e assaltantes” (nas palavras do próprio Marighella). E quanto às pessoas que sabidamente foram assassinadas pela ALN? E quanto à família de José Armando Rodrigues? Não teria sido esse humilde comerciante – que extraía seu sustento de maneira legítima e legal através de um empreendimento lícito –, comparado ao terrorista Marighella, o verdadeiro herói?

2 comentários:

  1. Olá, li com atenção o que esse post diz dele*, eu nada sabia sobre esse homem, só lia no twitter; fiquei aterrorizada com a história: sua vida e morte*) nem tenho palavras pra comentar, "pavor..."¨
    Estou seguindo este blog, mas não apareceu o meu nome e minha foto, qual o proble/ma (?)
    Sou a Mery/Rio de Janeiro.
    Um forte abraço e obrigada pela postagem, muito esclarecedora.

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  2. Sabe por que não concordo com sua conclusão? Porque quem tomou o poder à força de tanques, metralhadoras e fuzis foi a direita, apoiada nos militares e em empresários, paranóicos com a possibilidade de que o Brasil pudesse se transformar da noite para o dia em um país comunista. Com apoio destes e do governo dos E.Unidos, à época, cometeram-se arbitrariedades das mais diversas desde o primeiro minuto da Revolução Redentora: fecharam o Congresso, prenderam pessoas, destituíram servidores públicos como professores e administradores públicos, baniram cidadãos, fecharam todas as organizações de representação dos estudantes e dos trabalhadores - tudo isso com a promessa de devolver o poder aos civis em um ano, o qual, obviamente, não ocorreu. A partir daí, emitiram leis de exceção (atos institucionais) que culminaram, em 1968, com o AI 5 - que retirava todas as garantias civis. Daí o direito/dever que cidadãos conscientes da época tinham de insurgir-se e tentar mudar essa situação. Claro, foram tratados como 'terroristas' e 'subversivos', mas quem tinha feito a nação de refém haviam sido os militares e seus asseclas civis.
    Ser conservador é defender ditaduras? Então tá ...

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