sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O Manifesto do Moderno Manifestante

O texto abaixo, que me foi indicado via Twitter pelo leitor Vinicius Cortez, conseguiu captar com maestria o espírito dos eternos manifestantes que, movidos pela vulgata marxista travestida de sofisticada sensibilidade social pós-moderna, crêem estar mudando inexoravelmente o mundo em meio a seus faniquitos de intolerância e autoritarismo. Não sei quando o texto foi escrito, mas deve ser bastante recente. Em todo caso, sua mensagem cabe perfeitamente nos diversos casos que temos acompanhado, especialmente na USP.

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O Manifesto do Moderno Manifestante
Nicholas Antongiavanni


1. Nenhum mal é tão trivial que possa ser suportado, mesmo por um dia; nenhuma injustiça é tão pequena que sua reparação possa esperar, mesmo por uma hora.

2. Até que o mundo seja perfeito e a justiça reine suprema, continuar com a vida ou negociar alguma coisa publicamente é imoral e egoísta.

3. Assim sendo, todos os meios (inclusive a violência) são justificados -- não, obrigatórios -- para interromper o curso ordinário da vida até o momento em que todas as injustiças sejam reparadas.

4. O valor moral de alguém é determinado muito mais por suas opiniões sociais e políticas do que por suas ações e comportamentos com os outros.

5. Com uma exceção: a coisa mais nobre, moral e corajosa que alguém pode fazer é participar de (ou, melhor ainda, organizar) um protesto.

6. Sendo assim, qualquer que seja ostensivamente o assunto de um protesto, ele é fundamentalmente sobre ele próprio.

7. Não existem tais coisas como coincidência, ou sorte, ou azar, ou defeitos incorrigíveis e inerentes, ou problemas. Se alguma coisa -- qualquer coisa, em qualquer lugar -- é errada, injusta, desigual, trágica, inconveniente, incômoda, vexatória, ou meramente percebida como tal, não é apenas culpa de alguém, mas esse alguém está lucrando injustamente a expensas de outra pessoa. O que quer dizer que a pergunta “Quem/A quem” de Lênin -- “quem” está forçando isso “a quem”? – acerca da interação humana é fundamentalmente verdadeira.

7a. Todos os povos e indivíduos devem, portanto, ser classificados ou como opressores, ou como oprimidos.

7b. Os oprimidos são, como um todo, uma coalizão de vários grupos oprimidos. Independente de suas aparentes diferenças, eles compartilham os mesmos interesses fundamentais pelo fato de todos serem oprimidos.

7c. O que quer que os opressores digam sobre padrões de justiça ou moralidade é, a priori, errado, uma vez que deve-se presumir que os inventaram sofisticamente para benefício próprio. O mais sagaz -- e mais pernicioso -- desses sofismas é a noção de direito natural, i.e., que existe um padrão permanente de justiça que não é determinado por escolha ou opinião humanas. Mas a verdade é que todo padrão declarado de direito natural é um instrumento dos opressores que o inventam e promovem. A única informação confiável sobre justiça vem dos oprimidos, porque apenas eles têm espírito público e pureza de coração. Além disso, por somente os oprimidos sofrerem onde quer que apenas os opressores causam sofrimento, somente os oprimidos podem julgar o que é sofrimento e como ele afeta a alma humana. Uma vez que não há padrão permanente de justiça, a resposta ou reação da alma individual a quaisquer ações é o único fator arbitrário para determinar a justeza ou injustiça de qualquer ação. Assim, justiça e injustiça são o que quer que os oprimidos digam.

7d. Membros individuais da classe opressora podem ser salvos ao adotar as opiniões morais corretas, pedir perdão de seus superiores morais, e através da participação em protestos. Um indivíduo salvo, entretanto, nunca será moralmente equivalente a um membro dos oprimidos, pois -- querendo ou não -- ele tem se beneficiado das injustiças estruturais que o favorecem a expensas dos oprimidos. Dessa forma, o ensinamento bíblico de “castigar a iniqüidade dos pais nos filhos” (Êxodo 20:5-6, Deuteronômio 5:9-10) é verdadeira.

7e. Se um membro dos oprimidos tem as opiniões erradas, é uma prova de que ele foi enganado ou vítima de lavagem cerebral por um ou mais opressores. Alguém deve ter pena dele em seu coração porque ela sabe não o que faz, mas esse alguém tem a obrigação de denunciá-lo como um traidor, de modo a desencorajar outras defecções.

8. Os Estados Unidos foi fundado por opressores por excelência, e suas instituições foram desenvolvidas com o único propósito de perpetuar seus interesses egoístas a expensas dos oprimidos. Aprimoramentos subseqüentes dessas instituições não devem ser mencionados (Cf. Princípio nº 11, abaixo), e, em qualquer caso, esses aprimoramentos no máximo mitigaram, mas não corrigiram as piores falhas do regime, as quais não podem ser corrigidas sem uma revolução. Dessa forma, deve-se protestar contra a política doméstica dos Estados Unidos a qualquer tempo.

9. As relações dos Estados Unidos com nações e povos estrangeiros é fundamentalmente idêntica às relações do regime e da classe dominante americanos com seus cidadãos oprimidos. Assim sendo, todas as políticas externas dos Estados Unidos estão sempre erradas, e deve-se protestar contra elas a qualquer tempo.

10. Outras causas dignas de protesto são determinadas de maneira pontual e somente (não é necessário dizer) por membros dos oprimidos. O fato de uma injustiça ser mal-explicada, ou não se parecer em absoluto com uma injustiça, não importa.

10a. Opressores não têm reclamações legítimas.

10b. Da mesma forma, os oprimidos são responsáveis apenas por aqueles cujas ações produzem resultados favoráveis; os opressores são responsáveis por todas as outras ações. Assim, os oprimidos podem declarar como injustiças não apenas aquelas coisas feitas a eles pelos opressores, mas também todos os atos desagradáveis causados ostensivamente por seu próprio comportamento.

10c. Todos os membros dos grupos oprimidos são obrigados a apoiar os protestos específicos de quaisquer dos outros grupos oprimidos. Protestos mesclados são permitidos, mas apenas com o prévio consentimento expresso dos líderes de cada um dos grupos oprimidos envolvidos.

10d. A grande tradição de protestos esquerdistas -- contra McCarthy, pelo fim da Guerra do Vietnã, pela garantia dos direitos de afro-americanos -- repercutem na glória eterna de todos os protestos e manifestantes esquerdistas subseqüentes. Assim sendo, a noção de “mérito adquirido pelos ancestrais” é também verdadeira, mas apenas para manifestantes.

10e. Uma vez que, no passado, injustiças monstruosas como segregação foram reparadas através de protestos esquerdistas, qualquer injustiça que os manifestantes esquerdistas escolham como alvo é, ipso facto, uma injustiça monstruosa comparável à segregação e deve ser combatida pelos mesmos métodos intransigentes. Cf. Princípio nº 1 acima; cf. também Jackson, o Reverendo Jesse, e “Selma”.

11. Se algum protesto faz com que alguma pessoa ou instituição opressora mude de comportamento, ela não deve receber nenhum crédito ou voto de confiança, porque a mudança foi coercitiva e contra sua vontade. Também, uma vez que a ganância dos opressores não conhece limites, deve-se presumir que tal pessoa ou instituição continua cometendo alguma injustiça, ou então reverteu seus esforços para alguma nova campanha de injustiça.

12. Assim sendo, sempre que um protesto ou séries de protesto terminam, os manifestantes são obrigados a protestar contra alguma outra coisa.

13. Enquanto o objetivo de protestar é dar fim à injustiça e criar um mundo perfeito (Cf. nº 2, acima), deve-se lembrar que a justiça está evoluindo continuamente (Cf. nº 7c, acima). Assim sendo, novas injustiças e aquelas reconhecidas hoje como tais são descobertas todos os dias. Esse processo pode nunca chegar a terminar; Nietzsche e Heidegger podem estar certos. Ou talvez isso possa chegar ao fim; Hegel e Marx podem estar certos. Entretanto, mesmo que um fim se aproxime, isso vai demorar muito tempo. Uma vez que protestar é tanto divertido quanto satisfaz emocionalmente, isso é uma coisa boa. Então, pinte alguns cartazes, pegue um megafone, e vá para a rua!

Michael Anton, que escreve sob o pseudônimo de Nicholas Antongiavanni, é um dos diretores da White House Writers Group e foi porta-voz da Casa Branca em assuntos de política externa e defesa durante o governo George W. Bush.

2 comentários:

  1. Prezado, os textos de terceiros aqui publicados em geral são muito bons, mas sinto falta dos textos originais! Por favor não pare de escrever, pois assunto certamente não falta.
    Abs.

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  2. A ausência de textos originais se deve ao trabalho e ao aumento da carga de estudos nessa reta final de semestre. Por ora, tem sido mais fácil para mim traduzir um texto do que escrevê-lo do zero, mesmo porque eu sempre faço uma extensa pesquisa sobre o assunto antes de escrever alguma coisa. Mas não deixarei de escrever, fique tranquilo! =)

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