sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Estudantes, os eternos inimputáveis

Um grupo de três universitários é abordado pela polícia na frente da faculdade em que estudam, dentro do campus. Os policiais enquadram os estudantes, que, sem resistência, são conduzidos à viatura policial de modo a serem levados para a delegacia. Outros estudantes, que acompanham de perto a cena, decidem reagir a essa aparente arbitrariedade da força de segurança pública e atacam os policiais com paus e pedras, ferindo três deles. Tendo rechaçada a atuação da equipe policial, os bravos rebeldes invadem o prédio administrativo da faculdade e exigem que a polícia seja expulsa do campus universitário alegando que sua presença reprime a organização política dos estudantes e representa uma ameaça às suas liberdades civis.

Se estivéssemos durante o afamado Maio de 1968, essa cena seria corriqueira e, é provável, contaria com um grande apoio, tanto dentro quanto fora da universidade. Afinal, cenas de jovens idealistas, movidos romanticamente por concepções de mundo “progressistas” e “libertárias”, sendo combatidos por policiais uniformizados, armados de cassetetes, munidos de escudos e, por vezes, montando cavalos ou trazendo a tiracolo cães treinados, são imagens de fortíssimo apelo emocional. Não é preciso nenhum pingo de senso crítico, de análise minudente ou de raciocínio lógico para se construir o conceito de que a juventude está se manifestando legitimamente contra as iniqüidades do Sistema e que, vitimadas pelo autoritarismo dos cruéis aparatos de repressão do Estado, tem a sua liberdade violada, cerceada, aniquilada sem dó nem piedade.

Carros transformados em barricadas pelos manifestantes parisienses em 1968.

Entretanto, esse quadro romântico, a um só tempo belo e maldito, por mais sedutor que seja, não encontra eco na realidade sob qualquer perspectiva. As concepções de mundo daqueles estudantes eram tão “libertárias” quanto os campos de reeducação de Cuba, as execuções da Revolução Cultural chinesa e a fome provocada pelo governo soviético na Ucrânia. Prédios foram invadidos, patrimônio público e privado foi depredado, e “acadêmicos” apologéticos de sistemas coletivistas, regimes supressores da liberdade e da dignidade humanas, foram alçados à condição de potentados da intelligentsia pós-moderna -- Herbert Marcuse, Louis Althusser, Max Horkheimer e outros.

O mito de 1968 persiste na mentalidade universitária brasileira de um modo surpreendentemente (ou não) insistente. Adicionado a isso, tem-se visto um ingrediente interessante nessas manifestações estudantis: a exigência da inimputabilidade. A lógica que se tenta vender é a mesma de antes, a de que as causas e os métodos não são apenas legítimos, mas moralmente superiores. As pessoas envolvidas nesses protestos costumam também ser do mesmo tipo daquelas de 1968 -- jovens de classe média-alta, cujas vontades sempre foram imediatamente supridas pelos pais e que, na falta de necessidade de alguma atividade produtiva, podem dedicar seu tempo a uma inócua masturbação pseudo-intelectual com teorias que recendem naftalina.

A invasão ao prédio administrativo da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas) e, em seguida, à reitoria da USP, mostra isso com clareza. Além disso, essas ações mostram uma natureza profundamente antidemocrática. Afinal, onde está a defesa da liberdade na manobra rasteira de manipulação de uma votação em assembléia para justificar o seqüestro de um prédio público? Onde está a tolerância quando jornalistas são agredidos fisicamente? Onde está a legitimidade de uma manifestação -- que teve como motivação primeira a indignação por não se poder fumar maconha impunemente -- conduzida por pessoas que, como membros de uma facção criminosa que se rebelam dentro da penitenciária, picham muros, arrebentam portas e preparam um pequeno estoque de combustível e coquetéis molotov?

Instrumentos da revolução uspiana. Fonte: Terra.

Mas possuir essa estirpe de estudante não é prerrogativa exclusiva da USP. A Universidade de Brasília possui uma boa cota de universitários profissionais que, sustentados pelos próprios pais (ora coniventes, ora alheios às atividades dos filhos) ou por partidos políticos, defendem bandeiras “progressistas” com métodos nada democráticos. Durante a votação do Código Florestal, numa sessão conjunta da Comissão de Agricultura e Reforma Agrária com a Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado Federal, um grupo de estudantes achou de bom alvitre colar cartazes nos corredores e gritar palavras de ordem para tumultuar a sessão. Com a aprovação do código, os manifestantes impediram a passagem dos senadores e, ao tentarem ser contidos pela Polícia Legislativa, principiaram um tumulto. Um dos estudantes -- que havia tentado livrar um amigo que chamara um dos os policiais de “ladrão” e estava sendo detido por desacato – foi imobilizado por agentes de segurança e, ao resistir à prisão com socos e pontapés, acabou paralisado por um tiro de pistola elétrica.

O reitor da UnB, o Grande Timoneiro José Geraldo, decidiu inquirir o presidente do Senado, o temível voivode José Sarney, sobre o incidente. Segundo o reitor, a detenção do estudante “aparentemente viola as regras estabelecidas em normativas internacionais sobre uso de força e proteção aos direitos humanos por agentes públicos, relativamente a qualquer ato que possa ser configurado como tortura, tratamento cruel, desumano ou degradante, ou que aplique meios excessivos em face de outras técnicas que permitam, se necessário, contenção”. O senador Sarney, por sua vez, afastou o policial que paralisou o rapaz e, em nota, disse que “o Senado Federal jamais tolerará violência ou qualquer tipo de abuso contra aqueles que se dirigem à Casa para defender suas idéias democraticamente”. Exatamente: tentar atrapalhar uma sessão pública, constranger senadores no exercício de sua função e recorrer a agressão e desacato significa “defender suas idéias democraticamente”. Nesse quesito, tanto o voivode maranhense quanto o Grande Timoneiro da UnB parecem concordar plenamente.

Responsabilidade individual, para essas pessoas, não passa de uma tergiversação autoritária que visa a solapar o sacramentado direito de fazer o que se bem entende de maneira completamente inconseqüente. É coisa de reacionários conservadores, essa espécie de gente anacrônica e sem escrúpulos que nada contra a maré progressista, insistindo em defender valores ultrapassados como respeito, tolerância e liberdade.

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