sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Bebês adultos

Mark Steyn
National Review Online


Na quinta-feira da semana passada, ocorreu oficialmente o "Dia da Consciência para a Necessidade de Fralda" no estado de Connecticut. Você estava sabendo? Há tantos dias de conscientização que é difícil acompanhá-los. Talvez pudéssemos ter um Dia de Consciência para o Dia de Conscientização. Em todo caso, o primeiro Dia da Consciência para a Necessidade de Fralda anual foi proclamado por Dan Malloy, governador do Estado Nós-Moscada[¹], e foi realizada uma grande e tradicional manifestação em New Haven. Ainda não está claro se eles têm um lacinho oficial. Estamos com um pouco de escassez em lacinhos coloridos nesses dias: não há apenas lacinhos rosas para câncer de mama, mas também azul-petróleo para agorafobia, lilás para refluxo de ácido, lacinhos em rosa-e-azul para embolia de fluido amniótico, e lacinhos listrados para esclerose lateral amiotrófica. Poderíamos criar um Dia da Consciência de Cor de Lacinhos para chamar a atenção sobre como temos falhado na busca por mais cores de lacinhos.

Se você está pensando em que tipo de criatura ignora a questão das fraldas, você está equivocado: a representante Rosa DeLauro, de Connecticut, está chamando a atenção para a necessidade de fraldas de modo a, como noticiou o Politico, "forçar o Governo Federal a fornecer fraldas gratuitamente para famílias pobres." A congressista DeLauro é autora do DIAPER Act[²] -- quer dizer, a Lei de Investimento e Auxílio de Fraldas para Promover a Recuperação Econômica. Não se preocupe, não é welfare, é "estímulo". Como a Fox News colocou, "uma congressista norte-americana de Connecticut quer aquecer a economia oferecendo fraldas grátis para famílias de baixa renda." Tendo em vista que zilhões de dólares investidos na criação de empregos ecológicos para fabricar eco-carros na Finlândia e o programa federal para comprar armas para cartéis de drogas mexicanos e todas as outras fascinantes inovações da administração Obama não funcionaram, quem disse que pegar dinheiro emprestado com o Politburo chinês e enfiá-lo nas fraldas de seus filhos não é o tipo de pensamento arrojado que vai dar certo?

Na verdade, o governo federal já fornece fraldas gratuitamente para pelo menos um americano sortudo. Stanley Thornton Jr., da Califórnia, recebe um auxílio-invalidez do Programa de Seguridade Suplementar da Administração de Seguridade Social para ficar em casa o dia inteiro usando uma fralda e um macacão de bebê gigantes, com uma chupeta enorme na boca e brincando com um grande chocalho infantil. Stanley Jr. é dono de um website para outros "bebês adultos" chamado BedWettingABDL.com. Acredito que escutei sobre o fenômeno dos "bebês adultos" pela primeira vez há alguns anos em Londres. Se minha memória não falha, havia um clube em que os membros deitavam em berços gigantes enquanto uma babá de seios enormes lia estórias de ninar. Celebridades menores e possivelmente alguns parlamentares do Partido Conservador estariam envolvidos. Naqueles dias, era o que chamávamos de "fetiche" e você tinha que pagar do seu próprio bolso. Agora é "invalidez" e o governo dos Estados Unidos paga a conta. E, se isso não é progresso, o que poderia ser?

Aconteceu de o Senador Tom Coburn levar Stan com sua babá e outro beneficiário do auxílio invalidez para a um reality show, e indagar como um sujeito capaz de administrar um website popular e fazer trabalhos de carpintaria complicados, como sua própria cadeirinha infantil gigante, poderia ser legitimamente classificado de "incapaz". Mas a Administração de Seguridade Social disse que Junior se encaixa na classificação, e o senador Coburn foi condenado como um insensível: se os republicanos tivessem o que queriam, as ruas estariam cheias de bebês gigantes gritando "eu quero minha mãe!" Do mesmo jeito, se a congressista DeLauro conseguir o que quer e o estouro das fraldas do governo der certo, Stanley Thornton Jr. ainda terá permissão para estacionar seu triciclo gigante na vaga de deficientes enquanto aquela mãe solteira de Hartford terá de deixar seu Toyota atrás do estacionamento e caminhar.

Um homem fisicamente capaz pago pelo governo dos Estados Unidos para deitar em um berço gigante molhando suas fraldas semana após semana é uma imagem pungente e emblemática do crepúsculo da república. Mas, como Hilaire Belloc escreveu: "Sempre perto de uma enfermeira estar / Por medo de algo pior encontrar"[³]. Na semana passada, a ABC News noticiou:
Em um evento milionário hoje em San Francisco para levantar fundos, o presidente Obama alertou seus apoiadores prejudicados pela recessão que uma nova e dolorosa era de auto-suficiência poderia surgir se ele perder a eleição de 2012.
Oh, não! Que horror!

"Auto-suficiência" é agora algo pejorativo? Que bom que isso foi esclarecido. E San Francisco, a cidade que tem mais cães do que crianças matriculadas em suas escolas e onde os adultos são necessariamente as crianças que eles nunca se preocuparam em ter, parece ser o lugar perfeito para anunciar isso oficialmente. Em tempos menos iluminados, "auto-suficiência" foi o grande princípio animador da experiência americana. Pelos padrões de hoje, George III foi um dos mais governantes mais benignos e gentis da terra: vocês foram seus fardos chorões, e ele foi sua régia babá. Então, um bando de colonos em pequenas vilas lutando contra a natureza distantes milhares de milhas de Sua Majestade a Babá decidiram que não precisavam dela e que poderiam se virar sozinhos. Qual é a palavra para isso? Ah, sim: auto-suficiência.

Está tarde demais para um Dia da Consciência de Auto-Suficiência? Não, não há lacinhos. Faça seu próprio maldito lacinho. Se isso é pedir demais, que tal um Dia da Consciência do Débito Multi-Trilionário? O lacinho começa preto e, pouco a pouco, vai se transformando em vermelho. E que tal um Dia de Nós Gastamos Todo o Dinheiro Incluindo o Dinheiro para um Lacinho de Conscientização? Um Dia de Consciência da Crise Social Iminente?

Sim, sim. Estou consciente do custo que as fraldas acrescem no fim do mês, e você não pode pagar por elas com vale-alimentação. Difícil. Este país está quebrado. Como eu já disse antes, temos que pagar US$ 15 trilhões apenas para voltar à estaca zero. E isso é muito mais do que qualquer um já teve de pagar. Você sabia disso? Um grande número cada vez mais angustiante de americanos que pedem por mais aconchego no berço do governo parecem ignorar isso totalmente.

A congressista DeLauro está pensando muito pequeno: talvez todo mundo pudesse ter fraldas grátis. Como sugere uma olhada de relance na manchete do texto, não há praticamente nada que você não possa fazer o governo pagar para você, mas não há sentido em pedir mais. Em seu bojo, o movimento "Ocupe Wall Street" (no sentido mais de política do que de fraldas) é uma demanda por uma adolescência estendida às expensas públicas. Não se engane. Tirar um cochilo ao som de círculos de tambores o dia inteiro é mais perigoso do que parece. Semana passada, algumas dezenas de membros do "Ocupe Las Vegas" ocupando um espaço sob a área de aproximação da Pista 19 do Aeroporto Internacional McCarran quase foram atingidos por um pedaço de 25 kg do que é eufemisticamente chamado de "gelo azul", que caiu do banheiro do avião do presidente. Talvez, como um símbolo da América pós-auto-suficiência para bebês adultos, o Air Force One deveria ser posto numa fralda gigante.


Mark Steyn, colunista do National Review Online, é autor do livro “After America: Get Ready for Armageddon”.
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Notas do tradutor

[1] Tradução de Nutmeg State, apelido do Estado de Connecticut.
[2] Diaper Investment and Aid to Promote Economic Recovery Act.
[3] Trecho do poema "Jim, who ran away from his nurse, and was eaten by a lion", de Hilaire Belloc. No original: “Always keep a hold of Nurse / For fear of finding something worse.”

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