domingo, 13 de novembro de 2011

A Aliança pela Liberdade e os estudantes da UnB

Paulo Roberto de Almeida

A UnB possui, ao que parece com status de ciência, um curso de Astrologia. Aliás, mais do que isso: trata-se de um Núcleo inteiro de estudos, o de Fenômenos Paranormais, que promove, ao que se informa, pesquisas e cursos em quatro áreas: astrologia, ufologia, conscienciologia e terapias integrativas.

Bem, eu aposto que nenhum dos especialistas trabalhando nessas áreas, ou mesmo qualquer outro ser pensante, operando com “chutes” a partir de dados empíricos da realidade, poderia prever que, num campus universitário tão bizarro quanto esse que responde pelo nome de UnB, o corpo discente acabaria colocando na direção do Diretório Central do Estudantes, a chapa vencedora que responde pelo singelo nome de “Aliança pela Liberdade”. Aposto, justamente, que colocando as eleições para o DCE no quadro de apostas daqueles bookmakers ingleses (que são capazes de apostar até qual é o número exato de gays da família real britânica), a vitória da chapa chamada de “conservadora” pelos sete outras concorrentes não faria mais do que 25 por 1, quem sabe até mais do que isso. Confesso que eu também, conhecendo a UnB, seus fantásticos alunos e seus professores maravilhosos, não apostaria muito dinheiro no sucesso dessa chapa.

Mas, por incrível que isso possa parecer, neste glorioso mês de outubro de 2011, venceu a sensatez, a racionalidade, o desejável, o simples bom senso. Em face de um vasto leque de chapas concorrentes (oito no total), todas com alguma coisa agressiva no nome – tipo “Ação Direta”, “Mobiliza”, ou mesmo aquela poeticamente intitulada “Canto Maior” –, de todas essas que prometiam, menos uma, continuar a luta de classes por outros meios, ganhou a única que declarava sua intenção de ocupar-se prioritariamente dos assuntos estudantis, da melhoria das condições de estudo, numa UnB passavelmente caótica e entregue a grupelhos políticos e seitas ideológicas que remetem não ao século XXI da globalização, mas ao século XIX dos movimentos anticapitalistas.

A esquerda delirante, subitamente acometida de alguns laivos de razão, atribui sua derrota à tradicional divisão entre essas tribos exóticas, que, de outro modo, teriam vencido pelo total de votos (4.004 votos, contra os 1.280 da chapa vencedora, ou 22% do total). As chapas de esquerda lutavam por coisas estranhas como: “Fortalecer o trote solidário”, “Combater o Plano Nacional de Educação” (e a UNE, por extensão), “Realização do Congresso Estatuinte”, ou ainda aumentar a assistência estudantil e as prestações de muitas coisas, sem quaisquer contrapartidas. A chapa vencedora, por sua vez, prometia objetivos compreensivelmente pragmáticos, do tipo: “Implantar parlamento de estudantes, onde cada Centro Acadêmico terá uma cadeira; Apoiar as fundações como forma de financiamento; Criação de Parque Tecnológico e término das obras da UnB-Ceilândia; Fortalecer as empresas juniores e o intercâmbio com instituições estrangeiras; Reivindicar por novas concessões de lanchonetes, reprografias, livrarias e restaurantes nos campi.”

Parece que, por uma vez, os estudantes da UnB resolveram deixar de lado a luta de classes e assumir a luta pela melhoria das condições de ensino e de estudo no campus.  Ainda assim, cabe registrar, como o fez o presidente da chapa eleita, que 25 mil alunos não votaram nas eleições, seja por cansaço natural, isto é, descrença nas possibilidades de ações pragmáticas, seja por desinteresse puro e simples pelo ativismo político. O fato é que o “caos natural” que afeta a UnB não é diferente dos problemas de muitas outras universidades públicas, federais ou estaduais, nas quais o corporativismo de professores e funcionários se mistura ao militantismo de correntes minoritárias para criar um ambiente de baixa produtividade, a ineficiência geral dos serviços de apoio e uma tolerância mediocrizante com os baixos padrões educacionais exibidos pela maior parte delas.

Eu encerro meu comentário, extremamente rápido, sobre as eleições na UnB com estas simples palavras, que pretendo reveladoras do meu pensamento e dos temores que mantenho – como provavelmente dezenas ou centenas de outros estudantes que simplesmente desejam estudar – em relação a um processo de degradação dos padrões educacionais no Brasil atual (e na vida pública em geral).

Considero que o Brasil enveredou, desde muito tempo – ou seja, todo esse cenário de corrupção agravada e de mediocrização crescente da vida pública vem de muito antes que energúmenos tenham conquistado o poder no Brasil – por uma via que só pode levá-lo à decadência gradual e constante. Trata-se de um processo já conhecido em outras experiências internacionais de retrocessos sociais, econômicos e políticos, como podemos constatar pela Argentina atual (que ainda não parou de decair), pela Grã-Bretanha pré-Thatcher (quero dizer, nos primeiros oitenta anos do século XX) e pela China pré-anos 1990 (mas que ainda não se enquadrou em padrões civilizatórios mais elevados no plano da estrutura política), ou seja, todo o processo de decadência chinesa, que leva de meados da dinastia Qing (talvez desde o século XVII), até a superação do maoísmo delirante, já sob o comando de novos mandarins esclarecidos (mas igualmente despóticos).

Esse retrocesso, no caso do Brasil, se traduz em sindicalismo mafioso (muito parecido com o processo argentino), em introversão econômica (e aqui temos muitos países que seguem a receita do avestruz), e em aumento da corrupção generalizada (pela chegada de amorais e de imorais no comando do Estado). Mais importante, porém, do que todos os atrasos e retrocessos materiais que possam ocorrer em decorrência dos fenômenos e processos apontados acima, o que é mais revelador do retrocesso brasileiro é o atraso mental em que vivem dezenas, centenas, milhares de pessoas detentoras de algum poder em escala social – militantes de partidos, dirigentes políticos, empresários e simples cidadãos – e que partilham das mesmas ideias imbecilizantes que as manifestadas em quase todas as chapas derrotadas nas eleições do DCE-UnB.

Os estudantes-militantes que defendem aquelas posições são perfeitamente representativos do que existe de pior na sociedade brasileira atualmente, e esse pior está perfeitamente instalado no poder. Sou, sim, pessimista quanto ao futuro do Brasil, ao vê-lo dominado pelas mesmas ideias – ou seus equivalentes funcionais – que levaram outros países à decadência e à irrelevância. De vez em quando, muito acidentalmente, pessoas sensatas resolvem dar uma virada, como ocorreu agora na UnB, mas na maior parte das vezes o quadro é desolador.

Espero que o exemplo da UnB frutifique e se multiplique, embora eu tenha muitas dúvidas sobre se, quanto, e quando isso vai acontecer em outros lugares e instituições. Espero estar errado em meu pessimismo pessimista – desculpem, mas a redundância me pareceu necessária – mas o que vejo pelo Brasil afora me deixa muito preocupado. Acredito que vamos empreender uma longa travessia do deserto, por paragens perfeitamente medíocres, com educação em retrocesso, com instituições dilapidadas pelos novos bárbaros que estão ai assaltando e dominando o Estado.

Espero estar errado, mas é o que penso atualmente.


Paulo Roberto de Almeida é Doutor em Ciências Sociais pela Université Libre de Bruxelles, professor do Instituto Rio Branco e diplomata de carreira do Ministério de Relações Exteriores.

2 comentários:

  1. Agradeço a transcrição desse post do meu blog Diplomatizzando neste blog de estudantes da UnB. Eu apenas o fiz porque se tratava realmente de algo excepcional, ou seja, de reação de estudantes a um quadro de deterioração visível das condições "mentais" de trabalho e estudo na UnB, ainda que as condições materiais possam melhorar gradativamente (o progresso é uma fatalidade, como diria Mário de Andrade).
    Apenas uma observação, quanto ao fundo, e ela toca na própria designação do blog e do grupo de estudantes que o sustenta e agita.
    "Conservador" é, por definição, o indivíduo que pretende conservar o que existe. Mas, e se o que existe é manifestamente mau, perverso, inadequado, anacrônico?
    Sei que vocês querem conservar os bons valores, os princípios corretos e as diretrizes mais adequadas ao progresso da UnB e do Brasil, tal como espelhadas e representadas pelos personagens que vocês colocaram em destaque, todos intelectuais de destaque, e eu até diria progressistas, no contexto de suas respectivas épocas.
    Se existe uma coisa de que o Brasil, e a UnB mais ainda, necessita são de reformas, reformas em todas as áreas e setores.
    Então, eu diria que o que deveria distingui-los e guia-los nessa luta contra os novos bárbaros seria o sentido de REFORMA, não de conservação.
    Cordialmente,
    Paulo Roberto de Almeida

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  2. Prof. Dr. Paulo Roberto,

    Primeiramente, agradeço seu comentário.

    Em segundo lugar, o sr. tocou no ponto exato: somos jovens conservadores porque queremos conservar os valores sobre os quais se construiu o próprio conceito de universidade, valores estes que se encontram sob ataque constante nos dias de hoje.

    Além disso, a escolha do nome foi feita de modo a propiciar um exercício de tolerância e respeito: como as esquerdas se auto-intitulam bastiões da democracia, queríamos testar seu espírito democrático ao utilizar uma denominação forte. Foi quase uma experiência sociológica, e que suscitou descobertas interessantes.

    De fato, o impulso que nos move na luta contra os novos bárbaros é o de reforma -- e, sob alguns aspectos, o de restauração daqueles valores basilares da universidade que têm sido dilapidados ao longo das décadas.

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