segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Brincando com palavras e imagens

A Secretaria de Propaganda Comunicação da Universidade de Brasília nos ensinou hoje uma grande lição: se você já passou pela UnB alguma vez na sua vida, você sempre será um apêndice da universidade, e qualquer, absolutamente qualquer conquista que tiver não será fruto de seu esforço pessoal, mas de sua passagem pela instituição.

Hoje, foram publicados trechos de uma matéria do G1 de sábado passado, dia 8 de outubro (disponível na íntegra aqui), sobre brasileiros que fazem graduação e pós-graduação no California Institute of Technology (Caltech), que fica na cidade de Pasadena. A Caltech encabeça o ranking das 400 melhores universidades do mundo da revista Times Higher Education (THE). No mesmo ranking, a Universidade de São Paulo (USP) encontra-se na 178ª posição, e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), na 294ª posição. Vale lembrar não existe o mais ínfimo traço de existência da UnB no ranking da THE.

Um dos alunos da Caltech é o economista Guilherme de Freitas, que está desenvolvendo uma pesquisa sobre a aplicação da teoria dos jogos em regulações e regras. O doutorando estudou -- verbo conjugado no passado -- na Universidade de Brasília. Não estuda mais. Não há mais vínculo formal com a UnB. Um dos detaques dado ao recorte da Secom à matéria do G1 é que Freitas "credita parte de sua vocação aos docentes com quem teve aulas na Universidade de Brasília (UnB)". Bonito, certamente. Só que, quando se analisa o quadro como um todo, o leitor desavisado pode ser levado a entender coisas que estão bem longe da verdade.

Semana passada, no dia 5 de outubro, ocorreu a premiação das melhores universidades brasileiras de acordo com o ranking elaborado pelo Guia do Estudante, da Editora Abril. Pelo terceiro ano consecutivo, a Universidade de Brasília ocupou o primeiro lugar na área de Ciências Humanas e Sociais. A premiação tem sido alardeada institucionalmente como sendo uma grandiosa conquista da universidade; para ver o tamanho do alarde, é só notar o tamanho do banner sobre o assunto:


É importante valorizar o prêmio? Claro que sim. Na situação calamitosa em que se encontra a universidade, qualquer premiação é sinal de que ainda temos alguma esperança de ser uma universidade de renome e relevância internacionais num futuro longínquo. O que se objetiva fazer com esse jogo de imagens e palavras é muito maior do que celebrar a conquista do prêmio do Guia do Estudante ou comemorar a conquista de um ex-aluno (repito, ex-aluno) da UnB. Afinal, o economista Freitas é tratado pela Secom como aluno da UnB, o que não é verdade. A prova está abaixo:


Falar sobre esse tipo de coisa é exagero? Talvez. Mas lógica que se quer incutir é que não apenas a Universidade de Brasília é uma instituição fantástica, incrível e fenomenal -- com base num ranking elaborado pela Editora Abril, a mesma da revista Veja, que é a, na visão da UnB, a encarnação da mídia golpista conservadora reacionária malévola e sanguinária --, mas que a UnB também faz parte da Caltech (ainda que indiretamente) já que um de seus alunos está lá. A perversão da lógica reside em, sub-repticiamente (quer dizer, implicitamente, tacitamente, discretamente), dizer que a UnB é tão boa que um de seus alunos está na Caltech, e que ele só está lá por causa da suposta excelência UnB.

Trocando em miúdos: se você passou pela UnB, esforçou-se bastante para estudar muito, buscou novas oportunidades e teve a felicidade de ser bem-sucedido, o mérito não é seu. A partir do momento em que você entrou na Universidade de Brasília, você deixou de ser João, ou Maria, ou Joaquim, ou Antônia, e se transformou em um apêndice pulsante da universidade. Esforço e mérito individuais são invencionices da lógica neoliberal: você é um sucesso porque a UnB o fez assim.

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