quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Paulo Freire, uma vida pela Revolução


Como já deve ser do conhecimento de muita gente, a Semana Universitária da UnB deste ano -- que acontecerá de 1º a 8 de outubro -- terá como tema "90 ANOS DE PAULO FREIRE: um marco para a reflexão sobre os rumos da Universidade Brasileira". Bom, muita gente nem deve saber quem é Paulo Freire. Poucas pessoas que não são ligadas ao meio acadêmico já ouviram falar dele. Então, vamos esclarecer algumas coisas.

Está vendo a foto acima? Esse velhinho de apecto bondoso, de barbas e cabelos brancos, é Paulo Freire. Nasceu em Recife no ano de 1921. Cursou Direito na Universidade do Recife -- sim, ele não era pedagogo de formação --, exilou-se na Bolívia e no Chile durante o Regime Militar, e voltou ao país em 1979. Morreu em 1997, aos 75 anos. Sua obra mais famosa é "Pedagogia do Oprimido" (1968), lançada quando ele estava no Chile. Era um crente entusiástico da Teologia da Libertação -- uma espécie de teologia cristã socialista que basicamente mistura Karl Marx e Jesus Cristo.

De acordo com um texto publicado hoje no portal da UnB pela mestranda Lívia Gimenes Dias da Fonseca -- assessora do nosso Grande Timoneiro e defensora do Direito Achado na Lua Rua --, o estimado educador "tinha em sua prática pedagógica a destituição da realidade injusta por meio de uma educação em que os/as envolvidos/as se descobrissem sujeitos históricos ativos para que os direitos pudessem começar a serem conquistados e não doados". Assim sendo, a pedagogia freireana está firmemente baseada na ideia de que a função da educação é libertar os oprimidos. Bonito, não é?

Mas não é só isso. Para Paulo Freire, a educação não tinha por objetivo emancipar as pessoas, torná-las aptas a interpretar o mundo e agir nele de acordo com a sua própria vontade, mas servir de meio de agitação revolucionária através de uma abordagem dialógica. Ele deixa isso bem claro em "A teoria da ação antidialógica", o quarto capítulo de seu livro Pedagogia do Oprimido (grifo nosso):
Salientamos, mais uma vez, que não estabelecemos nenhuma dicotomia entre o diálogo e a ação revolucionária, como se houvesse um tempo de diálogo, e outro, diferente, de revolução. Afirmamos, pelo contrário, que o diálogo é a “essência” da ação revolucionária.
Em outra passagem particularmente interessante do mesmo capítulo, afirma o bom velhinho da educação libertária (grifos nossos):
É que, indiscutivelmente, os profissionais, de formação universitária ou não, de quaisquer especialidades, são homens que estiveram sob a “sobredeterminação” de uma cultura de dominação, que os constituiu como seres duais. Poderiam, inclusive, ter vindo das classes populares e a deformação, no fundo, seria a mesma, se não pior. Estes profissionais, contudo, são necessários à reorganização da nova sociedade. E, como grande número entre eles, mesmo tocados do “medo da liberdade” e relutando em aderir a uma ação libertadora, em verdade são mais equivocados que outra coisa, nos parece que não só poderiam, mas deveriam ser reeducados pela revolução.

Isto exige da revolução no poder que, prolongando o que antes foi ação cultural dialógica, instaure a “revolução cultural”. Desta maneira, o poder revolucionário, conscientizado e conscientizador, não apenas é um poder, mas um novo poder; um poder que não é só freio necessário aos que pretendam continuar negando os homens, mas também um convite valente a todos os que queiram participar da reconstrução da sociedade.

Neste sentido é que a “revolução cultural” é a continuação necessária da ação cultural dialógica que deve ser realizada no processo interior à chegada ao poder.
Revolução cultural. Você já devem ter ouvido falar disso, não? A revolução cultural defendida tão ardorosamente por Paulo Freire foi posta em prática num certo país asiático que, hoje, é a 2ª economia mundial: a China. Após 17 anos de governo, Mao Tsé-Tung lançou, em 1966, a chamada Revolução Cultural Chinesa. Durante essa revolução, algumas cenas tornaram-se comuns na China: professores foram linchados por estudantes, presos e executados pela Guarda Vermelha, ou se viram obrigados a fugir do país; livros foram queimados em praça pública; políticos e burocratas acusados de traição ou pouca ortodoxia foram sumariamente executados; e, finalmente, o Livro Vermelho, uma coletânea de pensamentos de Mao Tsé-Tung, foi alçado à condição de livro fundamental na sociedade chinesa, elevando o Grande Timoneiro (o chinês, não o da UnB) ao status de divindade terrestre.

Aliás, essa não é a única "coincidência" entre Freire e Mao. Em diversas passagens do livro Pedagogia do Oprimido, o autor cita Mao Tsé-Tung como uma referência. Ao falar da necessidade de reestruturar sob uma perspectiva revolucionária o conhecimento passado aos estudantes, Freire cita uma conversa entre Mao e o escritor francês André Malraux: “Vous savez que je proclame depuis longtemps: nous devons enseigner aux masses avec précision ce que nous avons reçu d’elles avec confusion” (tradução livre: "Você sabe que eu proclamo há muito tempo: temos de ensinar às massas exatamente o que aprenderam de modo confuso."). Aliás, Mao não é o único a ser citado: Lenin, Marx, Althusser, até Che Guevara são citados frequentemente.

Bom, poderíamos chamar de manipulação ideológica o ato de "reestruturar sob uma perspectiva revolucionária". Também poderíamos afirmar que valer-se de pessoas que, juntas, mataram cerca de 40 milhões de pessoas em governos ditatoriais sangrentos é, no fim das contas, defender a palavra de assassinos em massa. Mas isso seria maldoso demais. Jamais esse grande humanista poderia querer transformar a educação num processo explícito de doutrinação ideológica que permitisse à elite revolucionária usar o povo de massa de manobra. 

Afinal, olhe só para ele. Como não acreditar nesse bom velhinho?

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Nomes que nos inspiram

Há algum tempo, como já devem ter notado, resolvemos mudar um pouco o layout do blog para que ficasse um pouco mais personalizado. Na barra do topo, colocamos algumas figuras que certamente servem como inspiração para muitas das nossas ideias. Muitos dos rostos acima não são conhecidos. Atendendo a pedidos, esse post terá como objetivo falar um pouco mais sobre quem são essas pessoas.

Adam Smith (1723 - 1790) - Considerado o pai da Economia moderna, o escocês Adam Smith é um dos maiores teóricos do liberalismo econômico. Sua obra mais importante e conhecida é "A Riqueza das Nações" (ou "Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações", de 1776). Outro livro de destaque deste economista e filósofo é "Teoria dos Sentimentos Morais" (1759), primeira obra de Smith.

Alexis Henri Charles Clérel, Visconde de Tocqueville (1805 - 1859) - Mais conhecido como Alexis de Tocqueville, foi historiador, escritor e pensador político. Escreveu "Da Democracia na América" (1835), um clássico da teoria política que trata do sistema político dos Estados Unidos durante a presidência de Andrew Jackson, e "O Antigo Regime e a Revolução" (1856), que trata da França pré-revolucionária, bem como as causas e as consequências da Revolução de 1789.

Edmund Burke (1729 - 1797) - Reconhecido como o pai do Conservadorismo moderno, Burke foi um ardoroso defensor da Revolução Americana de 1776, bem como um crítico contumaz da Revolução Francesa. Uma de suas obras mais conhecidas é "Reflexões sobre a Revolução em França" (1790), obra que tem por objetivo esmiuçar as bases do movimento revolucionário francês e atacá-lo.

Claude Frédéric Bastiat (1801 - 1850) - Um dos grandes expoentes da Economia liberal clássica, o legado de Bastiat ainda está bastante vivo no pensamento econômico, como na Escola Austríaca. Seus ensaios econômicos atacaram práticas econômicas que são erroneamente tomadas como benéficas para a sociedade, como o protecionismo e a expansão de gastos públicos com a justificativa de garantir emprego e renda. Também tratou de temas político-filosóficos, como na obra "A Lei" (1850).

Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo (1849 - 1910) - Político, diplomata, historiador, jurista e jornalista brasileiro, Joaquim Nabuco é um dos grandes vultos da história nacional. Participou da fundação da Academia Brasileira de Letras, e foi um dos maiores defensores da causa abolicionista. Publicou, dentre outras obras, os livros "O Abolicionismo" (1883) e "Minha Formação" (1900), esta de cunho autobiográfico. Foi amigo pessoal de Rui Barbosa.

Rui Barbosa de Oliveira (1849 - 1923) - Conhecido pela alcunha de "O Águia de Haia", foi jurista, político, diplomata, escritor, filólogo e tradutor, sendo também conhecido como um orador hábil. Foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras, sucedendo Machado de Assis na presidência da entidade no ano de 1908. Sua obra mais conhecida é, certamente, "Oração aos Moços" (1920), discurso que escreveu aos formandos da turma de 1920 da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, da qual era paraninfo.

Eric Herman Wilhelm Voegelin (1901 - 1985) - Filósofo e cientista político alemão, Voegelin é considerado “um dos mais distintos intérpretes das correntes não liberais do pensamento europeu”, de acordo com a American Political Science Review. Foi um dos grandes críticos do chamado pós-modernismo, e influenciou o pensamento conservador contemporâneo -- sobretudo com a obra "A Nova Ciência da Política" (1952).

Ayn Rand (1905 - 1982) - Nascida na Rússia czarista, Alisa Zinov'yevna Rosenbaum fugiu para os Estados Unidos em 1926 para escapar da perseguição do governo comunista soviético. Escreveu peças de teatro para a Broadway e desenvolveu uma escola filosófica chamada Objetivismo. Sua obra mais famosa, "A Revolta de Atlas" (1957), lançou as bases da filosofia objetivista. Apesar de ter sido libertária, e não conservadora, sua defesa das liberdades individuais, da propriedade privada e da livre iniciativa. Outra obra que merece atenção é "A Virtude do Egoísmo" (1964).

Ludwig Heinrich Edler von Mises (1881 - 1973) - Economista, historiador e filósofo austríaco, foi um dos fundadores da Escola Austríaca de Economia e da Sociedade de Mont Pelerin. Dedicou-se a analisar aspectos econômicos das sociedades modernas sob o prisma do liberalismo clássico, bem como destrinchar as origens e as manifestações de ideologias totalitárias. Dentre suas obras mais famosa estão "Ação Humana" (1949), considerada sua magnum opus, e "As Seis Lições" (1979), fruto de um ciclo de palestras que proferiu na Argentina em 1959.

Russell Kirk (1918 - 1994) - Responsável por organizar metodologicamente o pensamento conservador pós-Segunda Guerra, Kirk foi um notório historiador, crítico literário e teórico político norte-americano. Sua obra fundamental é "The Conservative Mind" (1953), que analisa a evolução o histórica do Conservadorismo desde Edmund Burke até o século XX. Um de seus textos mais simples e eloquentes sobre a essência do pensamento conservador chama-se "Dez Princípios Conservadores" (extraído da obra "The Politics of Prudence", de 1993).

Friedrich August von Hayek (1899 - 1992) - Um dos mais importantes discípulos de Mises, Hayek foi um filósofo e economista austríaco de grande renome. Vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 1974, suas obras dedicaram-se a defender o livre mercado e a combater ideologias totalitárias e coletivistas. Junto com Mises e outros intelectuais, fundou a Sociedade de Mont Pelerin. Sua obra mais importante é, certamente, "O Caminho da Servidão" (1944). Em 1981, Hayek fez uma palestra na Universidade de Brasília.

Olavo de Carvalho (1947 -) - Ensaísta, jornalista e filósofo brasileiro, Olavo de Carvalho mora atualmente nos Estados Unidos e coordena um seminário de filosofia on-line que conta com mais de 4 mil alunos. Seus textos filosóficos e políticos enfatizam "a defesa da interioridade humana contra a tirania da autoridade coletiva, sobretudo quando escorada numa ideologia 'científica'". Suas obras mais importantes são "O Jardim das Aflições" (1995), "Aristóteles em Nova Perspectiva" (1996) e "O Imbecil Coletivo" (1996).

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Neutralidade ou ditadura da rede?

Hoje, dia 22 de setembro, está acontecendo na Faculdade de Comunicação (FAC) da Universidade de Brasília o seminário "Banda Larga como Direito: Balanço do PNBL e perspectivas para a universalização do serviço". A proposta do seminário é, grosso modo, dar um boost no Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) e tratar de assuntos sensíveis referentes à socialização da internet no Brasil. Um desses assuntos é a neutralidade da rede. Mas o que vem a ser isso?

O professor Sergio Amadeu da Silveira, um dos debatedores do seminário, definiu o que vem a ser neutralidade na rede em um texto publicado hoje no blog do panfleteiro jornalista progressista, popular e revolucionário Luis Nassif:
O que vem a ser a neutralidade da rede? Em poucas palavras, esse princípio impede que o controlador da infra-estrutura física das redes digitais possa controlar os fluxos de informação que por elas transitam. Dito de outro modo, o dono das redes físicas deve ser neutro em relação ao tráfego de informações. Na prática, a neutralidade impede que as Operadoras da Telecom possam bloquear pacotes de dados, filtrar o tráfego e definir que tipo de aplicações podem andar mais ou menos rápido dentro dos seus cabos e fibras óticas.
Para compreender de um jeito lúdico e didático, bem paulo-freireano, o que vem a ser neutralidade da rede, vamos pegar como exemplo os Correios. Como bem sabemos, os Correios detém o monopólio do serviço postal e de uma boa parte do serviço de encomendas do Brasil, e, como tal, detém controle sobre um bom pedaço da infra-estrutura física de serviço postal e de encomendas. Suponhamos que três indivíduos queiram utilizar serviços diferentes dos Correios:
  1. O indivíduo A, que mora em Brasília/DF, deseja enviar uma carta social (tipo mais simples de correspondência, cuja postagem cuja apenas R$ 0,01) para Goiânia/GO;
  2. O indivíduo B, que mora em Porto Alegre/RS, deseja enviar uma correspondência comercial via Sedex-10 para Belém/PA;
  3. O indivíduo C, que mora em Fortaleza/CE, deseja enviar um pacote de cerca de 1kg via PAC (encomenda simples) para São Paulo/SP.
Se o princípio da neutralidade da rede fosse aplicado aos Correios, a carta social do indivíduo A, o Sedex-10 do indivíduo B e a encomenda normal do indivíduo C deveriam ser tratados de maneira igual, sem qualquer tipo de preferência, pelos Correios. Além disso, não deveria haver nenhum tipo de diferença entre os preços cobrados pelos serviços, já que, em tese, a infra-estrutura física utilizada para as entregas é a mesma. Assim sendo, não seria possível aos Correios dar prioridade maior à correspondência enviada pelo Sedex-10 (que deve ser entregada no destino até as 10h00 do dia útil seguinte à remessa), ou cobrar a mais pelo envio do pacote via PAC. Isso faz sentido? Evidente que não.

Voltando ao ambiente virtual, podemos fornecer um outro exemplo: a rede wireless da UnB. Como a Universidade de Brasília controla a infra-estrutura física da internet dentro do campus, ela não poderia dar prioridade à conexão de laboratórios de informática e sistemas de informação e controle em detrimento das centenas de estudantes que utilizam a rede wireless em seus notebooks. Além disso, ela também não poderia impedir o acesso a sites e redes de compartilhamento de dados, e, até mesmo, a sites pornográficos, por exemplo. Novamente, pergunto: isso faz sentido? Não mesmo.

Um dos grandes argumentos para a neutralidade da rede -- o que seria, no fim das contas, controle governamental sobre redes de acesso privadas -- é que as grandes corporações -- que, por definição, são grupos de seres obscuros e sinistros, vagamente humanóides, dotados de uma super-inteligência malévola voltada única e exclusivamente para acumular capital às custas das pessoas comuns -- tenham controle total sobre o tráfego de informações, censurando sites, controlando o que deve ou não ser informado, xeretando a vida dos usuários e outras coisas malvadas. Só que tem um problema: quem costuma querer ter controle total sobre o tráfego de informações, censurando sites, controlando o que deve ou não ser informado, xeretando a vida dos usuários é o governo, e exemplos disso (China, Cuba, Coreia do Norte, dentre outros) não faltam. Mesmo nos Estados Unidos, o Grande Satã bravamente combatido pela intelligentsia esquerdopata progressista, não há uma única evidência concreta de que isso tenha acontecido.

Além disso, a tal neutralidade da rede que tanto se quer instaurar no Brasil impedirá a alocação ótima de recursos dos provedores para fornecer um serviço que seja, de um lado, mais eficiente para os usuários e, do outro, mais lucrativo para a empresa. Isso se reflete imediatamente em aumento dos custos de operação. Esse aumento generalizado dos custos pode afetar pouco as grandes corporações (a galera do mal, lembra?), mas afeta substancialmente empresas menores e mais modestas (como a fictícia XYZ, que citei acima). Esse cenário desestimularia a entrada de novas empresas no mercado, consolidando as grandes corporações no negócio por engessar a livre concorrência e facilitar monopólios. Qualquer semelhança com o corporativismo fascista não é mera coincidência.

O assunto, entretanto, envolve tópicos muito mais complexos, inclusive aspectos de natureza técnica que têm sido abordados de maneira excessivamente ideológica e pouco científica. O que se tem visto, infelizmente, não é a promoção de um debate sério e profundo sobre essa questão, mas um desfile de lugares-comuns com pouca relação com a realidade. Falta responsabilidade, sobram anseios totalitários mal-camuflados.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A bioética do Dr. Garrafa: uma análise

Prezados leitores do blog,

O texto abaixo foi originalmente postado em forma de comentários no texto "A Unb e os (des)caminhos da Bioética". Infelizmente, o autor da análise não deixou contato. Caso se sinta à vontade para fazê-lo, nosso e-mail é unbconservadora@gmail.com. Por acreditar que essa análise não podia ficar relegada somente à área de comentários, será postada na íntegra aqui.
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O artigo do senhor Volnei Garrafa é bem interessante, farei breve comento sobre o mesmo. Acho que é bem vindo.

O artigo inteiro (na realidade ele tem um trecho em português, o resumo) é em inglês. Não traduzirei caso colacione algum fragmento.

A estrutura do artigo é a que se segue abaixo relacionada:
1-Abstract
2-Introduction
3-Infanticide in Indigenous Cultures
3.1-The various motives
3.2-Birth and the cultural construction of the human body
4-The Zuruahá people
4.1-The history of contact
4.2-Infanticide and suicide in Zuruahá culture
5-The case of the two children
5.1-Two cases of infanticide avoided
5.2-The public hearing at the Brazilian National Congress
6-Discussing the morality of infanticide
7-Abortion, infanticide and neonatal euthanasia
8-Possibilities for intervention
9-Conclusion
10-Contributors
11-References
Não disponho de tempo e creio que ninguém disponha de paciência para que eu realize a vivissecção do artigo completo. Irei, portanto, a trechos do mesmo.

(A postagem será longa, no original deu umas nove páginas no word...)

No artigo, são agrupados os motivos para a realização do "infanticídio" (as aspas serão explicadas em momento posterior):
"For practical purposes these reasons can be grouped into three general criteria: the mother's inability to devote the care and attention required for yet another child; the newborn's capacity or incapacity to survive within the physical and socio-cultural environment into which he or she was born; and the preference for one sex over the other."
Dos três motivos, o último, o caso do gênero não agradar à sociedade ou aos genitores, de imediato pode ser tomado como absurdo. O argumento de que a sociedade deles é erigida em uma divisão de trabalho em critério de gênero (não somente) é risível, quando se tem em análise que somente tomamos em consideração os agrupamentos (não vou falar tribos por dois motivos, primeiro, um certo receio dos ficais novilinguísticos; segundo, chamar de "tribo" um agrupamento já "invadido" pela cultura ocidental-destruidora-exploradora-capitalista-devoradora-de-almas é algo forçado) JÁ em contato com o "homem-branco" (afinal, reprimir sem entrar em contato algum é algo que nem mesmo Minority Report jamais sonhou) por exatamente eles terem ferramentas para poderem se apegar menos a esse traço. Acho que mais de dois mil anos de agricultura colaboram para que se tenha um fornecimento de comida a menor dispêndio de esforços que nas culturas tradicionais. Os dois primeiros, a impossibilidade da mãe fornecer cuidado/atenção suficiente para a nova criança e a incapacidade de sobrevivência da criança devem ser visto com cautela, não como critério absoluto para afastar a punição.

O primeiro caso, incapacidade da mãe de fornecer cuidado e atenção, pode ser bidividido, em circunstâncias intrínsecas e extrínsecas. Por intrínsecas temos, a exemplo, disfunções biológicas. Dentro da categoria das intrínsecas, outra bisecção é possível, entre sanáveis e insanáveis. A primeira situação do novo par não tem o condão (pelo menos se tomarmos um ambiente de correção lógica) para se permitir o "infanticídio", o segundo será analisado posteriormente com outra categoria. Caso seja incapacidade de se dar atenção por causas extrínsecas, outra divisão paritária é permitida. A de causas puramente culturais e as de causas oriundas dos arranjos normas da natureza. Novamente, recorreremos à bidivisão, em sanáveis e insanáveis. Falta de alimentos pode ser solucionado com o uso de técnicas de melhora de produção, de ampliação da produção ou de redução de desperdício, traços culturais (ou seja, parcela somente de uma cultura) podem ser alterados com boa vontade. Temos, entretanto, os insolúveis. Tratarei abaixo estes com o que já fora preterido.

No caso de problemas referentes à incapacidade da mãe (olha só, ninguém fala do machismo deles...) cuidar ou dar atenção vindo de problemas insolúveis temos algumas soluções. Primeira e mais simples, controle de natalidade. Nada ostensivo, aulas de educação sexual e meios básicos, e.g. camisinha (se reclamarem que é de produto industrializado que vá ofender algum traço cultural, sugiro tripa d'algum animal no lugar). Outra solução é a retirada da criança do ambiente. Reconheço que o sistema de adoção é ridiculamente ineficaz, mas ainda tenho que uma vida em orfanato é melhor que ser morto em nome de uma cultura (fora que pode ser feita uma ONG ou algo do gênero).

O segundo caso, incapacidade biológica ou social de sobrevivência do infante. Outra secção em duas partes é necessária. A primeira, a social. Incapacidade social como critério para se deixar viver ou não é algo abominável. Negros, judeus, gays, ateus, cristãos, muçulmanos, bascos et cetera, foram trucidados em nome desse critério. Compactuar com esse argumento é assinar embaixo a perseguição a qualquer grupo que não se enquadre em um conceito de "correto". Mais totalitário, impossível.

Quando analisamos o aspecto biológico, temos a técnica como limite. E até mesmo o mais tacanho antropólogo/sociólogo/aluno-típico-de-humanas sabe que vivemos em sociedades complexas, pelo menos mais complexas que a de um agrupamento com traços primitivos (lembrem-se, traços, não a cultura toda, antes que venham me crucificar por ser "eurocêntrico", como se pecado mortal fosse...). Quais limitações devemos tomar como toleráveis? Para mim, só há uma resposta, a nossas coleção de técnicas. Novamente, para os casos insolúveis o infanticídio é questionável.

Seguindo com o texto:
"From this perspective, it can be assumed that in the beginning, there is a non-human body or at least one that is not completely humanized, and it becomes human through the "construction" rites for the body."
Isto é uma frase do trecho que coloca submetida à aceitação cultural o nascimento, isto é, só se é humano se se é culturalmente aceito. Não sendo aceito, a morte não é direcionada a um humano. Somente atenta contra a mínima noção de Direitos Humanos. Esta que é, inclusive, usada para defender esse tipo de barbaridade. Aplica-se somente o que se quer?

E uma pergunta um pouco boba, se não é tomado por humanos pela cultura indígena, devemos tomá-lo como indígena? Isto é, regeremos-nos pelas "nossas" regras ou as "deles"?

Sobre o caso concreto temos:
"The Zuruahá people maintained cautious isolation until 1980, when they were located by a pastoral religious team dedicated to indigenous people in the municipality of Lábrea, in the Amazon region."

"Soon after making contact with the Zuruahá people, the CIMI team realized that they were a tribal group capable of assuring their own self-sustainability and of keeping their culture alive, provided that they remained free from invaders. For this reason, CIMI decided that an attitude of no direct interference with the life of the community should be adopted and that a commitment should be made to fight for the demarcation and protection of the Zuruahá territory. That in fact was achieved soon afterwards, when the National Indian Foundation (FUNAI) implemented this demarcation."

"Four years later, another religious group, the JOCUM evangelical mission (Youths with a Mission), started to work among the Zuruahá people and decided to establish a permanent base in the area."
Até 1980, os Zuruahá mantiveram-se isolados, vindo a entrar em contato com o CIMI, grupo religioso não-intervencionista, o JOCUM, grupo de ação mais direta. Além disso, o agrupamento possui terras demarcadas.
"The high suicide rate mentioned above is an issue that has many correlations with infanticide, the primary interest of this paper. Although suicide is a phenomenon that is completely different to infanticide, given the assumption that an individual who committed suicide had the autonomy to do so, it is important to understand the relationship between infanticide and suicide within the cultural context of the Zuruahá people. Behind living or dying, there is an idea or conceptualization of what life or death is and whether or not it is worthwhile living.

Among the Zuruahá people, this conceptualization is very particular: 'They conceive of human existence along two distinct paths: kunahã agi, the path of those who die by poisoning; and mazaruru agi, the path of those who die naturally" 4 (p. 150). Thus, death is the scope of existence. The consequences of this thinking are seen in numbers. Taking the reference point of the statistical data mentioned above, it can be inferred that "the principal factors relating to mortality among the Zuruahá are eminently social: 7.6% of all deaths are caused by infanticide and 57.6% by suicide' "

"In dealing with the topic of infanticide, Kroemer reported that newborn girls from a single mother are expected to be killed. Thus, while still with the placenta, the child is left in the thickets or in a basket until the mother herself or some relative kills it. This rejection of a newborn girl without a recognized father is, above all, a response to the cultural patterns of social relationships, in which it is inconceivable for a child without a father to become a new member of that society. However, when a boy without a father is born, society imposes on him a lower status in relation to other boys. His life may be maintained solely because of the usefulness of men for society."
No artigo é expressa uma relação do suicídio e o "infanticídio" na cultura Zuruahá (a taxa de suicídio é bem elevada, como se percebe do trecho colado). No trecho também vemos um dos casos em que se espera o "infanticídio", em que uma mãe solteira tenha uma filha. Sendo filho, este pode viver, já que é útil.

Alguns podem querer justificar essa pendência para a morte dever ser respeitada por ser característica autêntica e natural da cultura deles..."Kroemer concluded from his analysis that the practice of suicide among the Zuruahá was the consequence of a violent massacre that they had suffered around a century before contact made by the CIMI team. The survivors developed a psychiatric disease that he named 'ethno-trauma'."...bem, acho que um século não é tanto tempo, principalmente se foi algo que foi colocado externamente...

Após citar um caso de "ação bem sucedida" de intervenção na cultura deles, o artigo trata do debate que fora levantado por conta de tal intervenção. A partir daqui pulula o a fina arte do texto.

"No matter how abominable infanticide may seem to some moral communities, it has a differentiated status and may constitute a social obligation [to others]. In this respect, Singer states that: 'Infanticide has been practiced in societies that geographically stretch from Tahiti to Greenland, among a wide variety of cultures, ranging from nomadic Australian Aborigines to the sophisticated urban communities of ancient Greece or Mandarin China'."
Cita-se outros locais onde ocorre/ocorria o "infanticídio" com esperança de "normalizar" a conduta. Algo do "outros erram, logo é permitido". Mais enviesado que isso, só o argumento proferido de uma criança de sete anos.

"Reinforcing this line of reflection, Meggers (p. 139) took the view that 'the absence of any alternative to the mother's milk makes infanticide a humanitarian substitute for a slow death through hunger in situations in which the mother dies'. Statements like this help in understanding the significance of infanticide in the Zuruahá culture."
Permitir meios alternativos de alimentação é colonização, claro. O certo é deixar morrer. Afinal, o "infanticídio" tem significado dentro da cultura. (Embora tenha me parecido que o argumento era de que as condições que ditavam a solução, não a significância. Acho que muda de acordo com o conveniente.)

"There are in fact some reports on children in indigenous communities that were condemned to social death after escaping from infanticide. Among the Katukína people, one way of socially killing an individual is to withhold giving that person a name: 'Some newborn children are named quickly, while others remain nameless even up [to] the age of two. The latter are undesirable children and nowadays, since infanticide is no longer practiced, failure to give the child a name has become a way of indirectly exposing that child to death' (p. 10).

In consonance with this, Erikson (p. 334) stated that 'among the Matís, also in the State of Amazonas, Brazil, after naming the child, the possibility of infanticide is suspended'."
Retornamos a questão do "ainda não é humano, matar não é, por conseguinte, errado". Fora que dá um tom de "se não matarmos, a criança no futuro cometerá suicídio, poupemos tempo e sofrimento, matemos logo".


"Thus, a certain bioethical relationship between abortion and infanticide can be outlined. In this light, Singer 8 (p. 198) overcame the distinction between the moral acceptability of abortion and the unacceptability of infanticide: 'Birth does not signal a morally significant dividing line. I do not see how it is possible to defend the point of view that fetuses can be 'substituted' before birth but newborns cannot be. Nor is there any other characteristic, for example viability, that could perpetuate the division between the fetus and the baby'."
Ou seja, diferenciar aborto de "infanticídio" é mero detalhe, afinal nascer não é linha divisória suficiente. Mas vamos colar um trecho um pouco anterior do texto:

"From this same community, there is a report of infanticide committed at a later stage, when the boy concerned had already reached the age of five. Thus, the ethics of a society is not only concerned with biological life but also, and especially, social life. Interventions such as the one described above have a high likelihood of resulting in the creation of a socially dead being."
Ou seja, cinco anos não é tempo o suficiente. (Antes que venham dizer que é falácia, explico. Matar com cinco anos é, para eles, infanticídio. Não há linha definitiva entre aborto e infanticídio. Logo o caso se subsume ao silogismo.) (É por isso que grafo "infanticídio" na maior parte do texto. Afinal, falamos de intervenção, tendo por base leis. Para lei, cinco anos não é mais infanticídio...)

"Abortion and infanticide end up being equivalent to each other, since they are results from a decision by the community not to give the right to life, either to a fetus or to a newborn, for a wide diversity of ethical reasons within the society in question. The right to life, in relation to both abortion and infanticide, is a social right."
Ou seja, em nome do "bem comum" passa-se por cima de todos.

"In the year 1986, through a decision that became known as the Bowen vs. American Hospital Association ruling, the United States judiciary accepted that 'a newborn that suffers from mental retardation or physical deformity may be 'denied assistance', provided that this is with the parents' consent, even if this denial of assistance leads to its death. Feeding is considered to be a form of assistance'.

More recently, the EFE news agency released the news on November 12, 2006, that the "Anglican church accepts euthanasia for severely ill babies". This position adopted by the Anglicans became public through a communication to the British press. According to EFE, the Anglicans presented humanitarian and economic reasons to justify their decision. In light of the suffering of such babies and the accompanying high public healthcare costs, when resources invested there could save other lives, suspension of medical assistance would become acceptable. Referring to declarations by the Anglican bishop Tom Butler, the agency stated that, in his view, 'there may be occasions when Christian compassion overlies the rule of preservation of life at all costs" and that one example of this was "disproportionate treatment just to prolong a life'."
São colacionados dois casos na esperança de apontar o dedo com o seguinte dizer "Nós, homens-brancos,imperialistas-destruidores-e-pilhadores somos hipócritas. No seio de nossa imunda sociedade capitalista cultivamos os hábitos que condenamos!". Patético, como sói de acontecer.

No primeiro caso, o da corte, não foi autorizado isso para todos os casos. Se olharmos a jurisprudência contrária, não duvido que fiquemos diante de situação de grave contraste numérico. O segundo caso me aprece mais ridículo. Que me conste, Igreja e Estado são cousas diversas. Em trecho anterior, os autores mostram que para eles tal situação não é verdade:
"From these discussions, two trends could be seen: the perspective of criminalizing the cultural practice of infanticide; and the need to intervene in indigenous cultures to convert them to the Christian faith and the values of Western civilization."
Como se só fosse possível defender a vida humana do ponto de vista religioso e, por conseguinte, não pudéssemos defender sem impor uma religião específica. E como se matar, crianças ou não, não fosse algo que merecesse ser tomado por crime.

Logo antes da conclusão, há a defesa de um tipo de intervenção, pautada no diálogo aberto (ou seja, nos termos que os autores gostam, não nos que a lógica demanda). Vejamos qual tipo:
"However, the discussion only became possible after the Tapirapé people identified the missionaries as their allies in the struggle against oppression caused by segments of the society to which the nuns themselves belonged. Thus, infanticide came to be discussed within an agenda that also included other topics of importance to the people: demarcation of their lands, expulsion of invaders from their territory, attention to individuals' health, etc. There was logic to this, since an increase in population depended on ensuring conditions of survival for everyone. At the time, the community faced serious problems resulting from persecution and invasion of their lands. After some time, the Tapirapé people managed to demarcate their traditional territory, the practice of infanticide was abandoned and the population started to grow (although not necessarily in that order). Today, there are around 500 people and the Little Sisters remain with them. In the anthropological literature, this case has become recognized as an experience of successful intervention."
Ou seja, só se é possível mudar sendo respeitoso se resolvermos colonizar de vez, afinal os tópicos citados afetam profundamente a cultura que querem proteger. (Parece-me que as condições de caso não são tão incomuns e não diferem muito do que se muitas vezes defendido, qual critério, então, será que é usado para dizer que foi uma intervenção "do bem"?)

E na conclusão, fechamos com o samba do crioulo doido.

"Nevertheless, from the point of view of interventionist bioethics, it would not at any time be correct to consider abandonment of the practice of infanticide per se as a success. In this case, success would be measured in terms of achieving a dialogue between morals foreign to each other, under conditions of profound respect for the other people's culture and, in particular, under conditions of protecting the vulnerable indigenous culture from the pressure of the dominant culture."

"From a perspective of intervention and dialogue, it can in no way be considered bioethically acceptable to attempt to impose a standpoint on the Zuruahá people regarding infanticide, such as the Christian religious view that motivated the consequent removal from the community of individuals socially marked out to die. It is likewise unacceptable any attempt to criminalize the practice of infanticide within that cultural context."
Ou seja, não devemos criminalizar (na verdade já é crime, só não devemos ir atrás de processá-los) o "infanticídio". Devemos tentar entender o outro lado, aceitar o jeito deles e conversar de modo aberto (seja lá o que queiram dizer com isso, afinal, citar Habermas do jeito que fizeram é quase insultoso) e intervir na cultura deles. Do modo que qualquer ser moderado desejaria (saúde, auxílio com melhores técnicas de produção de comida, acesso a outros tipos de atividades).

Isso tudo, claro, evitando a religião, afinal Direitos Humanos é invenção da malvada Igreja Católica Apostólica Romana e copiada pelos "evangélicos" (é colocar muita coisa diferente na mesma categoria, mas é "didático"). Ou pelo menos, quando se é conveniente, joga o papo da religião e força a barra.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Desabafo de uma colega da FCE

Caros leitores do blog,

Recebemos e-mail de uma aluna da FCE, o campus da UnB em Ceilândia, sobre a invasão à Reitoria e os últimos acontecimentos da mobilização da comunidade acadêmica contra o obsceno atraso nas obras de conclusão dos edifícios. Para resguardar a sua imagem, não revelaremos sua identidade.

Eu, como aluna da faculdade, estou triste, revoltada, engasgada com a frustração diante à tanta barbaridade que está acontecendo lá. Simplesmente perderam o controle da situação, e a maioria se cala diante aos "aproveitadores de movimento" e às amizades deles lá dentro.

A baderna que lá está é culpa dos "vermelhinhos" que se juntaram ao movimento da FCE, manchando o protesto justo e pacífico da Ceilândia. Aqueles p*** nunca deram R$ 1,00 pra comprar um microondas que a FCE precisa pros alunos comerem na faculdade (sim! não há onde comer por lá), nunca foram lá dar um oi e perguntar sobre a nossa vida e nossa rotina na Ceilândia.

Só pra frisar, observem a pauta que votaram ontem:
14) Nenhuma punição acadêmico-administrativa e judicial aos estudantes, professores e servidores que participaram da ocupação da Reitoria iniciada no dia 13 de setembro de 2011 e enquanto a ocupação tiver continuidade. Resposta – ATENDIDO. Já se dispensaram as punições acadêmicas e administrativas, mas a agressão às pessoas precisa ser investigada.
Eu falei que era um absurdo impedir que a UnB punisse judicialmente os vândalos e que haviam provas de que não eram estudantes da FCE à frente do quebra-quebra. Observem o vídeo.

Estive presente apenas ontem, e creio que não vou voltar. Quando se abre a boca pra falar que o negócio tá bagunçado e que tem gente que não deveria estar lá porque mais atrapalham do que ajudam e ainda nos rotulam juntos como vândalos e radicais, vem gente dizer que eles estão lá pra nos apoiar.

Enfim, eu fui oprimida verbalmente quando dei a minha opinião, e todos na assembleia se calaram. Voltei pra casa, e pela causa esquerdista e irracional não voltarei.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Oportunismo fascista na UnB


Arruaça. Baderna. Vandalismo. Violência. Intolerância. Fascismo. Essas são algumas das palavras possíveis que podem surgir na mente de qualquer um que veja com atenção as cenas acima.

Essa cena lamentável aconteceu quando os alunos da UnB do "campus" de Ceilândia encaminhavam-se para um protesto maciço na Reitoria, mais um ato contra o prolongado descaso que essa parcela de nossa comunidade acadêmica tem sofrido há quase três anos. Já falamos aqui no blog sobre essa situação mais de uma vez -- inclusive sobre a empresa contratada para realizar as obras, a UniEngenharia, que é suspeita de uma porção de fraudes e esquemas escusos Brasil afora.

A cena lamentável acima registrada não foi promovida por alunos de Ceilândia. As pessoas que são mostradas arrebentando a divisória da Reitoria aos berros de "ocupa e resiste" são a mais fina-flor da juventude burguesa revolucionária da UnB: filhinhos-de-papai que não precisam trabalhar e que, por isso, encontram tempo de sobra para ler velharias que funcionam muito bem para nutrir e retroalimentar seu inconformismo enlatado e anacrônico. Essa gentalha -- pois não há outra classificação para eles -- formam a tal Oposição CCI, da qual já falamos aqui no blog. Para quem não sabe, a Oposição CCI é um grupelho do que há mais de alienado e ruminante na juventude estudantil do Distrito Federal. É o posto avançado dentro da UnB de um grupo chamado Rede Estudantil Classista e Combativa (RECC), fundado em 2009. Já mostramos aqui antes o tipo de intervenção democrática que eles promoveram mais de uma vez na UnB.

Isso o que vemos gravado é apenas a manifestação natural de desejo de construção de uma universidade mais democrática, justa e igualitária? Longe disso. Não é à toa que o nome do boletim periódico do RECC chama-se "Avante!" -- que é, curiosamente, o mesmo nome do jornal editado por Benito Mussolini, Il Duce, quando era membro do Partido Socialista Italiano. Em que essa demonstração barata e gratuita de selvageria pode ajudar nas demandas dos estudantes de Ceilândia? Em absolutamente nada. Pelo contrário: só tem a atrapalhar. Aliás, esse comportamento destemperado e despropositado mostra claramente que, desde o começo, nenhum desses baderneiros sequer se importava com as reivindicações de seus colegas da FCE. O objetivo sempre foi pegar carona no movimento do pessoal de Ceilândia.

E é por isso que o blog da Juventude Conservadora da UnB tem um apelo sincero a fazer para os estudantes de Ceilândia: PROTEJAM SEU MOVIMENTO! As reivindicações de vocês são mais do que justas! Para que suas demandas recebam apoio não apenas dentro da UnB, mas junto da sociedade no geral -- afinal, todos nós pagamos para sustentar a UnB com nossos impostos --, é importante resguardar-se da presença desses arrivistas de quinta categoria. Saibam separar o joio do trigo, mantenham a coesão e evitem ocorrências como essas. São cenas assim que fazem toda uma pauta justa cair por terra.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A Unb e os (des)caminhos da Bioética

No dia 7 de setembro, iniciou-se em Brasília o IX Congresso Brasileiro de Bioética (IX CBB) – cujo tema é “Uma década depois: bioética(s), poder(es) e injustiça(s)” -- e o I Congresso Brasileiro de Bioética Clínica (I CBBC). De acordo com mensagem do presidente do IX CBB, professor Volnei Garrafa, o objetivo do congresso é, “por meio de conferências, mesas redondas e demais atividades que terão a participação de renomados cientistas brasileiros e internacionais, abordar a bioética e sua nova pauta de modo crítico e criativo, a partir dos enfoques do(s) ‘poder(es)’ e da(s) ‘(in)justiça(s)’ biotecnocientíficas e sociopolíticas constatadas neste início de século 21.” Entretanto, o que vem a ser bioética?

Para efeitos de análise, gostaria de oferecer quatro conceitos antes de tentar construir um próprio:
  1. “Bioética (grego: bios, vida + ethos, relativo à ética) é o estudo transdisciplinar entre Biologia, Medicina, Filosofia (Ética) e Direito (Biodireito) que investiga as condições necessárias para uma administração responsável da Vida Humana, animal e responsabilidade ambiental. Considera, portanto, questões onde não existe consenso moral como a fertilização in vitro, o aborto, a clonagem, a eutanásia, os transgênicos e as pesquisas com células tronco, bem como a responsabilidade moral de cientistas em suas pesquisas e suas aplicações.” (Fonte: Wikipedia)
  2. “Existem várias definições para o termo bioética, do grego bios (vida) e ética. Uma das mais completas diz que bioética é um conjunto de pesquisas, discursos e práticas, normalmente multidisciplinares, cuja finalidade é esclarecer e resolver questões éticas suscitadas pelos avanços e pela aplicação da medicina e da biologia.” (Fonte: Planeta Sustentável)
  3. “A Bioética é uma ética aplicada, chamada também de ‘ética prática’, que visa ‘dar conta’ dos conflitos e controvérsias morais implicados pelas práticas no âmbito das Ciências da Vida e da Saúde do ponto de vista de algum sistema de valores (chamado também de ‘ética’).” (Fonte: Projeto Ghente)
  4. “O estudo dos problemas éticos suscitados pelas pesquisas biológicas e pelas suas aplicações por pesquisadores, médicos, etc.” (Fonte: Dicionário Aurélio)

Podemos dizer, grosso modo, que bioética é o estudo multidisciplinar que tem por objetivo analisar os problemas e desafios morais e éticos ao se lidar com a vida do ponto de vista científico, levando em consideração os aspectos sociais, culturais, econômicos, políticos e tecnológicos dessas questões.

A bioética ganhou grande notoriedade após a UNESCO aprovar, em 2005, a Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos. Com isso, diversos governos que não se atentavam para o assunto começaram a dá-lo alguma importância, culminando na criação de agências e conselhos governamentais que tratassem exclusivamente de assuntos relativos à bioética.

Bonito? Sim. Tocante? Com certeza. Mas como é que essa questão aparentemente cabeluda está sendo tratada pelas pessoas que são consideradas especialistas na área?

Ontem, dia 8 de setembro, durante a primeira mesa do 2º dia do IX CBB, o professor Volnei Garrafa, que leciona na UnB e é considerado um dos maiores especialistas acadêmicos em bioética do globo, valeu-se de sua palavra para falar mal, muito mal, das indústrias farmacêuticas. De acordo com o eminente professor, o complexo farmacêutico é uma espécie de camarilha de gente má e perversa que brinca com a vida alheia enquanto busca avidamente a única coisa que lhes interessa: lucro. A cifra de R$ 40 bilhões, oriunda dos negócios das indústrias farmacêuticas no País, esconde práticas antiéticas, coisas realmente nefastas – como “a comercialização de pesquisas clínicas e o conflito de interesses entre laboratórios e política”. Outro desabafo do professor é com relação ao que ele chamou de incompetência do Congresso Nacional em não ter aprovado ainda o PL 6.032/2005, encaminhado pelo Executivo, que visa à criação do Conselho Nacional de Bioética (CNBioética).

O texto do PL 6.032/2005, na parte de justificativa, diz:
“Os modelos constituídos por outros países para as comissões nacionais de Bioética - basicamente os modelos francês, português, norte-americano, canadense e italiano - serviram como referência para a contextualização e o início da constituição de um modelo que fosse adequado à realidade brasileira. A partir dessa avaliação, concluiu-se pela necessidade de criação de um órgão à semelhança da maioria dos conselhos de outros países, que foram criados como órgãos de Estado e instituídos por lei.”

Para tentarmos compreender o que pode ocorrer com um órgão semelhante no Brasil, vamos pegar para análise a história de um exemplo controverso, relativamente polêmico e que vem de um país que costuma ser odiado idolatrado pela intelligentsia tupiniquim: os Estados Unidos da América.

A primeira comissão governamental a tratar de bioética foi a National Commission for the Protection of Human Subjects of Biomedical and Behavioral Research (Comissão Nacional para a Proteção de Cobaias Humanas de Pesquisa Biomédica e Comportamental, em tradução livre) em 1974, durante a presidência do republicano Gerald Ford. Em 1978, foi criada a Presidential Commission for the Study of Ethical Problems in Medicine and Biomedical and Behavioral Research (Comissão Presidencial para o Estudo de Problemas Éticos em Medicina e Pesquisa Biomédica e Comportamental, em tradução livre), durante o governo do democrata Jimmy Carter. Essa comissão se manteve ativa até o governo do republicano Ronald Reagan, encerrando suas atividades em 1983. Foi somente em 1996, no então governo Clinton, que o assunto voltou à pauta do governo com a criação da National Bioethics Advisory Commission (Comissão Nacional Consultiva de Bioética, em tradução livre) através da Ordem Executiva nº 12975.

A controvérsia começou durante o governo do republicano George W. Bush. Em 2001, extinguido o ato que criou a comissão de bioética do governo Clinton, a Ordem Executiva nº 13237 instaurou o President's Council on Bioethics (Conselho Presidencial de Bioética). Por que a controvérsia se iniciou aqui? Porque o conselho de bioética do governo Bush ampliou um pouco mais o escopo de atuação do órgão ao levar em consideração não apenas questões de ordem prática, mas também de ordem moral e filosófica. Os intelectuais, políticos e especialistas críticos (leia-se esquerdistas) de plantão começaram a acusar o governo republicano de promover determinadas agendas políticas e religiosas sob a desculpa de se ter como preocupação a dignidade humana. As questões mais sensíveis nessa celeuma foram o aborto e as pesquisas com células-tronco embrionárias.

Para resolver isso, o presidente Barack Hussein Obama, em 24 de novembro de 2009, baixou a Ordem Executiva 13521. A ordem criou a Presidential Commission for the Study of Bioethical Issues (Comissão Presidencial para o Estudo de Problemas Bioéticos, em tradução livre). Em discurso na Casa Branca, o presidente Obama disse que: “Essa nova comissão irá construir suas recomendações através de análises práticas e relacionadas a políticas.” Qual é a novidade nessa comissão? Não haverá mais qualquer tipo de discussão moral ou filosófica sobre os problemas bioéticos. O debate não seria mais sobre a viabilidade de uma política pública favorável a uma questão controversa, mas sobre como essa política pública seria implantada – ou seja, blindando a questão controversa contra qualquer debate.

Aliás, essa observação foi feita por Eric Cohen e Yuval Levin -- membros do então conselho de bioética do governo Bush -- em um artigo intitulado “Nothing to See Here”, de 2010. Cohen e Levin observam:

“Se a questão primária a guiar a comissão não é ‘o que’, mas ‘como’, o alcance dos tópicos a serem examinados fica limitada -- assim como ocorreu muito com a bioética em décadas recentes -- a preocupações utilitaristas e questões de procedimento. Com sugere a afirmação implícita do presidente de que não há que se ter debate sobre pesquisa embrionária, a ideia é tratar somente de questões éticas básicas e relegar as questões restantes ao julgamento de especialistas. Essas questões remanescentes envolvem, por exemplo, não considerar se devemos permitir a destruição de vida nascente em pesquisas, mas como fazer isso; não o que os avanços da biotecnologia significam para nossa humanidade, mas como eles podem se tornar disponíveis para todos.”

Apesar de o PL 6.032/2005 dizer se basear, dentre outros, no modelo norte-americano, o CNBioética, se já estivesse plenamente implantada, anteciparia as relevantes modificações promovidas pelo governo Obama. Consta na justificativa no projeto:
“Em linhas gerais, o Conselho consiste em uma instância de referência para análise e discussão de temas da Bioética. Apesar de não ter ação normativa nem formuladora de políticas, tem como atribuição atuar como um balizador moral ao dar visibilidade e enunciar corretamente questões de difícil compreensão tanto para a sociedade como para os governantes e o País, revelando toda a complexidade de seus efeitos e implicações.” (Grifo nosso.)

Como pode o Estado servir de “balizador moral” para questões de bioética? Como pode o Estado pretender “enunciar corretamente questões de difícil compreensão”? Isso gera um precedente potencialmente perigoso. É certo que questões bioéticas devem ser objeto de políticas públicas – afinal, o Estado tem como papel primordial proteger as pessoas contra agressões à liberdade, à vida e à propriedade dos indivíduos --, mas um conselho governamental desse tipo deve ser, antes de tudo, um espaço para debate aberto, transparente e plural, não um órgão de propaganda e convencimento que tenha por objetivo introjetar conceitos alheios à legítima vontade da sociedade.

O que o professor Volnei Garrafa defende não é, a bem da verdade, a criação de um fórum de debate, mas um órgão estatal que busque conferir legitimidade científica às políticas públicas do governo com relação a temas sensíveis. Mas isso não deveria chocar ninguém. Lembremos que, em 2010, o eminente professor defendeu ardorosamente o infanticídio indígena como algo perfeitamente normal e aceitável – afinal, “é preciso perceber as nuances, considerar o pluralismo cultural”; quem somos nós, homens brancos, para interferir na autonomia cultural indígena ao declarar que a vida humana é preciosa e deve ser preservada?

O IX Congresso Brasileiro de Bioética e o I Congresso Brasileiro de Bioética Clínica seguirão até amanhã, dia 10 de setembro. Vamos esperar para ver com que outras pérolas seremos presenteados pela intelligentsia bioética brasileira.

Em tempo (10/09/2011 - 18h18):
Recomendo a leitura da entrevista do professor Volnei Garrafa concedida à Revista do Instituto Humanitas Unisinos em dezembro de 2007 (disponível aqui). Seguem alguns trechos interessantes (grifos nossos):
"Uma questão que não pode deixar de ser comentada neste contexto [de pesquisas sobre células-tronco] e constatada em todo mundo é a do açodamento, a pressa – estimulada pelo mercado (sempre ele...) – em transformar ciência em tecnologia, uma descoberta em aplicação prática, de um dia para o outro."
"Estou entre aquelas pessoas que não interpreta o embrião como uma pessoa. E isso me ensinou meu querido professor e amigo Giovanni Berlinguer, um dos mais completos sanitaristas e bioeticistas do mundo e pessoa que procura em todas suas ações ser o mais generosa e justa possível: quando te deparas, ao mesmo tempo, com um conflito moral e um problema prático que necessita ser resolvido, os problemas práticos devem receber prioridade diante dos conflitos morais."

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

As melhores universidades do mundo e a UnB

O QS World University Ranking é uma lista elaborada anualmente pela Quacquarelli Symonds (QS), uma companhia britânica especializada em educação, que relaciona as melhores universidades do mundo. Essa semana, foi divulgada a lista de 2011. Das 300 universidades incluídas no ranking, apenas duas são brasileiras: a USP (169ª) e Unicamp (235ª). Ao contrário da UnB, as duas únicas universidades brasileiras que cosntam no QS World University Ranking deste ano não são federais.

Mas nada temam, caríssim@s e mui estimad@s leitor@s e frequentador@s do blog! Afinal de contas, o que importa a posição da Universidade de Brasília em uma pesquisa feita por uma organização internacional quando estamos dentre os finalistas da 7ª edição do Prêmio Melhores Unviersidades do Guia do Estudante da Editora Abril? Essa coisa de dar atenção demasiada a rankings de países ricos é um pseudo-imperialismo cultural às avessas muito mal curado que precisamos sufocar democraticamente com doses cavalares de educação progressista e popular. Afinal, se o Bananífico Magnífico Reitor, o Grande Timoneiro da UnB, diz que "as condições de ensino, os investimentos, os modelos pedagógicos, a estrutura de docência e a forma de articular essas relações têm sido fatores de incremento da qualidade dos cursos" da universidade, então, é isso aí!

E tem mais: qualquer ímpeto de se pensar que a falta de estrutura nos campi, a ausência de segurança, a defasagem dos currículos, os atrasos em obras de construção e reforma são fatores prejudiciais para a excelência acadêmica da UnB deve ser imediatamente controlado. A Universidade de Brasília não deve ser espaço para que esse tipo de ideia absurda da direita reacionária e golpista possa aparecer. Afinal, se "Oscar Niemeyer e Glênio Bianchetti davam aulas debaixo de árvores", por que nós, pobres mortais, não podemos dar um jeitinho também?

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Depois da tempestade...

Caríssimos leitores do blog,

Estávamos passando por alguns severos problemas e atribulações - coisas do dia-a-dia, como trabalho, família, além do início das atividades do semestre -, mas, agora, voltamos à ativa. Não pensem que desistimos do blog, estávamos apenas fazendo uma pausa estratégia mais do que necessária.

Abraços conservadores a todos!