quinta-feira, 28 de abril de 2011

A UnB e o mau-caratismo acadêmico

Há alguns meses, temos denunciado constantemente a utilização do Portal da UnB, administrado pela Secretaria de Comunicação da universidade, como veículo de propaganda ideológica.

Hoje, foi publicado um artigo intitulado "O Fim do Consenso de Washington: está na hora do FMI e do Banco Mundial pedirem desculpas à América Latina?", do Prof. José Matias-Pereira, no Portal da UnB. Esse fato que evidencia, com clareza desconcertante, não apenas a continuidade desse aparelhamento ideológico, mas igualmente a promoção do mau-caratismo e da estupidez no ambiente acadêmico.

Abaixo, reproduzimos a resposta preparada por nosso colaborador especial, o Uncle Sam, a esse amontoado de falácias e deturpações.
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Certos textos são surpreendentes – principalmente quando escritos por professores, que, ao menos teoricamente, têm certas obrigações morais com o conhecimento e deveres éticos com seus alunos. Dito isso, gostaria de comentar o texto do professor José Matias-Pereira, recentemente postado no portal da Universidade de Brasília.

O Professor Matias-Pereira estuda (já há alguns anos) o governo e seu papel na economia, conta com vários livros e cerca de 60 artigos publicados. Por isso, pode-se alegar qualquer coisa sobre o professor, menos desconhecimento. Isso torna as afirmações do texto ainda mais assustadoras.

Comecemos os debates por definições que são apenas “pinceladas” no texto do professor. A mais importante delas é o Consenso de Washington. Termo comumente empregado e manipulado – principalmente na literatura que costuma criticar o modelo de desenvolvimento ocidental, baseado na propriedade privada, livre iniciativa, liberdade individual e mercados livres (ver The Rise of The Western World, do Prêmio Nobel em economia Douglass North em co-autoria com Robert Thomas) –, seu completo entendimento é fundamental, seja para criticá-lo, ou apoiá-lo.

Tal termo tem sua origem atribuída ao economista John Williamson, e teria sido apresentado pela primeira vez durante conferência do Institute for International Economics (IIE), em 1989, cujo tema principal era Latin Americ Adjustment: How Much Has Happened?. Williamson sintetizou as principais conclusões do debate em 10 pontos:

1. Disciplina fiscal.
2. Redirecionamento do gasto público, reduzindo os subsídios (principalmente os indiscriminados/discricionários) e direcionando os recursos governamentais para o financiamento de programas pró-crescimento chaves, tais como educação básica, atenção primária à saúde e infraestrutura.
3. Reforma tributária: ampliar a base tributária e adotar taxas marginais moderadas.
4. Taxas de juros positivas em termos reais (moderadas) determinadas pelo mercado.
5. Taxas de cambio competitivas (livres).
6. Abertura comercial: liberalização das importações, com particular ênfase na eliminação de restrições quantitativas (como licenças de importação); fim das proteção comercial com a adoção de tarifas de importação baixas e uniformes.

7. Abertura para investimentos diretos estrangeiros.

8. Privatização das empresas estatais.

9. Desregulação da economia: abolição de regulações que restrinjam a entrada de novos competidores e limitem a competição, com exceção daqueles que sejam justificadas por questões de segurança, proteção ambiental, defesa do consumidor e SUPERVISÃO PRUDENTE DE INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS
.
10. Segurança jurídica e proteção legal da propriedade privada.

Bem... Antes que alguém questione esses pontos com afirmações do tipo “não são eles!”, recomendo que façam diferente do Professor Matias-Pereira: comportem-se como pesquisadores e, ao invés de lerem o panfleto, LEIAM O ORIGINAL!

Como o governo americano vive em déficit fiscal já faz alguns anos, enquadrá-lo no Consenso é bastante difícil; adicionalmente, o Consenso não prega a completa desregulamentação do mercado financeiro, mas sim a regulamentação prudencial (o que não é o caso americano). Novamente, enquadrar as origens da crise de maneira científica e lógica no Consenso é bastante complicado.

Em certa parte do texto o professor afirma:

“Observado os ciclos de crescimento das principais economias dos países latinoamericanos, como a Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Venezuela, percebe-se que essas economias, ao longo da década de noventa, tiveram um ritmo inconstante nos seus níveis de crescimento. Essas oscilações refletem a inconsistência do modelo neoliberal, apoiado em regras simplistas e desumanas, que combinava política fiscal, dívida e regime cambial, cuja principal determinante é o fluxo de capital externo, permanente e crescente (Matias-Pereira, 2001).”


Esse trecho é tão errado, que chega a ser difícil saber por onde começar. Creio que a história é minha melhor parceira. Reparem que o item 5 do consenso fala em “taxas de câmbio competitivas” (as principais crises enfrentadas por países latinos na década de 90 foram cambiais!), e isso ocorreu exatamente por que tais nações NÃO seguiram o item 5. Há, então, um grave conflito lógico na argumentação do professor: tendo o Consenso pregado precisamente o contrário daquilo que foi feito pelos países, como pode ser ele responsável pelo problema?

Com relação à afirmação de que as regras são desumanas, chegamos ao item 2 do Consenso, que recomenda gastos em saúde e educação no lugar de subsídios – que são, em regra, concedidos para grandes banqueiros e empresários (vejam para quem vai a maior parte dos recursos do BNDES). Tenho grande dificuldade em considerar essa proposta desumana. Talvez o eminente professor se solidarize com o possível sofrimento do Sílvio Santos no recente caso PanAmericano e, por isso, ache que o dinheiro dos impostos é melhor aplicado na Gerdau, Vale, MMX, Embraer, Votarantim, etc., do que em hospitais e escolas. Eu discordo!

Sobre os determinantes do câmbio, vai uma dica: estudar não faz mal a ninguém! Em uma economia com taxa de cambio flexível e meta inflacionária, o câmbio fecha a paridade descoberta da taxa de juros. Ou seja, tais fluxos são endógenos ao juro que o governo paga por seus títulos. Com o gasto público pressionando a demanda agregada, a taxa de equilíbrio para manter a inflação sob controle (principalmente numa situação de desaquecimento da economia global) termina acima do prêmio por risco do país, o que atrai muitos dólares e resulta em cambio apreciado. Como isso é resolvido? Simples, sem ser tão simples: se o item 6 houvesse sido observado, as importações iriam crescer e reenviariam para fora boa parte dos dólares que entram e não saem; adicionalmente, se os itens 1, 2 e 3 fossem observados, o item 4 também poderia ser. Resultado: a pressão adicional do governo sobre a demanda agregada seria menor; logo, os juros seriam mais baixos e o desequilíbrio, que seria ainda menor, resolvido pelo item 6 sem grandes problemas para a indústria nacional.

Novamente, temos vários problemas em nossa economia na atualidade, mas é uma tarefa árdua e ingrata ligá-los, com um mínimo de lógica e honestidade intelectual, aos dez pontos do Consenso.

Para finalizar, gostaria de lhes mostrar os dois gráficos abaixo. Os gráficos mostram a evolução do PIB per capita da América Latina (primeiro) e do PIB per capita dos países latinos em relação à evolução do PIB per capita americano. Os dados cobrem desde 1950 até meados dos anos 2000 e foram retirados do artigo Latin America in the Rearview Mirror:


Como vocês podem ver dos DADOS, e não da crença panfletária, o PIB latino cai quando comparado ao dos EUA, principalmente a partir do final da década 50 início da década 60. Tal tendência permanece inalterada até o fim dos anos 80 e início dos 90, quando a queda cessa na maioria dos casos – e, no Chile, é invertida. Vale notar que é exatamente o Chile quem de forma mais próxima adota as recomendações do Consenso, sendo Argentina e Venezuela não só os que mais se afastaram do Consenso, como os que mais de perto seguiram as recomendações políticas da Cepal – recomendações essas aparentemente apoiadas pelo Professor Matias-Pereira.

Bem... Tanto a teoria quanto os dados contrariam as afirmações do professor. Será um prazer continuar com essa discussão, principalmente se Matias-Pereira optar pela abordagem científica e fundamentar teórica e empiricamente seus pontos – conectando as proposições REAIS do Consenso com a adoção DE FATO dessas medidas por parte dos países em questão e as suas possíveis conseqüências. Caso contrário, é mais divertido e intelectualmente construtivo ler o Kibeloco.

Um último pedido: poderia o professor listar documentalmente quando e como a Argentina seguiu de perto os pontos do Consenso, para assim melhor explicar a colocação maliciosa: “de maneira mais grave a Argentina, que percorreu integralmente a trajetória de um ciclo perverso, que conduziu aquele país ao colapso”? (Só um lembrete: o fim da paridade Peso-Dólar foi durante a crise de 2000-2002, e tal política entrava em conflito radical com as recomendações do Consenso. Até próximo a esse momento, o governo era chefiado por um Peronista e, já há algum tempo, quem “toca” a política por lá são os Kirchner, que têm visão e prática econômicas bastante afastadas do Consenso.)

terça-feira, 26 de abril de 2011

A estupenda chegada da UnB ao Gama

Ontem, dia 25 de abril, ocorreram as primeiras aulas no campus da UnB no Gama. O fato foi registrado pela Secretaria de Comunicação (Secom) da UnB como um marco histórico na vida da Universidade de Brasília. E com razão.
 
Na verdade, achamos até que a reportagem da Secom foi muito, muito, muito humilde. O início das aulas no campus do Gama é um marco indelével na história do Gama, de Brasília, do Distrito Federal, do Brasil, da América Latina, do mundo, quiçá desse pedacinho meio esquecido da Via Láctea que nosso planetinha azul ocupa. Alguns alunos chegaram a pular de alegria, conforme foi noticiado. Não houve queima de fogos de artifício nem apresentação de Maria Bethânia para não se ofuscar a recente comemoração do aniversário de Brasília - o que teria acontecido com larga facilidade, sem sombra de dúvida.
 
O Grande Timoneiro da nossa mui estimada universidade, o Magnífico Reitor José Geraldo, definiu muito bem o que representou a inauguração apoteótica do campus do Gama: "Isso traduz uma universidade que se preocupa com as necessidades da cidade e também do País". Não importa que as instalações elétricas e hidráulicas estejam incompletas, não haja restaurante universitário, muito menos que as obras do campus estejam longe de sua finalização - que, aliás, vem sido prometida reiteradamente há vários meses. Para que prestar atenção a esses pequeninos detalhes sem importância, ínfimos, efêmeros, triviais? Só interessa aos reacionários fascistas dar ênfase a essas "coisinhas miúdas", como cantaria a já mencionada Bethânia.
 
Aliás, certa está dona Lídia, que foi vender seus quitutes no estacionamento do campus. Viram como a falta de um restaurante universitário ajuda a fomentar a pequena indústria alimentícia local? Até mesmo nesse ponto a chegada definitiva da UnB ao Gama foi providencial! Essa história de planejamento, controle de contas, execução de obras dentro do cronograma, tudo isso forma o ferramental do antagonismo de classes que enfraquece nossa universidade! O que nós precisamos mesmo é de "um misto de jeitinho e empreendedorismo", como muito bem colocou a reportagem da Secom.
 
Viva o Grande Timoneiro José Geraldo! Viva o fenomenal campus da UnB no Gama!

terça-feira, 12 de abril de 2011

UnB alagada: o silêncio do descaso

A chuva que castigou Brasília no último domingo, dia 10, superou todas as expectativas. De acordo com informações de agências meteorológicas, a chuva de domingo foi o equivalente ao triplo do esperado para os primeiros dez dias do mês de abril. Diversos foram os fatores apontados como causas do alagamento das instalações do campus Darcy Ribeiro - localização do ICC, falha de drenagem na região da Asa Norte, dentre outros.

Entretanto, os problemas relacionados à chuva - ou melhor, à falta de infraestrutura da universidade - não são recentes. Em janeiro de 2007, um grande apagão na UnB causou enormes perdas de material de pesquisa do Instituto de Biologia. Esse problema se repetiu em novembro daquele mesmo ano. Além disso, alagamentos são bastante comuns: qualquer chuva mais forte acaba deixando diversos edifícios do campus Darcy Ribeiro, como o ICC, com salas e corredores cheios de água - como foi noticiado em dezembro de 2010. Aliás, merecem destaque as palavras do prefeito na ocasião, dizendo que, para evitar estragos da chuva, "não há um plano geral para o ICC".

Ao contrário do que tem dito a postura adotada pela Reitoria e pela Prefeitura da universidade, o desastre ocorrido no domingo não foi uma fatalidade inevitável: ela foi resultado direto do descaso e da falta de planejamento das diversas instâncias da administração da universidade. Os estragos provocados por essa combinação fatal entre chuva intensa e falta de estrutura fazem surgir diversos questionamentos que ainda não foram respondidos:

- Qual é a situação do sistema de drenagem e escoamento da universidade?
- Por que as obras de impermeabilização das instalações da universidade não foram realizadas?
- Por que o sistema elétrico da universidade é tão frágil?
- Por que as requisições de manutenção, realizadas reiteradamente por diversos professores ao longo dos últimos anos, nunca foram atendidas?
- Por que a Prefeitura não tem nenhum plano emergencial de ação em casos de chuva mais intensa?

Além disso, existe uma outra dúvida que congrega todos esses questionamentos: será que eles serão, algum dia, respondidos?

domingo, 10 de abril de 2011

Inundação na UnB

Hoje, domingo, dia 10 de abril, o campus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília transformou-se em um parque aquático. As cenas são inacreditáveis.

Equipamento Histórico da UNB TV danificado. Foto: Mayara Reis (Fonte: CBN Brasília)

Centro Acadêmico de Economia. (Fonte: Felipe Malta)

A parede do Anfiteatro 16 caiu e a energia elétrica foi cortada porque há fiação exposta. (Fonte: Felipe Malta)

No Anfiteatro 15, apenas as 3 fileiras superiores de carteiras não estão debaixo d'água. (Fonte: Felipe Malta)

Subsolo do ICC debaixo d'água. (Fonte: Felipe Malta)

Estragos no Anfiteatro 15. (Fonte: Felipe Malta)

Abaixo, seguem três vídeos publicados hoje no YouTube com cenas impressionantes do alagamento na UnB. Os vídeos foram retirados do canal de luaresaguiar.


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sexta-feira, 8 de abril de 2011

A UnB e o discurso de ódio

Essa semana, aconteceu na UnB Planaltina o lançamento da campanha "Agrotóxico Mata: Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida". De acordo com reportagem da Secom, a campanha foi lançada pela UnB com a participação de especialistas e movimentos sociais.


Estão vendo essa foto logo acima? Se repararem bem, essa bandeira vermelha à mesa se parece bastante com a bandeira do MST. Mas não é: trata-se da bandeira do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), uma organização que tem estreitas afinidades ideológicas com o MST e que é ligada à Via Campesina. Apesar de ligeiramente desconhecido, esse movimento já esteve presente na mídia.

Em 8 de março de 2006, as instalações da empresa Aracruz Celulose em Barra do Ribeiro, no Rio Grande do Sul, foram invadidas e depredadas. O resultado dessa invasão foi a destruição do laboratório da unidade, juntamente com mudas que seriam plantadas e pesquisas científicas de melhoramento genético, num prejuízo mensurável de R$ 2 milhões - isso sem contar os vinte anos de pesquisa científica cujos resultados viraram lixo. A invasão foi promovida pelo MST, a Via Campesina, o Movimento das Mulheres Campesinas (MMC) e o MPA.

Abaixo, segue um trecho de uma fala do coordenador do MPA, o filósofo e teólogo Derli Casali, em um evento na Escola Nacional Florestan Fernandes (SP) em 2005:

Quando nós fomos para a queima de uma plantação de eucalipto da empresa Aracruz Celulose, alguns camponeses que foram, ficaram meio assustados na hora. Alguns, quando iam queimar o pé de eucalipto, ficavam um pouco tristes, como que pensando: “mas queimar um pé de eucalipto, destruir um pé de eucalipto, destruir um patrimônio...” Mas é patrimônio de quem? É seu ou é do grande capital? É da empresa. E a empresa quem é? A empresa não é inimiga nossa, a empresa não está se colocando contra nós? “Sabe que você tem razão, o negócio é esse mesmo, é ela que está matando a gente, né?”

A segunda vez já ia com coragem, com um tesão danado pra cima daquilo. No fundo ele vai sentindo o quê? Ele está agredindo o capital e vai se sentindo sujeito e vai avançando o quê? A sua consciência. Está percebendo que o inimigo não faz parte dele, para ele avançar no controle territorial tem que ir tirando o inimigo. E, no Brasil, a consciência nacional, a consciência de pátria, a consciência de que o território nos pertence, de que o território é nosso, só vai crescer na medida em que a gente fizer o avanço por meio da destruição da entrada do inimigo em nosso território.

Percebam que o ódio desse discurso é da mesma natureza que o discurso utilizado pelos nazistas contra os judeus. A diferença é que, neste caso, o aspecto racial é substituído pelo aspecto de classe. É o mesmo ódio irracional. E isso traz um questionamento muito sério: é correto que a Universidade de Brasília apoie esse tipo de ideia?

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Grandes lições de ética e sensatez

Celso Amorim, ministro das relações exteriores durante o governo Lula (2003 - 2010), foi convidado a ministrar a Aula Magna dos cursos de Ciências Políticas e de Relações Internacionais. A palestra aconteceu na segunda-feira, dia 4 de abril. O nosso estimado e mui querido reitor, o Grande Timoneiro da UnB, classificou a política externa do governo Lula, encabeçada pelo ex-ministro, como "boa e qualificada política de relações internacionais acompanhada de boa interpretação acadêmica do que preside essas relações”.

Como recordar é viver, lembremos de alguns fatos bastante marcantes da política externa brasileira quando Celso Amorim era ministro:

- Em visita oficial do Brasil à Guiné Equatorial, governada pelo ditador Obiang Nguema há 31 anos, o então ministro foi inquirido sobre o aspecto ético de se estreitar relações com um governo acusado de gravíssimas violações dos direitos humanos. Sem pestanejar, o ministro sapecou uma resposta pra lá de humanista e progressista: "Negócios são negócios."

- Quando o ex-presidente Lula comparou os presos políticos cubanos a prisioneiros comuns, gerando uma polêmica de caráter totalmente golpista, o ministro não pensou duas vezes e calou a boca do PIG com sua sabedoria dialética: "Uma coisa é defender os direitos humanos, outra coisa é sair dando apoio a todos os dissidentes."

- Durante o vergonhoso golpe contra o inocente ex-presidente de Honduras, Manuel Zelaya - promovido pela Justiça hondurenha golpista com base em sua Constituição reacionária -, o então ministro defendeu de maneira impávida e corajosa a mudança postura histórica do Brasil - que, antes, não intervinha nos assuntos internos de nenhum país - ao dar abrigo ao governante deposto: "Não sei o que teria acontecido se o Brasil não tivesse aceito (o pedido de abrigo). Ele teria sido preso, ou talvez morto, se resistisse à prisão."

Não imaginamos melhor figura pública para ministrar essa Aula Magna do que o grandiosíssimo Celso Amorim, o maior diplomata brasileiro desde o Barão de Rio Branco. Parabéns a todos os envolvidos pela iniciativa progressista!

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A UnB e o coletivismo da moda

Nessa semana, a Universidade de Brasília está sediando dois eventos intrigantes: o seminário "Racismo, Igualdade e Políticas Públicas" e o II Encontro Nacional da Articulação de Mulheres Brasileiras - ENAMB (cujo mote é "Transformando o Mundo pelo Feminismo"). Ambos os eventos não estão sendo apenas realizados dentro do espaço físico da universidade, mas contam com entusiástico apoio e promoção por parte da Reitoria e do DCE.

O seminário "Racismo, Igualdade e Políticas Públicas", promovido em conjunto pela UnB e pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (INESC), ocorreu nos dias 30 e 31 de março, quarta e quinta. Curioso apontar que, nesse evento, a polêmica sobre Monteiro Lobato voltou à baila. Lembram daquele mestrando meio delirante que entrou com uma representação junto ao CNE para censurar o livro "Caçadas de Pedrinho" por considerá-lo racista? Pois bem: de acordo com palestrantes do seminário, isso não é delírio. Decerto que Monteiro Lobato é um representante inequívoco da direita reacionária dos "brancos de olhos azuis" (como bem lembrou o Grande Molusco) - assim como Ariano Suassuna, que retratou diversos estereótipos da gente do Nordeste, alimenta um enorme preconceito contra os nordestinos.

Agora, o mais divertido mesmo é ver sobre o ENAMB. Na página do encontro da Articulação de Mulheres Brasileiras, que promove o evento junto com a UnB, é possível ver algumas coisas que são, no mínimo, estranhas. Vejam abaixo:

O ENAMB é uma encontro aberto a todas as mulheres feministas, simpatizantes, colaboradoras, parceiras e aliadas da AMB, além de todas as militantes das organizações que estão nos fóruns, redes, núcleos e articulações estaduais que constituem a AMB e que se identifiquem com os seguintes princípios do ENAMB:
- Respeito à autonomia individual de todas as mulheres e respeito à autonomia e autodeterminação de seus movimentos.
- Defesa da liberdade de expressão e do direito à participação política para todas as mulheres, em igualdade de oportunidades.
- Respeito à diversidade dos saberes das mulheres e defesa do direito à diversidade de expressões políticas decorrentes das diferenças culturais, regionais e étnicas.
- Compromisso e solidariedade com todas as mulheres que lutam por melhores condições para suas vidas, incluindo o direito à propriedade (terra, meios de produção e moradia), direito à autonomia econômica, direito a uma vida sem violência, com liberdade de orientação sexual, direito ao aborto legal e seguro, a uma vida sem racismo, sem homofobia ou qualquer outra forma de discriminação, e direito a um ambiente seguro e saudável.
- Compromisso com a luta contra o sistema capitalista e a política neoliberal, injusta, predatória e insustentável do ponto de vista econômico, social, ambiental e ético.

Vamos com calma. Acho que não merece comentário o fato de se solidarizar com mulheres que queiram uma vida sem violência e que, simultaneamente, exigem o direito de cometer violência contra uma criança em gestação; o absurdo disso é claro. Agora, apesar de explícito, merece destaque uma pequena incongruência: como se pode defender o direito à propriedade para as mulheres e, ao mesmo tempo, lutar contra o sistema capitalista? Será que as distintas senhoras feministas estão passando por algum distúrbio hormonal, como menopausa ou TPM, ou será que a defesa de bandeiras mutuamente excludentes faz parte da própria essência do movimento feminista?

Existe remédio para esse desfile de bizarrices coletivistas? Sim. E está nestas sábias palavras de uma das maiores mentes do século XX: “A menor minoria na Terra é o indivíduo. Aqueles que negam os direitos individuais não podem se dizer defensores das minorias.” (Ayn Rand)