domingo, 7 de novembro de 2010

O professor malvado e o nobre Senescal

Era uma vez, num reino perdido da América do Sul que já fora chamado de Terra de Santa Cruz, um lugar onde se ensinava ciência - universidade, eis como se chamavam tais lugares - que estava passando por uma revolução: a revolução progressista, reformista e muito, muito democrática. Essa revolução estava agitando as bases daquele lugar, transformando o ambiente e as pessoas, trazendo coisas intrigantes, estranhas, até mesmo bizarras, tudo em nome do novo, da mudança, da grande democracia universitária. Aluno felizes, pluralistas e saltitantes ocuparam salas, pintaram paredes, desmobiliaram, mobiliaram, enfim, instalaram-se ao redor da universidade, gritando vivas e urras, louvando os ventos da transformação libertária.

Em meio a toda essa atmosfera de mudança, havia um professor. Esse professor tinha sua própria sala e conduzia seu próprio trabalho, o que envolvia pesquisas nas quais necessitava de silêncio, concentração e ordem de modo que tudo pudesse ocorrer da maneira esperada. Entretanto, esse professor, como ser ranzinza e malvado que era, não gostou das constantes festividades promovidas pelos alegres estudantes na sala ao lado, que havia sido ocupada em meio ao furor da revolução estudantil. Nervoso, o malvado professor, querendo dar o troco nos pobres estudantes felizes, resolveu reclamar às instâncias superiores.

O Príncipe da universidade, e seu prestimoso Senescal, receberam o rabigento e injusto professor em sua sala conferencial. Ali, diante dos dois, o professor esbravejou, gritou, esperneou, urrou, babou, enfim, promovou um escarcéu típico dos mestres irritadiços que não compreendem que a revolução democrática da juventude universitária, tão bem promovida com a anuência do sapientíssimo Príncipe, é muito mais importante e salutar do que pesquisazinhas científicas que nada trarão de libertário e progressista para as pessoas. O Príncipe pareceu se aborrecer, mas nada disse. Entretanto, o Senescal, tão zeloso pela justiça e a ordem e a paz e o amor, com poucas e bravas palavras, arrematou a conversa, desmoralizando o vil professor.

- Professor, o senhor deve ser mais condescendente. Vivemos, agora, em uma democracia.

A vilania do sisudo mestre foi dissolvida instantaneamente pelas palavras nobres do Senescal. Qual cachorrinho que reconhece um erro ante a reprimenda de seu dono, meteu o rabicó entre as pernas e arrastou-se de volta para a sua sala escura e fria e triste, onde, insistentemente, continuava a dar prosseguimento a suas atividades de insignificante importância para a grande revolução democrática universitária progressista, remoendo-se de ódio a cada vez que ouvia os felizes e serelepes estudantes comemorando os bons ventos da mudança.

Qualquer semelhança com qualquer fato real é, evidentemente, mera coincidência coincidente.

2 comentários:

  1. Gente, um grande parabéns para vocês. Sempre fui um conservador, mas sempre ficava acuado e meio isolado na minha universidade federal, porque não encontrava ninguém que tivesse ideias parecidas com as minhas e os DAs e DCEs eram totalmente dominados por esquerdistas e vagabundos. Acho ótimo vocês saírem e defenderem suas ideias. Quem dera se eu tivesse essa oportunidade quando estudava.

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  2. Prezado(a) Mente Conservadora,

    O aparelhamento e o patrulhamento ideológicos nas universidades federais, sobretudo na UnB, é assombroso, beira o obsceno. Entretanto, há pessoas que são comprometidas com a construção de uma universidade de qualidade, sem a utilização sistemática do ensino superior na promoção de uma agenda revolucionária no melhor (ou seria pior?) estilo gramsciano.

    Agradeço seu comentário!

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