domingo, 31 de outubro de 2010

A educação a serviço do polvo

O texto de hoje não é dedicado a falar de um assunto que atinja especificamente a UnB, mas de algo concernente à educação como um todo. Há muitas pessoas que duvidam que o Brasil esteja caminhado, a largos passos, rumo a um regime ditatorial. Argumenta-se que não temos, em verdade, nenhum indício realmente contundente disso. Entretanto, o cotidiano político no País nos dá alertas cada vez mais alarmantes de que essa possibilidade não é algo tão distante assim.

No dia 30 de junho desse ano, foi encaminhado à Ouvidoria da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República uma denúncia contra a obra "Caçadas de Pedrinho", de Monteiro Lobato. De acordo com a denúncia, a obra apresentava conceitos racistas com relação ao negro e à cultura africana. Em um dos trechos, por exemplo, escreve Lobato: “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão.” Em outro, diz Emília: "É guerra, e guerra das boas. Não vai escapar ninguém - nem Tia Nastácia, que tem carne negra." A Câmara de Educação Básica (CEB) do Conselho Nacional de Educação (CNE) reuniu-se para analisar a denúncia, que foi acatada por unanimidade. A decisão foi proferida pelo Parecer CNE/CEB nº 15/2010, de 1º de setembro de 2010.

O autor da denúncia chama-se Antônio Gomes da Costa Neto. Em seu artigo Candomblés de Brasília: contribuição aos estudos dos rituais afro-brasileiros no Distrito Federal, encontramos mais informações sobre Antônio:

Lingüista; Dirigente e Sacerdote do Axé Daomé, Cruzeiro, Distrito Federal; Pesquisador sobre cultura e religião afro-brasileira; Membro do terreiro de Tambor-de-Mina Tenda Espírita Só Deus Pode, na cidade de São Luís, estado do Maranhão, dirigido pela saudosa Sacerdotisa Vodunce Maria José Pinto (1938-2001); atualmente vinculado a Sacerdotisa Vodunce Bernadete Gomes, em São Luís do Maranhão.

Antônio é estudante de mestrado da UnB. Participa do projeto de pesquisa Conhecimentos Ancestrais Africanos: Caminho de fortalecimento para pesquisadores(as) em educação, raça e gênero, coordenado pela Prof.ª Dr.ª Denise Maria Botelho. Denise, além de professora da UnB, também integrou a Diretoria da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPM), gestão 2008/2010.

O que se pode dizer sobre esse circo? Sem levar em conta o contexto histórico, a importância das obras ou mesmo a contribuição geral de Monteiro Lobato para a sociedade brasileira, procede-se a uma perseguição sistemática a tudo aquilo que fira o frágil conceito de politicamente correto. A esquizofrenia racialista está atingindo patamares que certamente nunca foram antes vistos no País. Tenta-se, a todo custo, nivelar tudo e todos, pavimentando a sociedade da maneira mais vil e mesquinha.

Em breve, outras obras serão, certamente, censuradas. Adiantamos aqui alguns títulos:

Livro: O Cortiço
Autor: Aluísio Azevedo
Motivo: Os mais pobres são mostrados sob uma perspectiva feia, suja e extremamente maliciosa, o que certamente indica um pensamento retrógrado típico da direita reacionária.

Livro: Iracema
Autor: José de Alencar
Motivo: Mostra a dominação europeia sobre os indígenas brasileiros de um ponto de vista colonialista e eurocêntrico, dando ares de romance à exploração sexual das índias, o que certamente indica um pensamento retrógrado típico da direita reacionária.

Livro: Macunaíma
Autor: Mário de Andrade
Motivo: Trata de maneira achincalhante os índios e os negros, tratando-os de maneira insensível, sarcástica e cruel, o que certamente indica um pensamento retrógrado típico da direita reacionária.

Livro: Dom Casmurro
Autor: Machado de Assis
Motivo: Explora a imagem da mulher como criatura infiel, libidinosa, mentirosa e enganadora, reforçando a dominância machista em nossa sociedade, o que certamente indica um pensamento retrógrado típico da direita reacionária.

Livro: Os Sertões
Autor: Euclides da Cunha
Motivo: Os nordestinos, nessa obra, são alvo de uma análise profundamente elitista, quase eugênica, em que são mostrados como seres subdesenvolvidos e ignorantes, o que certamente indica um pensamento retrógrado típico da direita reacionária.

Obras como essas deverão ser extirpadas da educação brasileira! Elas ferem os interesses legítimos do polvo! A partir de agora, somente livros que defendam os interesses legítimos do polvo - como Marilena Chauí, Leonardo Boff, Emir Sader e Frei Betto!

Fora escritores elitistas!
Por uma educação progressista a serviço do polvo!

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Trote, sangue e leniência na UnB

Na manhã de hoje, quarta-feira, 20 de outubro, um calouro do curso de Engenharia de Redes sofreu um ferimento no queixo em decorrência do trote do qual participava. Teve de ser levado a um hospital, onde levou sete pontos no queixo. Muito indignados, o DCE, a decana de Assuntos Comunitários, Rachel Nunes, e o reitor José Geraldo disseram que vão apurar a responsabilidade no caso.

Sabe o que será feito efetivamente? Nada. E vamos explicar porquê.

Quando o CA de Agronomia promoveu um trote excepcionalmente humilhante no semestre passado - uma das "brincadeiras" era lamber leite condensado de uma linguiça encapada numa camisinha -, a revolta foi geral, e com razão. Qual foi a posição do reitor sobre possíveis punições? Ei-la:

UnB Agência – Por que a preocupação com punição é tão evidente no debate sobre comportamento? Isso é, de alguma forma, uma reprodução da violência aplicada?
Reitor – É um pouco disso que você está colocando. É também uma dificuldade de assumir a pro-atividade de práticas transformadoras. Há uma nostalgia da palmatória numa sociedade ainda muito hierárquica e uma universidade, como escola que é, tem de trabalhar na confiança de que projetos pedagógicos transformam as pessoas. Não é este o mito de Pinóquio, transformar um boneco de pau numa criança por meio da educação? Isso requer atitude e é por isso que estamos apostando nas ações acadêmicas. O que significa uma plataforma pedagógica de orientação, de educação e não de punição.

Isso é de impressionar? Em se tratando de um reitor de uma universidade pública federal, certamente. O que está embutido nessa lógica do reitor é que o aluno pode fazer o que bem entender na UnB que nenhuma, absolutamente nenhuma sanção será aplicada. No caso específico do José Geraldo, um dos mais dedicados defensores do Direito Achado na Lua, é exatamente isso o que se espera: a vitimização do ofensor, a aplicação contumaz do coitadismo sobre o contraventor. E, se essa é a posição do reitor, o que esperar das instâncias inferiores da universidade? Quem irá contradizer nosso Grande Timoneiro?

Ante esse quadro vergonhoso, indaga-se: a UnB está indo para o buraco? A resposta é: não. Já estamos nele.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Liberais e Conservadores

Pessoal,

Passaremos a publicar aqui no blog alguns textos de interesse geral sobre temas políticos, econômicos e sociais. Esses textos coadunam, parcial ou completamente, os princípios que norteiam o pensamento da Juventude Conservadora da UnB com relação aos temas abordados.

O texto a seguir foi publicado no site do Ordem Livre (clique aqui para acessar o artigo), e é de autoria de Rui Albuquerque, doutor em Ciência Política e CEO do Grupo Lusófona - Brasil.

Boa leitura!

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Liberais e Conservadores
Rui Albuquerque

Tenho-me interrogado, ao longo dos anos, se a separação entre liberais e conservadores se justifica, e se eles não podem viver em harmonia e mesmo até numa plena complementaridade de princípios, idéias e valores. Por palavras distintas, a questão é a seguinte: ser liberal impede que se seja conservador e ser conservador exclui que se seja liberal? A minha resposta a esta questão, no fim de contas a mesma, vista embora por dois ângulos distintos, é inequívoca: um liberal nos princípios e nos fundamentos tem que ser politicamente conservador, enquanto que um verdadeiro conservador não poderá deixar de ser um liberal. Tentarei demonstrar, neste artigo, esta minha convicção.

Antes de mais, há alguns equívocos muito antigos e que estão na origem da dissensão, que convém afastar. O primeiro é histórico, e remonta à velha zanga entre whigs e tories do tempo de Gladstone e Disraeli. Na realidade, os dois políticos ingleses da segunda metade do século XIX marcaram, cada um à sua maneira, os então partidos liberal e conservador do seu país. Gladstone foi efetivamente um liberal clássico na política e um dos poucos governantes na história do mundo que aplicou no governo os valores da liberdade em que verdadeiramente acreditava. Ele aboliu a maior parte dos impostos e das taxas que vigoravam na Inglaterra do seu tempo (calcula-se que extinguiu cerca de 95%), abriu as fronteiras do seu país ao comércio internacional, pugnou pela arbitragem nos conflitos de interesses entre os estados em oposição à guerra, e acreditava piamente na ética da responsabilidade individual como cimento construtor de uma ordem social pacífica. Em contrapartida, o líder do partido tory e seu rival de sempre, Benjamin Disraeli, quando primeiro-ministro foi protecionista no comércio internacional, aumentou impostos, criou legislação trabalhista abundante, podendo ser considerado o verdadeiro pai fundador do estado social inglês, provavelmente de toda a Europa. Essa divisão então vincada entre liberais (whigs) e conservadores (tories) marcou profundamente a separação de águas entre as duas famílias políticas, e manteve-se até hoje no espírito de muitos autores conservadores e liberais, ao ponto de Hayek costumar qualificar-se a si próprio como um liberal à "velha maneira whig", remetendo essa definição para o partido whig do tempo de William Gladstone, em contraponto ao espírito conservador e protecionista dos tories de então.

Essa separação profunda de águas já não se justifica nos dias de hoje, e deixou mesmo de fazer qualquer sentido, a partir do fim do primeiro quartel do século XX, com o quase total desaparecimento do Partido Liberal inglês, e a posterior criação do Labour, em 1900, que imediatamente se identificou com o socialismo e o estatismo, e que, acompanhando as tendências da época, acabou por atrair a preferência dos eleitores, substituindo-se aos liberais na oposição ao Partido Conservador. Muitos liberais ingleses voltaram, assim, à casa que fora também sua antes do abandono de Gladstone (que tinha sido dirigente do Partido Conservador, pelo qual chegou a exercer cargos ministeriais no governo de Inglaterra) provocado pela profunda antipatia que ele tinha por Disraeli e pela sua política. E, em boa verdade, a melhor tradição liberal inglesa reencontrou-se nos tories, protagonizada por líderes como Churchill, Thatcher e agora com Cameron, que assentou toda a sua recente campanha eleitoral nos princípios do governo limitado, da responsabilidade individual e da redução da tributação. O aparente renascimento dos LibDem, ainda que seja muito questionável que sejam os herdeiros do espírito whig do passado, acabou por transformar-se numa coligação natural de governo com os conservadores, até agora, pelo que se sabe, a caminhar muito bem.

Outro equívoco igualmente importante, este da responsabilidade dos liberais, resulta da crítica de Hayek editada em jeito de posfácio (Por que não sou conservador) ao seu livro The Constitution of Liberty [A Constituição da Liberdade]. Nesse texto, Hayek dizia afastar-se do conservadorismo essencialmente nos seguintes três aspectos que, segundo ele, caracterizavam os conservadores: em primeiro lugar, o receio da mudança e a tendência que os conservadores manifestam para manterem tudo como está ("A mudança é cansativa", já escrevia Oakeshott...); depois, a "paixão pela autoridade e na sua falta de compreensão das forças econômicas"; e, por último, a hostilidade que eles demonstram em relação ao "internacionalismo", e o decorrente nacionalismo excessivo que os caracteriza em conseqüência dessa aversão ao que é "de fora". Hoje em dia, a maior parte destas críticas cai por terra, desde logo, se atendermos às políticas seguidas nos governos dos três líderes políticos conservadores mais marcantes da segunda metade do século XX: Reagan, Thatcher e Aznar. Qualquer um deles defendeu a liberdade econômica, o comércio internacional, a globalização, e todos contribuíram para mudar o status quo socialista dos seus países e mesmo até da ordem política mundial. Deles poder-se-á dizer muita coisa, mas nunca que tenham sido complacentes ou passivos com as situações políticas que herdaram. A aversão à mudança esteve muito longe de qualquer um dos três.

Um terceiro e último equívoco que tem separado conservadores e liberais, este da inteira responsabilidade dos primeiros, reside na convicção de que o liberalismo é filho da Revolução Francesa e, por isso, que é revolucionário, jacobino e anticlerical. Este grave equívoco, muito provocado pela influência do pensamento revolucionário francês no equivocamente designado "liberalismo" político europeu continental de oitocentos, foi responsável pelo afastamento de muitos conservadores europeus do liberalismo, que preferiram assim aproximar-se de forças políticas conservadoras, como a democracia-cristã, mais próximas de ideais socializantes e intervencionistas do que propriamente da idéia da liberdade e da responsabilidade individual. Seria fastidioso reproduzir aqui, em contraponto a esta convicção, a lista dos liberais clássicos que foram profundamente crentes, muitos deles católicos como Lord Acton e Edmund Burke, ou até mesmo o nosso (português) Alexandre Herculano, que apesar do seu violento anticlericalismo, não desmerece figurar nessa lista, embora muitos outros pudessem ser citados. A questão religiosa que opôs "liberais" aos crentes, sobretudo aos católicos, nalguns países da Europa Continental nos séculos XIX e XX, nada tem a ver com o liberalismo clássico, tão pouco com qualquer idéia de liberdade, e foi resultado da influência revolucionária francesa sobre as mentalidades da época. O liberalismo clássico não é revolucionário, não toma qualquer atitude anticlerical, e rejeita mesmo a idéia revolucionária como forma de transformação da sociedade, contestando os princípios filosóficos do racionalismo cartesiano sobre que ela em boa medida se sustenta. É, aliás, na forma como o liberalismo concebe a ordem social e os processos admissíveis da sua transformação que se encontra, a nosso ver, a principal convergência teórica atual com o conservadorismo.

Na verdade, os conservadores temem a mudança política porque, como bem diz Oakeshott, a função do governo não é a de "sonhar", mas a de "governar". Ou seja, o governo não deve ser um agente de transformação política que projete as convicções ideológicas dos seus titulares, na medida em que isso faria dele um protagonista social, isto é, um agente portador de uma visão de sociedade, eventualmente até majoritária numa certa circunstância temporal, mas que seria sempre passageira e somente representativa de uma parte e não do todo social. Nessa medida, a função do governo, segundo um conservador como Oakeshott, consiste em amainar as paixões políticas dos homens, de si mesmas já muito exaltadas, não "atiçando os fogos do desejo, mas abafando-os". Por outras palavras, o governo deve ser um árbitro da liberdade individual e não um protagonista politicamente vinculado a uma ideologia, um fator de pacificação social em vez de um "instrumento de paixão". Acresce que, segundo Oakeshott, "a única forma adequada de governar é estabelecer e aplicar regras de conduta": o governo não deverá preocupar-se "com pessoas concretas, mas com atividades, e apenas à sua propensão de colidirem com as outras"; não deve utilizar a soberania para a imposição, ainda que democraticamente sufragada, de um modelo de sociedade, aquilo a que designou de "desígnio amplo" da política dos governos atuais. Não estamos, por conseguinte, muito distantes do que Hayek considerava ser também a função ordenadora do governo e do direito, quando falava nas "regras de justa conduta" com caráter geral e abstrato. Para todos os efeitos, quer os conservadores quer os liberais, pelo menos nas abordagens dos dois autores referidos, entendem que a função social do governo não consiste em intervir em situações particulares, das quais não tem efetivo conhecimento nem domínio de todos os aspectos relevantes, mas criar as condições necessárias e suficientes para o exercício da liberdade individual. Estamos, assim, no domínio do estado mínimo, que não desagrada propriamente aos liberais.

Se não subsistem, como vimos, impedimentos impossíveis de serem dirimidos entre liberais e conservadores acerca da natureza e das funções do governo, há que convir igualmente que os conservadores têm sido, nos últimos anos, muito sensíveis à teoria econômica liberal, concretamente à sua defesa da propriedade, da liberdade de comércio e do minimalismo intervencionista estatal. Em contrapartida, têm os liberais muito a aprender com a visão pessimista, ou melhor, realista, que os conservadores têm do gênero humano e da política. Esta pode facultar-lhes, a meu ver, um plus de análise política da qual muitas vezes se costumam inadvertidamente distanciar e que muita falta lhes faz.

Na verdade, a convicção liberal de que as sociedades humanas não são teatros permanentes de guerra hobbesiana e que a cooperação e a sociabilidade são naturais aos homens, não exclui a dimensão política da vida humana, nomeadamente a ambição do poder e a permanente luta pela conquista do domínio que a soberania faculta. Mais ainda: a análise liberal do comportamento humano em sociedade remete muitas vezes para segundo plano, quando não ignora, a função do domínio político e a importância do seu aparelho monopolista que é o estado, na verdade o verdadeiro inimigo da liberdade. É certo que os liberais descrevem a dinâmica natural das sociedades humanas, mas a existência do liberalismo só tem justificação na medida em que nessa dinâmica passou a interferir um corpo estranho, um intermediário entre a ação individual que é o estado constituído pelos seus órgãos executivos de governo e de administração. Por outro lado, a História ensina-nos que a presença do político, da soberania, por outras palavras, do estado, é imanente às sociedades humanas, seja qual for o estágio da sua evolução, ou as latitudes que analisemos. A análise liberal não pode prescindir dela, ou melhor, só se justifica pela sua existência, já que sem política as ameaças à liberdade não nasceriam da soberania.

Ora, a isto os conservadores respondem com uma análise realista do poder político. Segundo eles, a política não se justifica nas cores com que os políticos pintam os cenários floreados das suas propostas, mas apenas na pura e dura ambição pelo poder, a sua conquista e manutenção a qualquer preço. Ainda que esta regra comporte exceções e que admitamos existirem políticos verdadeiramente sérios nas suas intenções, nada garante que da transformação das suas convicções em políticas governativas possam resultar benefícios para os indivíduos e para a sociedade. Por conseguinte, conservadores como Oakeshott defendem, e muito bem, que o governo não serve para realizar os "ideais" dos políticos que o conquistam, mas apenas e só para "governar", no sentido acima descrito desta palavra.

O pensamento liberal terá, então, assinaláveis vantagens em aproximar-se do realismo político conservador. O conhecimento do inimigo, de resto a primeira regra da política, apenas o beneficiará quando procurar cumprir a sua principal finalidade, que é a de aumentar ao máximo possível a liberdade individual perante o estado que quase sempre se esforça por diminuí-la.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Baltasar Garzón e o revanchismo na UnB

O juiz espanhol Baltasar Garzón ficou mundialmente conhecido por ser responsável pela prisão domiciliar do ex-ditador Augusto Pinochet, nos idos de 1998 - prisão essa que durou mais de 500 dias. O gesto de ousadia - e, na opinião de muitos, extrema coragem - do juiz espanhol lhe rendeu fama internacional. Não raro, seu nome é citado em círculos particularmente progressistas como um bravo paladino da Justiça - assim como Protógenes Queiroz, delegado da Polícia Federal que recorreu a grampos ilegais com auxílio de agentes da ABIN na Operação Satiagraha e que foi eleito deputado federal pelo PC do B graças à votação recorde de Tiririca, seu mui estimado companheiro de coligação.
O magistrado espanhol fará a palestra "Direito à memória e à verdade: Justiça de Transição" na próxima quarta-feira, dia 13 de outubro, às 19h00, no Anfiteatro 12 do ICC Norte. Em virtude de sua visita, a Prof.ª Maria Jandyra Cavalcanti Cunha, PhD, publicou hoje um artigo no Portal da UnB intitulado: "Quando teremos um Baltasar Garzón no Brasil?". O artigo, como bem se pode supor, é uma ode em prosa à admirável galhardia do magistrado espanhol em perseguir, onde quer que seja, os responsáveis por violações dos direitos humanos, especialmente aqueles que o fizeram quando agentes do Estado em regimes ditatoriais e de exceção.
Entretanto, pedimos licença à ilustre professora e a nossos leitores para colocarmos aqui o nosso ponto de vista.
Em outubro de 2008, Baltasar Garzón decidiu investigar crimes de guerra do governo Franco. Para tanto, mandou abrir duas covas coletivas que suspostamente guardavam restos mortais de vítimas do regime para exumação dos corpos e investigação dos crimes. Entretanto, essa decisão feriu de modo expresso a legislação espanhola, especialmente a Lei de Anistia que fez parte da reforma política espanhola de 1977. Há alguns meses, em abril de 2010, a Suprema Corte da Espanha aceitou três acusações criminais de prevaricação contra o magistrado. Garzón foi suspenso pela Suprema Corte no dia 14 de maio, devendo manter-se afastado da magistratura até que seja julgado pelo tribunal.
Esse esforço do juiz em ir contra a Lei de Anistia espanhola é bastante semelhante àquele visto no Brasil nos últimos anos. Há um número considerável de pessoas que defendem que a Lei de Anistia deve ser revista, e que ex-agentes do Estado que torturaram e assassinaram devam ser processados por crimes de lesa-humanidade. O STF já se pronunciou a respeito em 29 de abril de 2010, quando julgou improcedente ação apresentada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) que contestava a Lei da Anistia (lei n.º 6.683/79). Uma das medidas mais expressivas no sentido de acabar com a Lei da Anistia é a instauração da Comissão Nacional da Verdade, um dos pontos-chave do 3º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3).
O que é interessante observar é que os crimes de lesa-humanidade não foram cometidos apenas por agentes do Estado repressor. Aqueles que optaram pela luta armada - que, ao contrário do espírito democrático que lhe costuram, queria derrubar o governo militar para instaurar no Brasil uma ditadura comunista, no molde soviético-cubano - também cometeram crimes de lesa-humanidade, como tortura e assassinato. Poucas vítimas dos guerrilheiros eram, de fato, ligadas ao governo militar. David Cuthberg, 19 anos, marinheiro inglês que estava em visita ao Rio de Janeiro para as comemorações dos 150 anos da Independência do Brasil, foi assassinado em 5 de fevereiro de 1972 (leia aqui sobre o caso). E esse foi apenas um dentre centenas de crimes. Quando se fala da revogação da Lei de Anistia e da instauração da Comissão Nacional da Verdade, não se fala em processar todos aqueles que cometeram crimes durante do Regime Militar no País, mas tão-somente em punição para os ex-agentes do Estado. A bem da verdade, não se trata de resgate da memória nacional e de consolidação da democracia: trata-se de revanchismo, de puro espírito reacionário.
Nesse contexto, Baltasar Garzón é um grande expoente desse espírito, um dos maiores representantes daqueles que, agora instalados no poder, anseiam por desrespeitar a lei e ir à forra contra seus antigos algozes. "Quando teremos um Baltasar Garzón no Brasil?", indaga a Prof.ª Jandyra no título de seu artigo. Não sabemos se, um dia, surgirá algum, mas sabemos quando queremos que ele surja: NUNCA.

domingo, 10 de outubro de 2010

Doutrinação e UnB: tudo a ver

No dia 20 de julho, publicamos aqui no blog uma denúncia de doutrinação político-ideológica em sala de aula. Casos como esse são relativamente difíceis de presenciar em alguns cursos, como Administração e Engenharia Elétrica, mas abundantes em outros - há casos de professores fazerem os alunos se erguerem de suas carteiras e, pasmem, cantar o hino do MST antes das aulas! Ao que tudo indica, no entanto, esse processo de aparelhamento ideológico e sistemático proselitismo político em sala de aula, por parte de professores academicamente desonestos, está se alastrando com rapidez.

Mais um caso desses aconteceu na semana passada, no dia 5 de outubro. O local: sala BT 260, no ICC. Horário: 19h00. Disciplina: Governo e Administração no Brasil (GAB). A ementa da disciplina, de acordo com o sistema Matriculaweb da UnB, é a seguinte:

ORIGENS DO GOVERNO E DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA NO BRASIL. A ORGANIZAÇÃO DOS PODERES. ESTADO E GOVERNO. FUNDAMENTOS, PRINCÍPIOS E FUNÇÕES DO SETOR PÚBLICO. ESTRUTURA E FUNCIONAMENTO. FATORES CULTURAIS E SUA INTERFERÊNCIA NA ADMINSTRAÇÃO. A MODERNIZAÇÃO DO ESTADO. CONCENTRAÇÃO E DESCONCENTRAÇÃO FEDERAL, ESTADUAL E MUNICIPAL.

A professora que ministra as aulas da disciplina é formada em História pelo UniCEUB, com Mestrado e Doutorado em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB). Trata-se, portanto, de pessoa aparentemente dotada de alta capacidade técnica para conduzir o curso ao longo do semestre.

A aula começou com uma apresentação rápida dos conceitos de pátria, nação e povo. Em seguida, a professora informou que, para tratar do conceito de território, os alunos leriam e discutiriam um texto sobre o assunto. O texto em questão é intitulado "Globalização e Território", de Tânia Bacelar, e foi publicado originalmente na revista Le Monde Diplomatique (o artigo pode ser acessado na íntegra clicando aqui). A ideia central do texto é a de que o processo de globalização é o processo de internacionalização do capital financeiro, e que essa internacionalização é a grande responsável pelo crescimento da desigualdade em todo o mundo. Alguns trechos particularmente emblemáticos são reproduzidos abaixo (as seções em negrito são grifos nossos):

A palavra globalização é um neologismo: só aparece na literatura na década de 1980. Mas, como demonstra François Chesnais, a globalização é uma etapa específica, muito avançada, do velho processo de internacionalização do capital.
[...]
Quando o pacto colonial se tornou um obstáculo ao processo de internacionalização, ele foi derrubado, e no Brasil isso se expressa na chamada abertura dos portos, em 1808. No século XX, o Brasil reafirmou sua inserção, subordinando-se à internacionalização do capital produtivo industrial.
[...]
Para mim, quem melhor explicou o papel estruturante da internacionalização para o capitalismo foi Karl Marx.
[...]
Quem produz o tênis Nike são milhares de pequenas empresas situadas na Ásia. A corporação compra esses tênis e agrega 'emoção'. Aí, quem compra o tênis Nike compra junto a 'emoção' de poder usar um calçado de 700, 800 reais, que, na verdade, pelo custo material de produção, não vale isso.
[...]
O comando do processo está na tríade Estados Unidos–Japão–União Européia. Então, ao contrário do que muitas vezes se afirma, os grandes condutores do processo têm nome e endereço.
[...]
A seguir, vêm os países médios, que tentam influir em sua inserção. Alguns o conseguem; outros, não. Um exemplo de país que consegue é a China. A China consegue por vários motivos. Primeiro, porque é um país milenar. Já era uma potência antes do advento do capitalismo, um dos lugares que tinham desenvolvido de maneira mais expressiva as forças produtivas. Com a colonização perdeu espaço, foi dominada e virou a 'casa da mãe Joana': sucessivamente ocupada, ou seja, lugar onde todo mundo manda. Aí ocorreu a revolução e a China passou por uma importante fase de autonomia. Este é o segundo motivo de seu sucesso atual. Uma das coisas que mais me impressionou foi uma entrevista a que assisti no dia da morte de Mao Tsé tung. O repórter chegou junto de um velhinho que estava chorando na beira da calçada e perguntou: 'O que Mao legou à China?'. O velhinho não falou de socialismo. Ele disse: 'Mao recolocou a China de pé'. Ou seja, com o trancamento, a China deixou de ser a casa da mãe Joana e passou a se sentir dona de seu próprio destino. E aí está o terceiro motivo: o processo de reinserção da China ocorre num estágio muito avançado da globalização e está sendo conduzido sob o comando do Partido Comunista Chinês. Isso assegura uma reinserção muito mais autônoma do que a de países como o Brasil, que também é de porte médio, mas engatou no processo de globalização no século XVI, como colônia de exploração, e tem, até hoje, uma enorme dificuldade de atuar com soberania.

Após a leitura dessa excelente peça de publicidade esquerdóide, a professora abriu a discussão para a turma. Enquanto o tal processo de internacionalização do capital colocado pelo texto era discutido, a professora fez um comentário interessante: "esse processo é visível em muitas áreas, como nessa questão da mídia". Essa menção interessante provocou a pergunta fatal: o que a professora achava dessa confusão recente sobre liberdade de imprensa e "golpismo midiático"?

Para responder a essa indagação, a professora remontou ao século V d.C., quando a Igreja Católica começou, de acordo com ela, um processo de desalfabetização da população - um processo que durou mais de mil anos, indo até o século XVI. A invenção da prensa, por Johannes Gutenberg, marcou o fim desse processo. Em seguida, mencionou rapidamente o surgimento dos jornais, nos cafés franceses, e seu papel social de contestação. Foi então que veio a grande cartada: a partir da década de 1960, os jornais começaram a ser comprados por grandes empresas familiares, perdendo seu caráter legítimo de contestação e se tornando meros instrumentos a serviço dos interesses dos grupos econômicos que os controlavam. Trocando em miúdos: se algum grande jornal critica o governo, não o faz por que aquilo seja errado, mas por motivos meramente financeiros. Uma das frases mais curiosas dessa explanação foi a afirmação categórica de que "se você quiser saber o que pensa o PSDB, leia a Folha de São Paulo".

Diante de todo esse desfile alegórico de bestialidades ideológicas, não há outra postura que não seja a mais pura indignação. Além de utilizar o texto de uma acadêmica que apóia declaradamente um grupo como o MST (leia aqui), de fortíssimas tendências criminosas, a professora ainda planta sub-repticiamente um raciocínio perverso: como os jornais representam apenas interesses econômicos, não podem ser verdadeiramente considerados órgãos de imprensa, e, portanto, o princípio de liberdade de imprensa não se aplica a eles. O viés autoritário dessa lógica é claro como cristal.

Todo esse circo totalitário estimulou uma pequena pesquisa na internet sobre a professora. O resultado, longe de ser surpreendente, foi revelador: a professora é integrante da facção O Trabalho (OT), do Partido dos Trabalhadores (PT), de orientação trotskista. Em 2007, a OT publicou um documento intitulado "13 Pontos para uma Plataforma de Soberania Nacional" para o 3º Congresso do PT. A professora é uma das integrantes da OT que subscreve o documento.

Não aceitaremos situações como essa sem uma reação adequada. Todo aluno tem o direito de ter uma aula plural, com o consórcio de ideias diversas e divergentes, para que o conhecimento construído em sala de aula possa ser o menos enviesado possível - do contrário, não se está fazendo ciência, mas apenas um exercício de sectarismo político. E, se esse é um direito do aluno, esse é o dever sagrado e cívico de todo professor.