sábado, 18 de setembro de 2010

Medo, vulnerabilidade pessoal e segurança na UnB

Caros(as),

Retomo a cena política institucional de nossa Universidade, a despeito de hoje ser co-gestor de uma unidade, para não perder de vista um dos temas fundamentais que me motivaram estar nesta universidade: o ser humano! E volto a me posicionar, como sempre fiz, como cidadão e professor individualizado...

Desde o dia 02/09/2010 que venho me incomodando, inicialmente com a minha “letargia política pessoal” sobre este tema em particular, porém, neste exato momento, me dou conta de “uma certa letargia social construída” em nossa universidade.

Sem querer explorar em demasiado o caso que informei – ou mais que isto, que me incomodou, posto que é pessoa de minhas relações afetivas (mote principal, a meu ver, das relações humanas, até para preservar a pessoa), mas não posso ser conivente com o que aconteceu, com o que tem se descortinado a partir do evento, dos discursos usados, repetidos e construídos, e, infelizmente, da absoluta fragilidade com que, nós seres humanos, estamos submetidos frente a outros – considerados marginais – e a “política do avestruz consciente”.

Assim, gostaria de trazer à balia não “mais um caso particular num universo de 40.000 pessoas”, mas a fragilidade de todos(as) nós diante da violência que grassa nossa sociedade e que está, infelizmente, aumentando exponencialmente na nossa universidade. O meu mote é, como bem disse uma professora, colega nossa, “a dor de um é a dor de todos”!

Os pequenos furtos, os roubos de equipamentos, os arrombamentos de carros, os roubos de pneus e estepes, os estupros, as batidas de carro, os estacionamentos irregulares, todos, absolutamente todos, são contextos de criminalidade que povoam nossa universidade, infelizmente. E digo isto não apenas por mero discurso “panfletário-ideológico”, mas de constatação – infelizmente – diária.

Gostaria de dizer, pela minha militância e posicionamentos políticos nos últimos anos, que não quero fazer deste tema mais uma “plataforma de agitação”, mas não posso – ou não devo, e não quero – me calar diante de nossas fragilidades pessoais e contextuais. Afinal, “o próximo pode ser eu” e, em certo sentido psicanalítico, não posso me furtar às angústias do desamparo, do medo e da fragilidade enquanto ser humano.

Digo tudo isto, para socializar e denunciar o que ouvi nestes dias sobre o evento de um assalto a mão armada de uma professora grávida em plena luz do dia no nosso campus! E, para não ser prolixo, finalizando, apenas vou citar informações e frases que ouvi – e que me estarreceram pelos parcos princípios próprios – diante de fato tão grave:

1. “O caso (denunciado) não é o único da UnB”. Segundo autoridades de segurança, especialmente delegados de polícia, na UnB, cerca de seis casos deste tipo ocorrem todos dias (ou seja, no mínimo, 150 por mês?);

2. “As condições de apoio na UnB são precárias (seja de segurança policial seja patrimonial)”, com a polícia não tendo aparato para “atender a todos os casos” e “os nossos vigilantes (que por certo não são seguranças) não têm preparo para tal"(“aqui estão para proteger o patrimônio físico”);

3. “Foram feitas três ligações (e não é preciso falar do estado emocional da situação, por certo) e, meia hora depois, ninguém deu qualquer apoio ou orientação”!

4. “A UnB é uma cidade e como tal está sujeita às mesmas mazelas da sociedade”! E??

5. “Estamos licitando, contratando consultorias, fazendo reuniões de conselho de segurança, discutindo a situação, pois ela é complexa”! Qual o limite temporal? O de uma tragédia – que está se anunciando – e que será “justificada, entendida e apoiada moralmente” na sua conseqüência final?

6. “Este é o quinto caso de uso de arma na UnB, mas isto não corresponde aos índices do DF”! Puxa! Não sabia dos índices, ou pior, talvez não queira saber que uma pessoa estivesse tão exposta!

7. “Estamos iluminando o campus, pavimentando calçadas, cuidando de setores vulneráveis primeiro e licitando ações”... Qual o privilégio da minha vida – da nossa vida – neste processo (e sem apelações sensacionalistas, hem)?

8. “Vamos fazer uma reunião para discutir a complexidade da situação para encaminharmos as melhores soluções possíveis!” Esperando o quê? “A porta arrombada?”, posto que carros, pessoas estupradas e drogadas já são vítimas correntes?

9. Etc... Que me furto de continuar enumerando, denunciando, angustiando...

Enfim, volto à frase da professora amiga: “a dor de um é a dor de todos”: roubados, lesados, agredidos, estuprados, drogados, violentados, assustados, traumatizados na sua esperança de “ir e vir” com tranqüilidade ou na sua humanidade e direito essenciais.

Até quando?

Quando vamos de fato discutir “nossas fragilidades e desamparos pessoais” no contexto de nossa universidade, local de trabalho privilegiado pelo nosso desejo? Isto sem querer enfatizar questões de gênero, de fragilidades físicas, de idade, de (ingenu)idades, de (des)proteção, da nossa comunidade interna e da que, no nosso caso da Psicologia, em especial, é o nosso foco principal: a comunidade externa que vem, à noite, receber nossos serviços...

Cronos será a medida para Eros e Caos? Ou (re)consideraremos Eros e Ananke pais da civilização humana?

Prof. Ileno Izídio da Costa
Departamento de Psicologia Clínica da UnB

Próximo post: Eleições, marketing e greve na UnB.

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