segunda-feira, 6 de setembro de 2010

A importância da pseudociência na UnB

Você já pensou em fazer uma disciplina que ensina a fazer mapa astral e, ainda por cima, ganhar créditos por isso? E que tal ingressar no mundo misterioso dos astros e dos signos como maneira, por exemplo, de definir o melhor momento para ter um filho, ou procurar emprego, ou até mesmo implementar uma política pública? Ou, então, o que acha de estudar relatórios de incidentes com OVNIs, no melhor estilo Arquivo X? Essa (sur)realidade não está muito distante da UnB dos dias de hoje.

Em nosso último texto, falamos sobre o NESCUBA (Núcleo de Estudos Cubanos), um dos Núcleos Temáticos do CEAM (Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares). Entretanto, o NESCUBA não é a única excentricidade - para não dizer absurdo - dentro da UnB. Há também um Núcleo Temático do CEAM que não trata de coisas propriamente materiais, mas de coisas transcendentais: o Núcleo de Estudos de Fenônemos Paranormais (NEFP). Isso mesmo: fenômenos paranormais. De acordo com o website do CEAM:

O Núcleo de Estudos de Fenômenos Paranormais (NEFP) realiza pesquisas em conscienciologia, terapias integrativas, ufologia e astrologia. Para os estudiosos do ramo, entender, analisar e controlar a mente humana e seus diversos relacionamentos com o todo, particularmente com a natureza, é fator crucial para o progresso de outras ciências, como a medicina e as ciências exatas.

O NEFP, coordenado pelo professor Álvaro Luiz Tronconi - que, deve-se observar, possui doutorado pela Universidade de Oxford, Reino Unido -, promove uma série de cursos, palestras, simpósios e pesquisas nessas áreas. Em agosto de 2005, o núcleo foi o responsável pela organização do I Encontro Nacional de Astrologia, que aconteceu na Universidade de Brasília. No campo das pesquisas, a mais recente foi feita em 2009. O objetivo da pesquisa foi averiguar a capacidade de diagnosticar o estado de saúde de pacientes do Hospital Universitário de Brasília (HUB) por parte de pessoas sensitivas. O resultado da pesquisa? Os sensitivos não conseguiam adivinhar as moléstias dos pacientes melhor do que um computador escolhendo doenças ao acaso.

Uma das pessoas que participou dessa pesquisa, e que já ministrou um curso de paranormalidade na UnB (promovido pelo NEFP em 2001), foi a autointitulada vidente Rosa Maria Jaques. Caso tenha a impressão de já ter lido ou ouvido esse nome antes, você não está confuso: Rosa Maria Jaques foi a mulher que resolveu "ajudar" as investigações do assassinato do ex-ministro do TSE José Guilherme Villela, de sua esposa e de sua empregada - o chamado crime da 113 Sul. A tal vidente, juntamente com seu marido (que também participou do curso de 2001), são acusados de atrapalhar as investigações do crime. Curiosamente, o Prof. Dr. Tronconi, de acordo com o jornal Folha de São Paulo, já havia dito diz que "sensitivos poderiam também ajudar a polícia. Suas opiniões não deveriam servir como palavra em tribunais, diz, mas eles deveriam fazer parte das equipes de investigações." O caso da vidente motivou, inclusive, um requerimento do Instituto de Física ao Conselho Universitário (CONSUNI) pedindo a extinção do NEFP tendo por base o argumento de que o núcleo não promove pesquisas científicas, mas práticas classificadas como pseudociência.

Uma reportagem da edição nº 1803/2004 da revista Isto É ajuda a compreender um pouco mais como pensa o coordenador do NEFP:

O pesquisador considera a crença em Deus uma bengala psicológica, mas acredita em cirurgia espiritual. Só que para ele não se trata de um fenômeno religioso. Ele teve essa certeza ao ser curado de uma hérnia-de-disco pela força mental de uma enfermeira. Raios X, feitos antes e depois do episódio, comprovam a cura. Ela se concentrou, colocou a mão sobre sua coluna vertebral e "navegou" mentalmente pelo interior do seu corpo - um fenômeno, segundo o professor, conhecido como projeção heteroscópica. "Se podemos melhorar nossa oratória, também podemos dominar a bioenergia e usá-la para nos teletransportar ou curar doenças", diz. Apesar da resistência de muitos colegas, Tronconi pretende medir a energia emitida pelas mãos e seus efeitos no crescimento de camundongos. (Grifo nosso.)

Será que ainda é preciso dizer que essa situação se configura num dos maiores absurdos que pode haver em uma universidade pública? O NEFP tem base em crenças que forçosamente buscam vínculos com a ciência e que, a bem da verdade, podem ser encaradas como uma violação do princípio de laicidade que orienta o Estado brasileiro. Promover pesquisas nessa linha seria o mesmo que tentar, por exemplo, transformar uma hóstia em carne ou vinho em sangue durante uma missa dentro de um laboratório de pesquisa. O que seria dito se isso acontecesse? Que, logicamente, trata-se de um absurdo que beira o surreal.

Ciência e (o que quer que se aproxime de) religião são conhecimentos complementares. Isso é ponto pacífico. Entretanto, existem lugares próprios para essas duas coisas. Assim como uma sinagoga, ou uma igreja, ou uma mesquita não são os lugares onde se fomenta a pesquisa científica, universidades não devem ser usadas para dar pseudocientificidade a crenças de cunho religioso ou espiritualista. Isso é desvirtuar o papel da universidade, mutilando sua essência, transformando-a em motivo de chacota.

Para finalizar, gostaríamos de citar as palavras que Hélio Schwartsman, articulista do jornal Folha de São Paulo, escreveu em 11 de agosto de 2005 sobre a maluquice representada pelo NEFP:

Não estou, com minhas reprimendas à UnB, me insurgindo contra o princípio da liberdade acadêmica, que reputo fundamental para a pesquisa científica. Mas mesmo este precisa ser utilizado com algum bom senso, ou entramos no reino do vale-tudo. Se o Nefp pode pretender investigar a astrologia e discos voadores, amanhã alguém poderá propor --e conseguir-- que a UnB financie uma expedição científica ao pólo Norte em busca de Papai Noel. Em termos rigorosos ninguém até hoje demonstrou que o bom velhinho não existe.

Próximo post: O espetáculo circense dos Direitos Humanos e o papel da UnB

3 comentários:

  1. Caros

    Esta questão do Núcleo de Estudos de Fenômenos Paranormais é uma espinha atravessada na garganta de muitos professores aqui na UnB.

    Conheço alguns dos membros e tenho boas relações com um dos membros.

    Mas a questão é que tenho sérias restrições a existência de um núcleo nestes moldes na UnB.

    Apesar deste tipo de pesquisa ter tido algum espaço no passado, tenho a convicção que, no mínimo, o escopo de atuação deste núcleo deva ser limitado.

    O fato é que o núcleo é fonte de piadinhas Brasil afora.

    Mas, a própria UnB tem sido fonte de piadas...

    Saudações

    LeoRAX

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  2. Muito boa a matéria pessoal.....

    Já tive aula de fisica experimental com o Tronconi, e garanto a vocês que ele é um "pouco excêntrico", se é que me entendem....
    Daqui a poko ele vai querer soltar um "raduken" por ai.. hehehe

    Continuem com trabalho... é sempre bom ver boas opiniões sobre o cotidiano da UnB

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  3. Vítor,

    Falta pouco para chegar a esse nível! Logo, o digníssimo Prof. Dr. Tronconi irá defender a criação de cotas para astrólogos e reptilianos!

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