terça-feira, 21 de setembro de 2010

Eleições, marketing e greve na UnB

Hoje, dia 21 de setembro, após mais de seis meses de paralisação, os servidores da UnB deram fim à mais longa greve da história do País. Durante esse seis meses de paralisação, os serviços mais básicos da universidade - Biblioteca Central dos Estudantes (BCE), Restaurante Universitário (RU), almoxarifado, secretarias de curso, dentre outros - não funcionaram, ou funcionaram de maneira bastante precária, prejudicando um universo de cerca de 30 mil alunos. O semestre correu aos trancos e barrancos, como todos bem sabem. Esse texto não pretende, entretanto, entrar no mérito da greve, mas abordar um fato muito interessante- e, de certa maneira, emblemático - que ocorreu durante a paralisação dos servidores da UnB.

Em sua propaganda eleitoral exibida na TV no dia 24 de agosto (para vê-la na íntegra, clique aqui), cujo tema foi educação, os atores contratados pela equipe de marketing falam às câmeras enquanto caminham por entre estantes de livros. Quem é aluno da UnB, certamente deve ter achado o ambiente, no mínimo, familiar. Qualquer semelhança não é mera coincidência: as prateleiras por entre as quais os atores caminham são da BCE. O fato foi notícia na imprensa.

Uma pergunta não pode deixar de ser feita: por que Dilma Rousseff é mais especial do que os 30 mil estudantes da Universidade de Brasília? O que tem de tão especial a candidata de Lula que, magicamente, garante-lhe preferência de acesso à BCE em detrimento dos alunos da universidade? A resposta não se encontra unicamente na candidata em questão, mas no chefe da administração da UnB: o reitor José Geraldo de Sousa Júnior.

O prof. Sidio Rosa de Mesquita Júnior, da Faculdade de Direito da UnB, publicou recentemente em seu blog um pequeno texto acerca desse fato, no mínimo, bizarro. Gostaríamos de destacar um trecho particularmente esclarecedor de seu texto:

A UnB está na maior greve de toda história do Brasil, sem que alunos carentes tenham acesso à sua Biblioteca Central, mas a candidata do PT teve acesso a ela para fazer campanha eleitoral, evidenciando que a UnB é mais um instrumento político para piorar este país (o qual vai muito mal).

A Universidade de Brasília deixou de ser uma instituição pública de ensino superior. Ela pode parecer isso, mas somente de longe, de muito longe. De perto, o que se vê é muito mais do que o simples aparelhamento político-ideológico da instituição (como se isso fosse um probleminha!): o que se vê é a deformação, em último grau, da razão de ser de uma universidade pública federal. O que pensar de uma instituição em que os estudantes são preteridos em favor de uma candidata em período de campanha eleitoral - e, pior, a candidata do governo, aquele que supostamente deveria zelar pela qualidade na educação?

Qual é o recado que a Reitoria e o movimento grevista mandou com esse "pequeno" gesto de apreço por Dilma Rousseff? Que nós, estudantes da universidade, não temos importância alguma. Em momento algum, o reitor, ou qualquer outro membro da Administração da universidade, levantou a voz em favor do estudantado da UnB. O que houve, além de um pesado e amargo silêncio conivente, foram reiteradas manifestações de apoio à greve dos servidores. Só que, como se pôde ver, a greve foi bastante flexível, ao contrário do que se pregava desde o começo pelo próprio movimento grevista. Enquanto muitos alunos tiveram de se virar como podiam para dar prosseguimento a seus estudos - não foram poucos os que tiveram que comprar os livros utilizados durante o semestre em virtude do fechamento da BCE -, a equipe da campanha de Dilma teve acesso irrestrito à biblioteca.

São atitudes como essa que provam não apenas o caráter real de quem está à frente da administração da UnB, mas também o grau de contumaz mutilação da qual nós, membros da comunidade acadêmica da universidade, temos sido vítimas. A UnB de antes, que dava orgulho a todos, é apenas uma lembrança, quase uma ilusão. Hoje, não passa de uma grande piada. E de mau gosto.

Um comentário:

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