segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Reacionário? O que é isso?


Algo bastante curioso que ocorre na UnB, bem como outros lugares, é a frequente recorrência de jargões e rótilos quando o assunto é política. Muitos dos "libertários" e "progressistas" da universidade reagem de maneira bastante feroz quando têm suas ideias confrontadas. A primeira reação é acusar o outro, o discordante, de reacionário - palavra que, aliás, sofreu uma pequena contração e, hoje, transformou-se em "reaça". Mas, afinal, o que significa a palavra "reacionário"?
O significado original, referente ao radical da palavra, indica que reacionário é todo aquele que reage. O contexto do surgimento do uso corrente dessa palavra foi a Revolução Francesa. Na época, aquele que lutavam contra o movimento revolucionário burguês eram chamados de reacionários - tanto que, ainda hoje, muitos dicionários e enciclopédias informam que "reacionário" é o antônimo de "revolucionário". No contexto atual, esse termo, carregado de conotação pejorativa, refere-se a todo indivíduo que se opõe à evolução da sociedade e, em última instância, aos princípios democráticos.
Cabe aqui, todavia, um pequeno questionamento: esse termo tem sido corretamente empregado? Os setores "progressistas" da universidade são os primeiros a denunciar - às vezes, aos berros - os esforços da "burguesia reacionária" contra a democracia universitária, a pluralidade de ideias, o movimento estudantil, dentre outras coisas. Essa reação contra os setores "conservadores" pode variar, passando de simples enfrentamento de ideias para, em alguns casos, estado declarado de guerra - muitas vezes, recorrendo-se à violência e à promoção de um clima de perseguição e terror contra os "reaças".
Como dissemos anteriormente, reacionário pode ser relacionado como o antônimo de revolucionário. Desse modo, é possível dizer que todo reacionário visa à manutenção do status quo, suprimindo (ou empenhando-se em suprimir) todo foco de mudança, de transformação. No contexto da Universidade de Brasília, qual é o paradigma político-ideológico hegemônico? O paradigma "progressista" e "libertário", com abundância de grupos e indivíduos que têm, dentre seus modelos, governos como os de Cuba, Venezuela e Coreia do Norte, bem como ídolos e "heróis" do calibre de Carlos Marighella, Mao Tsé-Tung e Josef Stálin. Sendo hegemônico, esse paradigma representa o status quo ideológico dentro da universidade. Toda manifestação de pensamento que venha a divergir do mainstream, incitando a mudança do padrão ideológico, representa, portanto, um fator de mudança.
Quando alguém contesta o paradigma ideológico e, em virtude disso, é chamado de reacionário, ocorre uma clara inversão de valores e papéis. Afinal, essa pessoa está no caminho da transformação, o que, no contexto, representa praticamente uma aspiração revolucionária. Aquele que acusa está reagindo de maneira agressiva a um foco de mudança, e é justamente isso o que caracteriza o comportamento reacionário. Esse comportamento mostra, inclusive, uma profunda essência antidemocrática, pois é inconcebível a existência de uma sociedade verdadeiramente democrática sem a convivência de ideias conflitantes. A supressão do divergente, nesse sentido, é evidência incontestável de autoritarismo. Como alguém com tão forte espírito autoritário e antidemocrático pode ser chamado de "progressista" e "libertário"? É um enorme contrassenso.
Um texto publicado no site do Centro Acadêmico de Filosofia Prof. João Cruz Costa, da Universidade de São Paulo (USP), contribui substancialmente para o esclarecimento desse assunto:
"Quem estuda em uma universidade pública, mantida com o dinheiro de todos os brasileiros (inclusive com o daqueles que jamais terão a oportunidade de pisar em uma universidade pública) tem o dever moral de retribuir à sociedade o que recebeu. E, portanto, tem o dever de manter, proteger e conservar a universidade. Será que é apenas fazendo greves e defendendo ideias de anteontem é que se consegue isso?"
Assim, prezados leitores, se algum "progressista" se revoltar com as ideias que você defende e chamá-lo de "burguês reaça", não se sinta ofendido. De modo algum! Ao ouvir isso, sorria com sinceridade e agradeça seu raivoso detrator. Essa será, provavelmente, a maior prova de que você também representa a mudança da qual tanto precisamos.
Próximo post: A imagem dos estudantes da UnB.

6 comentários:

  1. Como diria Nelson Rodrigues

    Sim, sou reacionário. Minha reação é contra tudo que não presta.

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  2. Aliás, vale reproduzir outra frase do Nelson Rodrigues:

    "O que devemos ao socialismo é isto: — a antipessoa, o anti-homem."

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  3. Achei genial a abordagem "destrinchadora" do termo em questão!
    Me sinto da mesma maneira exposta no texto em minha universidade, e até mesmo no meio "underground" que de alguma forma compactuo.
    Continuem o bom trabalho, acho válidas todas essas questões provocantes, e mesmo primordiais pra formação de seres críticos.

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  4. Agradecemos o comentário! É justamente a isso que nos propomos: atiçar a crítica arguta a essa patrulha ideológica ferrenha que sofremos todos os dias. =)

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  5. ate ele saber que seu filho foi torturado pela ditadura, ai ele mudou bastante sua opinião.

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    1. De que ditadura você Fala? da Cubana ou da Chinesa ?

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