terça-feira, 17 de agosto de 2010

A imagem dos estudantes da UnB

Quando este blog foi criado, há dois meses, um fenômeno bastante interessante pôde ser observado: os comentários favoráveis eram, em sua grande maioria, de pessoas que não estudam ou trabalham na UnB. O oposto também procede: a imensa maioria dos comentários desfavoráveis eram de membros da comunidade acadêmica da universidade - quase todos, alunos.

Com alguma frequência, temos encontrado opiniões muito ruins a nosso respeito vindas de alguns alunos. Essas opiniões, em suma, expressam ora assombro, ora revolta, e, às vezes, troça. Hoje, muita gente da UnB apóia grande parte de nossas ideias, mas ainda é relativamente baixa a sua representatividade frente a pessoas sem vínculo com a universidade que também nos apóiam. Achamos que essa dicotomia - pessoa da UnB contra nós, pessoas de fora da UnB a nosso favor - está diretamente relacionada à imagem dos estudantes da universidade. Ela possui dois âmbitos: a imagem que os estudantes querem (ou acham que devem) projetar e a imagem que é feita desses estudantes por elementos externos à universidade.

O teor das acusações e críticas negativas dirigidas a nós por uma parcela dos estudantes da UnB ajuda a desvendar que imagem é autoprojetada por essas pessoas. Fomos bastante criticados quando nos posicionamos contra as badernas promovidas por alguns CAs, as pichações dos protestos anti-homofobia e o "protesto" de alguns alunos de Artes Cênicas no dia do jogo do Brasil com a Coreia do Norte pela Copa do Mundo. Fomos chamados de reacionários, fascistas, extremo-burgueses (seja lá o que isso signifique), homofóbicos e incapazes de compreender manifestações artísticas (como se ficar pelado em público fosse sinônimo de arte). Isso nos dá alguns indícios quanto à imagem autoprojetada de estudante da UnB contida nessas críticas.

Pode-se inferir que, na visão dessas pessoas, um legítimo estudante da UnB: acha perfeitamente normal que se tire a roupa à guisa de protesto sob qualquer justificativa; não deve achar ruim que festas barulhentas, com cerveja (e, às vezes, outras coisas menos ortodoxas) à vontade, atrapalhem as aulas; deve apoiar a depredação do patrimônio público por qualquer pessoa ou grupo que defenda uma causa "progressista", concordando com a ideia de que os fins justificam os meios; deve simplesmente transgredir qualquer regra considerada ruim ao invés de contribuir na elaboração de uma norma melhor, mas efetiva.

Curiosamente, essa imagem autoprojetada, construída de maneira bem-sucedida por alguns alunos da universidade, é diretamente responsável pela imagem que a sociedade como um todo faz dos estudantes da UnB. Pode perguntar para qualquer pessoa sem vínculo com a instituição qual é sua opinião sobre quem estuda na universidade: a maioria esmagadora das respostas não será nada agradável. Hoje, boa parte da sociedade vê o estudante da UnB como um farrista, uma pessoa sem compromisso nenhum com sua educação, que faz bagunça o tempo todo, que fica bêbado e se droga todo dia, e que não reverte em nada de útil ou construtivo o investimento econômico e social arcado por toda a população. Vagabundo, baderneiro, maconheiro, esses são os adjetivos mais associados aos estudantes da UnB. Por nos posicionarmos contra os comportamentos que alimentam essa imagem é que a maioria do apoio que recebemos ainda é de pessoas que não participam do cotidiano da universidade.

Quando observamos em nosso manifesto que a UnB estava em meio a uma profunda crise moral e ética, não era um exagero, uma atitude alarmista. Quando farra dentro da universidade, pichações e nudez meramente exibicionista deixam de ser coisas reprováveis e passam a ser coisas normais, que fazem parte do ambiente acadêmico, certamente há algo de errado. O que se vê, entretanto, é uma tendência que está um passo adiante: as valores em deterioração estão sendo, pouco a pouco, substituídos por padrões (i)morais e (anti)éticos diametralmente opostos. O conceito de liberdade, indissociável do senso de responsabilidade, está sendo mutilado e distorcido, transformando-se em pura libertinagem. E é essa libertinagem que está se tornando a regra de ouro do cotidiano da UnB.

Há um ditado árabe que diz que a diferença entre o remédio e o veneno é a dosagem. O veneno (o comportamento abusivo) está, pouco a pouco, se alastrando pelo corpo discente da UnB. Os estudantes precisam perceber que cada um é responsável pela UnB que temos e assumir o compromisso de construir uma universidade de verdade. Afinal, somos nós que fazemos a universidade, por dentro e por fora.

Próximo post: Viva la Revolución?

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Reacionário? O que é isso?


Algo bastante curioso que ocorre na UnB, bem como outros lugares, é a frequente recorrência de jargões e rótilos quando o assunto é política. Muitos dos "libertários" e "progressistas" da universidade reagem de maneira bastante feroz quando têm suas ideias confrontadas. A primeira reação é acusar o outro, o discordante, de reacionário - palavra que, aliás, sofreu uma pequena contração e, hoje, transformou-se em "reaça". Mas, afinal, o que significa a palavra "reacionário"?
O significado original, referente ao radical da palavra, indica que reacionário é todo aquele que reage. O contexto do surgimento do uso corrente dessa palavra foi a Revolução Francesa. Na época, aquele que lutavam contra o movimento revolucionário burguês eram chamados de reacionários - tanto que, ainda hoje, muitos dicionários e enciclopédias informam que "reacionário" é o antônimo de "revolucionário". No contexto atual, esse termo, carregado de conotação pejorativa, refere-se a todo indivíduo que se opõe à evolução da sociedade e, em última instância, aos princípios democráticos.
Cabe aqui, todavia, um pequeno questionamento: esse termo tem sido corretamente empregado? Os setores "progressistas" da universidade são os primeiros a denunciar - às vezes, aos berros - os esforços da "burguesia reacionária" contra a democracia universitária, a pluralidade de ideias, o movimento estudantil, dentre outras coisas. Essa reação contra os setores "conservadores" pode variar, passando de simples enfrentamento de ideias para, em alguns casos, estado declarado de guerra - muitas vezes, recorrendo-se à violência e à promoção de um clima de perseguição e terror contra os "reaças".
Como dissemos anteriormente, reacionário pode ser relacionado como o antônimo de revolucionário. Desse modo, é possível dizer que todo reacionário visa à manutenção do status quo, suprimindo (ou empenhando-se em suprimir) todo foco de mudança, de transformação. No contexto da Universidade de Brasília, qual é o paradigma político-ideológico hegemônico? O paradigma "progressista" e "libertário", com abundância de grupos e indivíduos que têm, dentre seus modelos, governos como os de Cuba, Venezuela e Coreia do Norte, bem como ídolos e "heróis" do calibre de Carlos Marighella, Mao Tsé-Tung e Josef Stálin. Sendo hegemônico, esse paradigma representa o status quo ideológico dentro da universidade. Toda manifestação de pensamento que venha a divergir do mainstream, incitando a mudança do padrão ideológico, representa, portanto, um fator de mudança.
Quando alguém contesta o paradigma ideológico e, em virtude disso, é chamado de reacionário, ocorre uma clara inversão de valores e papéis. Afinal, essa pessoa está no caminho da transformação, o que, no contexto, representa praticamente uma aspiração revolucionária. Aquele que acusa está reagindo de maneira agressiva a um foco de mudança, e é justamente isso o que caracteriza o comportamento reacionário. Esse comportamento mostra, inclusive, uma profunda essência antidemocrática, pois é inconcebível a existência de uma sociedade verdadeiramente democrática sem a convivência de ideias conflitantes. A supressão do divergente, nesse sentido, é evidência incontestável de autoritarismo. Como alguém com tão forte espírito autoritário e antidemocrático pode ser chamado de "progressista" e "libertário"? É um enorme contrassenso.
Um texto publicado no site do Centro Acadêmico de Filosofia Prof. João Cruz Costa, da Universidade de São Paulo (USP), contribui substancialmente para o esclarecimento desse assunto:
"Quem estuda em uma universidade pública, mantida com o dinheiro de todos os brasileiros (inclusive com o daqueles que jamais terão a oportunidade de pisar em uma universidade pública) tem o dever moral de retribuir à sociedade o que recebeu. E, portanto, tem o dever de manter, proteger e conservar a universidade. Será que é apenas fazendo greves e defendendo ideias de anteontem é que se consegue isso?"
Assim, prezados leitores, se algum "progressista" se revoltar com as ideias que você defende e chamá-lo de "burguês reaça", não se sinta ofendido. De modo algum! Ao ouvir isso, sorria com sinceridade e agradeça seu raivoso detrator. Essa será, provavelmente, a maior prova de que você também representa a mudança da qual tanto precisamos.
Próximo post: A imagem dos estudantes da UnB.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Militância, revolução e criminalidade na UnB

Vivemos em um Estado Democrático de Direito. Isso é coisa que todo mundo já está cansado de saber, mas que pouca gente realmente entende. Para que um Estado Democrático de Direito exista, deve-se haver duas coisas: Estado de Direito e Democracia. O Estado de Direito é um tipo de sistema institucional que possui três características fundamentais: (1) a lei vale para todos, a começar pelo próprio Estado; (2) os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário são independentes; e (3) respeito aos direitos fundamentais das pessoas. Democracia é um regime de governo em que o poder é exercido pelo povo, direta ou indiretamente, através de representantes eleitos. De acordo com um importante jurista e filósofo italiano chamado Norberto Bobbio (1909 - 2004), não há democracia sem liberdade, e vice-versa.

O que isso significa? Significa que, no Brasil, as pessoas são livres para fazer o que quiserem desde que os direitos fundamentais sejam respeitados e as leis do País sejam obedecidas. Liberdade com responsabilidade com a proteção da lei. Justo, certo? Entretanto, é muito comum encontrar exemplos de gente que não faz nem uma coisa, nem outra, alegando que esse desrespeito é essencial na luta por uma sociedade mais igualitária, mais justa e democrática. Nesse ponto, você deve estar um pouco confuso: como se pode defender uma sociedade mais democrática agindo de maneiras que não são democráticas e, pior, são criminosas de acordo com as leis brasileiras? Será que não existem outras formas de se lutar por uma sociedade mais justa?

Na UnB, há grupos que acham que atitudes que vão contra a lei e o espírito democrático são formas legítimas de se lutar por ideais políticos "democráticos". Esses grupos defendem, em sua maioria, as ideias da Revolução Bolchevique (1917), da Revolução Chinesa (1949) e da Revolução Cubana (1959). Defendem com unhas e dentes grupos como as FARC, consideram a Cuba dos Castro um modelo a ser reverenciado e copiado, e atacam todos que não concordam com suas opiniões. Ultimamente, esses grupos têm passado um pouco do limite na defesa de suas ideias. O que era feito antes através de panfletos, jornais e cartazes está, hoje, sendo feito em pichações que podem ser encontradas em diversos lugares do campus Darcy Ribeiro. Uma das chapas que concorre ao DCE é, inclusive, formada por membros desses grupos que têm promovido pichações: a chapa 2, Unidade Estudantil Classista. Em sua lista de propostas e projetos, defendem que sabotagens são uma das maneiras ideais de se lutar pelos direitos dos estudantes.

É muito comum as pessoas confundirem todo tipo de ação de manifestação política com o conceito de desobediência civil. Desobediência civil é um conceito que foi formulado pelo filósofo norte-americano Henry David Thoreau (1817 - 1862) que diz que a autoridade do governo deve ser contestada pelo indivíduo através da desobediência às leis. Com o passar do tempo, esse conceito foi evoluindo. A teórica política Hannah Arendt (1967 - 1975) observou que uma grande característica da desobediência civil é a não-violência, algo que se pôde ver com clareza no movimento de independência da Índia (liderado por Mahatma Gandhi) e pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos (encabeçado por Martin Luther King Jr.). A não-violência da desobediência civil não se restringe ao lado físico e material, mas também ao campo das ideias. Gandhi, por exemplo, nunca defendeu que os indianos pegassem em armas e matassem os ingleses. Luther King, ao contrário de Malcolm X, nunca pregou que os negros promovessem destruição de patrimônio ou ataques aos brancos racistas.

A não-violência, de ideias ou de ações, não algo que se vê nesses grupos. Até a maneira como seus textos são escritos mostra raiva e intolerância. Essa violência de ideias se manifesta também em suas ações: pichação é um tipo de violência material, pois seu objetivo é a agressão visual. Quando se picha o muro de uma casa, isso é depredação de patrimônio particular. Quando se picha a fachada de um prédio da Universidade de Brasília, isso é depredação de patrimônio público. E é isso o que pode confundir ainda mais as pessoas: como alguém que, a princípio, defende o bem coletivo, o bem da sociedade, pode fazer isso destruindo uma coisa que pertence a toda a sociedade? Isso não é, no mínimo, contraditório?

Abaixo, colocamos algumas evidências da ação daqueles que dizem defender a democracia.

Pichação na fachada de um dos prédios da Faculdade de Educação.

Acima, dois cartazes da chapa 2. Engraçado: não é o que está pichado na FE?

Pichação da RECC (Rede Estudantil Classista e Combativa) na
Faculdade de Tecnologia. Está escrito "Fora fundações parasitas!"

Mais uma pichação da RECC, dessa vez na
fachada do Pavilhão João Calmon (PJC).

Mais uma da RECC, dessa vez na BCE.

As duas pichações acima foram feitas em prédios à beira da L3 Norte
pelo MEPR (Movimento Estudantil Popular Revolucionário).

Pichação na fachada de um dos prédios da FE
feita pela UNIPA (União Popular Anarquista).

Mais uma pichação da UNIPA, dessa vez
nos tapumes da obra ao lado do PJC.

Por que será que não querem a PM no campus?

Dentro de um Estado Democrático de Direito, reivindicar um direito para si mesmo atropelando o direito do outro é uma coisa não só ilegal, mas também imoral. Isso tira a legitimidade da luta, reduzindo-a a um ato criminoso. Quem usa atos violentos para exigir um direito próprio pensa que os fins sempre justificam os meios. Se todos pensassem assim, a sociedade seria transformada em um ambiente selvagem regido pela lei do mais forte. Você gostaria de viver em um mundo assim?

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