quarta-feira, 7 de julho de 2010

UNIPA - União dos Pichadores Anencéfalos

Falamos em nosso último post da Oposição CCI, um grupelho de estudantes barulhentos que, além de não se interessarem de fato pelas reais necessidades da comunidade estudantil da UnB, ainda acham que atrapalhar reuniões e depredar a universidade é uma boa maneira de defender seu posicionamento político-ideológico. A grande pichação na face sul do Pavilhão João Calmom (PJC) - onde se lê a sentença "PASSE LIVRE OU REBELIÃO JÁ!" - é assinada pela RECC (Rede Estudantil Classista e Combativa), que tem na Oposição CCI sua representação oficial dentro da Universidade de Brasília. Mas não são só esses grupos que gostam de deixar sua marca na universidade.

Ao lado do PJC é possível ver uma grande pichação onde se lê "VIVA A REVOLUÇÃO PROLETÁRIA!". Essa pichação é assinada pela UNIPA. Mas o que raios é UNIPA? Não é muito difícil saber que grupo é esse. UNIPA significa União Popular Anarquista, e é um dos grupos aliados da Oposição CCI dentro da UnB. Tanto é assim que há no blog da Oposição CCI um link para o site da UNIPA. Em sua seção Quem somos, assim está escrito:

A União Popular Anarquista (UNIPA) é uma organização política revolucionária bakuninista. A UNIPA luta pela construção do socialismo no Brasil. A estratégia revolucionária da Unipa aponta que somente a ação direta das massas e a luta de classes são capazes de realizar conquistas imediatas, econômicas e políticas, para a classe trabalhadora. A UNIPA entende que somente a revolução, que se coloca como desdobramento da luta de classes, é capaz de viabilizar a construção da sociedade socialista.

"O que significa ser bakuninista?", você deve estar se perguntando. Bakuninista é todo aquele que segue a ideologia de Mikhail Bakunin (1814-1876), teórico político de origem nobre e um dos principais expoentes do anarquismo. Quando viveu em Paris, Bakunin conheceu Pierre-Joseph Proudhon (outro teórico anarquista) e Karl Marx. É bem sabido que sua desavenças com o papa do socialismo eram profundas, tanto no campo ideológico quanto no terreno pessoal, e seu nome é, até hoje, um símbolo de oposição ao marxismo (corrente mais-que-dominante dentro do pensamento socialista contemporâneo). 

Cabe aqui, no entanto, uma pergunta: se Bakunin se opunha ao marxismo, e sendo o marxismo o norte inconteste do socialismo, como esse pessoal pode ser bakuninista (e, portanto, anarquista) e, simultaneamente, lutar pelo socialismo? Há aí uma patente incongruência ideológica no âmago do movimento. Ou se é anarquista, ou se é socialista. Nesse caso particular, não há espaço para hibridismos ideológicos.

Outro ponto que merece consideração é especificamente a adoção do termo bakuninista. De acordo com George Woodcock, um dos grandes teóricos anarquistas do século XX, o anarquismo possui em seu bojo o princípio da não-doutrinação. Assim explica o autor:

"Toda a posição do anarquismo é completamente diferente de qualquer outro movimento socialista autoritário. Ela tolera variações e rejeita a ideia de gurus políticos ou religiosos. Não existe um profeta fundador a quem todos devam seguir. Os anarquistas respeitam seus mestres, mas não os reverenciam, e o que distingue qualquer boa compilação que pretenda representar o pensamento anarquista é a liberdade doutrinária com que os autores desenvolveram idéias próprias de forma original e desinibida." (WOODCOCK, George. Os grandes escritos anarquistas. Rio Grande do Sul: L & PM Editores Ltda, 1981. 54p.)

Adotar para si a tipificação de bakuninista demonstra uma total e irrestrita submissão ao ideário desse teórico em particular, o que caracteriza não somente reverência ideológica, mas reverência pessoal. Curiosamente, isso vai contra esse princípio de não-doutrinação, um princípio que faz parte da essência do anarquismo.

Esse desfile de contradições radicais é visível para qualquer pessoa que possua disposição para pesquisar esses assuntos com alguma profundidade. Em se tratando de estudantes universitários, a possibilidade de enxergar tal paradoxo é ainda maior. Voltamos a repetir o que dissemos em nosso post "Guerrilha, ditadura e idolatria na UnB": é inconcebível que estudantes universitários - seres, a priori, pensantes - envolvam-se com esse aglomerado confuso de ideias aglutinadas mal e porcamente, como um rota colcha de retalhos político-ideológica que faz as vezes de manto sagrado.

Próximo post: a luta contra as cotas "raciais".

6 comentários:

  1. No geral, esse blog está melhor que o www.humortadela.com.br (: Parabéns!

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  2. Esses palermas dessas siglas esdrúxulas deveriam ler o livro do Guy Debord, Sociedade do Espetáculo, que apesar do pessimismo hiperbólico, em um de seus capítulos define com propriedade a entropia das posturas anárquicas/anarquistas.

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  3. Acho que uma juventude que se define conservadora é, em suma, anencéfala, por acreditar que padrões homofóbicos, racistas e intolerantes devem ser propagados.Vocês que deveriam se envergonhar do "trabalho" que julga estar fazendo.

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  4. Demorou, mas, enfim, alguém que não tem coragem de mostrar a cara apareceu. Obrigado!

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  5. E vocês são absolutamente corajosos para se esconderem atrás de um blog, né?

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  6. Com algumas perguntas, você chega até nós. Piece of cake.

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