sábado, 24 de julho de 2010

O descalabro da segurança na UnB

Todo mundo sabe que a Universidade de Brasília não é um lugar seguro. A Reitoria é a primeira a admitir, o DCE fica "cobrando" melhorias, e o tema já foi, inclusive, abordado por uma pesquisa de alunos do Instituto de Psicologia da universidade.

Reproduzimos abaixo o testemunho de uma das vítimas da falta de segurança da UnB. Seu nome é Marina. O texto não foi preparado para nosso blog, mas estamos divulgando-o por se tratar de uma questão de interesse coletivo.

Primeiramente, deixo claro que a minha intenção com esse texto não é dar visibilidade a mim ou vangloriar-me do que fiz durante o momento que relatarei em seguida. Friso que já recebi todas as broncas possíveis de policiais e amigos quanto à minha decisão, que não foi em momento algum proteger meu patrimônio, mas sim minha vida. Utilizo desse espaço, cedido por amigos, para deixar de ser somente mais uma nas estatísticas de violência na UnB para me tornar um agente de alerta e passar uma lição.

No dia 16 de julho de 2010, às 17h15, dirigia-me ao meu carro, que estava estacionado na Faculdade de Estudos Sociais Aplicados (FA). Coloquei meu notebook e bolsa no banco de trás e, quando estava sentada para fechar a porta e dar partida, fui abordada por dois garotos, que acredito serem menores de idade. Um deles estava armado e me mandou ir para o banco de trás, ou ele me daria um tiro. O outro parecia bastante nervoso e não atendeu ao comando de me empurrar para dentro. Levantei-me e não me lembro se minha intenção era tentar correr ou entrar no carro, mas acabei de frente ao garoto armado, que estava com a arma rente ao corpo. Consegui agarrar o braço que ele segurava o revólver, apontá-lo para baixo e gritar por socorro. Ambos saíram correndo, ao passo que também corri abaixada para trás dos carros que estavam ao lado do meu. Ouvi um tiro que acredito ter sido acidental e voltei ao prédio da FA para pedir ajuda.

A segurança da UnB foi bastante solícita ao anotar as características dos sujeitos e me encaminhar para a delegacia, onde eu prestaria ocorrência. Porém, uma amiga teve que emprestar o celular ao porteiro do prédio para que ele acionasse a segurança, uma vez que, naquele dia, ele não possuía nem ao menos um rádio. A PM chegou depois e fez uma varredura no campus, mas àquela hora os bandidos já estavam longe.

Sofri um ato de violência no mesmo estacionamento onde, há alguns meses, uma aluna foi seqüestrada. Na mesma Universidade onde, há pouco tempo, outra aluna foi estuprada, onde vários carros são arrombados e onde o patrimônio é recorrentemente furtado. Muito se discute sobre o policiamento do campus, sobre as políticas de segurança da UnB e, a meu ver, o diálogo se perde por aí. Não há negociação e o embate coloca tudo a perder. Não acredito que seja essa produção que a Universidade se proponha a oferecer. Seria a solução um policiamento diferenciado? Uma segurança particular da UnB? Há muito tempo que se colocam idéias, poucas se efetivam e o problema vai crescendo. Falar e discordar é fácil; ouvir que qualquer movimento brusco pode render um “tiro na cara”, como aconteceu comigo, não.

Há muitas coisas vergonhosas nessa história: a Reitoria não faz absolutamente nada para mehorar a segurança da comunidade acadêmica; o DCE é muito bom para falar, falar e fala um pouco maisr, mas, na hora da ação, faz eco à leniência paquidérmica da Reitoria e nada faz; a Secom, o órgão de propaganda oficial da Reitoria, sequer dignou-se a noticiar o ocorrido (podem entrar no Portal da UnB e pesquisar sobre o fato). No dia 19 de março, quatro dias após uma estudante ser estuprada nas imediações da universidade, representantes da UnB e GDF fizeram uma reunião para discutir as questões de segurança. Alguma coisa foi feita nos últimos 4 meses para cuidar disso? Não.

Se ficarmos de braços cruzados esperando que essa situação se prolongue, estaremos perdidos. Nada será feito até alguém morrer dentro da UnB em virtude da falta de segurança. Portanto, estamos auxiliando no recolhimento de assinaturas para um abaixo-assinado que visa à confecção de um documento com exigências de medidas de segurança. O documento, quando pronto, será encaminhado para a Reitoria e a Secretaria de Segurança Pública.

Se você quiser ajudar a recolher assinaturas, basta fazer o download do arquivo clicando aqui. As assinaturas podem ser entregues no CA de Administração, ou ao contato Felipe de Oliveira (cujo e-mail é felipe.pnoi@gmail.com).

Próximo post: As eleições estudantis da UnB.

4 comentários:

  1. E ainda vêm esses idiotas dizer que na UnB não pode ter polícia UHAUHAUHAHUAUH oq é isso, meus caros, um Estado de exceção? Esses maconheiros não sabem como são as coisas na Holanda; acham que tem algum lugar no mundo que é tudo PAZ-E-AMOR...

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  2. Car@s,

    Melhores condições de segurança na UnB não serão, nem facilmente nem rapidamente, atingidas.

    As ações de sensibilização e a conscientização da comunidade acadêmica, geralmente, acabam se tornando retóricas...

    Para realmente iniciar um programa de segurança pessoal e patrimonial no campus, pelo menos 4 ações iniciais básicas são necessárias:

    1) Redimensionamento, reaparelhamento, capacitação e valorização do setor de segurança da UnB. Esta ação permitirá que os vigilantes da instituição atuem de forma pró-ativa, sejam mais respeitados pela comunidade acadêmica e contribuam para a segurança no interior dos prédios/edificações. As normas internas de segurança da UnB devem ser revisadas, gerando novos protocolos de ação, para se garantir um mínimo de legitimidade e efetividade às ações do setor de segurança.

    2) Implantação de instrumentos para o controle de acesso ao interior dos prédios/edificações do campus. Como em qualquer prédio público as pessoas "estranhas" - ou seja, aquelas que não tem identidade funcional da FUB (professor ou técnico) nem identidade estudantil - deverão se identificar nas entradas de cada edificação, com cadastro, foto e apresentação da identidade. O controle de acesso também deve ter regras específicas para horários fora do expediente e finais de semana. Esta ação, por si só, inibe o acesso de bandidos e já aumenta, consideravelmente, a condição de segurança nos mais de 100 prédios do campus Darcy...

    3) A instalação de equipamentos de vigilância remota (câmeras e sensores de presença), tanto nas áreas internas dos prédios como em suas imediações (estacionamentos e jardins), com a implantação de uma "central de segurança" para monitoramento contínuo e geração de relatórios periódicos (a serem publicizados!), bem como a elaboração de um protocolo de ação para cada tipo de ocorrência verificada.

    4) A reativação, capacitação e valorização do Conselho Comunitário de Segurança da UnB, disponibilizando para a comunidade acadêmica mecanismos rápidos e eficientes de interação com o setor de segurança interno da FUB e os órgãos de segurança pública do DF (Polícia Militar, Polícia Civil, Detran, Corpo de Bombeiros, Defesa Civil etc.).

    Para dar continuidade às ações e possibilitar a participação de todos, devem ser criados mecanismos para que a comunidade possa acompanhar a efetividade e eficiência da implantação destas ações iniciais, como também discutir e apresentar novas propostas para a melhoria da segurança do campus, incluindo as Faculdades de Planaltina, Gama e Ceilândia.

    Estas são algumas considerações para enriquecer o debate e subsidiar a administração superior na tomada de decisão. Coloco-me à disposição para participar de qualquer discussão sobre o tema.

    Prof. Paulo Celso dos Reis Gomes - FT

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  3. O problema é esse. Nós ainda vivemos algumas recrudescências, sem sentido, da ditatura. Uma delas é essa, de que a entrada de forças policiais na universidade é um atentado contra a liberdade do movimento estudantil, entre outras bobagens. Se o movimento estudantil ainda desempenha papéis políticos, certamente não tem que se preocupar com a polícia ou o exército em relação a eles. Vivemos numa democracia bem estabelecida e não faz sentido essa argumentação. Partidos, sindicatos e quaisquer movimentos organizados estão seguros disso. O "movimento estudantil" da UNB também estaria, se essa fosse uma preocupação real.
    Se a preocupação é outra (que todo mundo sabe mas parece que ninguém pode falar), atos ilícitos não podem tampouco ser protegidos por esse argumento, e querer utilizá-lo para manter a polícia fora da UNB é considerar a população estudantil, docente e externa a universidade (que a financia, por sinal) formada por idiotas.
    A grande maioria do movimento estudantil (como aqui se considera, com muita benevolência, o conjunto de CA´s da UNB) envergonha a universidade, os estudantes e o legítimo movimento que um dia desempenhou papel importante neste país.
    Há longo tempo passou a hora de a administração da UNB parar de fingir que não enxerga aquilo que é claro para toda a sociedade de Brasília...

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  4. A reação ao roubo é a maior causa de latrocínios (roubo com resultado morte). Por favor, NÃO SIGAM O PÉSSIMO EXEMPLO RELATADO.

    A discussão sobre a segurança vem sendo hipervalorizada, aumentando a sensação de insegurança, a ponto de ser ela maior que a própria insegurança. Por isso, recomendo comedimento na discussão sobre o tema.

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